[Cmi-brasil-editorial] Sugestão de editorial
Túlio Althoff
tulio.althoff em gmail.com
Segunda Abril 21 15:43:35 PDT 2008
*TIBET: UM POUCO DE HISTÓRIA*
Essa introdução histórica é super importante para entender o contexto atual,
porque existe muita controvérsia sobre vários pontos históricos que os 2
lados usam para legitimar os seus argumentos.
Até escrever esse post, muitas coisas eu não entendia e agora que me puxei
para escrevê-lo para compartilhar com vocês [e depois de ler um livro sobre
a história da China<http://www.siciliano.com.br/livro.asp?tema=2&orn=LSE&Tipo=2&ID=971559>-
com poucas menções sobre o Tibet de fato] é que as coisas ficaram mais
claras para mim.
A História é escrita pelos vencedores. Essa é a versão dos tibetanos. Tirei
do site do Students for a Free
Tibet.<http://www.studentsforafreetibet.org/>
"O Estado tibetano foi criado mais ou menos em 127 a.C. sendo uma das
potências da Ásia pelos 3 séculos seguintes. Por volta do ano 821/823 um
tratado formal entre chineses e tibetanos demarcarou a fronteira entre os 2
países e se asseguraram nesse tratado que "tibetanos seriam felizes no Tibet
e chineses seriam felizes na China".
*Influência mongol*
Quando Genghis Khan expandiu o império mongol até os limites da Europa, foi
feito um acordo para que os mongóis não invadissem o Tibet e em troca o
Sakya Lama daria bênçãos e ensinamentos aos mongóis. Tanto que quando os
mongóis estabeleceram a dinastia Yuan na China invadida, o imperador
convidou o prelado para ser o supremo pontíficie do reinado e preceptor do
imperador.
O império mongol era mundial e independente de como fosse as relações dele
com o Tibet, o império mongol nunca integrou ou aglutinou a administração do
Tibet ou da China de maneira alguma.
Tibet rompeu laços com a administração mongol em 1350, antes da China ganhar
independência dos mongóis.
*Relações com os Manchu, Gorkha e os vizinhos britânicos*
Tibet não estabeleceu laços com a dinastia Ming [1386-1644], mas o Dalai
Lama, que estabeleceu sua soberania com a ajuda do patrono mongol em 1642,
estabeleceu laços religiosos fortes com a dinastia Qing [1644-1911].
O Dalai Lama concordou em ser o guia espiritual do imperador manchu e
aceitou patonagem e proteção em troca.
Essa relação de "prelado-fidalgo" [Choen Yoen em tibetano], que o Dalai Lama
também mantinha com alguns príncipes mongóis e nobres tibetanos, era o único
laço formal existente entre os tibetanos e os manchus durante a dinastia
Qing.
E por si só não afetava a independência do Tibet.
Em nível político, alguns emperadores manchus conseguiram exercer um grau de
influência sobre o Tibet. Entre 1720 e 1792, os imperadores mandaram tropas
imperiais 4 vezes para proteger o Dalai Lama de invasões externas ou de
revoltas internas. Esses envios de tropas deram aos imperadores os meios
para estabelecerem influência no Tibet.
No auge do império manchu, a relação entre os dois países era algo como uma
superpotência e um protetorado ou satélite, [como com vários países hoje em
dia], mas de qualquer forma, não extinguindo o status independente do Estado
mais fraco.
O Tibet nunca foi incorporado ao Império Manchu e muito menos à China e
continuava a manter relações com seus vizinhos separadamente.
A influência manchu não durou muito. Estava totalmente inefetiva quando os
britânicos invadiram Lhasa brevemente e concluíram um tratado bilateral com
o Tibet, a Convenção de Lhasa de 1904.
Mesmo com a perda de influência, o governo imperial manchu continuava a
clamar alguma autoridade sobre o Tibet, particularmente em relação às suas
relações internacionais, autoridade que o governo britânico na época chamava
de "suzerainty" [suserania em português, e diferente de "sovereignty",
soberania] em seus negócios com Pequim e St Petersburgo na Rússia.
O exército imperial tentou reaver a influência atual em 1910 ocupando Lhasa.
Seguido da revolução de 1911 que tirou os manchus do poder, as tropas se
renderam ao exército tibetano e foram repatriadas sob um acordo
sino-tibetano.
O Dalai Lama reafirmou a independência integral internamente, emitindo uma
proclamação, e externalmente, em comunicações com dirigentes internacionais
e um acordo com a Mongólia.
*Tibet no Século XX*
O status do Tibet seguido da expulsão das tropas manchus não é assunto para
sérias discussões. Quaisquer laços que existiam entre o Dalai Lama e os
imperadores manchus da dinastia Qing foram extinguidos com a queda daquele
império e dinastia. Entre 1911 e 1950, o Tibet conseguiu conseguiu evitar
influência exterior indevida com sucesso e se comportou, em todos os
aspectos, como um Estado inteiramente independente.
Tibet manteve relações diplomáticas com Nepal, Butão, Reino Unido e mais
tarde com a Índia independente. Relações com a China se mantiveram
restritas. Os chineses estabeleceram uma guerra de fronteira enquanto
formalmente clamando para o Tibet se juntar à república chinesa, e
proclamando para todo mundo que o Tibet já era uma das "5 raças" da China.
Em um esforço para reduzir as tensões sino-tibetanas, os britânicos
convocaram uma conferência em Simla entre os 3 países em 1913 onde os
representantes dos 3 estados se encontram em termos iguais. Como lembrado
pela delegação britânica, o Tibet entrou na conferência como "nação
independente sem reconhecimento de aliança com a China". A conferência não
obteve sucesso e não resolveu a diferença entre China e Tibet. Mas foi
significante para reafirmação das relações anglo-tibetanas com a conclusão
de comércio bilateral e acordo sobre fronteiras. Numa declaração conjunta,
Reino Unido e Tibet decidiram não reconhecer a suserania chinesa ou algum
outro direito especial sobre o Tibet se a China na ratificasse a convenção
de Simla que garantia ao Tibet maiores fronteiras, integridade territorial e
autonomia plena. A China nunca ratificou esse convenção, deixando os termos
da declaração conjunta em total vigor.
O Tibet conduzia suas relações internacionais primeiramente com missões
diplomáticas do Reino Unido, China, Nepal e Butão em Lhassa e também através
de delegações do governo em viagens internacionais. Quando a Índia se tornou
independente, a missão diplomática britânica foi substituída por uma
indiana. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Tibet se manteve neutro, mesmo
com pressões dos EUA, Reino Unido e China para liberação de passagem de
matéria-prima pelo seu território.
O Tibet nunca manteve relações internacionais extensivas, mas os países com
quem matinha relações, sempre o tratavam como tratavam qualquer outro Estado
soberano. O seus status internacional de fato não era diferente como era,
diríamos, o do Nepal. Tanto que quando o Nepal se inscreveu para as Nações
Unidas, citou seu tratado e relações diplomáticas com o Tibet para
demonstrar sua identidade internacional plena.
*A invasão do Tibet*
* *
A virada da história do Tibet veio em 1949 quando o Exército de Liberação
Popular da República Popular da China cruzou as fronteiras do Tibet pela
primeira vez. Depois de derrotarem o pequeno exército tibetano e ocuparem
metade do país, a governo chinês impôs o tão conhecido "Acordo de 17 Pontos
para a Liberação Pacífica do Tibet" sobre o governo tibetano em maio de
1951. Por ter sido assinado sob coação, o acordo não tem validade sob o
ponto de vista do direito internacional. A presença de 40.000 tropas no
Tibet, a ameaça de ocupação imediata de Lhasa e a perspectiva de destruição
total do Estado tibetano deixaram os tibetanos com poucas opções.
Enquanto a resistência à ocupação chinesa aumentava, principalmente no Tibet
oriental, a repressão chinesa, que incluía a destruição de prédios
religiosos e a prisão de monges e outros líderes comunitários, aumentava
dramaticamente. Em 1959, um levante popular culminou em protestos massivos
em Lhasa. Pela época que a China conseguiu acabar com o levante, 87.000
tibetanos tinham sido mortos só na região de Lhasa, e o Dalai Lama
transferiu-se para Índia, de onde ele lidera hoje o Governo-em-exílio, em
Dharamsala. Em 1963, o Dalai Lama promulgou a constituição para um Tibet
democrático. Foi implementada com sucesso até onde foi conseguiu se
extender, pelo Governo-em-exílio.
Enquanto isso, a perseguição, violações constantes dos direitos humanos e a
destruição em massa de prédios históricos e religiosos pelas autoridades
ocupantes não conseguiram destruir o espírito do povo tibetano a resistir a
destruição de sua identidade nacional. 1,2 milhão de tibetanos perderam suas
vidas [mais de um-sexto da população] como resultado da invasão chinesa. Mas
a nova geração de tibetanos aparenta tão determinada a retomar a
independência do país quanto a geração mais antiga."
Tulio Althoff
http://tulioalthoff.blogspot.com
--
T.
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