[Cmi-bh] RES: ocupacao da UFMG
LEONARDO GONCALVES PEIXOTO
LEONARDO.PEIXOTO em cemig.com.br
Quarta Abril 19 11:09:46 PDT 2006
Muito obrigado pela atenção, ,ate mais
-----Mensagem original-----
De: cmi-bh-bounces em lists.indymedia.org
[mailto:cmi-bh-bounces em lists.indymedia.org]Em nome de Paulo Cabral
Enviada em: quarta-feira, 19 de abril de 2006 14:46
Para: fernandosbandrade em hotmail.com; cmi-bh em lists.indymedia.org;
rejeicaoufmg em yahoogrupos.com.br; pedroabrandao em terra.com.br;
cristianobunte em hotmail.com; igor; IHG; bia789 em hotmail.com; Pablo
Assunto: [Cmi-bh] ocupacao da UFMG
IGC ocupado
Ocupação da UFMG
Aconteceu de 13 a 16 de abril, em Belo Horizonte-MG, o IX EREGEO-SE
(Encontro Regional de Estudantes de Geografia do Sudeste). O Encontro contou
com aproximadamente 400 inscritos de diversas escolas de SP, MG, ES e RJ.
Na sexta-feira, dia 14, boa parte dos estudantes optaram por ocupar o campus
da UFMG - Pampulha, numa forma de manifestação e reflexão sobre o que
significa o espaço público atualmente, qual o uso que dele é feito e para
quem ele existe.
Foi elaborada uma carta aberta justificando tal ato (leia a seguir).
O Reitor da UFMG, Ronaldo Penna, que está há um mês no cargo, respondeu com
uma notificação de decisão assinada por um juiz federal, cobrando uma multa
de R$50.000 por dia (!!!) de ocupação a partir das 23h30 do dia 14/04. A
liminar chegou nas mãos dos estudantes por volta de 00h30 do dia 15/04. A
multa deverá ser paga pelo CA (centro acadêmico) e por dois alunos cujos
nomes constam em um acordo prévio com relação a utilização do campus para o
encontro.
Cartas de apoio ao movimento ou repúdio à reitoria podem ser enviadas para o
e-mail do EREGEO: <http://brasil.indymedia.org/img/maillink.gif>
eregeosebhz em yahoo.com.br <mailto:eregeosebhz em yahoo.com.br>
Segue a carta aberta elaborada coletivamente durante a ocupação.
Belo Horizonte, 14 de Abril de 2006.
Carta Aberta à Universidade Federal de Minas Gerais.
Um encontro de estudantes, se propõe como uma prática de socialização de
vivências/experiências e de produção e troca de conhecimentos. Este
encontro, a partir das dificuldades de sua própria materialização, do
estranhamento surgido nos primeiros contatos dos estudantes com sua
estrutura e do próprio debate previsto como sua primeira atividade, faz os
estudantes viverem de maneira muito concreta questões que são correntes dos
debates políticos e acadêmicos em suas próprias universidades, e em outros
contextos sociais.
Nos mais diversos âmbitos, assistimos (e estamos imersos) a uma lógica de
produção e uso do espaço privatizante, segmentadora, que especializa ao
máximo os espaços e aparta os sujeitos sociais da possibilidade de
intervenção nas formas de uso desses espaços, desmontando as possibilidades
de apropriação a partir da normatização e privatização ampla e rígida do
acesso a eles.
Utilizar os espaços de uma universidade federal (salas e campi) para as
atividades do encontro, alojamento e convivência, é uma das formas que o
movimento estudantil de geografia, vem historicamente lançando mão como
política de construção da universidade como espaço coletivo de criação.
Nossa manifestação se faz, assim, legítima.
Ainda sentimos no cotidiano de nossas universidades uma crescente tomada de
decisões que contrariam o processo democrático, em favor da centralização da
tomada de decisões.
O espaço é construído cotidianamente, a partir de ações individuais e
coletivas, pautadas na diversidade que caracteriza esses agentes. Nesse
sentido, o espaço público surge como lugar de convivência dos diferentes,
sob normas de civilidade. Garantimos que será feito uso racional desse
espaço, que, por ser de todos, assume uma necessidade de respeito daqueles
que dele usufruem. Defendemos, a partir dessas ação, o uso político do
espaço público, uma vez que esse pode ser definido como sendo "qualquer tipo
de espaço onde não haja obstáculo à possibilidade de acesso e participação
de qualquer tipo de pessoa. (...) as regras do convívio e do debate devem
ser absolutamente respeitados".[1]
A política implementada na UFMG simboliza a precarização e privatização do
espaço público. O resultado desse tipo de política acadêmica vem se
mostrando ao IX EREGEO-SE através das dificuldades que temos encontrado
quanto a sua estrutura de funcionamento. O espaço do bandejão, não
disponibilizado para uso do encontro, a não liberação de espaço de
alojamento no interior do campus (salas de aula, gramado para camping)
resultando no distanciamento dos lugares de alojamento.
É importante ressaltar o prejuízo que essa situação trás ao caráter
acadêmico e cultural do encontro, além da troca de experiências, vivencias e
afetividades.
Colocada a situação, que nos exigiu uma reflexão coletiva, a fim de
resolvermos as contradições descritas, consideramos que a melhor opção
prática seria a de realizar neste encontro a proposta - amadurecida - da
qual congregamos, de uso do espaço público.
Um ato de ocupação como este não nasce de atitudes individuais impensadas,
nem inconseqüentes. É uma decisão coletiva dos diversos estudantes e
entidades estudantis que criaram, construíram e estão organizando o IX
EREGEO-SE. Isentamos aqui os estudantes que emprestaram suas firmas em prol
da realização do evento de assumirem responsabilidade pelas ações coletivas
engendradas a partir do inicio do evento, que se encontra em caráter e
plenária permanente. Esse ato político traduz nossas ansiedades pela
abertura e realização do diálogo. A preservação da estrutura faz parte de
nossos objetivos. Nossa ação não é realizada com objetivo de baderna, ou
desmoralização da universidade, pelo contrário, buscamos uma outra relação
entre a comunidade universitária, que valorize a solidariedade, o diálogo
entre saberes e a transformação de nossas vidas através de nossas práticas
cotidianas.
No processo de construção do saber científico, vemos a necessidade de
apontarmos formas diferenciadas de ocupação do espaço. É necessário momentos
de sociabilidade - e é importante que esses momentos ocorram dentro do
espaço de produção e reprodução do saber. Ao ocuparmos um prédio de uma
instituição pública federal de ensino, reafirmamos a necessidade de se
ocupar aquilo que é público, para o fomento e elaboração de saberes para
além das fronteiras das nossas faculdades. Paulo Freire nos ensina que é
preciso compartilhar as diferentes formas de saber e de produção do saber.
Nós, estudantes de geografia da região sudeste, permaneceremos em nosso
encontro, que tem como proposta um espaço de vivência. Acreditamos que a
universidade é o local onde devemos estar tecendo esses acontecimentos, já
que a mesma existe na proposta de fomentar a elaboração e construção de
saberes diferenciados. É através das práticas e dos espaços de vivência que
teremos apontamentos para enfrentar os desafios frutos de processos de
segregação, exclusão e dominação que globalmente atuam, e localmente
atingem.
Movimento de ocupação - IX EREGEO-SE.
[1] GOMES, Paulo César da Costa: A condição urbana: ensaios de geopolítica
da cidade. RJ: BERTRAND BRASIL, 2002.
_____
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