[Cmi-Brasilia] Pela democratização dos meios de comunicação

Hugo Oliveira hugo em unb.br
Sexta Julho 9 07:04:32 PDT 2004


Galera,
Esse entrevista foi publicada no site da Caros Amigos e achei super interessante para fins de discussão, melhor imprimir e depois ler, pois o conteúdo é grande.

Abs
Hugo


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PELA DEMOCRATIZAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Em entrevista o deputado do PT, Chico Alencar critica o papel da mídia no governo Lula. Por Marcelo Salles e Breno Costa
"A grande luta é pela democratização dos meios de comunicação. Sem isso não vai ter democracia no Brasil".
Com estas palavras o deputado federal Chico Alencar (PT-RJ) comenta a proposta de se criar uma CPI na Mídia. Quando perguntado sobre o porquê de a TV Câmara e TV Senado não serem veiculadas em sinal aberto, ele revela que existe uma pressão dos representantes das TVs comerciais sobre o Congresso Nacional. Chico também critica a indução à despolitização e ao consumismo promovido pela mídia grande, além de reconhecer o poder do Jornal Nacional e da própria Rede Globo sobre a esfera política. "Ele sabe [o governo Lula] que ser sempre bem tratado pela Globo lhe dá condições de governabilidade bastante grandes".

Marcelo - Chico, você sofre com a cobertura da mídia grande em relação a sua atuação política? Você se sente prejudicado, até mesmo pelos termos utilizados, como "rebelde"?

Bom, para mim que sou o que chamam "parlamentar de opinião", que constrói sua atuação pública a partir da ideologia, de correntes de pensamento, de uma posição na disputa de idéias na sociedade, os meios de comunicação de massa são fundamentais. Eu não sou um parlamentar de clientela, de curral, que tem aquele eleitorado fiel que faz fila na porta da minha casa pra receber o remédio, a colocação do filho, algum tipo de apoio material. Não. Então, esse tipo de deputado, "de opinião", ele precisa muito da visibilidade das suas palavras e votos e, numa sociedade de massas, o nosso jornalzinho "Dito e Feito", ainda que com uma tiragem de 35.000 exemplares a cada 4 meses, o nosso boletim eletrônico semanal, ainda que com uma mala eletrônica de 3.500 endereços, são totalmente insuficientes. Porque só um jornalão, "O Globo" por exemplo, tem, aos domingos, dez vezes mais leitores que o meu boletim informativo a cada quatro meses. Então, esse tipo de veículo é fundamental e é decisivo. Agora, por outro lado, como não é um veículo próprio de prestação de contas do seu mandato, você fica à mercê da interpretação, ou do colunista, ou do repórter, ou do editor, e eles têm uma maneira de olhar a política, que é uma maneira conservadora em geral, e gostam muito de carimbar, de colocar um "selinho" naquela pessoa. No último dia 12 de junho, eu li uma nota curiosíssima na coluna do Ancelmo Góis, que é uma pessoa muito competente no seu ofício, onde eu estava envolvido a partir de um diálogo real que eu tive com o ex-ministro da Ditadura, o Delfim Netto, onde ele coloca: "Chico Alencar, da ala petista do PT...". Eu achei até que era um erro, mas depois vendo o conteúdo da nota, onde o Delfim Netto dizia que, felizmente, o Lula não ia voltar a ser PT e nem o PT ia voltar a ser PT, o jornalista colocou "ala petista do PT" de propósito. E, claro, isso é um baita elogio. Mesmo essa classificação que você falou de rebelde, de dissidente, ela nunca me soa negativa. Embora não seja do bom moço, bem comportado, daquele de fidelidade canina, mas tem um tom que ressalta a coerência. Então, a rigor, embora muitas vezes a mídia impressa não me coloque ali, me esqueça, eu não tenho do que reclamar. Sou um dos parlamentares - considerando os 46 deputados federais do Rio de Janeiro - que tem mais presença. Também não é nenhum favor não. Eu me dedico, tenho uma atuação forte. E algo que é curioso, é que, como deputado federal, eu tenho tido mais espaço na mídia paulista, isto é, em jornais como a "Folha" e o "Estadão", do que no "Globo", no "JB" e no "O Dia", aqui no Rio. Não sei se é porque lá eu não estou disputando nada diretamente, então a minha citação não pode ser vista como um favorecimento de algum tipo, ou por qualquer outra razão. Eu não sei bem. Porque é curioso isso... 

Marcelo - Mas aqui você acha que fica de fora por estar disputando algo...

Não, não é que eu fique de fora. Não tenho do que me queixar, mas é evidente: às vezes você tem uma ação importante, boa e isso não aparece. Não sei se há deliberadamente essa vontade de não me dar espaço porque eu posso vir a ser candidato majoritário. Não sei se é isso, só estou marcando esse fenômeno, quero analisar melhor, nesse primeiro ano e meio de mandato, apareceu mais em jornais de São Paulo que do Rio de Janeiro. 

Breno - Em relação à sua pessoa, você diz que não há muito o que reclamar. Mas e em relação às políticas que você defende, como a questão do salário mínimo, a sua posição na Reforma da Previdência? 

Não, tenho a consciência de que nós só aparecemos com freqüência na mídia primeiro porque o PT está no governo e porque nós ousamos tomar uma posição crítica a determinados projetos e iniciativas do nosso governo. Aí destaca, né? "Crise na base", "dissidente", "rebelde"... Você é dissidente, rebelde, em relação a outra coisa, que é o poder, que é o que está aí na situação agora. Por isso nós ganhamos algum destaque. Não sei se vocês repararam: os antigos "rebeldes", que apareceram muito no ano passado - Babá, Luciana Genro, João Fontes e a própria Heloísa Helena - na medida em que foram expulsos do PT (contra meu voto, aliás) começaram a perder espaço, visibilidade. Porque saíram do PT a contragosto, compulsoriamente e aí passaram a não ter mais força política. Eu tenho consciência que a nossa expressão política e a nossa visibilidade vêm do fato de a gente estar no PT, que é o partido do presidente da República. Agora, é claro que as causas que a gente defende, as editorias, que são responsáveis pelas grandes linhas dos jornais ou dos telejornais, elas não aprovam. Claro que toda a grande imprensa apoiou a Reforma da Previdência, toda a grande imprensa também não tem a menor emoção em relação a um salário mínimo maior. Como é um pouquinho mais democrática, hoje ela é mais equilibrada; ela apresenta os vários lados, as várias propostas, mas não há nenhuma simpatia com causas de transformação social, com o MST, por exemplo, que sofre de alguns jornais um combate sistemático, violento, de desqualificação desse movimento social. 

Breno - Qual jornal?

O "Estado de São Paulo", por exemplo. Tem uma linha fortemente anti-MST. A "Folha de São Paulo" mesmo é, hoje em dia, um jornal anti-Lula constantemente, fortemente crítico ao governo em tudo. Eles alegam que eram assim em relação ao Fernando Henrique. Não, é mais, bem mais, agora. Mas a mídia sempre obedece a interesses. O jornalista que está ali pode ter a idéia que tiver, mas ele não expressa o pensamento do jornal, que não aparece só em editoriais, não. Aparece também na forma de você colocar as matérias, de dar o destaque, de fazer o lide, de enfocar determinados assuntos dentro daquela matéria geral... Tudo isso é muito bem urdido. 

Breno - E que interesses são esses?

Olha, são os interesses dominantes; os interesses do grande capital, o interesse do empresariado, o interesse do chamado status quo, da manutenção e preservação dessa ordem estabelecida, para o qual se demandam políticas públicas mais eficientes. Mas nada que venha alterar esse quadro das relações capitalistas de produção, de uma determinada hierarquia social, de formas já consolidadas de fazer governo e promover o desenvolvimento do país. Na Venezuela, por exemplo, o Chávez tenta alterar essas relações e sofre - especialmente da mídia, quase toda ela privada - uma oposição ferrenha, violentíssima, que quer destituí-lo do poder. Isso é claro lá. Aqui, como o Lula está numa política de conciliação de classes e de universalização de interesses, ele está até sem essa situação de desestabilização. Então, a situação no Brasil é diferente. 

Marcelo - Você poderia resumir todos esses interesses em uma palavra: neoliberalismo?

Não, eu acho que esses interesses todos são os interesses do capitalismo, que constrói um imaginário social também, uma maneira de pensar o mundo a partir de sua dinâmica sócio-econômica. E a mídia, em geral, reproduz esses valores, embora haja espaço, principalmente nos jornais, para a crítica, para o debate, para a controvérsia, para os artigos que representam posições diferenciadas. Agora, na televisão, especialmente, e no rádio, o pensamento único, dominante, o pouquíssimo espaço para questionamento, é muito evidente. 

Breno - Mas, em linhas gerais, o que define as linhas editoriais são interesses ideológicos ou comerciais? 

Ideológicos e comerciais. Claro que o objetivo de toda empresa jornalística, para além de informar, é se reproduzir como tal, como empresa jornalística. É ter lucro, é expandir, é ter mais leitores e anunciantes, mais financiamento para a sua produção, que é a produção desse bem material que é a notícia. 

Marcelo - Nesse ponto, em que a mídia quer mais e mais anunciantes, de que maneira isso pode prejudicar a informação e o entendimento do público sobre determinado assunto e que venha a se tornar essencial para a sua formação e da sociedade? Eu queria que você desse um exemplo nesse ponto. 

É, vamos dar um exemplo muito concreto: a violência, a cobertura da violência no Rio de Janeiro. Quando o bairro atingido ou as vítimas atingidas são de classe média, há um determinado espaço de divulgação. Quando é uma pessoa pobre, de um bairro pobre, onde esse jornal não é lido, onde não tem imóveis de alto valor para serem vendidos, alugados, a cobertura é outra, totalmente diminuta. Como cantou num samba o nosso sexagenário Chico Buarque, "a dor da gente não sai no jornal", falando dos pobres, né? Então, esse é o exemplo mais tranqüilo. Se acontece alguma coisa conosco, de classe média, que vivemos onde o jornal é tão importante quanto o pão de cada dia, isso tem repercussão, tem espaço, aí tem as passeatas, as missas - muito legítimas e justas nesse drama social em que a gente está mergulhado. Agora, quando é uma pessoa, pobre, humilde, modesta, até sai a notícia, mas dez vezes menor. E por que isso? Por que o jornalista ali acha que aquela figura de classe média, vítima da violência, é mais importante que o pobre, negro, menos conhecido, com menos escolaridade? Não. É porque as editorias mesmo vão fazendo uma seleção, às vezes até já naturalizada. Não é nenhuma coisa assim: "Vamos deixar de lado esses pobres pra noticiar a classe média, os ricos...". Não, é algo que vai se tornando natural. Isso aqui é notícia, isso não é. Isso aqui tem importância pra primeira página, isso não tem. É incrível, né? Concretíssimo agora dentro desse exemplo concreto geral: há bem pouco tempo um rapaz de classe média foi morto ao passar por uma blitz da polícia, de forma trágica, terrível. Dias depois, três jovens de um morro foram mortos, executados, presos e levados pra um lugar distante e mortos com tiro na nuca. Foram executados pela polícia. A notícia do rapaz que passou na blitz, todo mundo ficou sabendo, houve um grande destaque. Essa dos rapazes teve uma divulgação muito menor, muito menos importante. Estudantes, que não tinham nenhuma ligação com atividade ilícita, foram mortos no morro do Borel há dois anos, numa ação policial. Isso repercutiu muito menos que uma outra pessoa, na mesma região da Tijuca, que foi morta na escadaria do metrô numa troca de tiros entre bandidos e polícia: a Gabriela. Você vê como é que o tratamento é diferenciado. 

Breno - Eu tenho uma curiosidade: você como deputado federal está sempre lá no dia-a-dia do Congresso e os jornalistas vivem por lá também, ficam ali no salão verde sempre circulando. Queria saber como é essa relação dos jornalistas com os deputados, com os senadores, em relação com a política mesmo. Porque a gente recebe as informações pelos jornais, mas não tem muita noção dessa relação nos bastidores da notícia, como as informações são conseguidas...
Já houve tempo em que o jornalista pesquisava, buscava, ia a campo, lia documentos. 

Marcelo - Está parecendo release agora...

O pessoal era muito bom, né? Agora muitos jornalistas fazem matéria só por telefone, ouvindo um, ouvindo outro, não vão às fontes. De qualquer maneira, pra cobertura dos fatos políticos ali no Parlamento, há uma equipe - alguns jornais têm equipes maiores, outros menores, mas muito diligente, muito operosa e eles sabem os deputados que têm mais informação, mais contato com o Palácio, isto é, com o Executivo, os deputados que são mais sinceros e francos, os que passam melhor as informações de reuniões importantes, sem cometer, é claro, inconfidências, e também quem tem desassombro e coragem pra opinar. Então, eles têm esse mapeamento e eu vejo a cobertura do Parlamento por parte dos jornalistas da nossa grande imprensa como sendo muito boa, muito correta. E agora a gente tem também, mesmo sem grande audiência, a TV Câmara e a TV Senado, onde todos os seus discursos, todos os seus votos, até o bocejo que você dá na sessão ou a solidão em que você está, sem nenhum colega ali, são sempre destacadas, aparecem bastante. Então, eu acho que, nesse sentido, a mídia tem um papel muito importante, de ampliar o controle social sobre o Parlamento. E isso é muito bom, devia existir sobre todos os poderes da República. 

Breno - Mas a cobertura do Congresso, do que acontece em Brasília, não acaba sendo muito declaratória, oficialista? Porque tudo o que sai é falado em público...

Não, não. Por exemplo: algo que os jornais fizeram com correção foi divulgar que agora, às vésperas da votação do salário mínimo, o governo fez um decreto no Diário Oficial aumentando as verbas para emendas parlamentares em R$ 200 milhões, que é uma prática que, antes de se eleger, o PT, aliás, na oposição, sempre condenou e agora parece que está praticando. A gente só soube disso, com esse tom mesmo de notícia, que é também uma denúncia, pelos jornais. Tem as colunas também, da Dora Kramer, Tereza Cruvinel, Jânio de Freitas, Merval Pereira, Ilimar Franco, Clóvis Rossi, Jorge Bastos Moreno, que fazem mais as fofocas lá da corte... Isso tudo dá um pouco o clima que não está no discurso e dentro daquilo que muitos chamam de "cinismo parlamentar", porque o mundo da política institucional é muito falso, é muito cheio de meias verdades. Às vezes a imprensa rompe essa casca da hipocrisia. 

Breno - Mas esse "às vezes" não acaba sendo muito pouco, não?

Não, porque às vezes o conteúdo das matérias é aquele mesmo, né? Eu não acho que a cobertura seja insuficiente, não. Acho que o interesse da população é que é insuficiente. As pessoas, cada vez menos, lêem jornal. Isso é algo que preocupa. O Brasil, em meados dos anos 80, tinha mais leitores de jornal do que agora, no início do século XXI. Diminuiu muito o interesse - talvez também por problemas financeiros - pela leitura de jornais, que é a melhor forma de você formar uma consciência crítica. O telejornal é muito rápido, dispersivo. Aqueles que têm comentários mais alentados e profundos, só na TV por assinatura, que aí também é um grupo bastante restrito.

Marcelo - Chico, você parece um diplomata, acho difícil você arrumar problema com alguém. Está sempre rindo... Então, eu observo que você está sempre citado na Renata Loprete, que faz o "Painel" da Folha, e eu tenho uma curiosidade muito grande: a Eliane Cantanhêde está sempre lá no Planalto, né?

Está.

Marcelo - Ela faz a cobertura parlamentar ou só o Executivo?

Só o Executivo... Só um detalhe: eu tenho esse temperamento afável mesmo, mas se você perceber eu sou sempre citado numa postura crítica, contestadora, não é? 

Marcelo - Exatamente. 

Outro dia o Jorge Bastos Moreno, falou: "Com a palavra, a oposição confiável Chico Alencar", sobre a festinha junina, o arraiá do Seu Lula. 

Breno - Você foi? 

[Risos] Não, foi só pro Executivo. E mesmo se fosse pro Legislativo, provavelmente, por causa do salário mínimo, eu não seria convidado, embora eu tenha uma relação pessoal de amizade de longa data com o Lula. Eu sei que ele tem estima por mim, mas está ele meio invocado. Mas eu também estou com ele. [Risos]

Marcelo - E o Pró-mídia? Você tem acompanhado?

Eu tenho acompanhado pouco, porque também como eu tenho muito essas mediações pessoais e sustento, sou um dos que defendem o Lessa no BNDES pela concepção de Brasil, pela ousadia dele, por ele ter feito um trabalho excelente de fazer com que o BNDES não fosse mais um agente de privatização, de interesses escusos, mas sim um banco de fomento, de desenvolvimento. Eu brinco dizendo que é o único banqueiro em quem a gente acredita e aposta. Eu reconheço, primeiro, que a mídia tem um peso importante na vida nacional. Ela é um setor da produção nacional. Talvez até a metade do século passado não fosse. A partir daí, dentro de tudo que conforma a pujança da vida nacional, do setor produtivo, essa produção da informação, essa construção do imaginário social, ela é um elemento importante. A própria publicidade é responsável, no mundo de hoje, pela aplicação de um em cada cinco dólares investidos no mundo. Isso é uma novidade radical, né? Nós vivemos na era da informação, nesse sentido. Então, eu vejo problema, em tese, no apoio à mídia. Agora, é claro que um Banco de Desenvolvimento Econômico e Social devia ter atenção prioritária para aqueles meios de comunicação que promovem a integração entre as pessoas, que constroem redes de solidariedade, para rádios comunitárias, para pequenos jornais... Linhas de crédito também para isso, que eu não sei se existem. Só pra salvar as grandes empresas, em geral na encalacrada por má gestão, aí pode ser uma espécie de Proer da Mídia, e isso é questionável. Mas eu não tenho elementos ainda, nunca fiz nenhuma reflexão, nenhum estudo a respeito. 

Breno - Porque há essa diferença entre se fazer investimento puro e simples e se pagarem dívidas. Então, há uma polêmica bem grande nessa questão do BNDES pagar a dívida...

Claro...

Marcelo - Tem também a questão da contrapartida de uma política mais, digamos assim, completa pelos meios de comunicação de massa...

É, acabam privilegiando certos setores, né? Agora, vamos ser francos também, né... O governo Lula, por uma questão de concepção, dá uma atenção especial aos grandes meios de comunicação de massa já estabelecidos, com toda sua situação falimentar aí...

Breno - Por quê?

Porque ele sabe que ser sempre bem tratado pela Globo lhe dá condições de governabilidade bastante grandes. É bom lembrar: o que chega ao nosso povo, à grande massa popular do Brasil, não é o artigo do jornal, não; é a notícia, se reiterada, do Jornal Nacional. Nós temos que reconhecer: o nosso povo ainda é muito despolitizado e muito desinteressado, ele é muito induzido à apatia em relação a questões políticas. 

Marcelo - E ele é induzido à apatia de que maneira?

Ele é induzido à apatia primeiro pela oferta de outras coisas que dão mais sabor e emoção à vida, a começar pelo mundo azulado das novelas, para onde você transfere suas emoções, suas possibilidades de realização, seu tesão, seu sonho... Então, tem uma cultura novelística muito forte no Brasil e a nossa teledramaturgia é de altíssima qualidade. Em segundo lugar, no Brasil não há uma indução à politização. Pelo contrário, um conjunto de interesses opera no sentido de você considerar a política um assunto específico pelo qual você se interessa ou não, e não uma questão da constituição da sua cidadania, como protagonista histórico. Há uma indução ao consumo contínuo como sentido de vida e não ao pensamento. Penso, logo existo? Não. Compro, logo existo. Então, isso tudo faz parte da dinâmica capitalista, que não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Há um processo chamado "despolitização da política", pelo qual você delega voto e se esquece, vai cuidar da sua vida. Ver um jogo do Flamengo, como flamenguista, é mais emocionante do que saber se o presidente da República tomou tal ou qual decisão, se houve tal ou qual protesto em relação a isso. Agora, a gente tem que superar esse senso comum do desinteresse, da apatia, da despolitização, porque essa é a desgraça, né? Os desinteressados são cada vez mais governados pelos poucos que se interessam. 

Breno - Voltando um pouquinho, pode-se dizer que o Jornal Nacional é o principal meio de conscientização da população brasileira?

É, eu não diria o principal meio de conscientização. É o principal meio de informação genérica da população brasileira sobre os assuntos sócio-políticos do país. E ele tem grande audiência. Um jornal tem 300, 400 mil leitores num dia bom. O Jornal Nacional tem diante de si, toda noite, 30, 40 milhões de pessoas. Por ali passam as informações do país. 

Breno - Informações filtradas por interesses ideológicos e comerciais...

É... Não diria que é uma coisa maquiavélica assim, mas são informações que são decantadas a partir de interesses mais gerais...

Marcelo - ... e que se inserem dentro desse contexto que você citou anteriormente, a questão das pessoas assistirem muita novela, despolitização, indução ao consumo...

Claro, as pessoas ficam torcendo pra acabar logo o Jornal Nacional e começar a emoção da novela, que lhes toca mais a alma. O nosso desafio também - isso não é um problema apenas da mídia - é de nós, operadores da política institucional, no sentido de fazer da política uma emoção, algo que tenha a ver com a vida das pessoas. 

Marcelo - A TV Câmara e a TV Senado. Dois canais que eu acredito que, mais que interessantes, deveriam ser fundamentais porque o que está sendo discutido ali é o seu destino, o destino do seu país. Por que não é na TV aberta que passa?

É a pergunta que eu faço desde que eu tomei posse como deputado federal no dia 1º de fevereiro de 2003. Todos os deputados mais experientes e o próprio presidente da Câmara, João Paulo Cunha, ou dizem que é uma questão de sinal, de canal, de falta de espaço no plano dos canais abertos, ou que ficaria muito caro pra chegar lá. São argumentos pouco convincentes. 

Breno - Não tem dinheiro para esses canais, mas para dar R$ 4 bilhões pra empresas privadas tem...

Pois é. Outros, com mais sinceridade dizem que, na verdade, é pressão dos próprios canais de TV aberta, que até ameaçam dizendo o seguinte: "Tudo bem, se vocês entrarem no nosso espaço aqui, para ser concorrente, ainda que a gente não tenha dúvida que a audiência não vai ser grande, mas é uma opção a mais, a gente simplesmente não noticia mais o que rola no Senado e na Câmara nos nossos jornais".

Marcelo - Quem disse isso?

Foram os representantes das emissoras de TV aberta. Haveria - eu não posso afirmar isso porque nunca ninguém me disse isso - também esse tipo de pressão sub-reptícia, sutil, nesse sentido. Não querem concorrência, mesmo a gente sabendo que não terá uma grande audiência. Ainda assim, tudo que é canal novo é uma certa ameaça, assim como eles se batem fortemente nas emissoras de rádio contra a "Voz do Brasil", que eu defendo, acho muito importante. E acho que a qualidade pode melhorar e melhorou, sobretudo a parte do Executivo. Hoje você tem entrevistas, existem críticas, não é aquele pastifício oficial, insosso. Eu sou ouvinte da "Voz do Brasil", que já foi conhecida no Brasil como a "Hora do Desliga" [risos]. Mas assim como há muita pressão contra a propaganda eleitoral gratuita em tempo de campanha - que é fundamental ao meu juízo - e contra a própria "Voz do Brasil", há também uma pressão aí, que não é aberta e às claras, para que as TVs legislativas não entrem no circuito das TVs abertas. Aí só pra quem tem parabólica ou paga a assinatura, isto é, um público muito restrito. A "Voz do Brasil", no rádio, tem o maior público ouvinte: de 10 a 12 milhões de ouvintes, porque é uma cadeia nacional obrigatória. E isso politiza, isso tem a voz da oposição, da situação, de diferentes pontos de vista. Quem vê a TV Câmara vai perceber, inclusive na sua programação para além das sessões - que às vezes são muito enfadonhas -, que há também matérias, telejornais, reportagens, filmes, comentários... Muito bom. 

Breno - Na nossa página na Internet a gente faz uma campanha pela "CPI da Mídia - A caixa-preta das caixas-pretas". Então, eu queria saber qual a viabilidade de algo desse tipo, considerando os interesses envolvidos...

A viabilidade é pequena, porque, lá no Parlamento, ninguém quer ficar mal com a mídia. Mas a idéia é muito interessante, porque você vai começar a pesquisar até a constituição de algumas grandes empresas de mídia aqui, que têm vários pecados originais aí na sua gênese. Agora, aí vão dizer: "A CPI tem que ter um fato concreto, direto, determinado. Genericamente não pode". Eu entendo que, assim como o financiamento privado de campanha eleitoral é a matriz de toda a corrupção nacional, as operações da mídia seriam muito reveladoras se compreendidas, se viessem à luz do tipo de desinformação que grassa no Brasil e, também, se você abrir a caixa-preta do sistema financeiro você vai ver que nós estamos, nessa época do capital financeiro monopolista, submetidos ainda a tenebrosas transações. Então, toda transparência é boa. E a grande luta - e eu imagino que uma CPI dessa fosse um instrumento poderoso e positivo nesse sentido - é pela democratização dos meios de comunicação. Sem isso não vai ter democracia no Brasil. Antigamente (eu sou formado em História lá pela UFF) se dizia o seguinte: quem manda na região manda na religião. Hoje dá pra dizer: quem manda nos meios de comunicação manda na nação. Então, é o povo quem deve mandar, né? Não estou nem com a boa utopia de socializar os meios de comunicação, mas que eles sejam mais abertos, transparentes, que haja o mínimo de controle social até sobre a programação ali veiculada é muito importante.

Breno - Pois é, você disse que os parlamentares não querem ficar contra a mídia, não querem criar problemas com ela. Mas eles são eleitos pelo povo e, pelo menos teoricamente, eles têm que representar os interesses da população, do povo de uma forma geral. E acredito que seja interesse do povo - posso estar generalizando - saber o que acontece na mídia, nos seus bastidores. Então, os parlamentares não querem ficar contra a mídia, mas acabam ficando contra o povo. Não é um contra-senso? 

Marcelo - Eu defendo a idéia de que os parlamentares eram eleitos pelo povo e hoje são eleitos por palavras e imagens...

É, hoje em dia, numa sociedade de massas, volto a dizer, se você tem uma má imagem na mídia isso te desgasta. Algumas situações são boas: o Eurico Miranda não se reelegeu deputado, estava muito queimado por procedimentos questionáveis, digamos assim, e ele comprou, inclusive, uma briga com a Globo e perdeu essa. Então, são situações difíceis, mas eu acho que a gente tem que ter uma concepção, né? Os meios de comunicação precisam ser democratizados, embora eles informem, sabe? Eu não vivo sem ler jornal. Mesmo com toda essa visão crítica sobre o papel da imprensa, eu tenho uma necessidade visceral de ler mais de um jornal, e ali eu me informo muito, ali eu aprendo muito, porque eu também não fico só na manchete e no lide; eu vou fundo, eu leio artigos, leio a opinião de especialistas. Os jornais, nesse sentido, têm crescido, têm avançado. Eles têm colocado comentários, têm aberto espaço pro contraditório, bem como as TVs informativas, de jornalismo, por assinatura. As comerciais, não. Em geral são muito ruins. Pra você achar um programa que te eleve culturalmente é uma dificuldade, né? Nos fins de semana, quando tem mais audiência, o nível piora. O meu amigo Frei Betto disse que domingo é o "Dia Nacional da Imbecilização via TV", por causa daqueles programas todos. 

Breno - Mas, nessa luta pela democratização dos meios de comunicação, você, pelo menos do jeito que a sociedade está formatada hoje em dia, tem que passar pelas instituições democráticas, pelo Congresso... Então, dentro desse processo democrático, para atingir esse grau de democratização dos meios de comunicação, não se torna um papel vital do Congresso lutar por isso? 

Claro que é, mas aí você tem que obter esse compromisso do parlamentar antes de ser parlamentar, ou seja, dos candidatos. Saber deles como vêem a mídia, que papel enxergam para ela, como eles a concebem. Porque a maioria não tem nenhuma reflexão sobre isso, não tem a menor visão crítica sobre os meios de comunicação. Acha que eles estão ali, prestam só um serviço à população, são muito importantes, se eu tiver meus 10 segundos de glória lá está ótimo, falando o que quer que seja. Mas é uma relação de muita dependência e pouca autonomia.

Marcelo - Tem os que são donos também...

Isso é uma coisa importantíssima. Os grandes caciques da política brasileira, e eu me refiro a ACM, a Sarney, só pra citar dois famosos, também controlam televisões - em geral repetidoras de emissoras nacionais de grande peso, como a Globo - jornais e rádios nos seus estados, onde o direito à crítica às suas atuações é, no mínimo, extremamente limitada. E eu vejo muitos. Eu só citei esses dois porque são os mais famosos e conhecidos. É que como a gente vive aqui no Sudeste, nesse eixo Rio-São Paulo, você não tem tanto isso. Fora daqui, os grandes meios de comunicação de massa têm vínculos com as grandes figuras políticas e até ajudaram que eles fossem eleitos e consolidassem seu império. O Fernando Collor era dono de TV e rádio em Alagoas. 

Marcelo - Conversando com a Terezinha Souza, pré-candidata a vereadora pelo PT do Rio, ela disse o seguinte: "Chegamos ao governo com Lula, mas não chegamos ao poder". A grande pergunta que se faz hoje em dia é essa: o Lula, nesse governo de conciliação, está fazendo uma administração tendo em vista se consolidar no poder pra depois fazer valer a sua história, tudo aquilo que ele pregou, ou você acha que não, que ele realmente já teria sido cooptado pelas nossas classes dominantes?

Na última década, todos os partidos de esquerda que chegaram ao poder, na América Latina ou na Europa, viveram trajetórias muito semelhantes, mudando de base social, caminhando para o centro, para uma postura mais conservadora e não cumprindo o seu programa de campanha. Essa é uma tendência forte. Quer dizer, com o Lula e o PT no governo pode acontecer isso também. Como temos 1/3 da caminhada até agora, nós do PT ainda temos esperança de que essa disputa dentro do governo possa nos indicar o caminho de uma política radicalmente democrática, de mobilização popular, para a gente implementar o projeto de desenvolvimento econômico-social com distribuição de riqueza e renda, reduzindo a exclusão, a violência. E para isso termos uma nova postura em relação aos organismos financeiros internacionais - que não significa ruptura total e imediata, mas um outro patamar de negociação não tão submisso quanto está sendo hoje, quando a gente vive a realidade espantosa para um governo do PT, que nos revela, concretamente, que se gastaram R$ 10 bilhões a mais no ano de 2003 para o pagamento de juros da dívida, através do superávit primário, do que para os gastos sociais, excetuando os gastos da Previdência. Tudo: Educação, Saúde e tal tiveram menos recursos do que esses destinados ao pagamento da dívida. Então, isso é muito grave, isso é muito difícil. Mas eu ainda estou teimando na esperança, até porque eu acho que o nosso povo custa para se identificar com o símbolo político, seja com um partido, seja com uma figura do carisma e da trajetória admirável do Lula. E se isso não der certo a frustração vai ser muito grande. Não teremos como sucedâneo um governo efetivamente de esquerda, mas um desencantamento enorme e, provavelmente, a velha direita de volta. O próprio Lula tem consciência disso. Agora, ele está envolvido por forças que são muito conservadoras, inclusive na área econômica, que não apostam nada, que não ousam minimamente. Essa situação vai chegar a um ponto de conflito, de definição total do governo. Ou ele vai ser uma continuação - com um novo estilo, né? - do governo Fernando Henrique, da década neoliberal, ou vai ser um governo de alteração do quadro. O Getúlio Vargas, que morreu há 50 anos, disse que saía da vida para entrar na História. O nosso temor é que o Lula saia da História e caia na vida rotineira, continuísta, gerando uma enorme frustração e a conclusão trágica do nosso povo de que a esquerda no poder é igual à direita, como no Império já diziam que nada mais parecido com um conservador que um liberal no poder. Agora, isso não depende só do governo e muito menos só da figura generosa, carismática, de belíssima história do presidente da República. Isso depende também dos movimentos sociais, das lutas... O governo é mais atento ao MST - recebe até críticas da imprensa conservadora - porque o MST é um movimento vivo, forte e vai à luta. Então, o nosso caminho é esse de sempre, né? Talvez a gente tenha se iludido em achar que com o governo Lula tudo seria mais fácil e que dava para esperar sentado. Não, temos é que estar em marcha. 
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