[Cmi-bh] O amor

Philipe Pimentel phiveg em hotmail.com
Quarta Junho 28 06:49:48 PDT 2006


Jiddu Krishnamurti
Transcrição do "capítulo X - O amor" do livro:
"Liberte-se do passado"

A necessidade de segurança nas relações gera inevitavelmente o sofrimento e 
o medo. Essa busca de segurança, atrai a insegurança. Já encontrastes alguma 
vez segurança em alguma de vossas relações? Já? A maioria de nós quer a 
segurança de amar e ser amado, mas existirá amor quando cada um está a 
buscar a própria segurança, seu caminho próprio? Nós não somos amados porque 
não sabemos amar.

Que é o amor? Esta palavra está tão carregada e corrompida, que quase não 
tenho vontade de empregá-la. Todo o mundo fala de amor - toda a revista e 
jornal e todo missionário discorre interminavelmente sobre o amor. Amo a 
minha pátria, amo o prazer, amo a minha esposa, amo a Deus. O amor é uma 
idéia? Se é, pode então ser cultivado, nutrido, conservado com carinho, 
moldado, torcido de todas as maneiras possíveis. Quando dizeis que amais a 
Deus, que significa isso ? Significa que amais uma projeção de vossa própria 
imaginação, uma projeção de vós mesmo, revestida de certas formas de 
respeitabilidade, conforme o que pensais ser nobre e sagrado; o dizer "Amo a 
Deus" é puro contra-senso. Quando adorais a Deus, estais adorando a vós 
mesmo; e isso não é amor.

Incapazes, que somos, de compreender essa coisa humana chamada amor, fugimos 
para as abstrações. O amor pode ser a solução final de todas as 
dificuldades, problemas e aflições humanas. Assim, como iremos descobrir o 
que é o amor? Pela simples definição? A igreja o tem definido de uma 
maneira, a sociedade de outra, e há também desvios e perversões de toda a 
espécie. A adoração de uma certa pessoa, o amor carnal, a troca de emoções, 
o companheirismo - será isso o que se entende por amor? Essa foi sempre a 
norma, o padrão, que se tornou tão pessoal, sensual, limitado, que as 
religiões declararam que o amor é muito mais do que isso. Naquilo que 
denominam "amor humano", vêem elas que existe prazer, competição, ciúme, 
desejo de possuir, de conservar, de controlar, de influir no pensar de 
outrem e, sabendo da complexidade dessas coisas, dizem as religiões que deve 
haver outra espécie de amor - divino, belo, imaculado, incorruptível.

Em todo o mundo, certos homens chamados "santos" sempre sustentaram que 
olhar para uma mulher é pecaminoso; dizem que não podemos nos aproximar-nos 
de Deus se nos entregamos ao sexo e, por conseguinte, o negam, embora eles 
próprios se vejam devorados por ele. Mas, negando o sexo, esses homens 
arrancam os próprios olhos, decepam a própria língua, uma vez que estão 
negando toda a beleza da Terra. Deixaram famintos os seus corações e a sua 
mente; são entes humanos "desidratados"; baniram a beleza, porque a beleza 
está ligada à mulher.

Pode o amor ser dividido em sagrado e profano, humano e divino, ou só há 
amor? O amor é para um só e não para muitos? Se digo "Amo-te", isso exclui o 
amor do outro? O amor é pessoal ou impessoal? Moral ou imoral? Familial ou 
não familial? Se amais a humanidade, podeis amar o indivíduo? O amor é 
sentimento? Emoção ? O Amor é prazer e desejo ? Todas essas perguntas 
indicam - não é verdade? - que temos idéias a respeito do amor, idéias sobre 
o que ele deve ou não deve ser, um padrão, um código criado pela cultura em 
que vivemos.

Assim, para examinarmos a questão do amor - o que é o amor - devemos 
primeiramente libertar-nos das incrustações dos séculos, lançar fora todos 
os ideais e ideologias sobre o que ele deve ou não deve ser. Dividir 
qualquer coisa em o que deveria ser e o que é, é a maneira mais ilusória de 
enfrentar a vida.

Ora, como iremos saber o que é essa chama que denominamos amor - não a 
maneira de expressá-lo a outrem, porém o que ele próprio significa? Em 
primeiro lugar rejeitarei tudo o que a igreja, a sociedade, meus pais e 
amigos, todas as pessoas e todos os livros disseram a seu respeito, porque 
desejo descobrir por mim mesmo o que ele é. Eis um problema imenso, que 
interessa a toda humanidade; há milhares de maneiras de defini-lo e eu 
próprio me vejo todo enredado neste ou naquele padrão, conforme a coisa que, 
no momento, me dá gosto ou prazer. Por conseguinte, para compreender o amor, 
não devo em primeiro lugar libertar-me de minhas inclinações e preconceitos? 
Vejo-me confuso, dilacerado pelos meus próprios desejos e, assim, digo entre 
mim: "Primeiro, dissipa a tua confusão. Talvez tenhas possibilidade de 
descobrir o que é amor através do que ele não é".

O governo ordena: "Vai e mata, por amor à pátria!" Isso é amor? A religião 
preceitua: "Abandona o sexo, pelo amor de Deus". Isso é amor? O amor é 
desejo? Não digas que não. Para a maioria de nós, é; desejo acompanhado de 
prazer, prazer derivado dos sentidos, pelo apego e o preenchimento sexual. 
Não sou contrário ao sexo, mas vede o que ele implica. O que o sexo vos dá 
momentaneamente é o total abandono de vós mesmos, mas, depois, voltais à 
vossa agitação; por conseguinte, desejais a constante repetição desse estado 
livre de preocupação, de problema, do "eu". Dizeis que amais vossa esposa. 
Nesse amor está implicado o prazer sexual, o prazer de terdes uma pessoa em 
casa para cuidar dos filhos e cozinhar. Dependeis dela; ela vos deu o seu 
corpo, suas emoções, seus incentivos, um certo sentimento de segurança e 
bem-estar. Um dia, ela vos abandona; aborrece-se ou foge com outro homem, e 
eis destruído todo o vosso equilíbrio emocional; essa perturbação, de que 
não gostais, chama-se ciúme. Nele existe sofrimento, ansiedade, ódio e 
violência. Por conseguinte, o que realmente estais dizendo é: "Enquanto me 
pertences, eu te amo; mas, tão logo deixes de pertencer-me, começo a 
odiar-te. Enquanto posso contar contigo para a satisfação de minhas 
necessidades sociais e outras, amo-te, mas, tão logo deixes de atender a 
minhas necessidades, não gosto mais de ti". Há, pois, antagonismo entre 
ambos, há separação, e quando vos sentis separados um do outro, não há amor. 
Mas, se puderdes viver com vossa esposa sem que o pensamento crie todos 
esses estados contraditórios, essas intermináveis contendas dentro de vós 
mesmo, talvez então - talvez - sabereis o que é o amor. Sereis então 
completamente livre, e ela também; ao passo que, se dela dependeis para os 
vossos prazeres, sois seu escravo. Portanto, quando uma pessoa ama, deve 
haver liberdade - a pessoa deve estar livre, não só da outra, mas também de 
si própria.

No estado de pertencer a outro, de ser psicologicamente nutrido por outro, 
de outro depender - em tudo isso existe sempre, necessariamente, a 
ansiedade, o medo, o ciúme, a culpa, e enquanto existe medo, não existe 
amor. A mente que se acha nas garras do sofrimento jamais conhecerá o amor; 
o sentimentalismo e a emotividade nada, absolutamente nada, têm que ver com 
o amor. Por conseguinte, o amor nada tem em comum com o prazer e o desejo.

O amor não é produto de pensamento, que é o passado. O pensamento não pode 
de modo nenhum cultivar o amor. O amor não se deixa cercar e enredar pelo 
ciúme; porque o ciúme vem do passado. O amor é sempre o presente ativo. Não 
é "amarei" ou "amei". Se conheceis o amor, não seguireis ninguém. O amor não 
obedece. Quando se ama, não há respeito nem desrespeito.

Não sabeis o que significa amar realmente alguém - amar sem ódio, sem ciúme, 
sem raiva, sem procurar interferir no que o outro faz ou pensa, sem 
condenar, sem comparar - não sabeis o que isto significa? Quando há amor, há 
comparação? Quando amais alguém de todo o coração, com toda a vossa mente, 
todo o vosso corpo, todo o vosso ser, existe comparação? Quando vos 
abandonais completamente a esse amor, não existe "o outro".

O amor tem responsabilidades e deveres, e emprega tais palavras? Quando 
fazeis alguma coisa por dever, há nisso amor? No dever não há amor. A 
estrutura do dever, na qual o ente humano se vê aprisionado, o está 
destruindo. Enquanto sois obrigado a fazer uma coisa, porque é vosso dever 
fazê-la, não amais a coisa que estais fazendo. Quando há amor, não há dever 
nem responsabilidade.

A maioria dos pais, infelizmente, pensa que são responsáveis por seus 
filhos, e seu senso de responsabilidade toma a forma de preceituar-lhes o 
que devem fazer e o que não devem fazer, o que devem ser e o que não devem 
ser. Querem que os filhos conquistem uma posição segura na sociedade. Aquilo 
a que chamam de responsabilidade faz parte daquela respeitabilidade que eles 
cultivam; e a mim me parece que, onde há respeitabilidade, não existe ordem; 
só lhes interessa o tornar-se um perfeito burguês. Preparando os filhos para 
se adaptarem à sociedade, estão perpetuando a guerra, o conflito e a 
brutalidade. Pode-se chamar a isso zelo e amor?

Zelar, com efeito, é cuidar como se cuida de uma árvore ou de uma planta, 
regando-a, estudando as suas necessidades, escolhendo o solo mais adequado, 
tratá-la com carinho e ternura; mas, quando preparais os vossos filhos para 
se adaptarem à sociedade, os estais preparando para serem mortos. Se 
amásseis vossos filhos, não haveria guerras.

Quando perdeis alguém que amais, verteis lágrimas; essas lágrimas são por 
vós mesmo ou pelo morto? Estais pranteando a vós mesmo ou ao outro? Já 
chorastes por outrem? Já chorastes o vosso filho, morto no campo de batalha? 
Chorastes, decerto, mas essas lágrimas foram produto de autocompaixão ou 
chorastes porque um ente humano foi morto? Se chorais por autocompaixão, 
vossas lágrimas nada significam, porque estais interessado em vós mesmo. Se 
chorais porque vos foi arrebatada uma pessoa em quem "depositastes" muita 
afeição, não se trata de afeição real. Se chorais a morte de vosso irmão, 
chorai por ele! É muito fácil chorardes por vós mesmo porque ele partiu. 
Aparentemente, chorais porque vosso coração foi atingido, mas não foi 
atingido por causa dele; foi atingido pela autocompaixão, e a autocompaixão 
vos endurece, vos fecha, vos torna embotado e estúpido.

Quando chorais por vós mesmo, será isso amor? - chorar porque ficaste 
sozinho, porque perdestes o vosso poder; queixar-vos de vossa triste sina, 
de vosso ambiente - sempre vós a verter lágrimas. Se compreenderdes esse 
fato, e isso significa pôr-vos em contato com ele tão diretamente como 
quando tocais uma árvore ou uma coluna ou uma mão, vereis então que o 
sofrimento é produto do "eu", o sofrimento é criado pelo pensamento, o 
sofrimento é produto do tempo. Há três anos eu tinha meu irmão; hoje ele é 
morto e estou sozinho, desolado, não tenho mais a quem recorrer para ter 
conforto ou companhia, e isso me traz lágrimas aos olhos.

Podeis ver tudo isso acontecer dentro de vós mesmo, se o observardes. Podeis 
vê-lo de maneira plena, completa, num relance, sem precisardes do tempo 
analítico. Podeis ver num momento toda a estrutura e natureza dessa coisa 
desvaliosa e insignificante, chamada "eu" - minhas lágrimas, minha família, 
minha nação, minha crença, minha religião - toda essa fealdade está em vós. 
Quando a virdes com vosso coração, e não com vossa mente, quando a virdes do 
fundo de vosso coração, tereis então a chave que acabará com o sofrimento.

O sofrimento e o amor não podem coexistir, mas no mundo cristão idealizaram 
o sofrimento, crucificaram-no para o adorar, dando a entender que ninguém 
pode escapar ao sofrimento a não ser por aquela única porta; tal é a 
estrutura de uma sociedade religiosa, exploradora.

Assim, ao perguntardes o que é o amor, podeis ter muito medo de ver a 
resposta. Ela pode significar uma completa reviravolta; poderá dissolver a 
família; podeis descobrir que não amais vossa esposa ou marido ou filhos 
(vós os amais?); podeis ter de demolir a casa que construístes; podeis nunca 
mais voltar ao templo.

Mas, se desejais continuar a descobrir, vereis que o medo não é amor, a 
dependência não é amor, o ciúme não é amor, a posse e o domínio não são 
amor, responsabilidade e dever não são amor, autocompaixão não é amor, a 
agonia de não ser amado não é amor, que o amor não é o oposto do ódio, como 
a humildade não é o oposto da vaidade. Dessarte, se fordes capaz de eliminar 
tudo isso, não à força, porém lavando-o assim como a chuva fina lava a 
poeira de muitos dias depositada numa folha, então, talvez, encontrareis 
aquela flor peregrina que o homem sempre buscou sequiosamente.

Se não tendes amor - não em pequenas gotas, mas em abundância; se não estais 
transbordando de amor, o mundo irá ao desastre. Intelectualmente, sabeis que 
a unidade humana é a coisa essencial e que o amor constitui o único caminho 
para ela, mas quem pode ensinar-vos a amar? Poderá uma autoridade, um 
método, um sistema ensinar-vos a amar? Se alguém vo-lo ensina, isso não é 
amor. Podeis dizer: "Eu me exercitarei para o amor. Sentar-me-ei todos os 
dias para refletir sobre ele. Exercitar-me-ei para ser bondoso, delicado e 
me forçarei a ser atencioso com os outros"? - Achais que podeis 
disciplinar-vos para amar, que podeis exercer a vontade para amar? Quando 
exerceis a vontade e a disciplina para amar, o amor vos foge pela janela. 
Pela prática de um certo método ou sistema de amar, podeis tornar-vos muito 
hábil, ou mais bondoso, ou entrar num estado de não-violência, mas nada 
disso tem algo em comum com o amor.

Neste mundo tão dividido e árido não há amor, porque o prazer e o desejo têm 
a máxima importância, e, todavia, sem amor, vossa vida diária é sem 
significação. Também, não podeis ter o amor se não tendes a beleza. A beleza 
não é uma certa coisa que vedes - não é uma bela árvore, um belo quadro, um 
belo edifício ou uma bela mulher; só há beleza quando o vosso coração e a 
vossa mente sabem o que é o amor. Sem o amor e aquele percebimento da 
beleza, não há virtude, e sabeis muito bem que tudo o que fizerdes - 
melhorar a sociedade, alimentar os pobres - só criará mais malefício, porque 
quando não há amor, só há fealdade e pobreza em vosso coração e vossa mente. 
Mas, quando há amor e beleza, sabeis amar, podeis fazer o que desejardes, 
porque o amor resolverá todos os outros problemas.

Alcançamos, assim, este ponto: Poderá a mente encontrar o amor sem precisar 
de disciplina, de pensamento, de coerção, de nenhum livro, instrutor ou guia 
- encontrá-lo assim como se encontra um belo pôr-de-sol?

Uma coisa me parece absolutamente necessária; a paixão sem motivo, a paixão 
não resultante de compromisso ou ajustamento, a paixão que não é lascívia. O 
homem que não sabe o que é paixão, jamais conhecerá o amor, porque o amor só 
pode existir quando a pessoa se desprende totalmente de si própria.

A mente que busca não é uma mente apaixonada, e não buscar o amor é a única 
maneira de encontrá-lo; encontrá-lo inesperadamente e não como resultado de 
qualquer esforço ou experiência. Esse amor, como vereis, não é do tempo; ele 
é tanto pessoal, como impessoal, tanto um só como multidão. Como uma flor 
perfumosa, podeis aspirar-lhe o perfume, ou passar por ele sem o notardes. 
Aquela flor é para todos e para aquele que se curva para aspirá-la 
profundamente e olhá-la com deleite. Quer estejamos muito perto, no jardim, 
quer muito longe, isso é indiferente à flor, porque ela está cheia de seu 
perfume e pronta para reparti-lo com todos.

O amor é uma coisa nova, fresca, viva. Não tem ontem nem amanhã. Está além 
da confusão do pensamento. Só a mente inocente sabe o que é o amor, e a 
mente inocente pode viver no mundo não inocente. Só é possível encontrá-la, 
essa coisa maravilhosa que o homem sempre buscou sequiosamente por meio de 
sacrifícios, de adoração, das relações, do sexo, de toda espécie de prazer e 
de dor, só é possível encontrá-la quando o pensamento, alcançando a 
compreensão de si próprio, termina naturalmente. O amor não conhece o 
oposto, não conhece conflito.

Podeis perguntar: "Se encontro esse amor, que será de minha mulher, de minha 
família? Eles precisam de segurança". Fazendo essa pergunta, mostrais que 
nunca estivestes fora do campo do pensamento, fora do campo da consciência. 
Quando tiverdes alguma vez estado fora desse campo, nunca fareis uma tal 
pergunta, porque sabereis o que é o amor em que não há pensamento e, por 
conseguinte, não há tempo. Podeis ler tudo isto hipnotizado e encantado, mas 
ultrapassar realmente o pensamento e o tempo - o que significa transcender o 
sofrimento - é estar cônscio de uma dimensão diferente, chamada "amor".

Mas, não sabeis como chegar-vos a essa fonte maravilhosa - e, assim, que 
fazeis? Quando não sabeis o que fazer, nada fazeis, não é verdade? Nada, 
absolutamente. Então, interiormente, estais completamente em silêncio. 
Compreendeis o que isso significa? Significa que não estais buscando, nem 
desejando, nem perseguindo; não existe nenhum centro. Há, então, o amor.

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