[Cmi-brasil-editorial] [leitura] Pós-guerra
alface
eric_v em riseup.net
Sábado Janeiro 5 18:16:06 PST 2008
Este texto, que a Grazi mandou para leitura, me faz pensar sobre as nossas
deficiencias como cmi-sp. Para quem não é de sampa, o texto é de Soninha,
uma vereadora que já foi do pt e agora não sei bem em que partido está e
pelo que entendi quer se candidatar pra virar prefeita. Política bem local
que não nos tange. A questão aqui é que no ano passado tivemos como cmi um
papel muito importante na divulgação do ocorrido e na organização do ato
depois, no dia 19/01 e que ainda deu numa manifestação bem bacana logo no
dia 25, dia de aniversário de sampa.
Este ano a guarda civil metropolitana GCM fez o que prometeu, se vingou.
Eu não estive presente, fui ajudar uma amiga levar uma geladeira pro
litoral. Mas ainda pretendo propor um editorial sobre o ocorrido, espero
com a ajuda da Grazi e os demais do CMI que estão na lista do fórum centro
vivo FCV, onde rolou a informação.
Brjs, Eric
>> 27/12/2007
>>
>> Pós-guerra
>> "Desce daí, sua vagabunda! Filha-da-puta!"
>>
>>
>> Eu já estive em um número suficiente de shows de rock, em cima do
>> palco ou diante dele, e de partidas de futebol, para me abalar com
>> xingamento. Ou coisa pior: em um Skol Rock, levei um copo amassado
>> na testa (bem achatadinho, parecia uma estrela ninja, com grande
>> aerodinâmica). Não, aquele público não tinha nada contra
>> apresentadores da MTV, mas era minha 12ª. entrada no palco. Nas
>> onze anteriores, tinha anunciando as bandas novatas que eram as
>> finalistas do festival, mas os milhares de pessoas presentes
>> estavam ali para ver as duas últimas, Bad Religion e Offspring, e
>> não agüentavam mais olhar para a minha cara...
>>
>>
>> Em eventos de outro tipo, alguns personagens podem sempre esperar
>> recepção pouco calorosa: políticos, polícia, repórteres da Globo...
>> Às vezes a bronca é pessoal, mas é comum tomar uma vaia em nome da
>> instituição; o desaforo se dirige a pessoas jurídicas, seja lá quem
>> for a pessoa física diante do microfone.
>>
>>
>> O sujeito à minha frente não sabia quem eu era, mas não queria me
>> ver ali. Queria os shows de música. Ele e mais uns três ou quatro,
>> embriagados pelo álcool, pela natureza ou a vida dos últimos anos.
>> São do povo "de rua". "Você não é a prefeita? Então arruma um
>> trabalho pra mim", gritava e gesticulava um deles, como se
>> estivesse travando uma luta de boxe com o vento. Sorri: "Eu não sou
>> prefeita. Sou vereadora". Ficou confuso como se tivesse levado um
>> direto no queixo. Abaixou os braços e sorriu torto. Parecia o
>> soldado de um episódio do Asterix (acho que é "O Escudo Arverno"),
>> tentando gritar "Viva Vercingetórix!".
>>
>>
>> Enfim, não liguei. OK, eles odeiam políticos e discursos. Quem há
>> de condená-los por isso? Mas outros faziam questão da minha
>> presença e da fala, ouviram com respeito, gostam de ser merecedores
>> de atenção. Era o Natal Solidário, festa da população de rua que
>> acontece todo 24 de dezembro em alguma praça pública. Em 2007, foi
>> na Sé. Monta-se um palco, há apresentações de artistas diversos –
>> quase todos, gente "da rua" como eles – e distribuição de lanches e
>> brinquedos para as crianças.
>>
>>
>> A alegria simples daquelas pessoas é de cortar o coração. Momentos
>> antes, havia se apresentado um cover do Raul Seixas (dublando).
>> Incrível, incrível mesmo ver a quantidade de letras que o público
>> sabia de cor. Cantavam junto, interpretavam a letra com mímica,
>> vibravam. Sujos, maltrapilhos, desdentados, descalços, emocionados
>> e felizes.
>>
>>
>> Se bem que muitos, muitos mesmo, não manifestam emoção nenhuma.
>> Ficam quietos olhando.
>>
>>
>> Estava indo tudo muito bem; o rapaz da organização a toda hora
>> agradecia "à Prefeitura de São Paulo, a Guarda Civil Metropolitana,
>> à Polícia Militar do Estado de São Paulo". Ano passado, tivemos
>> problemas com a GCM; este ano, os guardas observavam tudo
>> tranqüilos, solícitos.
>>
>>
>> Até que começou o rap.
>>
>>
>> Estava tudo tão calmo que eu já estava indo embora, deixando o
>> pessoal curtir a festa. Só não fui para prestigiar o grupo e ver ao
>> menos uma música. Fiquei feliz por ter ficado – o público reagiu
>> super bem. Os mais animados pulavam, punham as mãos para cima,
>> atentos à rima e aos movimentos dos MCs. Estava tão bacana que
>> comecei a gravar um vídeo com minha câmera fotográfica, mas a
>> memória não deu nem para o cheiro. Em 8 segundos, mal começada a
>> panorâmica pela praça, não havia mais "espaço no memory stick". Que
>> pena.
>>
>>
>> Mal sabia eu que o "espaço" faria falta não para mostrar a paz, mas
>> a guerra.
>>
>>
>> Antes que eu percebesse que havia alguma coisa errada, o grupo
>> interrompeu a apresentação: "Nós vamos dar um tempo porque os
>> ânimos ali estão agitados. Calma, gente". No lado oposto ao que eu
>> estava, uma pequena aglomeração. "Xi, devem estar brigando". Não
>> dava para ver nada, exceto o bolo de gente olhando alguma coisa.
>>
>>
>> O Papai Noel da festa – o Tião, figuraça, ex-morador de rua, autor
>> de livro e peça de teatro – pegou o microfone e parecia um dalai
>> lama: "Povo de rua, vem pra cá. Tumultua não. Venham aqui pra
>> frente do palco. GCM: calma. Não precisa se exaltar. Afasta,
>> pessoal. Calma, GCM". Eu não enxergava nada, mas fiquei morrendo de
>> medo de como a GCM iria reagir (e nem sabia reagir a que, porque
>> não vi nada acontecendo!). O Tião continuava falando pausadamente,
>> com cuidado para não insuflar ninguém. Até para a polícia ele
>> chegou a pedir ajuda para serenar os ânimos.
>>
>>
>> Não adiantou. A cena seguinte foi aterrorizante: guardas tacando
>> spray de pimenta na cara das pessoas e sacando os cassetetes (ainda
>> bem que não foram os revólveres!) e dando, dando, dando com fé em
>> quem estivesse na frente. Brandindo o cassetete como uma batuta de
>> maestro, pra tudo quanto é lado. Logo o bolo de gente se desfez em
>> correria – gente passando mal, vomitando, desesperada tentando
>> respirar. E guardas correndo atrás de quem estivesse correndo
>> também, dando cacetada nas costas, passando rasteira, chutando e
>> batendo em gente caída.
>>
>>
>> Foi horrível. Não vi o começo da coisa, mas o que me contaram foi o
>> seguinte: três guardas foram para cima de um cara que estava de
>> costas para eles, dominaram, jogaram no chão e tentaram algemar e
>> levar embora. Não disseram o que ele tinha feito. Ninguém que
>> estava por perto viu qualquer atitude errada por parte dele. A ação
>> foi bem violenta; a atitude deveria ter sido muito grave, e mesmo
>> assim não se justificaria tamanha truculência.
>>
>>
>> Inevitavelmente, quem estava por perto foi tentar interferir. "Por
>> que vocês estão levando ele? O que foi que ele fez?". "Não te
>> interessa. Não se mete. Cuida da sua vida". "Como assim, não me
>> interessa? Fala o que ele fez!". Os GCM continuaram agredindo o
>> cara rendido e começaram a ameaçar quem estava em volta. Um rapaz
>> começou a fotografar a cena e um guarda foi para cima dele e ficou
>> tentando arrancar a câmera da sua mão. Ato contínuo, usou pimenta e
>> deu-lhe um chute na canela.
>>
>>
>> E aí foi. Correria e porrada. Fiquei com medo de começar a voar
>> pedra, mas não vi nenhuma. É capaz que tenha tido, mas não vi.
>> Fiquei tentando acudir uma moça que não conseguia respirar, rezando
>> para não acontecer mais nada, quando vieram me dizer: "Os guardas
>> estão tirando a identificação do uniforme!". Céus, a coisa estava
>> feia e ia piorar. (cont.)
>>
>> Escrito por Soninha às 13h39
>>
>> Comentários ( 17)
>>
>> Pós-guerra (2)
>>
>>
>> Aqui e ali, ânimos exaltados. Nos olhos de alguns guardas, homens e
>> mulheres, ÓDIO. Impressionante. Ai de quem chegasse perto. Pedir a
>> identificação, perguntar "cadê seu chefe, quem está no comando?"
>> recebia, em resposta, um olhar feroz, um rosnado, uma ameaça na
>> forma de cassetete erguido ou mão sobre o coldre do revólver. Um
>> rapaz ao meu lado observou, com uma calma surpreendente: "Eles vão
>> dizer que foi o rap. Começaram a confusão bem na hora do rap pra
>> dizer que o rap é que tem culpa".
>>
>> O rap já tinha desistido... Subiu ao palco um cantor de reggae,
>> cantando um salmo. Mas o clima ainda era horrível. Eu não conseguia
>> entender: por que dar uma rasteira, derrubar alguém que está
>> tentando fugir do tumulto, dar várias cacetadas e sair?
>>
>>
>> Em um canto do praça, um homem sentado no chão chorava e esfregava
>> o braço: "Tá doendo!". Em volta dele, uma roda de GCM, isolando-o
>> como se fosse uma mina terrestre. Ele chorava, chorava, chorava.
>> Pedia pelo amor de deus. Me aproximei: "Vocês não vão chamar
>> socorro?". Faziam sinal para que eu me afastasse, ríspidos. Se eu
>> não fosse mulher, teria levado bordoada, certeza. "O que ele fez? O
>> que vocês estão esperando?". O homem gritava e um guarda aproximava
>> bem o rosto do dele, urrando: "CALA ESSA BOCA! CALA A BOCA,
>> CARALHO!". E ameaçava dar com o cassetete outra vez. Em um homem
>> sentado no chão, chorando de dor! Eu perguntava, mais calma do que
>> costumo ficar nessas horas: "Pra que isso?". Um guarda virava a
>> cara, envergonhado; outros faziam sinal para me afastar e não me
>> meter, com ar de ódio.
>>
>>
>> Acho que eles viram todos os filmes errados. Não assistiram aquelas
>> cenas de policiais frios, inabaláveis, com equilíbrio de mestre de
>> King Fu, lidando com desaforos, impropérios, cusparadas, como se
>> fossem de aço. Rendendo, imobilizando, prendendo no puro
>> cumprimento do dever, e não como se estivessem em uma briga de rua
>> e fossem de uma das gangues rivais.
>>
>>
>> Pareciam pitbulls, ou pitboys. Valentes? Covardes. Quatro ou cinco
>> contra um. Diante de uma pessoa exaltada, nervosa, reagiam com o
>> dobro da exaltação e nervosismo. O dever deles não seria justamente
>> o contrário? Protegidos, armados, fortes e treinados, como podem
>> agir com tanta raiva, tanto sangue nos olhos?
>>
>>
>> Nem vou descrever outras cenas, outras agressões. Houve mais alguns
>> ataques coletivos, descontrolados. Um inspetor presente, que não
>> era superior imediato daqueles guardas mas tentava organizar as
>> coisas ali, mal conseguia se fazer ouvir por eles. Um ou outro
>> guarda tentava serenar os ânimos, mas a maioria – é triste dizer,
>> mas era maioria – estava a fim de mesmo de descer o cacete.
>>
>>
>> Para concluir: uns quinze ou vinte minutos depois, finalmente
>> levantaram o homem que chorava. E...? Torciam o braço dele para
>> trás, com violência indescritível, para algemá-lo. CLARO que ele
>> resistia. Chorava, gritava, IMPLORAVA, mas eles juntaram dois ou
>> três para fazer o serviço e socá-lo para dentro de uma viatura.
>> Felizmente, consegui que alguém me respondesse: estavam levando
>> para o 1º. DP. Qual a acusação? Nenhuma resposta. Se quisesse, eu
>> que fosse ao Distrito acompanhar.
>>
>>
>> Fui. O delegado e os escrivães nos receberam muito bem. De
>> imediato, pediram para levar os feridos (eram 2) ao Pronto-Socorro.
>> Um deles tinha um talho na cabeça; segundo os guardas, ele tentou
>> fugir ao chegar ao DP e teve a idéia de jerico de dar com a própria
>> cabeça, com toda força, no vidro da viatura, que quebrou. Não
>> tentou chutar, morder ou cabecear um guarda; tentou furar a janela
>> com a testa... Segundo uma testemunha, deram com a cabeça dele no
>> vidro, isso sim.
>>
>>
>> No caminho do hospital, os GCM ameaçavam os rapazes; já no PS,
>> ficavam vigiando para ver o que os feridos iam dizer aos
>> enfermeiros. "Tomei uma pedrada", disse o do talho. Os guardas não
>> o desmentiram. Ele olhou bem para a moça que o atendia, que baixou
>> os olhos, compreensiva e temerosa.
>>
>>
>> De volta ao distrito, os guardas contaram sua versão da ocorrência.
>> Mostraram um paralelepípedo como prova do que tinha acontecido na
>> praça. Um troço monstruoso, difícil até de levantar do chão. Talvez
>> tivesse sido arremessado por uma catapulta... Deram queixa por
>> incitação à violência, apologia ao crime, desacato. Disseram que
>> tinham sido agredidos com uma chuva de pedras e caixotes, e por
>> isso tinham reagido. Um deles esfregava o braço o tempo todo,
>> franzia a testa e fazia bico, como se estivesse doendo muito. (Mais
>> tarde, no IML, dava risada e dava de ombros...)
>>
>>
>> Enfim, uma tristeza, uma tragédia. Porque não foi só um caso de
>> descontrole em um evento de rua; não foi só uma demonstração de
>> excesso motivado por despreparo. Foi uma exibição de ódio e
>> preconceito. (Na hora da confusão, um guarda dizia para os rappers,
>> ainda em cima do palco: "Depois um toma um tiro, aí vem a
>> mamãezinha chorar"; o homem do braço torcido ouviu de um guarda:
>> "Volta pra Bahia, desgraçado"; outro guarda disse para outra
>> pessoa: "É pra acabar com essa palhaçada de Natal").
>>
>>
>> Quem tem esses sentimentos, essas reações, não tem a menor condição
>> de estar na rua. Se eu tenho de estar preparada para ser xingada,
>> que dirá um guarda? Ele tem de cumprir a lei. Se um sujeito atirou
>> uma pedra, tem de ser detido, fichado, processado... Não apanhar de
>> quatro ou cinco. Não se pode admitir espancamento por autoridade!
>>
>>
>> E o homem do braço jura que não fez nada, só saiu correndo pra
>> fugir do tumulto. Por coincidência, ele aparece nos meus 8 segundos
>> de vídeo, quietinho, sozinho, vendo o show com um ar sorridente,
>> bem longe de onde começou a confusão. No chão da delegacia, ele
>> chorava, chorava, chorava. "Isso é Natal?".
>>
>>
>> No dia 24 à noite, depois de serem fichados como "autor/vítima",
>> eles voltaram para seus albergues. Hoje devem estar por aí, catando
>> papelão. (Na hora em que o do braço foi levado pela viatura, veio
>> um outro correndo atrás de mim: "Ele trabalha, doutora! Eu conheço
>> ele lá do ferro-velho! É trabalhador, é gente de bem!"). Que Natal...
>>
>>
>> Preocupo-me seriamente com os guardas. Que sejam afastados das
>> ruas; que será deles? Não podem lidar com gente. Não podem ter
>> cassetete, pimenta, revólver. Para onde iriam? Se forem exonerados,
>> que farão por aí essas pessoas? Que trabalho serve para quem tem
>> tanto ódio? Na direção de um ônibus, jogariam o carro para cima do
>> pedestre, como o doido que, meses atrás, passou por cima de um
>> velhinho na Brasilândia, praticamente de propósito. Em vez de
>> reduzir para o velhinho terminar de atravessar, acelerou. Matou.
>>
>>
>> Tem muito doido nessa cidade. São Paulo precisa de paz, de saúde
>> mental. Antes que eu me desespere outra vez, ou me desespere da
>> vez, lembro de Berlim. Da barbaridade da guerra, da barbaridade do
>> muro. Passou. Ainda deve estar cheio de doido por lá (claro que
>> está), mas a maioria vive e circula em paz. E nem faz tanto tempo
>> assim que era tudo horror e ruína.
>>
>>
>> Em 2008, que estejamos mais próximos da Berlim de hoje e mais
>> distantes dos escombros, trincheiras e muros de uma cidade em pé de
>> guerra. Paz, São Paulo, paz.
>>
>> Escrito por Soninha às 13h39
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