[cmi-curitiba] Orgânicos contra transgênicos, artigo de José Augusto Pádua
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Terça Outubro 31 15:09:23 PST 2006
http://www.funpar.ufpr.br:8080/funpar/boletim/novo/sistema.php?ACAO=publico/noticias.noticia.php¬icia=110&boletim=9
Orgânicos contra transgênicos, artigo de José Augusto Pádua
por José Augusto Pádua
“A ciência descobre, a tecnologia executa, o homem obedece." As
palavras escritas no portal da Feira Mundial de Chicago, em 1933,
sintetizam a postura submissa que ainda caracteriza a relação de
importantes setores da opinião pública contemporânea com as inovações
tecnológicas.
No vazio das antigas certezas religiosas, a ciência tornou-se para
muitos a única fonte confiável de verdade. É irônico observar, porém,
que o próprio movimento da modernidade global age no sentido de
dissolver a aura de devoção construída em torno do complexo ciência e
tecnologia.
O número cada vez maior de pessoas escolarizadas, a velocidade e a
intensidade dos meios de comunicação, o estabelecimento de múltiplos
espaços para o confronto de opiniões vêm contribuindo para gerar
sociedades que discutem cada vez mais seu presente e futuro.
O que está sendo discutido, na verdade, não são os limites da ciência,
mas sim o alcance da democracia na alta modernidade. Nesse sentido, a
surpreendentemente forte reação de diversos atores sociais aos
alimentos transgênicos, especialmente dos consumidores europeus,
representa um caso paradigmático.
A pressão democrática para que a produção de organismos geneticamente
modificados seja debatida de forma intensa e transparente, com uma
moratória no seu uso, contribui para dar visibilidade aos
condicionantes econômicos que controlam grande parte da atual pesquisa
técnico-científica.
E serve também para expor o uso da ideologia da pureza do progresso
científico como instrumento para justificar decisões empresariais
fundadas em objetivos bem menos etéreos, tais como o aumento dos
lucros e o controle dos mercados.
PRINCÍPIO DE PRECAUÇÃO – Não se trata de coibir a pesquisa acadêmica.
O esforço de politização das novas tecnologias, com exceção de algumas
poucas vozes especialmente radicais, não passa pela defesa de uma
censura da investigação teórica ou experimental.
O problema está na difusão social precoce, por motivos calcados
essencialmente na busca por poder econômico, de técnicas perigosas que
ainda estão sob intenso debate científico. Ou seja, uma clara violação
empresarial do chamado "princípio da precaução", que estabelece,
diante da incerteza, que não se devem adotar atividades ou técnicas
cujas conseqüências, se negativas, podem ser irreversíveis ou além da
nossa capacidade de controle.
Os organismos geneticamente modificados, na medida em que são seres
vivos, podem mesclar-se com outros organismos e penetrar nas cadeias
ecológicas planetárias, reproduzindo-se de forma descontrolada. É
tolice, pois, associar os transgênicos à modernidade e os orgânicos ao
arcaísmo.
No setor da produção orgânica, por exemplo, que está crescendo como
uma alternativa ao modelo transgênico, existe hoje um grande
investimento científico. Não se trata de aceitar passivamente os
movimentos da natureza, mas sim de buscar ativamente, por meio de um
conhecimento ecológico fino e sofisticado, formas de potencializar a
produtividade e a capacidade de sustentação das lavouras.
Mas seria ingênuo supor que a polarização entre transgênicos e
orgânicos esteja fundada em uma disputa apenas técnico-científica.
Trata-se, mais do que tudo, de uma questão de poder. A agroecologia,
por suas características concretas, não facilita a concentração de
poder assim como não favorece o estabelecimento de monopólios,
patentes e pacotes tecnológicos.
A gestão ecológica da agricultura requer desenhos locais, que
dialoguem com as condições específicas de cada domínio do território.
Seus insumos, além disso, são renováveis e recicláveis.
No núcleo da pressão pelos transgênicos se encontra a fome de poder de
um número restrito de enormes conglomerados empresariais, que, no
limite, buscam usar as novas tecnologias para dominar a oferta de
sementes e reduzir a autonomia dos agricultores e, por extensão, das
sociedades.
É assustador imaginar um futuro em que algo tão vital como as sementes
-assim como as fontes da alimentação em geral- estejam nas mãos de
pouquíssimas corporações. O consumidor, ao optar pelo que comer e por
qual modelo favorecer, pode estar fazendo política no mais alto grau.
José Augusto Pádua é professor do depto. de História da UFRJ e autor
de "Um Sopro de Destruição".
Fonte: Folha de S.Paulo
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