[Cmi-bh] Censurado "Uma verdade inconveniente"

dwardil dwardil em bol.com.br
Segunda Fevereiro 12 13:41:01 PST 2007








Censurado "Uma verdade inconveniente"

Quando o assunto é aquecimento global, só Deus e as grandes
petrolíferas sabem o que será das gerações futuras nos Estados
Unidos. Na esperança de levar o documentário "Uma verdade
inconveniente" - para as salas de aulas americanas, o democrata Al
Gore se deparou com uma barreira quase intransponível em seu país:
uma associação de professores que vendeu a alma para grandes
patrocinadores e pais de alunos cegos pela religião. Nem mesmo o
fato do filme estar concorrendo ao Oscar 2007 na categoria Melhor
Documentário ajudou.

"A gente não quer que um filme de duas horas substitua um rigoroso
currículo de ciência. Mas estudantes deveriam esperar, e pais
deveriam exigir, que educadores apresentem uma visão honesta e
imparcial sobre os verdadeiros desafios de hoje", protestou a
produtora do filme e fundadora da StopGlobalWarming.org, Laurie
David, num artigo para o "Washington Post", no fim de novembro,
depois de oferecer 50 mil DVDs gratuitos do documentário para a
Associação Nacional de Professores de Ciências (NSTA, na sigla em
inglês) e receber um "obrigado, mas não, obrigado".

Como justificativa para a rejeição da oferta, o diretor executivo da
NSTA, Gerald Wheeler, explicou que a associação tem uma política
interna que não permite a promoção de qualquer produto ou mensagem
de outra organização. Mas Wheeler também não escondeu que promover o
filme de Al Gore poderia prejudicar o relacionamento da NSTA com
empresas da indústria de petróleo: "É com o dinheiro dos nossos
patrocinadores que conseguimos melhorar a educação sobre ciências
neste país".

Entre os patrocinadores da NSTA, estão a Exxon Mobil Corporation –
acusada de tentar maquiar nos últimos anos os efeitos do aquecimento
global - e a Shell. Depois da rejeição, Laurie David foi atrás de
detalhes sobre as parcerias da NSTA com estas e outras companhias. A
produtora logo descobriu que a NSTA chegou a premiar a Exxon por seu
comprometimento com a educação de crianças americanas e recebeu US$
6 milhões da empresa nos últimos dez anos. E a associação não está
sozinha nessa: ao todo, a Exxon deu US$ 42 milhões para organizações-
chaves que determinam o que as crianças e os adolescentes do país
aprendem sobre ciências, desde o jardim de infância até o ensino
médio.

Ao vasculhar o material escolar usado nos Estados Unidos, Laurie
encontrou livros, apostilas, vídeos e pôsteres financiados por
grandes empresas. Weyerhaeuser e International Paper ensinam sobre
florestas, Monsanto dá uma aula de engenharia genética e o Instituto
de Petróleo Americano (API) financiou um vídeo sobre o uso do
petróleo no dia-a-dia, "You Can't Be Cool Without Fuel" (Sem
combustível, você não está com nada), que foi distribuído
gratuitamente pela NSTA. Para a surpresa da produtora, todo este
material ignora a questão do aquecimento global.

"Já é ruim o suficiente quando uma companhia tenta vender um lixo de
ciência para uma penca de adultos. Mas, como uma companhia de tabaco
que usou desenho animado para promover cigarros (fumar charutos era
sinal de status e até virou arma de sedução em 'Tom & Jerry'), Exxon
Mobil está indo atrás de nossas crianças também", escreveu Laurie
no "Washington Post", lembrando também que a API deixou claro em
1998, num memorando que vazou para a imprensa, porque considera
importante entrar nas salas de aula: "Informar professores e
estudantes sobre incertezas nas ciências climáticas irá evitar novos
esforços para impor medidas como as de Kyoto no futuro".

Além de apresentar sua versão no "Washington Post", Laurie conseguiu
atrair a atenção de outros grandes jornais, revistas e sites para a
polêmica. Depois do burburinho, a NSTA tentou se redimir, dizendo
que já havia citado o documentário num material sobre aquecimento
global enviado aos seus professores-membros e sugeriu que Laurie
comprasse a mailing list da associação, que tem 57 mil pessoas. Cada
mil nomes custam US$ 130, mas Laurie nem considerou a oferta, teve
uma idéia melhor: oferecer milhares de DVDs diretamente aos
professores americanos através do site da produtora do filme,
Participant Productions, que também disponibilizou três tipos de
roteiros de aulas para serem seguidos após a apresentação. Outros
mil foram distribuídos entre alunos de faculdades do país que
participaram do movimento Truth on Campus, no início deste
fevereiro. Mas novos obstáculos não demoraram para aparecer.

Alguns dos professores que exibiram o DVD na sala de aula foram
bombardeados por reclamações de pais de alunos e diretores de
escolas. Para os republicanos, o fato de o filme ter o vice-
presidente de Bill Clinton à frente o torna político - e democrata -
demais. Um pai de aluno reclamou que o documentário tem muito Al
Gore e nenhum cientista.Para os céticos, há exageros: "Estamos
vivendo uma histeria sobre aquecimento global que pode assustar
nossas crianças". Para os evangélicos, é pouco religioso: "O
aquecimento global é apenas um sinal de Deus. A Bíblia diz que no
fim dos tempos a Terra vai pegar fogo, e essa perspectiva deveria
estar no filme", disse outro pai também ao Washington Post,
mostrando que a religião voltou a medir forças com a ciência, como
na questão da evolução humana, discutida intensamente nos últimos
anos.

O caso mais notório aconteceu no distrito de Federal Way
(Washington), que fica perto de Seattle, em janeiro. O conselho das
escolas públicas locais concordou por unanimidade com os pais
reclamões e proibiu que o documentário seja apresentado em salas de
aula, "a menos que uma versão oposta, aprovada pelo superintendente,
seja apresentada também". "Não existe versão oposta para fatos
científicos", disse Laurie David para os jornais locais.

Mas a equipe de "An Inconvenient Truth" não desistiu. Ao lado da
escritora e ativista Cambria Gordon, Laurie vai lançar ainda este
ano uma versão infantil do livro "Uma Verdade Inconveniente: o que
Devemos Saber (e Fazer) Sobre o Aquecimento Global", base do
documentário e a venda no Brasil. Direcionado para crianças de 8
anos ou mais, "The Down-to-Earth Guide to Global Warming" será
publicado com papel reciclado e tinta de soja. Laurie também está
divulgando um passo a passo anti-aquecimento global para estudantes
no site da StopGlobalWarming.com.

No melhor estilo boca a boca, Al Gore tem feito uma campanha através
de e-mails e de seu site em que incentiva os americanos a fazerem
festas em suas casas para mostrar o documentário aos vizinhos e
discutir maneiras individuais de combater o aquecimento global. "Dê
uma festa ou não deixe de ir à festa do seu vizinho", pediu ele, que
também tem promovido workshops de três dias para recrutar
voluntários pelo país e pelo mundo. O Climate Project treina
milhares de pessoas de diversas faixas etárias e profissões – até a
atriz Cameron Diaz participou - para levar a mensagem do filme e
tentar mudar o estilo de vida de suas comunidades. Os
chamados "climate change messengers" precisam fazer pelo menos dez
palestras por ano. No mês passado, foram recrutados voluntários em
Nashville, Tennessee, e Sydney, na Austrália.

Apesar da força do time do contra, a luz verde no fim do túnel já
começa a aparecer: Al Gore conseguiu que todas as escolas do ensino
médio na Suécia e na Noruega recebessem cópias do DVD e manuais de
ensino para discutir o aquecimento global em sala de aula. O mesmo
acontecerá em breve com as britânicas e escocesas. "Decidimos
distribuir o filme com um pacote informativo (para 3.385 escolas)
porque acreditamos que todo mundo tem um papel importante na luta
contra o aquecimento global e nossos jovens têm que entender isso",
disse o ministro do meio ambiente do Reino Unido, David Miliband, ao
anunciar a novidade, no início de fevereiro.

Até algumas igrejas já aderiram à campanha do ex-vice-presidente.
Como as da organização Green Faith, de Nova Jérsei, que estão
promovendo o uso de bicicleta entre seus fiéis para irem à missa,
oferecendo sessões gratuitas do filme de Al Gore e instalando
painéis de energia solar. No site, o grupo avisa: "Os porta-vozes da
GreenFaith estão disponíveis para ensinar os valores espirituais
comuns a muitas tradições da fé e o maior deles é o nosso
comprometimento com a proteção do meio ambiente". Amém.(OECO)

Adriana Maximiliano, jornalista brasileira freelancer em Washington,
EUA.


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