[Cmi-brasil-editorial] Refugiados palestinos chegam ao Brasil na sexta-feira
Die-go
die-go em riseup.net
Terça Setembro 18 05:56:14 PDT 2007
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/09/070918_palestinosandrea.shtml
Apreensivos, refugiados palestinos chegam ao Brasil na sexta-feira
Andrea Wellbaum
Enviada especial a Ruweished
Ruweished
Atualmente 107 pessoas vivem em Ruweished, que chegou a abrigar cerca de mil
O Brasil começa a receber nesta sexta-feira um grupo de pouco mais de cem
refugiados palestinos que há quatro anos trocaram a vida urbana da capital
do Iraque, Bagdá, pela luta por sobrevivência no meio do deserto na
Jordânia.
“É o fim de uma longa espera para eles”, diz Anne-Marie Deutschlander, do
Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), que acompanhou a
situação dos palestinos desde abril de 2003, quando a maioria fugiu do
Iraque após a queda de Saddam Hussein.
“Eles queriam saber onde iriam ser reassentados no Brasil, como é o clima,
se iria ser em casa ou apartamento, como poderiam trabalhar...”, conta o
oficial de reassentamento José Francisco Sieber Luz Filho, enviado pelo
Acnur brasileiro para ajudar na adaptação cultural dos palestinos no
Brasil.
Os palestinos, que passaram quatro anos vivendo em tendas no meio do
deserto, ficaram felizes, mas apreensivos, quando receberam a notícia de
que iriam para o Brasil.
Ao mesmo tempo em que foram distribuídos doces para comemorar e muitos
choraram de alegria, surgiram dúvidas sobre um país desconhecido, com uma
língua que ninguém sabia falar.
“Alguns revelaram medo em ir para São Paulo, porque ouvem dizer que é uma
cidade muito violenta. O argumento que eu dou para eles é muito simples:
‘Vocês esqueceram que vieram de Bagdá?’”, diz Anne-Marie.
Os dois estados que receberão os refugiados, 117 ao todo, são Rio Grande
do Sul e São Paulo.
A primeira leva, de 32 palestinos, a maioria idosos e famílias, desembarca
no Brasil na sexta-feira.
Iraque
Muçulmanos sunitas, assim como o ex-presidente iraquiano, os palestinos
que chegaram ao Iraque após as guerras de 1948 e 1967 viviam sob proteção
até o início da guerra no país.
Segundo o Acnur, cerca de 25 mil palestinos moravam no Iraque antes de
2003 e, apesar de não ter sido possível fazer um levantamento muito
preciso após o início do conflito, acredita-se que 15 mil continuem no
país.
“Eles passaram a ser perseguidos e muitos deles foram e continuam sendo
mortos pelos xiitas, que querem vingança depois de anos de opressão do
regime de Saddam”, explica Imran Riza do Acnur.
A solução, adotada também por milhares de iraquianos ameaçados pela
violência sectária, foi deixar o conforto da casa e o trabalho para trás e
sair do país, no que está sendo considerado pelo Acnur a maior
movimentação de uma população no Oriente Médio desde que os palestinos
foram obrigados a se deslocar com a criação do Estado de Israel, em 1948.
Muitos foram para a Jordânia, que já tinha recebido milhares de iraquianos
após a Guerra do Golfo, em 1991. Estima-se que o país abrigue atualmente
cerca de 700 mil iraquianos e 1,5 milhão de palestinos.
Sofrimento
Saiez Ahmed Abbas, de 62 anos, diz ter abandonado a casa e a pequena
fábrica de costura, com 15 funcionários, em Bagdá, para fugir da violência
e mostra duas bolsas de viagem em que preparava colocar tudo o que tinha
para embarcar para o Brasil nesta quinta-feira, dia 20.
“Nesta mala maior vão 30 kg de roupa e nesta outra vão 5 kg de bagagem de
mão. É tudo o que eu tenho e com o que vivi nestes últimos quatro anos”,
diz Abbas.
Ele e os outros 106 palestinos que permaneceram no campo de Ruweished –
que em 2003 chegou a abrigar cerca de mil pessoas - passaram anos vivendo
em tendas no meio de um deserto em que o ponto de referência mais próximo
é a travessia de Al Karama, na fronteira do Iraque com a Jordânia, a 70
quilômetros do campo.
“As condições aqui são muito, muito ruins”, diz o professor de língua
Árabe, Safah Ghazi Kamel, de 32 anos.
“No verão, o calor é insuportável e no inverno, o frio passa pelos ossos.
Sem falar nas tempestades de areia, que são muito fortes”, explica Kamel,
que assim como a maioria dos moradores do campo abre um sorriso quando
lembra que o sofrimento parece finalmente ter chegado ao fim.
Segundo Riza, a atitude do Brasil em aceitar os palestinos resolve um
grande problema e significa o fim do campo de Ruweished, do qual o governo
jordaniano nunca sentiu orgulho.
Desde 2003, o governo anuncia o fechamento do local, mas o Acnur vinha
pedindo o adiamento da medida para resolver o problema dos palestinos, que
não podiam voltar para Bagdá por causa das ameaças de morte e não têm um
Estado próprio para o qual possam voltar, restando apenas a opção de
reassentamento em algum país que os aceite.
‘De porta em porta’
“A decisão brasileira é um exemplo de que a comunidade internacional está
ajudando os refugiados, de que as pessoas estão recebendo a chance de
começar uma nova vida”, diz Riza.
Porém, a chance demorou a aparecer. Primeiramente, o Acnur recorreu aos
três tradicionais parceiros que costumam receber refugiados: os Estados
Unidos, Canadá e Austrália. Todos recusaram os palestinos.
Em seguida, o Acnur foi “bater na porta”, nas palavras de Anne-Marie, dos
países escandinavos, que também responderam negativamente.
“Os palestinos não são apenas refugiados, eles envolvem um problema
político muito maior e vários governos não quiseram aceitá-los, muitas
vezes por limitações das próprias leis do país”, explicou.
Quando uma porta finalmente se abriu, no Chile, a Autoridade Palestina
interferiu para evitar a transferência, o que fez o governo chileno recuar
da decisão de receber o grupo.
“A Autoridade Palestina quer evitar que estes refugiados saiam do Oriente
Médio e se espalhem pelo mundo, além de estar muito preocupada com a perda
do direito de retorno (a um possível futuro Estado palestino) destas
pessoas. Nós explicamos a eles que ninguém vai perder este direito.”
Com o recuo do Chile, o governo brasileiro resolveu aceitar os refugiados,
também com objeções da Autoridade Palestina.
“Mas o governo brasileiro não desistiu. Disse à Autoridade Palestina que
lamenta muito, mas que este é um problema humanitário, que é mais
importante do que o lado político”, diz Anne-Marie.
Este mês, a decisão chilena foi revertida novamente, quando houve o
anúncio de que o Chile vai receber 100 refugiados, que atualmente vivem
nos campos de Al-Tanf, na Síria, e Al-Waleed, no Iraque.
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