Eldorado do Carajás...

Juliano Machado jms2 em terra.com.br
Domingo Abril 16 13:37:08 PDT 2006


  Folha de S. Paulo
São Paulo, domingo, 16 de abril de 2006

TERRA SEM LEI

Dez anos depois do massacre, lavradores com balas alojadas em seus corpos ainda tomam remédios para aliviar dores

Sobreviventes de Carajás carregam seqüelas

Jorge Araújo/Folha Imagem

Rondinele Nero Lima, hoje com 20 anos, na época ajudava a mãe a lavar roupas num igarapé

EDUARDO SCOLESE
JORGE ARAÚJO

ENVIADOS ESPECIAIS A ELDORADO DO CARAJÁS

Além de 19 sem-terra mortos, o massacre de Eldorado do Carajás completa dez anos amanhã com um saldo de dezenas de vítimas
que ainda sofrem com as seqüelas
daquele 17 de abril de 1996. A rotina de algumas delas é mantida a doses de remédios e visitas a hospitais para aliviar
as dores causadas por balas alojadas
na cabeça, no pescoço, no peito e nas pernas.
Na semana passada, a Folha localizou algumas delas. A maioria vive no assentamento 17 de Abril, em Eldorado do Carajás (PA). 
A área, a antiga fazenda Macaxeira,
foi desapropriada pela União depois que 19 sem-terra morreram e outros 69 ficaram feridos numa operação da Polícia Militar 
para desobstruir a rodovia PA-150,
bloqueada na curva do "S" por uma marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
Hoje ninguém está preso por conta do massacre. Dos 155 PMs que participaram da ação, só dois foram condenados pela Justiça 
do Pará. Mas, por conta de uma
decisão do Supremo Tribunal Federal, o coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria de Oliveira aguardam em liberdade 
até que se esgotem todas as
opções de recursos, o que deve durar dois anos.
Rubenita Justiniano da Silva, 36, é uma das sobreviventes. Ela vive com a mãe e uma irmã numa pequena ilha da periferia 
de Belém e até hoje carrega no pescoço
uma bala que, dez anos atrás, entrou por sua boca, fraturou a mandíbula, rasgou a língua e quebrou seis dentes. "Não consigo 
trabalhar. Meu olho fica vermelho
e dói o pescoço. Tenho de ficar correndo atrás de médico e remédio."
Ela conta que entrou por acaso no MST. Cansada da vida de doméstica e de entregadora de marmitex na capital, partiu ao sul 
do Pará em 1992. "Aí descobri
que um irmão meu estava na coordenação do movimento. Comecei a me engajar, ajudando nas reuniões e nos acampamentos."
Sobre o dia do conflito, ela diz: "Foi terrível, não tem nem como descrever. Depois que levei o tiro, consegui me apoiar 
num companheiro, mas não conseguia
nem respirar. E só depois de dois dias é que me levaram para Belém".

Garimpeiro
Piauiense de Luzilândia, Antonio Alves de Oliveira, o Índio, 45, carrega três balas do conflito. "Tem uma na perna esquerda, 
uma no joelho direito e mais
uma no calcanhar direito, que é a pior de todas. Não consigo nem andar direito que já começa a doer."
Em 1982, Oliveira deixou oito filhos para trabalhar em Serra Pelada (PA). Passada a febre do garimpo, virou sem-terra e 
passou a viver nos acampamentos
do MST. Hoje cuida da burocracia do assentamento 17 de Abril. "Nunca mais tive a chance de exercer meus trabalhos normais."
Assim como Oliveira, José Carlos dos Santos, 26, é uma das 20 vítimas que recebe desde 2000 uma pensão de um salário mínimo 
e meio do governo do Pará. No
conflito, levou um tiro no olho direito. Perdeu essa visão e tem fortes dores de cabeça por conta do projétil alojado em 
sua cabeça.
"Não tem como tirar a bala. Se tentar, o médico disse que eu morro ou fico doido", afirma José Carlos, que vive no 17 de 
Abril com os pais, José Maria,
62, e Maria Raimunda, 52. "Nosso dia-a-dia é muito triste. Uma mãe ver um filho assim, sofrendo e sem condições de trabalhar, 
é uma tristeza só", afirma
a mãe.
No assentamento, cada família cuida de seu próprio lote. Plantam arroz, feijão, milho, banana e mandioca. Numa área de 19 
mil hectares, vivem hoje 6.000
pessoas, mais do dobro das 2.500 que chegaram por lá no final de 1996.
Josimar Pereira de Freitas, 41, é um dos coordenadores do assentamento. Dez anos atrás, ele levou um tiro de fuzil na perna 
direita de homens da tropa do
coronel Pantoja. Teve fratura exposta. "Me levaram para o meio do mato, uns 500 metros da rodovia, onde tinha um monte de 
gente agonizando." Natural de
Ananás (TO), casado e pai de três filhos, passou oito meses com a perna engessada. "Eu estou aqui conversando e sempre tem 
uma dor que incomoda. Eu sofro
de cãibras quase todos os dias."
Outro caso de fratura exposta é de Domingos da Conceição, 30. Por conta das fraturas, sua perna direita encurtou 2,5 cm: 
"Eu nunca pensei que eles [PMs]
fossem atirar para matar", diz. "Em dias de frio, a perna dói muito."
Ao lado de Domingos, outro maranhense, João Rodrigues, 31, conta sua história. "O sonho do meu pai sempre foi ter um pedaço 
de terra. Por isso eu entrei
no movimento. Hoje, ele [pai] está feliz por eu estar vivo e triste por ver um filho com dificuldades para trabalhar." Natural 
de Vitorino Freire (MA),
Rodrigues carrega até hoje uma bala no peito. "Eu até tento trabalhar na roça, mas o peito começa a doer e o braço fica 
adormecido. Tenho que tomar sempre
um antiinflamatório."
Rubenita, Oliveira, Domingos e Rodrigues trabalham agora para vender exemplares do recém-lançado "Os sobreviventes do Massacre 
de Eldorado do Carajás",
livro de produção independente do advogado Walmir Brelaz. "Tudo o que for arrecadado virá para pagar os custos que temos 
com remédios e hospitais", diz
Rubenita.
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Assentados não querem saber de novos conflitos

DOS ENVIADOS A ELDORADO DO CARAJÁS

Dez anos atrás, então com 43 anos, Andrelina Souza de Araújo apareceu na capa de jornais e revistas de todo o mundo como
o símbolo das viúvas do massacre
de Eldorado do Carajás. Com o filho Róbson de três anos no colo, ela chorava desesperada ao lado do caixão do marido, João 
Rodrigues de Araújo.
"Hoje eu vejo como foi difícil cuidar sozinha desses sete filhos. Eu ganhei um pedaço de terra, mas não tenho meu marido 
ao meu lado. Eu acho que não foi
feita Justiça", afirma Andrelina, 53. Hoje, além de uma pensão do governo do Estado, é beneficiária do Bolsa-Família.
"Eu nunca mais vou pra estrada [para marchas]. Depois daquele dia, não quero mais saber disso. Lembro daquela correria, 
o tiroteio, a camisa de meu marido
jogada no chão da rodovia. Hoje tenho minha casa, minha terra e não preciso trabalhar pra fazendeiro nenhum", diz a agricultora. 
Seus filhos vão na mesma
linha: "Não quero nem saber disso. Eu quero trabalhar só com a caneta", diz Róbson, 13, que cursa a 5ª série. "Eu quero 
ser advogada", afirma Aucilene,
14.
Após o massacre, a maioria dos sem-terra se refugiou no acampamento Formosa, no município vizinho de Curionópolis. Lá um 
grupo de crianças organizou um
cordão de isolamento na entrada da fazenda para proteger seus pais de uma invasão de PMs. Entre elas estava Francisco Souza 
dos Santos, então com 9 anos.
De calção, ele pedia Justiça e reforma agrária ao lado de colegas com facões e bandeiras.
Hoje com 19 anos, Francisco se lembra com exatidão do conflito com os policiais militares na PA-150. "Eu estava com meu 
pai, meu irmão e meu avô. Mas na
hora do tiroteio, quando vi uma caminhonete de policiais se aproximando, saí correndo pro meio do mato. Junto comigo passava 
um monte de gente rasgada
de bala. Só encontrei o meu pai no dia seguinte, no acampamento."
Ele não quer mais saber de conflitos: "Eu sou um cara tranqüilo, sossegado, só penso em ir tocando a minha vida por aqui". 
Ele vive com a mulher numa casa
no assentamento 17 de Abril.
Rondinele Nero Lima, que na época ajudava a mãe a lavar as roupas da família num igarapé, hoje está assentada no 17 de Abril. 
Na época do massacre, então
com 10 anos, Rondinele vivia com a família no acampamento Formosa, em Curionópolis: "Meu pai e meu irmão estavam lá [no 
conflito], mas não aconteceu nada
com eles". Hoje, aos 20 anos, está casada e tem quatro filhos.
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TERRA SEM LEI
Segundo a Comissão Pastoral da Terra, apenas 7% dos casos chegaram a julgamento entre 1985 e 2004; no período houve 1.399
assassinatos

Para Igreja, 93% dos crimes no campo não são julgados

DO ENVIADO A ELDORADO DO CARAJÁS

Pelo número de mortes e pela ampla repercussão tanto no Brasil quanto no exterior, o massacre de Eldorado do Carajás, que
completa dez anos em 2006, tornou-se
um símbolo de impunidade. Esse caso, porém, é apenas mais um exemplo do que ocorre sistematicamente no país.
Segundo dados da Igreja Católica, apenas 7% dos crimes ocorridos no campo entre 1985 e 2004 foram a julgamento.
Nesse período, ocorreram 1.043 crimes motivados por conflitos fundiários, com um saldo de 1.399 assassinatos -a maioria 
deles de trabalhadores rurais. De
acordo com um levantamento da CPT (Comissão Pastoral da Terra), apenas 77 desses casos foram julgados até hoje.
"O que temos, principalmente no Pará, é a constatação de que a impunidade tem sido a regra. A área de segurança pública 
no Pará tem uma ligação muito próxima
com setores ligados ao latifúndio. Por isso, nunca teve interesse de investigar e muitas vezes atua só por pressão", afirma 
José Batista Afonso, da coordenação
nacional da CPT no Pará.
Segundo ele, a atuação do Poder Judiciário fica ainda mais prejudicada pela falta de investigação da polícia. "Um levantamento 
que fizemos mostrou que apenas
28% dos assassinatos no campo no Pará tiveram algum tipo de investigação policial", afirma Batista Afonso.
O estudo da CPT, braço agrário da Igreja Católica, mostra também que, nesses 77 julgamentos, 15 pessoas apontadas como mandantes 
foram condenadas, enquanto
outras seis foram absolvidas. O balanço mostra ainda 65 executores que receberam condenação pela Justiça e outros 45 que 
receberam absolvição.

Eldorado dos Carajás
No caso de Eldorado do Carajás, por exemplo, dos 155 policiais militares que participaram da ação, apenas dois deles (coronel 
Mário Pantoja e major José
Maria de Oliveira) foram condenados. Por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), porém, ambos permanecem em liberdade.
"Toda a montagem do processo [de Eldorado dos Carajás] e as idas e vindas nos tribunais demonstraram nesse caso como o Poder 
Judiciário e o Estado brasileiro
estão permeados pelo poder e pelas influências do latifúndio, que usa a Polícia Militar como mera defensora de seus interesses 
econômicos. São os capitães-do-mato
modernos, no caso do Pará", declara João Pedro Stedile, da coordenação nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais 
Sem Terra).
De acordo com o líder dos trabalhadores sem-terra, a lei no Brasil foi feita para proteger os ricos e condenar os pobres. 
"A impunidade dos policiais e
dos verdadeiros mandantes do caso de Eldorado dos Carajás é assombrosa e comprova mais uma vez que, no Brasil, a lei protege 
os ricos. Apenas os pobres,
pretos e sem-terra vão pra cadeia."
(Eduardo Scolese)
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OUTRO LADO

Condenados, major e coronel declaram inocência no caso

DO ENVIADO A ELDORADO DO CARAJÁS

Condenados pela Justiça do Pará a 228 anos e a 158 anos de prisão respectivamente, o coronel Mário Colares Pantoja e o major 
José Maria de Oliveira declaram
inocência no confronto e aguardam anulação do julgamento por meio de recursos no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e no 
STF (Supremo Tribunal Federal).
"O coronel comandava a tropa, mas não atirou em ninguém. Ele [coronel] foi lá [na PA-150] a mando", diz o advogado de Pantoja, 
Roberto Lauria. À época no
comando das tropas da PM de Marabá, Pantoja recebeu ordem do então governador Almir Gabriel (PSDB) para desobstruir a estrada. 
Procurado, ele se recusou
a atender a reportagem.
De novembro de 2004 a setembro de 2005, Pantoja ficou preso num quartel da PM em Belém. Ganhou a liberdade por decisão do 
STF, que concedeu um habeas corpus
com base no princípio da presunção da inocência -a pessoa não pode cumprir a pena antes que se esgotem todas as opções de 
defesa. Um mês depois, o STF
concedeu o mesmo direito ao major Oliveira, que comandava os policiais militares de Parauapebas.
"Naquele dia, o meu cliente [Oliveira] alertou o gabinete do governador sobre o risco da ação. Mesmo assim, veio a ordem 
para a desobstrução da rodovia",
diz o advogado Jânio de Siqueira.
A presidência do Tribunal de Justiça do Pará diz, por meio da assessoria, que a orientação atual é a de agilizar processos 
ligados a crimes no campo. Informada
sobre a reportagem, a Secretaria de Defesa Social do Pará (responsável por segurança pública) não respondeu.


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