[Cmi-Brasilia] lição de estética
oscar bigarella
bigoscar0 em yahoo.com.br
Domingo Dezembro 30 11:56:31 PST 2007
LIÇÃO DE ESTÉTICA
Vivenciei com o raro poeta: Carlos Drummond de Andrade, uma grande lição de ética quando este recusa o titulo de maior poeta brasileiro vivo; e indica para o trono Manuel de Barros. Esta genial atitude representa a alma da poesia.
Em minhas ignóbeis leituras dos poemas de Drummond, arrebatava-me o encontro com a transcendência ao estabelecido, onde o rio do conhecimento humano desvenda a harmonia universal. Arraigava-me o desejo sublime e cativante por um mundo melhor, na denuncia das condições miseráveis do espírito moderno, na demonstração da insensatez cultural e social em que vivemos.
Objetava-me os poemas do Manoel em sua cotidiana fantasia e infantilidade, e até, falta de originalidade em ícones declarados, uma obra para o prazer imediato, simplesmente para o deleite, a contemplação, onde o naturalismo iconólatra nos faz sonhar e não refletir.
E esta dúvida represada em minha mente, criou um nódulo energético que anos depois foi dissolvido. Foi em um momento iluminado, onde a mente transcende os limites do Ser e alcança a plenitude da alma. A compreensão dos fatos pela vivência poética. A verdade vinda em um raio de luz. Ou simplesmente o método Platônico da aprendizagem.
Entendi naquele momento o porquê de Drummond não aceitar o titulo de “maior poeta do país”, e o motivo de ter escolhido Manoel para receber os louros; pois quem compreende o espírito do mundo não quer falsa honraria, de que lhe valia o titulo quando o que ele precisava era ardilosamente negado. Quando sua poesia mal compreendida seria usada para amaciar a voz da tirania, enquanto seu maior desejo era sufocado na máquina da burocracia.
Além, o titulo de primeiro, maior, serve aos interesses da sociedade da competição, só tem valor no mundo do capital , na ética primitiva e egoísta da disputa. Valorizando-se o primeiro desvaloriza-se os outros. E, ao contrário a verdadeira poesia é solidária se oferece em auxílio a consciência, na tentativa de engrandecer a humanidade.
Então, o poeta que da alma humana tudo compreendia, lançou aquela idéia como um logro, um grito por liberdade uma blasfêmia, uma heresia, aos sofistas que do ser humano nada entendiam. E daí, um mundo se criou entorno do Ser Songo, fama e dinheiro, e com ela sua idolatria àquela gente que o verdadeiro poeta se referia, como os apodrecidos pela mesquinharia. E sua obra ganha notoriedade não pelo valor da poesia, mas pela zombaria que o verdadeiro poeta proferira.
Assim com este triste título, o primitivo Ser se envaideceria, livros super faturados faria, fundação com más intenções promoveria, prêmios, prédios e
avenidas sua ignorância celebraria.
Ao ler a entrevista com o poeta Manoel na revista Caros Amigos, lembranças amanheceram na minha mente, e ao meio dia, minha cabeça aquecida com tantas questões, apreçou-se para o anoitecer onde a realidade se escondia.
Tergiversa o poeta na absurdez da palavra, na predileção pela fantasia e elucubração infantil, na falta da razão que daria significado. O mito que orienta sua escrita lhe tira a originalidade, sua poesia previamente referenciadas revela um imaginário sem originalidade, ficando alheio ao que é real e a verdade.
Alienado aos acontecimentos de seu tempo vive em um estado de hibernação espiritual, sua idolatria naturalista não acusa intelectualidade permanece alheio ao sentimento da contemporaneidade.
Também me pergunto, O que significa a “Vanguarda Primitiva”. Esforço-me para entendê-la, tento compará-la com a obra de Padre Vieira , “A HISTÓRIA DO FUTURO”, para dar-lhe sentido e crédito, duas palavras formando uma frase que aparece como absurdo. Mas não encontro semelhança conceitual, pois na história do futuro é o divino que se revela ao humano, o conteúdo é o de Platão e de ORFEU DE DELFOS, enquanto na obra do Manoel é um Ser Bicho do Mato, aquele que não compreende nem desvenda a natureza e a si mesmo, é simplesmente um ente em comunhão com o ambiente imediato. Não tem razão, emoção ou consciência.
A “Vanguarda Primitiva” parece-me algo anacrônico e polarizado, como pode algo ser novo e velho ao mesmo tempo? Como o primitivo pode ser novidade? senão pelo desconhecimento do que é antigo, e talvez pela ausência de significação do novo. Seria a neo-ignorância, a nova ingenuidade? Como a vanguarda, parcela mais consciente e de idéias mais avançadas da sociedade pode ser ao mesmo tempo primitiva e básica.
Uma distensão, um meio sem começo e um fim sem crescimento, regressar as origens sem se compreender no processo, apenas voltar ao estado original e não alterar-se. O inaugural como fim em si mesmo não necessita de processo e toda a energia desprendida em seu movimento é desperdício. È a estagnação da evolução,
é a inaptidão para o sentido fundamental da vida. O não aprender com a experiência é apenas a contemplação. Não é a falta de esperança na sociedade,
mas a descrença na civilização e no homem.
Assim, o processo fica sem fundamento, desprovido do valor primordial da existência. E instaura-se o niilismo, que é característica fundamental da cultura materialista cristã, e com ele todos os valores daquela cultura oficial, impregnada de opostos dilacerados e dilacerantes , onde o orgulho é a alteração da dignidade, o dinheiro é o substituto da moral, e o belo qualquer coisa sem verdade, a justiça não impera e o bem é uma caridade inconseqüente que mantêm tudo como está, sem alterações estruturais na sociedade e na humanidade das pessoas.
Não vejo como melhorar nosso futuro com este tipo de imaginário poético. Precisamos mudar os valores de nossa cultura.
Agradeço a Drummond que me fez entender o que é sofismo.
Continua...
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