[Cmi-brasil-editorial] [leitura] Pós-guerra
alface
eric_v em riseup.net
Sábado Janeiro 5 19:54:53 PST 2008
Pra começar, publiquei o texto
http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2008/01/407619.shtml
> Este texto, que a Grazi mandou para leitura, me faz pensar sobre as nossas
> deficiencias como cmi-sp. Para quem não é de sampa, o texto é de Soninha,
> uma vereadora que já foi do pt e agora não sei bem em que partido está e
> pelo que entendi quer se candidatar pra virar prefeita. Política bem local
> que não nos tange. A questão aqui é que no ano passado tivemos como cmi um
> papel muito importante na divulgação do ocorrido e na organização do ato
> depois, no dia 19/01 e que ainda deu numa manifestação bem bacana logo no
> dia 25, dia de aniversário de sampa.
>
> Este ano a guarda civil metropolitana GCM fez o que prometeu, se vingou.
> Eu não estive presente, fui ajudar uma amiga levar uma geladeira pro
> litoral. Mas ainda pretendo propor um editorial sobre o ocorrido, espero
> com a ajuda da Grazi e os demais do CMI que estão na lista do fórum centro
> vivo FCV, onde rolou a informação.
>
> Brjs, Eric
>
>>> 27/12/2007
>>>
>>> Pós-guerra
>>> "Desce daí, sua vagabunda! Filha-da-puta!"
>>>
>>>
>>> Eu já estive em um número suficiente de shows de rock, em cima do
>>> palco ou diante dele, e de partidas de futebol, para me abalar com
>>> xingamento. Ou coisa pior: em um Skol Rock, levei um copo amassado
>>> na testa (bem achatadinho, parecia uma estrela ninja, com grande
>>> aerodinâmica). Não, aquele público não tinha nada contra
>>> apresentadores da MTV, mas era minha 12ª. entrada no palco. Nas
>>> onze anteriores, tinha anunciando as bandas novatas que eram as
>>> finalistas do festival, mas os milhares de pessoas presentes
>>> estavam ali para ver as duas últimas, Bad Religion e Offspring, e
>>> não agüentavam mais olhar para a minha cara...
>>>
>>>
>>> Em eventos de outro tipo, alguns personagens podem sempre esperar
>>> recepção pouco calorosa: políticos, polícia, repórteres da Globo...
>>> Às vezes a bronca é pessoal, mas é comum tomar uma vaia em nome da
>>> instituição; o desaforo se dirige a pessoas jurídicas, seja lá quem
>>> for a pessoa física diante do microfone.
>>>
>>>
>>> O sujeito à minha frente não sabia quem eu era, mas não queria me
>>> ver ali. Queria os shows de música. Ele e mais uns três ou quatro,
>>> embriagados pelo álcool, pela natureza ou a vida dos últimos anos.
>>> São do povo "de rua". "Você não é a prefeita? Então arruma um
>>> trabalho pra mim", gritava e gesticulava um deles, como se
>>> estivesse travando uma luta de boxe com o vento. Sorri: "Eu não sou
>>> prefeita. Sou vereadora". Ficou confuso como se tivesse levado um
>>> direto no queixo. Abaixou os braços e sorriu torto. Parecia o
>>> soldado de um episódio do Asterix (acho que é "O Escudo Arverno"),
>>> tentando gritar "Viva Vercingetórix!".
>>>
>>>
>>> Enfim, não liguei. OK, eles odeiam políticos e discursos. Quem há
>>> de condená-los por isso? Mas outros faziam questão da minha
>>> presença e da fala, ouviram com respeito, gostam de ser merecedores
>>> de atenção. Era o Natal Solidário, festa da população de rua que
>>> acontece todo 24 de dezembro em alguma praça pública. Em 2007, foi
>>> na Sé. Monta-se um palco, há apresentações de artistas diversos –
>>> quase todos, gente "da rua" como eles – e distribuição de lanches e
>>> brinquedos para as crianças.
>>>
>>>
>>> A alegria simples daquelas pessoas é de cortar o coração. Momentos
>>> antes, havia se apresentado um cover do Raul Seixas (dublando).
>>> Incrível, incrível mesmo ver a quantidade de letras que o público
>>> sabia de cor. Cantavam junto, interpretavam a letra com mímica,
>>> vibravam. Sujos, maltrapilhos, desdentados, descalços, emocionados
>>> e felizes.
>>>
>>>
>>> Se bem que muitos, muitos mesmo, não manifestam emoção nenhuma.
>>> Ficam quietos olhando.
>>>
>>>
>>> Estava indo tudo muito bem; o rapaz da organização a toda hora
>>> agradecia "à Prefeitura de São Paulo, a Guarda Civil Metropolitana,
>>> à Polícia Militar do Estado de São Paulo". Ano passado, tivemos
>>> problemas com a GCM; este ano, os guardas observavam tudo
>>> tranqüilos, solícitos.
>>>
>>>
>>> Até que começou o rap.
>>>
>>>
>>> Estava tudo tão calmo que eu já estava indo embora, deixando o
>>> pessoal curtir a festa. Só não fui para prestigiar o grupo e ver ao
>>> menos uma música. Fiquei feliz por ter ficado – o público reagiu
>>> super bem. Os mais animados pulavam, punham as mãos para cima,
>>> atentos à rima e aos movimentos dos MCs. Estava tão bacana que
>>> comecei a gravar um vídeo com minha câmera fotográfica, mas a
>>> memória não deu nem para o cheiro. Em 8 segundos, mal começada a
>>> panorâmica pela praça, não havia mais "espaço no memory stick". Que
>>> pena.
>>>
>>>
>>> Mal sabia eu que o "espaço" faria falta não para mostrar a paz, mas
>>> a guerra.
>>>
>>>
>>> Antes que eu percebesse que havia alguma coisa errada, o grupo
>>> interrompeu a apresentação: "Nós vamos dar um tempo porque os
>>> ânimos ali estão agitados. Calma, gente". No lado oposto ao que eu
>>> estava, uma pequena aglomeração. "Xi, devem estar brigando". Não
>>> dava para ver nada, exceto o bolo de gente olhando alguma coisa.
>>>
>>>
>>> O Papai Noel da festa – o Tião, figuraça, ex-morador de rua, autor
>>> de livro e peça de teatro – pegou o microfone e parecia um dalai
>>> lama: "Povo de rua, vem pra cá. Tumultua não. Venham aqui pra
>>> frente do palco. GCM: calma. Não precisa se exaltar. Afasta,
>>> pessoal. Calma, GCM". Eu não enxergava nada, mas fiquei morrendo de
>>> medo de como a GCM iria reagir (e nem sabia reagir a que, porque
>>> não vi nada acontecendo!). O Tião continuava falando pausadamente,
>>> com cuidado para não insuflar ninguém. Até para a polícia ele
>>> chegou a pedir ajuda para serenar os ânimos.
>>>
>>>
>>> Não adiantou. A cena seguinte foi aterrorizante: guardas tacando
>>> spray de pimenta na cara das pessoas e sacando os cassetetes (ainda
>>> bem que não foram os revólveres!) e dando, dando, dando com fé em
>>> quem estivesse na frente. Brandindo o cassetete como uma batuta de
>>> maestro, pra tudo quanto é lado. Logo o bolo de gente se desfez em
>>> correria – gente passando mal, vomitando, desesperada tentando
>>> respirar. E guardas correndo atrás de quem estivesse correndo
>>> também, dando cacetada nas costas, passando rasteira, chutando e
>>> batendo em gente caída.
>>>
>>>
>>> Foi horrível. Não vi o começo da coisa, mas o que me contaram foi o
>>> seguinte: três guardas foram para cima de um cara que estava de
>>> costas para eles, dominaram, jogaram no chão e tentaram algemar e
>>> levar embora. Não disseram o que ele tinha feito. Ninguém que
>>> estava por perto viu qualquer atitude errada por parte dele. A ação
>>> foi bem violenta; a atitude deveria ter sido muito grave, e mesmo
>>> assim não se justificaria tamanha truculência.
>>>
>>>
>>> Inevitavelmente, quem estava por perto foi tentar interferir. "Por
>>> que vocês estão levando ele? O que foi que ele fez?". "Não te
>>> interessa. Não se mete. Cuida da sua vida". "Como assim, não me
>>> interessa? Fala o que ele fez!". Os GCM continuaram agredindo o
>>> cara rendido e começaram a ameaçar quem estava em volta. Um rapaz
>>> começou a fotografar a cena e um guarda foi para cima dele e ficou
>>> tentando arrancar a câmera da sua mão. Ato contínuo, usou pimenta e
>>> deu-lhe um chute na canela.
>>>
>>>
>>> E aí foi. Correria e porrada. Fiquei com medo de começar a voar
>>> pedra, mas não vi nenhuma. É capaz que tenha tido, mas não vi.
>>> Fiquei tentando acudir uma moça que não conseguia respirar, rezando
>>> para não acontecer mais nada, quando vieram me dizer: "Os guardas
>>> estão tirando a identificação do uniforme!". Céus, a coisa estava
>>> feia e ia piorar. (cont.)
>>>
>>> Escrito por Soninha às 13h39
>>>
>>> Comentários ( 17)
>>>
>>> Pós-guerra (2)
>>>
>>>
>>> Aqui e ali, ânimos exaltados. Nos olhos de alguns guardas, homens e
>>> mulheres, ÓDIO. Impressionante. Ai de quem chegasse perto. Pedir a
>>> identificação, perguntar "cadê seu chefe, quem está no comando?"
>>> recebia, em resposta, um olhar feroz, um rosnado, uma ameaça na
>>> forma de cassetete erguido ou mão sobre o coldre do revólver. Um
>>> rapaz ao meu lado observou, com uma calma surpreendente: "Eles vão
>>> dizer que foi o rap. Começaram a confusão bem na hora do rap pra
>>> dizer que o rap é que tem culpa".
>>>
>>> O rap já tinha desistido... Subiu ao palco um cantor de reggae,
>>> cantando um salmo. Mas o clima ainda era horrível. Eu não conseguia
>>> entender: por que dar uma rasteira, derrubar alguém que está
>>> tentando fugir do tumulto, dar várias cacetadas e sair?
>>>
>>>
>>> Em um canto do praça, um homem sentado no chão chorava e esfregava
>>> o braço: "Tá doendo!". Em volta dele, uma roda de GCM, isolando-o
>>> como se fosse uma mina terrestre. Ele chorava, chorava, chorava.
>>> Pedia pelo amor de deus. Me aproximei: "Vocês não vão chamar
>>> socorro?". Faziam sinal para que eu me afastasse, ríspidos. Se eu
>>> não fosse mulher, teria levado bordoada, certeza. "O que ele fez? O
>>> que vocês estão esperando?". O homem gritava e um guarda aproximava
>>> bem o rosto do dele, urrando: "CALA ESSA BOCA! CALA A BOCA,
>>> CARALHO!". E ameaçava dar com o cassetete outra vez. Em um homem
>>> sentado no chão, chorando de dor! Eu perguntava, mais calma do que
>>> costumo ficar nessas horas: "Pra que isso?". Um guarda virava a
>>> cara, envergonhado; outros faziam sinal para me afastar e não me
>>> meter, com ar de ódio.
>>>
>>>
>>> Acho que eles viram todos os filmes errados. Não assistiram aquelas
>>> cenas de policiais frios, inabaláveis, com equilíbrio de mestre de
>>> King Fu, lidando com desaforos, impropérios, cusparadas, como se
>>> fossem de aço. Rendendo, imobilizando, prendendo no puro
>>> cumprimento do dever, e não como se estivessem em uma briga de rua
>>> e fossem de uma das gangues rivais.
>>>
>>>
>>> Pareciam pitbulls, ou pitboys. Valentes? Covardes. Quatro ou cinco
>>> contra um. Diante de uma pessoa exaltada, nervosa, reagiam com o
>>> dobro da exaltação e nervosismo. O dever deles não seria justamente
>>> o contrário? Protegidos, armados, fortes e treinados, como podem
>>> agir com tanta raiva, tanto sangue nos olhos?
>>>
>>>
>>> Nem vou descrever outras cenas, outras agressões. Houve mais alguns
>>> ataques coletivos, descontrolados. Um inspetor presente, que não
>>> era superior imediato daqueles guardas mas tentava organizar as
>>> coisas ali, mal conseguia se fazer ouvir por eles. Um ou outro
>>> guarda tentava serenar os ânimos, mas a maioria – é triste dizer,
>>> mas era maioria – estava a fim de mesmo de descer o cacete.
>>>
>>>
>>> Para concluir: uns quinze ou vinte minutos depois, finalmente
>>> levantaram o homem que chorava. E...? Torciam o braço dele para
>>> trás, com violência indescritível, para algemá-lo. CLARO que ele
>>> resistia. Chorava, gritava, IMPLORAVA, mas eles juntaram dois ou
>>> três para fazer o serviço e socá-lo para dentro de uma viatura.
>>> Felizmente, consegui que alguém me respondesse: estavam levando
>>> para o 1º. DP. Qual a acusação? Nenhuma resposta. Se quisesse, eu
>>> que fosse ao Distrito acompanhar.
>>>
>>>
>>> Fui. O delegado e os escrivães nos receberam muito bem. De
>>> imediato, pediram para levar os feridos (eram 2) ao Pronto-Socorro.
>>> Um deles tinha um talho na cabeça; segundo os guardas, ele tentou
>>> fugir ao chegar ao DP e teve a idéia de jerico de dar com a própria
>>> cabeça, com toda força, no vidro da viatura, que quebrou. Não
>>> tentou chutar, morder ou cabecear um guarda; tentou furar a janela
>>> com a testa... Segundo uma testemunha, deram com a cabeça dele no
>>> vidro, isso sim.
>>>
>>>
>>> No caminho do hospital, os GCM ameaçavam os rapazes; já no PS,
>>> ficavam vigiando para ver o que os feridos iam dizer aos
>>> enfermeiros. "Tomei uma pedrada", disse o do talho. Os guardas não
>>> o desmentiram. Ele olhou bem para a moça que o atendia, que baixou
>>> os olhos, compreensiva e temerosa.
>>>
>>>
>>> De volta ao distrito, os guardas contaram sua versão da ocorrência.
>>> Mostraram um paralelepípedo como prova do que tinha acontecido na
>>> praça. Um troço monstruoso, difícil até de levantar do chão. Talvez
>>> tivesse sido arremessado por uma catapulta... Deram queixa por
>>> incitação à violência, apologia ao crime, desacato. Disseram que
>>> tinham sido agredidos com uma chuva de pedras e caixotes, e por
>>> isso tinham reagido. Um deles esfregava o braço o tempo todo,
>>> franzia a testa e fazia bico, como se estivesse doendo muito. (Mais
>>> tarde, no IML, dava risada e dava de ombros...)
>>>
>>>
>>> Enfim, uma tristeza, uma tragédia. Porque não foi só um caso de
>>> descontrole em um evento de rua; não foi só uma demonstração de
>>> excesso motivado por despreparo. Foi uma exibição de ódio e
>>> preconceito. (Na hora da confusão, um guarda dizia para os rappers,
>>> ainda em cima do palco: "Depois um toma um tiro, aí vem a
>>> mamãezinha chorar"; o homem do braço torcido ouviu de um guarda:
>>> "Volta pra Bahia, desgraçado"; outro guarda disse para outra
>>> pessoa: "É pra acabar com essa palhaçada de Natal").
>>>
>>>
>>> Quem tem esses sentimentos, essas reações, não tem a menor condição
>>> de estar na rua. Se eu tenho de estar preparada para ser xingada,
>>> que dirá um guarda? Ele tem de cumprir a lei. Se um sujeito atirou
>>> uma pedra, tem de ser detido, fichado, processado... Não apanhar de
>>> quatro ou cinco. Não se pode admitir espancamento por autoridade!
>>>
>>>
>>> E o homem do braço jura que não fez nada, só saiu correndo pra
>>> fugir do tumulto. Por coincidência, ele aparece nos meus 8 segundos
>>> de vídeo, quietinho, sozinho, vendo o show com um ar sorridente,
>>> bem longe de onde começou a confusão. No chão da delegacia, ele
>>> chorava, chorava, chorava. "Isso é Natal?".
>>>
>>>
>>> No dia 24 à noite, depois de serem fichados como "autor/vítima",
>>> eles voltaram para seus albergues. Hoje devem estar por aí, catando
>>> papelão. (Na hora em que o do braço foi levado pela viatura, veio
>>> um outro correndo atrás de mim: "Ele trabalha, doutora! Eu conheço
>>> ele lá do ferro-velho! É trabalhador, é gente de bem!"). Que Natal...
>>>
>>>
>>> Preocupo-me seriamente com os guardas. Que sejam afastados das
>>> ruas; que será deles? Não podem lidar com gente. Não podem ter
>>> cassetete, pimenta, revólver. Para onde iriam? Se forem exonerados,
>>> que farão por aí essas pessoas? Que trabalho serve para quem tem
>>> tanto ódio? Na direção de um ônibus, jogariam o carro para cima do
>>> pedestre, como o doido que, meses atrás, passou por cima de um
>>> velhinho na Brasilândia, praticamente de propósito. Em vez de
>>> reduzir para o velhinho terminar de atravessar, acelerou. Matou.
>>>
>>>
>>> Tem muito doido nessa cidade. São Paulo precisa de paz, de saúde
>>> mental. Antes que eu me desespere outra vez, ou me desespere da
>>> vez, lembro de Berlim. Da barbaridade da guerra, da barbaridade do
>>> muro. Passou. Ainda deve estar cheio de doido por lá (claro que
>>> está), mas a maioria vive e circula em paz. E nem faz tanto tempo
>>> assim que era tudo horror e ruína.
>>>
>>>
>>> Em 2008, que estejamos mais próximos da Berlim de hoje e mais
>>> distantes dos escombros, trincheiras e muros de uma cidade em pé de
>>> guerra. Paz, São Paulo, paz.
>>>
>>> Escrito por Soninha às 13h39
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