[Cmi-brasil-editorial] Proposta - Declaração dos participantes da I Pedalada Pelada de São Paulo
alface
eric_v em riseup.net
Quinta Junho 19 16:22:37 PDT 2008
Pessoal,
É a 'nota oficial' do pessoal - pra mim vai assim mesmo.
Quebra depois do terceiro parágrafo. Fotos tem montes: Flecha tem sugestão?
Brjs, Alface
Date: 2008/6/19
Transporte / liberdade de expressão
Declaração dos participantes da I Pedalada Pelada de São Paulo
Motivações
A I Pedalada Pelada de São Paulo, ou World Naked Bike Ride (WNBR), ocorreu
no dia 14 de junho de 2008. Esta foi a primeira edição do evento realizada
no Brasil, nos mesmos moldes das ações que acontecem em diversas cidades
do mundo com o apoio da população em geral e do poder público.
Nus é como nos sentimos por ter que disputar espaço nas ruas de São Paulo,
em meio à violência gerada pelo stress dos motoristas parados em
congestionamentos, confinados em máquinas poluentes de vidros escuros.
Diariamente essa situação coloca em risco a vida de ciclistas, de
pedestres e até de outros motoristas.
Pelados, os ciclistas pretendem chamar a atenção para a exposição
indecente à poluição dos carros, para a morte dos espaços públicos tomados
por esses veículos e principalmente, para sua fragilidade diante das
poderosas máquinas motorizadas, muitas vezes guiadas por pessoas
agressivas que não respeitam a bicicleta como o veículo que é, previsto no
artigo 96 do Código de Trânsito Brasileiro.
Continuação
Nota: para ver notícias, relatos, fotos e vídeos da WNBR 2008 em São Paulo
acesse a página wiki (http://nakedwiki.org/index.php?title=S%C3%A3o_Paulo)
do evento
O CTB ainda prevê que, na ausência de local específico para o
deslocamento, a bicicleta deve ocupar a faixa da direita da via com
preferência sobre os veículos automotores (artigo 58) e obriga os veículos
a guardarem uma distância lateral de um metro e meio ao ultrapassarem uma
bicicleta (artigo 201).
Mas a maioria dos motoristas desconhece ou simplesmente desrespeita essas
regras, e se recusa a compartilhar as ruas com os ciclistas. E isto
acontece com a conivência do poder público, que não pune as infrações
cometidas por esses motoristas contra nós.
Somos constantemente ignorados, somente nus somos vistos?
A concentração na praça e o assédio da mídia
Na Pedalada Pelada cada ciclista poderia participar vestido (ou não) da
maneira como se sentisse mais confortável. O lema era "tão nu quanto você
ousar". A nudez nunca foi uma imposição nem uma obrigatoriedade, mas a
expectativa gerada durante a semana levou à concentração na Praça do
Ciclista um número enorme de curiosos, dezenas de policiais, jornalistas,
cinegrafistas e fotógrafos da grande imprensa.
Mais de quatrocentas pessoas estavam lá para pedalar. Os demais queriam
ver e registrar a nudez prometida. Especialmente a nudez feminina. Foi
Renata Falzoni, ciclista de longa data e avó, quem ousou primeiro e logo
na largada da pedalada ficou completamente nua.
Como ela, outras mulheres tiveram que corajosamente suportar o assédio
invasivo de muitos "jornalistas", ávidos por erotizar e tornar públicos
seus corpos em busca de audiência. As câmeras saltaram sobre elas,
acompanhadas muitas vezes por comentários machistas de conotação sexual.
Esse comportamento lamentável fez com que muitas deixassem de se despir.
Apesar disso, no meio da confusão, ciclistas pintaram os corpos uns dos
outros com tintas coloridas. Frases divertidas ou de protesto, desenhos
surgindo na pele, todos se enfeitavam para a pedalada, e para trazer um
pouco de alegria para a cidade cinza coberta de asfalto.
Celebração da nudez não sexualizada e não comercializada
Liberdade de expressão e manifestação
Iniciada a pedalada na Avenida Paulista, à medida que os ciclistas se
distanciavam da praça foram tomando coragem de expor mais seus corpos.
Seguindo o lema naturista, puderam celebrar sua nudez não sexualizada e
não comercializada, muito diferente da exposição sexual dos corpos
padronizados tão comum nas emissoras de TV e revistas.
Centenas de pessoas puderam expor por alguns instantes seus corpos
"imperfeitos", gorduras a mais ou a menos, celulites e estrias livres da
ditadura estética vigente que causa distúrbios alimentares, complexos e
depressões.
A alegria desse momento foi tão contagiante que provocou aplausos da
"platéia". Pessoas que caminhavam pelas ruas, passavam dentro de ônibus ou
automóveis, riam, assobiavam, apontavam a massa de pelados que pedalava.
Câmeras e mais câmeras de celulares foram apontadas para a avenida.
E a prova máxima de civilidade foi dada pelos próprios ciclistas nus (ou
seminus), que abriram mão de assédios e piadas de mau gosto para
compartilhar respeitosamente um momento de pura liberdade de expressão e
manifestação.
Criminalização da nudez, neutralização da massa e violência policial
Infelizmente, aprendemos com nossa ação que a nudez que se manifesta
livremente a favor da vida é criminalizada, enquanto a nudez explorada,
sexualizada e comercializada nos carnavais, novelas e revistas é
permitida.
Durante o trajeto, um comandante da polícia militar deixou claro a quem
ele pensou ser o organizador da ação, que o nu frontal não seria tolerado,
somente corpos pintados como no carnaval. Apesar das dezenas de ciclistas
completamente nus, André Pasqualini acabou sendo escolhido como o "bode
expiatório" e foi levado nu para a delegacia, como forma de neutralizar
nossa ação.
Alguns ciclistas tentaram se manifestar contra a prisão e foram agredidos
com pontapés e gás de pimenta, como mostra diversas fotos e vídeos
publicados pela grande mídia (matéria no Estadão -
http://www.estadao.com.br/cidades/not_cid189448,0.htm) e pela mídia
independente. Como sempre é feito em manifestações ciclo ativistas, os
ciclistas ergueram suas bicicletas no ar. Foram absurdamente acusados de
usá-las como arma.
O comandante da operação declarou diante das câmeras que fez o que estava
planejado, prendeu o "líder" da ação para acabar com a manifestação. A
lógica estava errada, já que não existem líderes ou organizadores da
Pedalada dos Pelados, mas a tática deu certo, porque seja lá quem tivesse
sido detido, nós não deixaríamos de apoiá-lo.
Com a prisão de um dos seus participantes, a massa perdeu um pouco em
alegria e parte dela seguiu escoltada pela CET rumo ao 78º DP na Rua
Estados Unidos. A festa continuou ali, aos gritos de "Ô seu delegado,
libera o pelado!".
A massa segue feliz e orgulhosa
Confirmado que o participante preso seria liberado, a massa seguiu de
volta a Praça do Ciclista. Cruzou a Oscar Freire e subiu a Rua Augusta em
ritmo de festa, feliz e orgulhosa, humanizando o engarrafamento de quem
descia num coro bem-humorado de "Não fique aí parado! Vem pedalar pelado!"
ou "Carro parado é coisa do passado! A moda agora é pedalar pelado!".
A população nas ruas de São Paulo saudou a massa em festa durante todo o
trajeto. A cidade, a Avenida Paulista, já acostumadas com a gigantesca
parada do Orgulho GLBT, sentiram a alegria de ver o desfile das bicicletas
e seus ciclistas nus e seminus, a despeito das leis antiquadas que (ainda)
vigoram nesse país.
Mas podem se preparar, a festa será ainda maior em 2009.
Assinado,
Participantes da I Pedalada Pelada de São Paulo 2008
(World Naked Bike Ride São Paulo 2008)
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