[Cmi-brasil-editorial] [leitura] Pós-guerra

grazi editorapressa em uol.com.br
Sábado Janeiro 5 11:26:02 PST 2008


> 27/12/2007
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> Pós-guerra
> "Desce daí, sua vagabunda! Filha-da-puta!"
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> Eu já estive em um número suficiente de shows de rock, em cima do  
> palco ou diante dele, e de partidas de futebol, para me abalar com  
> xingamento. Ou coisa pior: em um Skol Rock, levei um copo amassado  
> na testa (bem achatadinho, parecia uma estrela ninja, com grande  
> aerodinâmica). Não, aquele público não tinha nada contra  
> apresentadores da MTV, mas era minha 12ª. entrada no palco. Nas  
> onze anteriores, tinha anunciando as bandas novatas que eram as  
> finalistas do festival, mas os milhares de pessoas presentes  
> estavam ali para ver as duas últimas, Bad Religion e Offspring, e  
> não agüentavam mais olhar para a minha cara...
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> Em eventos de outro tipo, alguns personagens podem sempre esperar  
> recepção pouco calorosa: políticos, polícia, repórteres da Globo...  
> Às vezes a bronca é pessoal, mas é comum tomar uma vaia em nome da  
> instituição; o desaforo se dirige a pessoas jurídicas, seja lá quem  
> for a pessoa física diante do microfone.
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> O sujeito à minha frente não sabia quem eu era, mas não queria me  
> ver ali. Queria os shows de música. Ele e mais uns três ou quatro,  
> embriagados pelo álcool, pela natureza ou a vida dos últimos anos.  
> São do povo "de rua". "Você não é a prefeita? Então arruma um  
> trabalho pra mim", gritava e gesticulava um deles, como se  
> estivesse travando uma luta de boxe com o vento. Sorri: "Eu não sou  
> prefeita. Sou vereadora". Ficou confuso como se tivesse levado um  
> direto no queixo. Abaixou os braços e sorriu torto. Parecia o  
> soldado de um episódio do Asterix (acho que é "O Escudo Arverno"),  
> tentando gritar "Viva Vercingetórix!".
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> Enfim, não liguei. OK, eles odeiam políticos e discursos. Quem há  
> de condená-los por isso? Mas outros faziam questão da minha  
> presença e da fala, ouviram com respeito, gostam de ser merecedores  
> de atenção. Era o Natal Solidário, festa da população de rua que  
> acontece todo 24 de dezembro em alguma praça pública. Em 2007, foi  
> na Sé. Monta-se um palco, há apresentações de artistas diversos –  
> quase todos, gente "da rua" como eles – e distribuição de lanches e  
> brinquedos para as crianças.
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> A alegria simples daquelas pessoas é de cortar o coração. Momentos  
> antes, havia se apresentado um cover do Raul Seixas (dublando).  
> Incrível, incrível mesmo ver a quantidade de letras que o público  
> sabia de cor. Cantavam junto, interpretavam a letra com mímica,  
> vibravam. Sujos, maltrapilhos, desdentados, descalços, emocionados  
> e felizes.
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> Se bem que muitos, muitos mesmo, não manifestam emoção nenhuma.  
> Ficam quietos olhando.
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> Estava indo tudo muito bem; o rapaz da organização a toda hora  
> agradecia "à Prefeitura de São Paulo, a Guarda Civil Metropolitana,  
> à Polícia Militar do Estado de São Paulo". Ano passado, tivemos  
> problemas com a GCM; este ano, os guardas observavam tudo  
> tranqüilos, solícitos.
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> Até que começou o rap.
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> Estava tudo tão calmo que eu já estava indo embora, deixando o  
> pessoal curtir a festa. Só não fui para prestigiar o grupo e ver ao  
> menos uma música. Fiquei feliz por ter ficado – o público reagiu  
> super bem. Os mais animados pulavam, punham as mãos para cima,  
> atentos à rima e aos movimentos dos MCs. Estava tão bacana que  
> comecei a gravar um vídeo com minha câmera fotográfica, mas a  
> memória não deu nem para o cheiro. Em 8 segundos, mal começada a  
> panorâmica pela praça, não havia mais "espaço no memory stick". Que  
> pena.
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> Mal sabia eu que o "espaço" faria falta não para mostrar a paz, mas  
> a guerra.
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> Antes que eu percebesse que havia alguma coisa errada, o grupo  
> interrompeu a apresentação: "Nós vamos dar um tempo porque os  
> ânimos ali estão agitados. Calma, gente". No lado oposto ao que eu  
> estava, uma pequena aglomeração. "Xi, devem estar brigando". Não  
> dava para ver nada, exceto o bolo de gente olhando alguma coisa.
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> O Papai Noel da festa – o Tião, figuraça, ex-morador de rua, autor  
> de livro e peça de teatro – pegou o microfone e parecia um dalai  
> lama: "Povo de rua, vem pra cá. Tumultua não. Venham aqui pra  
> frente do palco. GCM: calma. Não precisa se exaltar. Afasta,  
> pessoal. Calma, GCM". Eu não enxergava nada, mas fiquei morrendo de  
> medo de como a GCM iria reagir (e nem sabia reagir a que, porque  
> não vi nada acontecendo!). O Tião continuava falando pausadamente,  
> com cuidado para não insuflar ninguém. Até para a polícia ele  
> chegou a pedir ajuda para serenar os ânimos.
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>
> Não adiantou. A cena seguinte foi aterrorizante: guardas tacando  
> spray de pimenta na cara das pessoas e sacando os cassetetes (ainda  
> bem que não foram os revólveres!) e dando, dando, dando com fé em  
> quem estivesse na frente. Brandindo o cassetete como uma batuta de  
> maestro, pra tudo quanto é lado. Logo o bolo de gente se desfez em  
> correria – gente passando mal, vomitando, desesperada tentando  
> respirar. E guardas correndo atrás de quem estivesse correndo  
> também, dando cacetada nas costas, passando rasteira, chutando e  
> batendo em gente caída.
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> Foi horrível. Não vi o começo da coisa, mas o que me contaram foi o  
> seguinte: três guardas foram para cima de um cara que estava de  
> costas para eles, dominaram, jogaram no chão e tentaram algemar e  
> levar embora. Não disseram o que ele tinha feito. Ninguém que  
> estava por perto viu qualquer atitude errada por parte dele. A ação  
> foi bem violenta; a atitude deveria ter sido muito grave, e mesmo  
> assim não se justificaria tamanha truculência.
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>
> Inevitavelmente, quem estava por perto foi tentar interferir. "Por  
> que vocês estão levando ele? O que foi que ele fez?". "Não te  
> interessa. Não se mete. Cuida da sua vida". "Como assim, não me  
> interessa? Fala o que ele fez!". Os GCM continuaram agredindo o  
> cara rendido e começaram a ameaçar quem estava em volta. Um rapaz  
> começou a fotografar a cena e um guarda foi para cima dele e ficou  
> tentando arrancar a câmera da sua mão. Ato contínuo, usou pimenta e  
> deu-lhe um chute na canela.
>
>
> E aí foi. Correria e porrada. Fiquei com medo de começar a voar  
> pedra, mas não vi nenhuma. É capaz que tenha tido, mas não vi.  
> Fiquei tentando acudir uma moça que não conseguia respirar, rezando  
> para não acontecer mais nada, quando vieram me dizer: "Os guardas  
> estão tirando a identificação do uniforme!". Céus, a coisa estava  
> feia e ia piorar. (cont.)
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> Escrito por Soninha às 13h39
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> Comentários ( 17)
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> Pós-guerra (2)
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> Aqui e ali, ânimos exaltados. Nos olhos de alguns guardas, homens e  
> mulheres, ÓDIO. Impressionante. Ai de quem chegasse perto. Pedir a  
> identificação, perguntar "cadê seu chefe, quem está no comando?"  
> recebia, em resposta, um olhar feroz, um rosnado, uma ameaça na  
> forma de cassetete erguido ou mão sobre o coldre do revólver. Um  
> rapaz ao meu lado observou, com uma calma surpreendente: "Eles vão  
> dizer que foi o rap. Começaram a confusão bem na hora do rap pra  
> dizer que o rap é que tem culpa".
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> O rap já tinha desistido... Subiu ao palco um cantor de reggae,  
> cantando um salmo. Mas o clima ainda era horrível. Eu não conseguia  
> entender: por que dar uma rasteira, derrubar alguém que está  
> tentando fugir do tumulto, dar várias cacetadas e sair?
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> Em um canto do praça, um homem sentado no chão chorava e esfregava  
> o braço: "Tá doendo!". Em volta dele, uma roda de GCM, isolando-o  
> como se fosse uma mina terrestre. Ele chorava, chorava, chorava.  
> Pedia pelo amor de deus. Me aproximei: "Vocês não vão chamar  
> socorro?". Faziam sinal para que eu me afastasse, ríspidos. Se eu  
> não fosse mulher, teria levado bordoada, certeza. "O que ele fez? O  
> que vocês estão esperando?". O homem gritava e um guarda aproximava  
> bem o rosto do dele, urrando: "CALA ESSA BOCA! CALA A BOCA,  
> CARALHO!". E ameaçava dar com o cassetete outra vez. Em um homem  
> sentado no chão, chorando de dor! Eu perguntava, mais calma do que  
> costumo ficar nessas horas: "Pra que isso?". Um guarda virava a  
> cara, envergonhado; outros faziam sinal para me afastar e não me  
> meter, com ar de ódio.
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> Acho que eles viram todos os filmes errados. Não assistiram aquelas  
> cenas de policiais frios, inabaláveis, com equilíbrio de mestre de  
> King Fu, lidando com desaforos, impropérios, cusparadas, como se  
> fossem de aço. Rendendo, imobilizando, prendendo no puro  
> cumprimento do dever, e não como se estivessem em uma briga de rua  
> e fossem de uma das gangues rivais.
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> Pareciam pitbulls, ou pitboys. Valentes? Covardes. Quatro ou cinco  
> contra um. Diante de uma pessoa exaltada, nervosa, reagiam com o  
> dobro da exaltação e nervosismo. O dever deles não seria justamente  
> o contrário? Protegidos, armados, fortes e treinados, como podem  
> agir com tanta raiva, tanto sangue nos olhos?
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> Nem vou descrever outras cenas, outras agressões. Houve mais alguns  
> ataques coletivos, descontrolados. Um inspetor presente, que não  
> era superior imediato daqueles guardas mas tentava organizar as  
> coisas ali, mal conseguia se fazer ouvir por eles. Um ou outro  
> guarda tentava serenar os ânimos, mas a maioria – é triste dizer,  
> mas era maioria – estava a fim de mesmo de descer o cacete.
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> Para concluir: uns quinze ou vinte minutos depois, finalmente  
> levantaram o homem que chorava. E...? Torciam o braço dele para  
> trás, com violência indescritível, para algemá-lo. CLARO que ele  
> resistia. Chorava, gritava, IMPLORAVA, mas eles juntaram dois ou  
> três para fazer o serviço e socá-lo para dentro de uma viatura.  
> Felizmente, consegui que alguém me respondesse: estavam levando  
> para o 1º. DP. Qual a acusação? Nenhuma resposta. Se quisesse, eu  
> que fosse ao Distrito acompanhar.
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> Fui. O delegado e os escrivães nos receberam muito bem. De  
> imediato, pediram para levar os feridos (eram 2) ao Pronto-Socorro.  
> Um deles tinha um talho na cabeça; segundo os guardas, ele tentou  
> fugir ao chegar ao DP e teve a idéia de jerico de dar com a própria  
> cabeça, com toda força, no vidro da viatura, que quebrou. Não  
> tentou chutar, morder ou cabecear um guarda; tentou furar a janela  
> com a testa... Segundo uma testemunha, deram com a cabeça dele no  
> vidro, isso sim.
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>
> No caminho do hospital, os GCM ameaçavam os rapazes; já no PS,  
> ficavam vigiando para ver o que os feridos iam dizer aos  
> enfermeiros. "Tomei uma pedrada", disse o do talho. Os guardas não  
> o desmentiram. Ele olhou bem para a moça que o atendia, que baixou  
> os olhos, compreensiva e temerosa.
>
>
> De volta ao distrito, os guardas contaram sua versão da ocorrência.  
> Mostraram um paralelepípedo como prova do que tinha acontecido na  
> praça. Um troço monstruoso, difícil até de levantar do chão. Talvez  
> tivesse sido arremessado por uma catapulta... Deram queixa por  
> incitação à violência, apologia ao crime, desacato. Disseram que  
> tinham sido agredidos com uma chuva de pedras e caixotes, e por  
> isso tinham reagido. Um deles esfregava o braço o tempo todo,  
> franzia a testa e fazia bico, como se estivesse doendo muito. (Mais  
> tarde, no IML, dava risada e dava de ombros...)
>
>
> Enfim, uma tristeza, uma tragédia. Porque não foi só um caso de  
> descontrole em um evento de rua; não foi só uma demonstração de  
> excesso motivado por despreparo. Foi uma exibição de ódio e  
> preconceito. (Na hora da confusão, um guarda dizia para os rappers,  
> ainda em cima do palco: "Depois um toma um tiro, aí vem a  
> mamãezinha chorar"; o homem do braço torcido ouviu de um guarda:  
> "Volta pra Bahia, desgraçado"; outro guarda disse para outra  
> pessoa: "É pra acabar com essa palhaçada de Natal").
>
>
> Quem tem esses sentimentos, essas reações, não tem a menor condição  
> de estar na rua. Se eu tenho de estar preparada para ser xingada,  
> que dirá um guarda? Ele tem de cumprir a lei. Se um sujeito atirou  
> uma pedra, tem de ser detido, fichado, processado... Não apanhar de  
> quatro ou cinco. Não se pode admitir espancamento por autoridade!
>
>
> E o homem do braço jura que não fez nada, só saiu correndo pra  
> fugir do tumulto. Por coincidência, ele aparece nos meus 8 segundos  
> de vídeo, quietinho, sozinho, vendo o show com um ar sorridente,  
> bem longe de onde começou a confusão. No chão da delegacia, ele  
> chorava, chorava, chorava. "Isso é Natal?".
>
>
> No dia 24 à noite, depois de serem fichados como "autor/vítima",  
> eles voltaram para seus albergues. Hoje devem estar por aí, catando  
> papelão. (Na hora em que o do braço foi levado pela viatura, veio  
> um outro correndo atrás de mim: "Ele trabalha, doutora! Eu conheço  
> ele lá do ferro-velho! É trabalhador, é gente de bem!"). Que Natal...
>
>
> Preocupo-me seriamente com os guardas. Que sejam afastados das  
> ruas; que será deles? Não podem lidar com gente. Não podem ter  
> cassetete, pimenta, revólver. Para onde iriam? Se forem exonerados,  
> que farão por aí essas pessoas? Que trabalho serve para quem tem  
> tanto ódio? Na direção de um ônibus, jogariam o carro para cima do  
> pedestre, como o doido que, meses atrás, passou por cima de um  
> velhinho na Brasilândia, praticamente de propósito. Em vez de  
> reduzir para o velhinho terminar de atravessar, acelerou. Matou.
>
>
> Tem muito doido nessa cidade. São Paulo precisa de paz, de saúde  
> mental. Antes que eu me desespere outra vez, ou me desespere da  
> vez, lembro de Berlim. Da barbaridade da guerra, da barbaridade do  
> muro. Passou. Ainda deve estar cheio de doido por lá (claro que  
> está), mas a maioria vive e circula em paz. E nem faz tanto tempo  
> assim que era tudo horror e ruína.
>
>
> Em 2008, que estejamos mais próximos da Berlim de hoje e mais  
> distantes dos escombros, trincheiras e muros de uma cidade em pé de  
> guerra. Paz, São Paulo, paz.
>
> Escrito por Soninha às 13h39




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