[Cmi-bh] ocupacao da UFMG

Paulo Cabral pauloclage em yahoo.com.br
Quarta Abril 19 10:45:59 PDT 2006


IGC ocupado     Ocupação da UFMG 

Aconteceu de 13 a 16 de abril, em Belo Horizonte-MG, o IX EREGEO-SE (Encontro Regional de Estudantes de Geografia do Sudeste). O Encontro contou com aproximadamente 400 inscritos de diversas escolas de SP, MG, ES e RJ. 

Na sexta-feira, dia 14, boa parte dos estudantes optaram por ocupar o campus da UFMG – Pampulha, numa forma de manifestação e reflexão sobre o que significa o espaço público atualmente, qual o uso que dele é feito e para quem ele existe. 
Foi elaborada uma carta aberta justificando tal ato (leia a seguir). 

O Reitor da UFMG, Ronaldo Penna, que está há um mês no cargo, respondeu com uma notificação de decisão assinada por um juiz federal, cobrando uma multa de R$50.000 por dia (!!!) de ocupação a partir das 23h30 do dia 14/04. A liminar chegou nas mãos dos estudantes por volta de 00h30 do dia 15/04. A multa deverá ser paga pelo CA (centro acadêmico) e por dois alunos cujos nomes constam em um acordo prévio com relação a utilização do campus para o encontro. 

Cartas de apoio ao movimento ou repúdio à reitoria podem ser enviadas para o e-mail do EREGEO:  eregeosebhz em yahoo.com.br 

Segue a carta aberta elaborada coletivamente durante a ocupação. 


Belo Horizonte, 14 de Abril de 2006. 

Carta Aberta à Universidade Federal de Minas Gerais. 

Um encontro de estudantes, se propõe como uma prática de socialização de vivências/experiências e de produção e troca de conhecimentos. Este encontro, a partir das dificuldades de sua própria materialização, do estranhamento surgido nos primeiros contatos dos estudantes com sua estrutura e do próprio debate previsto como sua primeira atividade, faz os estudantes viverem de maneira muito concreta questões que são correntes dos debates políticos e acadêmicos em suas próprias universidades, e em outros contextos sociais. 

Nos mais diversos âmbitos, assistimos (e estamos imersos) a uma lógica de produção e uso do espaço privatizante, segmentadora, que especializa ao máximo os espaços e aparta os sujeitos sociais da possibilidade de intervenção nas formas de uso desses espaços, desmontando as possibilidades de apropriação a partir da normatização e privatização ampla e rígida do acesso a eles. 

Utilizar os espaços de uma universidade federal (salas e campi) para as atividades do encontro, alojamento e convivência, é uma das formas que o movimento estudantil de geografia, vem historicamente lançando mão como política de construção da universidade como espaço coletivo de criação. Nossa manifestação se faz, assim, legítima. 

Ainda sentimos no cotidiano de nossas universidades uma crescente tomada de decisões que contrariam o processo democrático, em favor da centralização da tomada de decisões. 

O espaço é construído cotidianamente, a partir de ações individuais e coletivas, pautadas na diversidade que caracteriza esses agentes. Nesse sentido, o espaço público surge como lugar de convivência dos diferentes, sob normas de civilidade. Garantimos que será feito uso racional desse espaço, que, por ser de todos, assume uma necessidade de respeito daqueles que dele usufruem. Defendemos, a partir dessas ação, o uso político do espaço público, uma vez que esse pode ser definido como sendo “qualquer tipo de espaço onde não haja obstáculo à possibilidade de acesso e participação de qualquer tipo de pessoa. (...) as regras do convívio e do debate devem ser absolutamente respeitados”.[1] 

A política implementada na UFMG simboliza a precarização e privatização do espaço público. O resultado desse tipo de política acadêmica vem se mostrando ao IX EREGEO-SE através das dificuldades que temos encontrado quanto a sua estrutura de funcionamento. O espaço do bandejão, não disponibilizado para uso do encontro, a não liberação de espaço de alojamento no interior do campus (salas de aula, gramado para camping) resultando no distanciamento dos lugares de alojamento. 

É importante ressaltar o prejuízo que essa situação trás ao caráter acadêmico e cultural do encontro, além da troca de experiências, vivencias e afetividades. 

Colocada a situação, que nos exigiu uma reflexão coletiva, a fim de resolvermos as contradições descritas, consideramos que a melhor opção prática seria a de realizar neste encontro a proposta – amadurecida – da qual congregamos, de uso do espaço público. 

Um ato de ocupação como este não nasce de atitudes individuais impensadas, nem inconseqüentes. É uma decisão coletiva dos diversos estudantes e entidades estudantis que criaram, construíram e estão organizando o IX EREGEO-SE. Isentamos aqui os estudantes que emprestaram suas firmas em prol da realização do evento de assumirem responsabilidade pelas ações coletivas engendradas a partir do inicio do evento, que se encontra em caráter e plenária permanente. Esse ato político traduz nossas ansiedades pela abertura e realização do diálogo. A preservação da estrutura faz parte de nossos objetivos. Nossa ação não é realizada com objetivo de baderna, ou desmoralização da universidade, pelo contrário, buscamos uma outra relação entre a comunidade universitária, que valorize a solidariedade, o diálogo entre saberes e a transformação de nossas vidas através de nossas práticas cotidianas. 

No processo de construção do saber científico, vemos a necessidade de apontarmos formas diferenciadas de ocupação do espaço. É necessário momentos de sociabilidade – e é importante que esses momentos ocorram dentro do espaço de produção e reprodução do saber. Ao ocuparmos um prédio de uma instituição pública federal de ensino, reafirmamos a necessidade de se ocupar aquilo que é público, para o fomento e elaboração de saberes para além das fronteiras das nossas faculdades. Paulo Freire nos ensina que é preciso compartilhar as diferentes formas de saber e de produção do saber. 

Nós, estudantes de geografia da região sudeste, permaneceremos em nosso encontro, que tem como proposta um espaço de vivência. Acreditamos que a universidade é o local onde devemos estar tecendo esses acontecimentos, já que a mesma existe na proposta de fomentar a elaboração e construção de saberes diferenciados. É através das práticas e dos espaços de vivência que teremos apontamentos para enfrentar os desafios frutos de processos de segregação, exclusão e dominação que globalmente atuam, e localmente atingem. 

Movimento de ocupação - IX EREGEO-SE. 


[1] GOMES, Paulo César da Costa: A condição urbana: ensaios de geopolítica da cidade. RJ: BERTRAND BRASIL, 2002. 


		
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