[cmi-curitiba] Eduardo Galeano: Os pecados do Haiti (tradução livre para o português de Antonio Folquito Verona)

João Carlos Fernandes jcf.ctba em uol.com.br
Sexta Janeiro 22 16:25:52 PST 2010


Eduardo Galeano: Os pecados do Haiti (tradução livre para o
português de Antonio Folquito Verona)


*os pecados do Haiti*

Publicado em 15 de Janeiro de 2010 por Eduardo Galeano

(tradução livre de Antonio Folquito Verona)

A democracia haitiana nasceu há muito pouco. No seu breve tempo de vida, 
esta criatura faminta e enferma não recebeu nada, além de bofetadas.
Estava ainda recém nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi
assassinada pela quartelada do general Raul Cedras. Três anos mais
tarde, ressuscitou. Depois de terem colocado e retirado tantos ditadores 
militares, os Estados Unidos pegaram e impuseram o presidente
Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por
voto popular em toda a história do Haiti e que havia tido a louca
aspiração de querer um país menos injusto.

* *

*O voto e o veto *

Para apagar as nódoas da participação norte-americana na ditadura
carniceira do general Cedras, os infantes de marinha levaram 160 mil
páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe 
permissão para retomar o governo, mas o proibiram exercer o poder. Seu 
sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, porém mais 
poder que Préval tem qualquer burocrata de quarta categoria do Fundo 
Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha 
sequer eleito com um voto apenas.


Mais que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou
algum de seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos
famintos, instrução aos analfabetos o terra aos camponeses, não recebe
resposta, ou o contradizem ordenando-lhe: - Faça a lição! E como o
governo haitiano nunca aprende que deve desmantelar os poucos serviços
públicos que ainda permanecem, últimos pobres amparos para um dos povos
mais desamparados do mundo, os professores acabam sempre por reprová-lo.

* *

*O álibi demográfico*

No final do ano passado quatro deputados alemães visitaram o Haiti.
Assim que chegaram, a miséria do povo os atingiu frontalmente. Então o
embaixador de Alemanha lhes explicou, em Porto Príncipe, qual é o
problema: - Este é um país demasiadamente povoado - disse-. A mulher
haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.


E riu. Os deputados se calaram. Essa noite, um deles, Winfried Wolf,
consultou as cifras. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país
mais superpovoado das Américas, tanto quanto a Alemanha: tem quase a
mesma quantidade de habitantes por quilometro quadrado. Em sua passagem
pelo Haiti, o deputado Wolf não apenas foi atingido pela miséria: também 
ficou deslumbrado pela capacidade de expressar a beleza dos pintores 
populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado… de 
artistas.
Na realidade, o álibi demográfico é mais o menos recente. Até a alguns
anos, as potências ocidentais falaram bem mais claro.

* *

*A tradição racista*

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até
1934. Retiraram-se quando alcançaram seus dois objetivos: cobrar as
dívidas do City Bank e revogar o artigo constitucional que proibia a
venda de terras aos estrangeiros. Robert Lansing, então secretário de
Estado, justificou a prolongada e feroz ocupação militar explicando que
a raça negra é incapaz de se governar por si mesma, que possui “uma
tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de
civilização”. Uno dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia
elaborado anteriormente a sagaz idéia: “Esse é um povo inferior, incapaz 
de conservar a civilização que tinham deixado os franceses”.


O Haiti havia sido a pérola da corona, a colônia mais rica da França:
uma grande plantação de açúcar, com força de trabalho escrava. No
espírito das leis, Montesquieu o havia explicado sem travas na língua:
“O açúcar seria demasiado caro se não trabalhassem os escravos para sua
produção. Esses escravos são negros desde os pés até a cabeça e têm o
nariz tão esmagado que é quase impossível ter deles alguma pena. Resulta 
impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma e 
sobretudo uma alma boa num corpo inteiramente negro”.


Em troca, Deus havia colocado um chicote na mão do feitor. Os escravos
não se distinguiam por sua vontade de trabalho. Os negros eram escravos
por natureza e vadios também por natureza; e a natureza, cúmplice da
ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir ao amo e o amo
devia castigar o escravo, que não mostrasse o menor entusiasmo na hora
de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de
Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica:
“Vagabundo, desocupado, negligente, indolente e de costumes dissolutos”.
Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado
que o negro “pode desenvolver certas habilidades humanas, como o
papagaio que fala algumas palavras”.

* *

*A humilhação imperdoável*

Em 1803, os negros do Haiti ocasionaram uma tremenda derrota às tropas
de Napoleão Bonaparte e Europa não perdoou jamais essa humilhação
infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas.
Os Estados Unidos haviam conquistado antes sua própria independência,
porém conservava ainda meio milhão de escravos trabalhando nas
plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era senhor de
escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os
negros foram, são e serão inferiores.


A bandeira dos livres se içou sobre as ruínas. A terra haitiana havia
sido devastada pele monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades
da guerra contra a França. Uma terça parte da população havia caído em
combate. Então, começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada
à solidão. Ninguém comprava dela, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

* *

*O delito da dignidade*

Nem mesmo Simão Bolívar, que soube ser tão valente, teve a coragem de
assinar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar poderia ter
reiniciado sua luta pela independência americana, quando já havia
derrotado a Espanha, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano lhe
havia entregado sete navios, muitas armas e soldados, com a única
condição que Bolívar libertasse os escravos, uma idéia que ao Libertador 
não lhe passava pela cabeça. Bolívar cumpriu com esse compromisso, porém 
depois de sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as 
costas ao país que o havia salvado. E quando convocou as nações 
americanas para a reunião do Panamá, não convidou o Haiti, mas sim a 
Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti depois de sessenta anos do final
da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da 
anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque possuem 
pouca distância entre o umbigo e o pênis. Naquele instante, o Haiti já 
estava nas mãos de carniceiras ditaduras militares, que destinavam os 
famélicos recursos do país para pagar a dívida com ex-metrópole: a 
Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à Francia una 
indenização gigantesca, como modo de ver-se perdoado por ter cometido o 
delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que em nossos dias tem dimensões
de tragédia, é também una história do racismo na civilização ocidental.

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los-pecados- de-haiti/
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