[Cmi-bh] Fw: Sobre a Necessidade da Poesia
sgeral
sgeral em mst.org.br
Terça Agosto 23 08:25:44 PDT 2005
----- Original Message -----
From: Hamilton Pereira
To: Astedile
Sent: Tuesday, August 23, 2005 12:12 PM
Subject: Sobre a Necessidade da Poesia
Nessa hora de cinzas e sonhos devastados...
Pedro Tierra
"...ponderei como [as pessoas] lutam e perdem a batalha, e aquilo por que lutaram se realiza apesar de sua derrota, e quando isso ocorre se percebe que não era o que eles desejavam, e outras [pessoas] têm de lutar pelo que elas realmente queriam sob outro nome..."
(William Morris)
Companheir em s,
Ensinam lutas antigas que os poetas eram chamados a banhar com o bálsamo da palavra a alma dos combatentes feridos. E a distribuir sementes de fogo para arder e alumiar o coração dos que voltavam à frente de batalha.
Alguns poetas, ao longo da vida, se moveram no front e se confundiram entre homens e mulheres à luz das fogueiras dos acampamentos. Há quem diga que para isso servem os poemas: para acender as fogueiras dos acampamentos. Há mesmo poetas, que registraram a morte de outros sem adivinhar que um dia a morte, da mesma forma, os colheria - Maiakówski - quando a vida tornara "insuportável tanta realidade", como advertiu Elliot.
Pela palavra lidam, os poetas, com a memória e a paixão. Recebem um mandato oculto e imperativo de seu lugar, de sua gente, dos seus sonhos, de sua classe a tarefa de reinventar permanentemente o destino humano. Aqui talvez resida um ponto de contato entre duas aventuras aparentemente tão distantes: a criação da poesia e o exercício político como ação revolucionária.
O que fazer quando os donos do espaço e da palavra capturam a memória das batalhas que travamos e sobrepõem, como um palimpsesto, um texto novo onde não nos reconhecemos? Aqui a poesia se insurge. E define os poetas como criadores e criaturas da transgressão. Capazes pela transgressão, de reconstruir o discurso humano e, por isso, de alguma forma misteriosa, o sonho humano.
Retirar da lama o espelho que reflete nossa face desfigurada. Lava-lo com a água da palavra. E levanta-lo contra a luz crua da tragédia que nos colheu. Limpo. Para mirar o rosto que esculpimos com mão incerta, sem os piedosos véus da hipocrisia. E oferece-lo sob o sol da praça aos olhos incrédulos e indignados de nossa gente que vigia e chora e teima em manter o frágil pulso da esperança.
Entrego aqui a indignação que o verso capturou. E, embora saibamos que a indignação não é boa conselheira quando se escreve um verso, você saberá reconhecer nos olhos, nos lugares, nos nomes, nos sonhos a memória dos passos que cumprimos: estão inscritos na planta dos nossos pés. Fecundaram os caminhos que nos trouxeram até aqui: para os altos e para os pântanos. Fazem parte da nossa verdade profunda. Da nossa grandeza e das nossas misérias.
Que nome dar a esses poemas que faço chegar diante dos seus olhos a partir de hoje? Que nome dar a eles? Se o nome é um selo? Um lacre, caráter impresso a fogo? Como nomeá-los se estão escritos sobre as tábuas incertas das minhas angústias? Se amanhã a boca dos renegados revelará alguma verdade ainda mais humilhante? Que nome dar a eles? Os filhos da paixão? Arrebentar para a luz como as constelações? Serão talvez os cacos de um pobre vitral de província rejuntados com resinas de sonhos e esperanças. Talvez, ao fim, chegaremos apenas a Treze elegias para uma estrela imperfeita.
Mas o que resta ao poeta condenado ao combate senão a sina de combater? E aos que teceram com sangue e sonho a bandeira rôta que me cobre os ombros, senão combater e recompor as cinco pontas dessa estrela imperfeita que risca o céu vazio do peito?
1. Os Filhos da Paixão
Nascemos num campo de futebol.
Haverá berço melhor para dar à luz uma estrela?
Aprendemos que os donos do país só nos ouviam
quando cessava o rumor da última máquina...
quando cantava o arame cortado da última cerca.
Carregamos no peito, cada um, batalhas incontáveis.
Somos a perigosa memória das lutas.
Projetamos a perigosa imagem do sonho.
Nada causa mais horror à ordem
do que homens e mulheres que sonham.
Nós sonhamos. E organizamos o sonho.
Nascemos negros, nordestinos, nisseis, índios,
mulheres, mulatas, meninas de todas as cores,
filhos, netos de italianos, alemães, árabes, judeus,
portugueses, espanhóis, poloneses, tantos...
Nascemos assim, desiguais, como todos os sonhos humanos.
Fomos batizados na pia, na água dos rios, nos terreiros.
Fomos, ao nascer, condenados a amar a diferença.
A amar os diferentes.
Viemos da margem.
Somos a anti-sinfonia
que estorna da estreita pauta da melodia.
Não cabemos dentro da moldura...
Somos dilacerados como todos os filhos da paixão.
Briguentos. Desaforados. Unidos. Livres:
como meninos de rua.
Quando o inimigo não fustiga
inventamos nossas próprias guerras.
Desenvolvemos um talento prodigioso para elas.
Com nossas mãos, sonhos, desavenças compomos um rosto de peão,
uma voz rouca de peão,
o desassombro dos peões para oferecer ao país,
para disputar o país.
Por sua boca dissemos na fábrica, nas praças, nos estádios
que este país não tem mais donos.
Em 84 viramos multidão, inundamos as ruas,
somamos nosso grito ao grito de todos,
depois gritamos sozinhos
e choramos a derrota sob nossas bandeiras.
88. Como aprender a governar,
a desenhar em cada passo, em cada gesto,
a cada dia a vida nova que nossa boca anunciou?
89. Encarnamos a tempestade.
Assombrados pela vertigem dos ventos que desatamos.
Venceu a solidez da mentira, do preconceito.
Três anos depois, pintamos a cara como tantos
e fomos pra rua com nossos filhos
inventar o arco-íris e a indignação.
Desta vez a fortaleza ruiu diante dos nossos olhos.
E só havia ratos depois dos muros.
A fortaleza agora está vazia
ou povoada de fantasmas.
O caminho que conduz a ela passa por muitos lugares.
Caravanas: pelas estradas empoeiradas,
pela esperança empoeirada do povo,
pelos mandacarus e juazeiros,
pelos seringais, pelas águas da Amazônia,
pelos parreirais e pelos pampas, pelos cerrados e pelos babaçuais,
mas sobretudo pela invencível alegria
que o rosto castigado da gente demonstra à sua passagem.
A revolução que acalentamos na juventude faltou.
A vida não. A vida não falta.
E não há nada mais revolucionário que a vida.
Fixa suas próprias regras.
Marca a hora e se põe de nós, incontornável.
Os filhos da margem têm os olhos postos sobre nós.
Eles sabem, nós sabemos que a vida não nos concederá outra oportunidade.
Hoje, temos uma cara. Uma voz. Bandeiras.
Temos sonhos organizados.
Queremos um país onde não se matem crianças
que escaparam do frio, da fome, da cola de sapateiro.
Onde os filhos da margem tenham direito à terra,
ao trabalho, ao pão, ao canto, à dança,
às histórias que povoam nossa imaginação,
às raízes da nossa alegria.
Aprendemos que a construção do Brasil
não será obra apenas de nossas mãos.
Nosso retrato futuro resultará
da desencontrada multiplicação
dos sonhos que desatamos.
1994
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