[cmi-goiania] Clipping FNDC - MinC e CSC definem mais 60 dias para projeto ficar pronto
FNDC
imprensa em fndc.org.br
Segunda Agosto 9 14:50:55 PDT 2004
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CLIPPING DO DIA
9 de agosto de 2004
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Seleção de textos coletada da pesquisa diária do Epcom - Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação
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Legislação de Comunicação
MinC e CSC definem mais 60 dias para projeto ficar pronto
Proposta do MinC abre debate sobre marco regulatório
Para exibidores, diálogo começa agora
Anatel: projeto do audiovisual gera conflito de competência entre as agências
MinC recua, mas não desiste de regular as TVs
Crítica a dirigismo cultural faz governo adiar projeto
'Qual é o intervencionismo, o dirigismo?', pergunta Gil
Surto ou tendência?
Adeus, Lenin
Debate sobre Ancinav terá mais tempo
A imagem distorcida
Um futuro de prejuízos
Guardado
A Constituição, antes de tudo
Entrevista 1 - Secretário do Audiovisual vê "tempestade em copo d´água" em discussão de nova agência
Entrevista 2 - Regulação do audiovisual é fundamental para economia brasileira, afirma secretário
Projeto provoca polêmica desde o governo FHC
Agência do Cinema teme bloqueio de suas atividades
Governo quer controlar conteúdo da internet
Cultura recebe entidades para discutir nova agência
PT prega o fim das panelinhas na cultura
Audiovisual
Governo quer regulamentar conteúdo para a internet
Ministério recebe entidades para discutir Audiovisual
Televisão
Criar sistema digital brasileiro é perda de tempo, diz especialista
Livro esmiuça papel da televisão no Brasil
Cabo-de-guerra
Obra faz análise aprofundada da televisão
O poder da televisão
Amor lésbico de "Senhora" começa com selinho
Disputa 1
Novela faz três merchandisings em 1 minuto
Mexicana "Amy" segue trilha de "Carrossel"
Errar era humano
Prefácio laureado
Estréias desanuviam a tarde na TV
Liberdade de dissidência? Não na TV russa
Fofocas e bastidores não mudam ibope do SBT
Ex-'esculhambação'
'Topo Gigio na televisão'
Ele é fofo e veio de outro planeta
As regrinhas básicas de convivência
Culinária para todos os gostos e bolsos
O provocador
Justus, o Trump brasileiro
Política de Rádio e TV
TV poderá ter programação educativa obrigatória
Política de TV por Assinatura
Net anuncia Net Digital no Congresso da ABTA
Internet e telefonia vão ajudar TV paga a crescer
Diversão popular
Indústria cresce graças à banda larga e ao pay-per-view
TV paga e aberta brincam de espelho, espelho meu
Imprensa & Jornalismo
Pecado original
Governo propõe criação de conselhos de Jornalismo
Gushiken quer "proteger a sociedade"
Fenaj apóia conselho de jornalismo; ABI veta
Conselho vai coibir excessos, diz Berzoini
Lula defende Meirelles e ataca denuncismo
Os pontos mais polêmicos do projeto
Jornalistas condenam projeto de conselho federal
Orientar e disciplinar, verbos perigosos
Se passar no Congresso, idéia pode cair no STF
'Pode ser um passo para a tragédia da censura'
ANJ analisa proposta
Condenação ao conselho
Imprensa sob pressão
Jornalismo orientado
Tiroteio
Controle
Censura
Imprensa
A imprensa do projeto petista de poder
Partido único
A costumeira enganação
A força das revistas
Entidades dos EUA condenam conselho de jornalismo no país
Sem acreditar
Profissão não pode ter nenhuma forma de pressão, diz promotor
O grande companheiro
Mordaça na imprensa
O grande companheiro
Dirceu defende controle sobre imprensa e MP
'Estão nos levando a implodir nossa cultura'
Visita a castelo descortina vida de Hearst
Passeio pelo ventre do palácio custa US$ 24
Jornalistas em debate sobre televisão
Cobertura em duas frentes
Mercado de Comunicação
RBS está em busca de oportunidades no centro do país
Faturamento cresce mais que a base de assinantes
RBS realiza operação de troca de título de dívida
Audiência lucrativa
HSBC paga US$ 1,75 bi por 20% de banco
País da vodca, Rússia mergulha na cerveja
De Cebolinha a softwares, a nova exportação
Audiovisual
Documentários podem ser a salvação das telas
Anima Mundi reúne mais de 2 mil visitantes
A mão sinistra
Choque de visões marca Festival Judaico
Caraca
Lei do Audivisual
'Esse governo quer controlar o mundo'
Estatização do cinema e da TV
Surto autoritário
O imaginário social
Ameaça à liberdade
Gil defende construção de salas de cinema em regiões carentes
A festa do DVD
Escola Darcy Ribeiro forma roteiristas
Cultura
Gil apresenta sistema nacional de cultura no Espírito Santo
Exercícios da memória
Alvos múltiplos
Funarte lança projetos para teatro, dança e circo
Política
Parceiros em um linchamento moral
Mostrando a cara
Dirceu defende mais verba para PT
A CPI da discórdia
Reforço de peso
Vamos incluir orelhas nos contratos
Carta marcada
Modesto
Lula pode usar TV para defender Meirelles
Uma iniciativa temerária
Godofredo Pinto (PT)
Ministros do PT farão propaganda do governo nas campanhas municipais
PT aposta na estrela do Planalto
Hegemonia tem limites
Literatura e Mercado Editorial
Fenômeno Da Vinci
Livros culpam bancos por fracassos
MITO FORTE
Programação de TV por Assinatura
Atrito põe luta no pay-per-view
HBO vai co-produzir sua segunda série no Brasil
Televisão para Homens
ABTA
Telecom
Novo regulamento não colide com a LGT, afirma consultoria
Intelig será vendida para uma das teles locais
Voz na rede
Mais lenha
Comunicação & Educação
No Sul, um centro de formação de professores
Regulação
Projeto regula tamanho de letra usada em propaganda
Sociedade da Comunicação
Governo e teles discutem proposta de computador popular
Nas ondas da rádio indígena
Valorização do ser humano
Ciência & Tecnologia
Robótica e suas leis complexas
Invenções de bolsistas do CNPq geram novas empresas e acordos internacionais
Indústria Fonográfica
Tudo pelo marketing
O rei do pancadão
Informática
Linux deixa de ser sistema só de gente grande
Internet
Clone do Orkut, NetQI tem enfoque profissional
Mídia Global
Spielberg adia filme por medo de terrorismo
Michael Moore e o efeito borboleta
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Legislação de Comunicação
MinC e CSC definem mais 60 dias para projeto ficar pronto
6/8/204, 18h38
O primeiro resultado da reunião do Conselho Superior de Cinema (CSC) na tarde desta sexta, 6, em São Paulo, foi a definição de um prazo ainda maior para que o projeto de lei que criará a Ancinav seja analisado e aprovado. Segundo o assessor chefe do Ministério da Cultura, Sérgio Sá Leitão, os conselheiros representantes da sociedade civil do CSC pediram na reunião 60 dias para discutir o projeto. Houve então um "pacto" entre o Ministério da Cultura e os representantes civis para que em no máximo dois meses o projeto esteja pronto e fechado. O assessor chefe disse ainda que a Casa Civil e o MinC se reunirão na segunda-feira, 9, para definir uma agenda para o projeto.
O MinC reiterou que repudia qualquer tipo de controle editorial sobre os meios de comunicação e que se houver qualquer artigo que dê a entender essa possibilidade, ele será reescrito. Os membros do CSC querem também ter o regimento interno do conselho pronto o mais rápido possível. Na segunda, 9, MinC e Casa Civil discutem a agenda do anteprojeto de lei e também o regimento do CSC. A reunião desta sexta começou com uma apresentação geral do secretário Juca Ferreira (Cultura), condenando o vazamento do projeto.
Manoel Rangel, assessor especial do MinC, descreveu então os detalhes da proposta. Daqui para frente, reuniões deverão discutir cada capítulo do projeto. Sérgio de Sá Leitão adiantou que alguns conselheiros se mostraram contra as taxações de seus respectivos setores e que querem garantias de que a arrecadação da Condecine ficará no setor audiovisual.
Novos setores
O secretário do audiovisual do Ministério da Cultura, Orlando Senna, afirmou a este noticiário que, mesmo não fazendo parte do CSC, o setor das trelecomunicações deve ser ouvido pelo MinC. Ainda segundo o secretário, a versão do projeto entregue aos representantes civis do CSC nesta sexta e aos representantes do governo na quinta, 5, é muito semelhante à versão tornada pública por este noticiário na segunda, 2, com "pequenas correções de texto".
Apresentação
Alguns conselheiros do CSC ouvidos por este noticiário após a reunião afirmaram que a reunião foi apenas uma apresentação do projeto para que se defina como será o debate daqui para frente. Portanto, nenhum tema foi debatido profundamente. Da Redação - PAY-TV News
Proposta do MinC abre debate sobre marco regulatório
6/8/204, 18h12
Não são só críticas que existem hoje ao projeto do Ministério da Cultura de criação da Ancinav, divulgado com exclusividade por esse noticiário na segunda, dia 2, e que em 60 dias ganhará uma forma final de projeto de governo. "A criação da Ancinav não é algo que esteja sendo debatido só agora. É algo que vem de muito tempo. E a criação da agência precisa vir juntamente com a regulação das novas mídias digitais e da televisão. Trata-se de uma necessidade social", diz Geraldo Moraes, presidente do Congresso Brasileiro de Cinema (CBC), entidade que congrega diversas associações representativas do setor de cinema. "Esse projeto representa a primeira vez em que a questão geral do audiovisual é colocada em discussão sob um mesmo guarda-chuva, e isso é importante. Claro que há pontos que são complicados e precisarão ser revistos, mas não se pode deixar que o desentendimento sobre dois ou três artigos prejudique o debate sobre a criação de um ambiente regulatório tão necessário".
Marco Altberg, presidente da Associação Brasileira de Produtores Independentes de TV (ABPI-TV), ressalta que são necessárias mudanças no ambiente regulatório da televisão. "Independentemente do documento em si que foi tornado público, o que está em questão é finalmente a possibilidade de que se criem regras claras para a TV aberta comercial brasileira, o que não existe hoje", diz. "É claro que o texto tem pontos que receberão críticas, mas o debate público serve para corrigir isso. O importante é que se pense em um ambiente regulatório bom para todo mundo", diz Altberg.
"A própria televisão já reconheceu, no caso das novas mídias, que uma discussão sobre um ambiente regulatório melhor é necessária", diz Geraldo Moraes. Recorde-se que no dia 5 de julho a TV Globo, em conjunto com a PUC de São Paulo e dezenas de apoiadores, entregou ao presidente Lula um documento com o resumo do seminário "Conteúdo Brasil", realizado no início do ano. No documento, dizia-se que "a camada do conteúdo está regulamentada apenas para as mídias que usam as infra-estruturas tradicionais: rádio, televisão convencional, jornal e revista. Mas quem 'transmite' uma estação de televisão ou um jornal pela internet não é obrigado a seguir nenhuma regulamentação. Isso é uma assimetria, que deve ser estudada e que pode levar à criação de um novo marco regulatório".
O texto entregue a Lula dizia ainda: "Deve haver uma regulamentação para que o conteúdo divulgado por elas seja produzido por grupos controlados por brasileiros. É preciso que haja uma distinção clara: uma coisa é a propriedade das empresas de telecomunicações; outra é controle das empresas que produzem conteúdo, que deve estar em poder de brasileiros. É uma questão de isonomia de tratamento e de respeito à Constituição". A íntegra do documento está disponível para download em http://www.paytv.com.br/arquivos/documento-globo-puc.pdf
Reuniões
O Congresso Brasileiro de Cinema reunirá em Brasília, na segunda, dia 9, a sua base de entidades representativas para debater os pontos do documento proposto pelo Ministério da Cultura e tirar uma posição comum "no que for possível", diz Geraldo Moraes. Em seguida,o CBC reúne-se com o MinC para apresentar suas posições. Da Redação - PAY-TV News
Para exibidores, diálogo começa agora
6/8/204, 19h10
Um dos setores mais críticos às propostas que aparecem no texto de lei de criação da Ancinav é o de exibidores. Para Luiz Severiano Ribeiro, representante do setor no Conselho Superio de Cinema, "agora é que começa o diálogo". Severiano deu a declaração ao deixar, como membro do CSC, a reunião realizada nesta sexta, 6, com o Ministéruio da Cultura, em São Paulo. Em nota oficial anterior à reunião, a FENEEC (Federação Nacional dos Exibidores de Cinemas), ABRACINE (Associação Brasileira dos Exibidores de Cinemas) e ABRAPLEX (Associação Brasileira das Empresas Multiplex) disseram discordar totalmente da forma como foi conduzido o processo de criação da Ancinav; repudiaram "o brutal aumento de carga tributária, insuportável para o setor de exibição", que, segundo as associações, não poderá arcar com o ônus da construção de novas salas nem honrar os compromissos existentes de cota de tela para o filme nacional; e alegaram que a taxação sobre o número de cópias de lançamentos prejudicará a distribuição e, por conseqüência, os exibidores de cidades de pequeno e médio porte. Os exibidores pedem para que o projeto de criação da Ancinav seja encaminhado ao Congresso "para ser avaliado de forma democrática, discutindo-se todos os pontos e envolvendo as demais Agências Reguladoras". Da Redação - PAY-TV News
Anatel: projeto do audiovisual gera conflito de competência entre as agências
6/8/2004
Para a Anatel, o projeto de lei que dispõe sobre a organização de atividades cinematográficas e audiovisuais e institui a Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual) cria conflitos com a legislação de telecomunicações existente e com a competência do órgão regulador do setor de telecom. Na avaliação de um dirigente da Anatel, o documento, que foi apresentado ontem ao Conselho Superior de Cinema, gera muitas dúvidas para o setor de radiodifusão e de telecomunicações e precisa ser debatido de forma mais ampla com todos os atores cujas atividades sofrerão algum impacto com o projeto. Para o diretor da Anatel, a apresentação do projeto de lei do audiovisual deverá esvaziar ainda mais a discussão sobre mudanças na Lei do Cabo. "Acho que agora essa discussão perdeu o timing", afirmou, mas ele considera ser essencial a elaboração de uma Lei de Comunicação Eletrônica de Massa. O ex-ministro das Comunicações Pimenta da Veiga chegou a elaborar uma proposta de lei que não prosperou. "O fundamental é que as conquistas sociais obtidas com a Lei do Cabo, como os canais obrigatórios (canal do Legislativo, do Judiciário, canal comunitário etc) sejam mantidas", afirmou o diretor. Ontem, ao conceder entrevista para falar do projeto de lei do audiovisual, o chefe de gabinete e assessor especial do Ministério da Cultura, Sérgio Sá Leitão, afirmou não ver no texto sobreposições de funções com a Anatel. "Entendemos que estamos legislando sobre algo que é não regulado no país e a idéia é que não existe sobreposição. O ambiente da Ancinav é o conteúdo audiovisual e acreditamos que as competências são complementares às da Anatel.", disse. Ele afirmou ainda que eventuais problemas legais poderão ser corrigidos uma vez que o projeto ainda será debatido pelos próximos 30 dias dentro do governo. O texto elaborado pelo Ministério da Cultura, com o apoio da Casa Civil, traz um capítulo específico sobre a exploração de atividades cinematográficas e audiovisuais nos serviços de telecomunicações. Entre outros pontos, o texto afirma que a Ancinav poderá regular a exploração de atividades cinematográficas e audiovisuais nos serviços de telecomunicações, podendo, inclusive, estabelecer limites, restrições ou condições à exploração de atividades cinematográficas e audiovisuais pelas prestadoras e suas controladas, coligadas ou controladoras. Cristiana Nepomuceno - Telecom Online
MinC recua, mas não desiste de regular as TVs
7/8/2004
Cineastas e produtores que compõem o Conselho Superior de Cinema reivindicaram do MinC (Ministério da Cultura) dois meses de prazo para avaliar o projeto de criar a Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual).
O texto, que regula a atividade de todo o setor audiovisual, incluindo TVs abertas, foi entregue aos conselheiros em reunião ontem em São Paulo, agendada desde a semana passada. O MinC pretendia obter a aprovação do projeto por todo o Conselho (há nove ministros no grupo, além dos nove representantes civis) no dia 16.
Mas o vazamento do projeto pelo site "PayTV", na segunda, desencadeou críticas das empresas de TV, de distribuidoras e exibidoras de cinema. O projeto afirma que o poder público tem o dever de "combater o abuso do poder econômico" ao regular as atividades cinematográficas e audiovisuais.
O texto diz que a Ancinav poderá estabelecer "restrições, limites ou condições à exploração de atividades cinematográficas e audiovisuais, visando a competição efetiva e a diversidade de fontes de informação" e prevê que as TVs firmem anualmente "um compromisso público" para exibição de longas brasileiros de produção independente e regional.
Donos de cinema e distribuidores de filmes foram afetados pela previsão de taxar a venda de bilhetes e o lançamento de filmes acima de 200 cópias.
A Folha apurou que no Ministério da Cultura existe a suspeita de que o vazamento do texto ocorreu por meio do Ministério das Comunicações.
Ontem o MinC acenou que deverá dar dois meses para o debate, como pedem os conselheiros civis. Os ministros do conselho receberam o projeto anteontem e pediram 30 dias.
Os conselheiros civis viram no novo prazo do MinC "um passo atrás", mas não sinal de desistência. "Eles ainda parecem firmes em suas posições", disse Carlos Eduardo Rodrigues, diretor da Globo Filmes. "Estamos num intervalo, mas o tema ainda é sério", disse o exibidor Luiz Severiano Ribeiro.
O ministro Gilberto Gil (Cultura) disse ontem não crer na "modificação total" do texto, "resultado de um ano e meio de consultas amplas feitas a vários setores". Gil minimizou o vazamento. "Acho até bom, porque vamos discutir aberto. Eles [os críticos] vão ter de ser sinceros. Muitos deles, que não querem regulação, querem que tudo fique como está, vão ter de dizer que querem que tudo fique como está ou vão ter de dizer como querem que mude".
A Folha apurou que, em conversa telefônica com o cineasta Cacá Diegues, na quinta, Gil autorizou o cineasta a divulgar que haveria até 90 dias para debater o projeto do MinC, mas pediu que Diegues expressasse publicamente seu desejo de "manter as coisas como estão".
Ontem, Diegues publicou no jornal "O Globo" artigo em que classifica o projeto de "redutor, xenófobo e autoritário". Silvana Arantes e Isabelle Moreira Lima - Folha de São Paulo
Crítica a dirigismo cultural faz governo adiar projeto
7/8/2004
Proposta do governo para controlar cinema e audiovisual é mal recebida pelo setor
A divulgação do texto sobre a criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), no qual o governo propõe várias medidas de controle dessas atividades no País, desencadeou ontem novos protestos de setores políticos e culturais. Em resposta, o Conselho Superior de Cinema e Audiovisual decidiu prorrogar por 30 dias a definição da proposta, para ampliar os debates a respeito - assim, o texto definitivo só sairá daqui a 60 dias.
Algumas das idéias apresentadas no projeto - nas quais os críticos vêem uma forma de dirigismo cultural pelo Estado - despertaram fortes reações. Entre elas, a taxação das TVs, a reprodução de cópias de filmes apenas por laboratórios brasileiros, a extensão das medidas a setores de telecomunicações. Como destacou o cineasta Cacá Diegues, o texto "submete a obra visual (cinema e televisão) a diferentes valores éticos e sociais que fica a cargo do governante definir e julgar". Na crítica, divulgada ontem no jornal O Globo, Diegues adverte também que, "não satisfeito em mandar no cinema, o Ministério da Cultura passaria a ter também o direito de intervir na programação das televisões".
Ingressos - Além disso, como alertou o presidente da Associação Brasileira das Empresas Multiplex, Valdir Fernandes, o decreto poderá provocar o encarecimento imediato dos ingressos de cinema em todo o País. Fernandes calcula que o setor de exibição terá um aumento brutal da carga de impostos (de 25% para 35%) e que a tendência do aumento de custos das empresas será o repasse de preço ao consumidor - no caso, o espectador.
O espírito do texto, voltado para reduzir o impacto da indústria audiovisual americana no Brasil, seria um documento escrito pelo secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, sob o título "Subdesenvolvimento e Cultura". Nesse estudo, Guimarães menciona que a construção da identidade cultural brasileira se contrapõe "à hegemonia das manifestações culturais estrangeiras sobre a cultura brasileira no próprio território brasileiro".
O ministro da Cultura, Gilberto Gil (leia entrevista ao lado) admitiu ao Estado que pode haver imperfeições, e que isso pode determinar mudanças, mas que o espírito da lei vai permanecer. "Ainda bem que veio a público. Vai se discutir a questão do conteúdo nacional, do cinema estrangeiro que compete com vantagens em relação ao cinema brasileiro", disse Gil. Ontem, o ministério começou a enviar o texto definitivo - que até então circulava na internet - para entidades de classe do setor cinematográfico. Na segunda-feira, às 16h30, essas entidades irão a Brasília discutir as propostas. O Estado de São Paulo
'Qual é o intervencionismo, o dirigismo?', pergunta Gil
7/8/2004
Ministro defende necessidade de regulação do mercado e dos conteúdos
O ministro da Cultura, Gilberto Gil, falou ao Estado ontem, no aeroporto de Congonhas, sobre a polêmica em torno da minuta do decreto-lei que cria a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav).
Estado - O sr. leu o artigo do Cacá Diegues em O Globo? Tecia pesadas críticas ao governo.
Gil - Não li. Conversei com ele ontem, por telefone. Ele disse que tinha um sentimento de que os setores não tinham sido consultados. Eu disse que não, que eu pessoalmente participei de vários encontros com as grandes redes de TV, com os setores de telecomunicações, com vários setores do cinema e da TV...
Estado - As sugestões desses grupos estão contempladas?
Gil - Sim, estão. As consultas todas foram feitas.
Estado - Esse prazo de 30 dias que está sendo dado para discutir a minuta...
Gil - É para ela circular, ser encaminhada. Que todas as críticas sejam feitas pontualmente. São 70 e poucos artigos que estão lá. Eu estou vendo 3 ou 4 sendo contestados. Então como alguém vem dizer que a lei não presta?
Que toda a proposta não serve para nada?
Estado - Cacá Diegues diz que a minuta é um "desastre conceitual e técnico".
Gil - Que ele prove. Venha e diga: é um desastre aqui. Artigo 1: um desastre. Artigo 2: um desastre, por essas e essas razões. Mais ainda: o que não é desastroso, os pontos básicos. Mais ainda: para quem é desastroso?
Para todos os envolvidos na cadeia? Ou para um particular?
Estado - E as acusações de centralismo e autoritarismo de alguns mecanismos dessa minuta?
Gil - Também têm de dizer onde estão eles. Qual é o dirigismo, qual é o intervencionismo, o que significa isso, onde está isso no texto. Não só nas interpretações que cada um quer ter. Aquilo que vocês estão interpretando como indício de possível intervencionismo nós dizemos que não. Nós estamos num regime democrático. Se fosse ditatorial, ainda podíamos imaginar que vocês suspeitassem disso, mas num regime democrático, onde a opinião e a discussão estão abertas? Por que um conselho vai ter poderes intervencionistas na televisão? Porque se alguém questionar a política de conteúdo de uma companhia de telecomunicações, de uma rede de televisão, qual é? Isso já se faz. Ou a regulação é necessária ou não é. Eu disse a Cacá ontem: se vocês não precisam de um marco regulatório, digam publicamente. E nós não faremos nada. Melhor para nós, não teremos trabalho. O Estado de São Paulo
Surto ou tendência?
7/8/2004
A quem será que se deve o surto dessas velhas e pobres rimas - intervencionismo, autoritarismo, dirigismo - que resultou no desastrado anteprojeto de lei que cria a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), provocando tantas reações do setor cinematográfico? Se nada nele tem a ver com a história, as idéias e as palavras do ministro Gilberto Gil, como afirma com razão Cacá Diegues, um dos principais críticos da medida e amigo do ministro, de quem terá sido a infeliz inspiração?
Tudo bem que o Minc, responsável pela elaboração do texto, tenha voltado atrás assim que surgiram os primeiros protestos. Mas e se a tentativa passasse despercebida? Assessores de Gil se apressaram em garantir que o projeto é preliminar, uma espécie de "rascunho" e que, para possibilitar um debate mais amplo com a sociedade, não vai ser enviado ao Congresso no dia 16, como estava previsto. Descobriu-se de repente que pouco mais de uma semana seria insuficiente e que o prazo precisava ser ampliado para 30 dias. Pelo visto, ninguém dentro do governo foi capaz de perceber isso antes.
Se já foi estranha a maneira como se tomou conhecimento do documento, que vazou para o público por acaso, através da internet, como se fosse um balão de ensaio do tipo se colar, colou, mais estranhas ainda foram a facilidade e a rapidez do recuo. Impressiona a pressa com que os assessores ministeriais vieram a público afirmar a disposição governamental de operar mudanças em artigos de um projeto que se supunha ter sido exaustivamente pensado e discutido durante 14 meses pelos nove ministros que integram o Conselho Superior do Cinema e do Audiovisual. A falta de convicção no que foi apresentado denota no mínimo desconfiança.
Os porta-vozes do Minc garantem que se o anteprojeto sugere algum tipo de dirigismo, isso se deve à redação, que será convenientemente mudada. O problema é que o artigo 43, por exemplo, não apenas sugere, mas permite claramente que a Ancinav interfira no conteúdo editorial de veículos de comunicação, e isso não se revolve com um mero artifício de texto.
Como ainda há a coincidência de que o presidente acaba de enviar ao Congresso um projeto de lei criando o Conselho Federal de Jornalismo, para "orientar, disciplinar e fiscalizar" o exercício da profissão e a atividade do jornalismo, inclusive com poderes para punir, cabe a suspeita de que a tentação do dirigismo cultural nesse governo não seja apenas um surto, mas uma tendência enraizada sempre pronta a florescer. O Globo
Adeus, Lenin
7/8/2004
Numa semana, duas ameaças: uma agência para controlar a produção cultural e um conselho para fiscalizar o jornalismo. A idéia da agência, que diante dos protestos foi recolhida ao estaleiro, nasceu na Casa Civil. No caso do jornalismo, a Federação Nacional dos Jornalistas propôs a criação de um conselho para a profissão, mas a exposição de motivos do ministro Ricardo Berzoini deixa clara a intenção controladora. Diz o ministro que não há hoje instituição para "fiscalizar e punir as condutas inadequadas dos jornalistas".
O ministro está errado. O que nos pune, caso tenhamos condutas inadequadas, é o conjunto das leis brasileiras, o Judiciário brasileiro. Sobre o nosso trabalho, recai ainda o peso de uma lei do período ditatorial: a Lei de Imprensa.
No projeto para a criação da Ancinav - agência que controlará cinema, televisão, TV paga, rádio e outras empresas que atuam em audiovisual - o governo nem disfarça sua inclinação autoritária.
Artigo primeiro: "Compete à União organizar a exploração das atividades cinematográficas e audiovisuais. Parágrafo único: a organização inclui o planejamento, a regulação, a administração e a fiscalização das atividades cinematográficas e audiovisuais." Esse início é revelador. O governo deve regular e fiscalizar. Isso está correto. Mas as tarefas de planejar e administrar cabem às empresas. Tudo neste governo é assim. Ele não se contenta em exercer as funções que estão destinadas ao Estado. Na cultura, como na economia, o mesmo DNA do autoritarismo, da centralização excessiva, de regras pouco claras, das perigosas ambigüidades aparece em cada iniciativa.
Há frases no texto que parecem singelas, como a do artigo oitavo: "A liberdade será a regra." Parece estar confirmando as garantias constitucionais da república democrática que o Brasil escolheu ser, mas aí vem o fim da frase: "constituindo exceção as proibições, restrições e interferências do setor público." Leia-se ao inverso e se verá o tamanho da ameaça: estão autorizadas, portanto, as proibições, restrições e interferências.
O artigo todo é abusivo. No terceiro parágrafo, diz que "O proveito coletivo gerado pelo condicionamento (da intervenção estatal) deverá ser proporcional à privação que ele impuser." Ou seja, é possível sacrificar a liberdade se isso for, na interpretação do governo, de proveito coletivo? Liberdade não tem porém. Liberdade não se condiciona a nenhum outro objetivo. Isso aprendemos; dolorosamente.
A Ancinav, Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual, como foi proposta, terá o direito de interpretar as leis, decidir em casos omissos - e suas decisões são irrecorríveis. Admite apenas o recurso ao conselho diretor da própria Ancinav. Vai também "articular os vários elos da cadeia produtiva da indústria cinematográfica e audiovisual brasileira", vai "fomentar" alguns produtos estrangeiros, expedir certificados, vai apreciar "os comportamentos suscetíveis de configurar violação das normais legais aplicáveis à exploração de atividades cinematográficas e audiovisuais, inclusive a produção, programação, distribuição, exibição, veiculação". E é ela também que decidirá sobre os casos de defesa da concorrência, função da Secretaria de Direito Econômico e do Cade. A lista das atribuições é tão interminável quanto inconstitucional.
E quem exercerá esse poder todo? Cinco pessoas. Ou melhor, três pessoas, porque o conselho diretor terá cinco diretores, mas decidirá por maioria simples. Esse triunvirato terá o direito de, no caso em que a divulgação "colocar em risco a segurança do país, violar segredo protegido ou a intimidade de alguém", fazer reuniões secretas e manter seus registros em sigilo. A Ancinav terá também o direito de requerer qualquer informação "técnica, operacional, econômico-financeira e contábil" de qualquer empresa que atue no mercado.
E quem está submetido a ela? Todos os que se enquadrarem nesta estranha definição: "Conteúdo audiovisual é o produto da fixação ou transmissão de imagens, com ou sem som, que tenha a finalidade de criar a impressão de movimento, independentemente dos processos de captação, da tecnologia empregada, do suporte utilizado inicial ou posteriormente para fixá-las ou transmiti-las, ou dos meios utilizados para sua veiculação, reprodução, transmissão ou difusão."
A poderosa Ancinav também tributa. Ela aumentou a taxação que recai sobre o setor por meio da "contribuição para o desenvolvimento da indústria cinematográfica e audiovisual brasileira" e dá uma lista enorme de fatos geradores sobre os quais recairá a taxa, a "Condecine".
O pior momento da peça está nos artigos 42 e 43. No primeiro, diz que ela vai exigir das prestadoras de serviços no setor: "respeito aos valores éticos, sociais e morais da família", sem dizer que tipo de manual de costumes vai consultar. No 43, ela se outorga o direito de dispor sobre "a responsabilidade editorial e as atividades de seleção e direção da programação". Triste é ver o imenso Gilberto Gil aceitar um texto que ele não redigiu e que, em tantas notas, desafina com sua biografia.
Tudo no projeto lembra uma outra época, um outro mundo, cujos muros já desabaram há 15 anos, um mundo em que o poder central planificador decidia, julgava, condenava, organizava e administrava por obscuros e subjetivos conceitos, e transformava os produtores culturais em peças da máquina de propaganda estatal. O governo recolheu o texto e diz que vai refazê-lo. O melhor destino para este texto é o lixo. O Globo
Debate sobre Ancinav terá mais tempo
7/8/2004
SÃO PAULO E RIO. Os nove conselheiros representantes da sociedade civil no Conselho Superior de Cinema do Ministério da Cultura (MinC) decidiram ontem em São Paulo prorrogar por mais 60 dias o prazo para debates sobre o anteprojeto do governo que cria a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav).
Em Carapicuíba, na Região Metropolitana de São Paulo, em visita ao Instituto Casa da Gente, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, disse que é preciso haver concordância entre os grupos envolvidos para a criação da Ancinav. Segundo ele, o debate é que decidirá como será o projeto a ser enviado ao Congresso. Ele disse que a Ancinav pode até não ser criada, se assim for decidido.
- Se ficar certo que ninguém quer a agência, não se faz. Se ficar certo que todos querem de uma forma pactuada, se fará - afirmou, defendendo a necessidade da agência.
E acrescentou:
- Há muitos interesses que precisam criar convergência em relação à questão do audiovisual. A agência é um instrumento exatamente para isso: dar sede, consolidar o espaço e estabelecer o marco regulatório no setor.
"É uma proposta que está sendo discutida há um ano"
Perguntado se a criação da Ancinav está provocando insatisfação entre empresários do setor audiovisual e artistas, Gil se mostrou irritado:
- Não está gerando nada porque ainda não existe. Há é uma grande discussão porque só pode ser assim. É uma proposta do governo que está sendo discutida há um ano. Já estive com os grupos Globo e Silvio Santos, não só eu como vários ministros de outras áreas, além de todos os setores da produção cinematográfica. Vamos continuar a discutir.
Chamado a Brasília para discutir o orçamento de seu ministério, Gil não participou da reunião de ontem do Conselho, que foi coordenada pelo chefe da assessoria do ministro, Sérgio Sá Leitão. Na próxima segunda-feira, de acordo com Leitão, técnicos do MinC e da Casa Civil vão fixar o calendário e a metodologia para a discussão.
Barreto: há muito o queser aproveitado no projeto
Na segunda-feira, o Sindicato dos Produtores de Cinema vai se reunir para discutir a lei que cria a Ancinav e extrair uma posição dos profissionais ali representados. Há três dias às voltas com a análise da lei, o veterano produtor Luiz Carlos Barreto diz que há muito o que ser aproveitado no projeto, mas também muitas distorções a serem corrigidas. Ele chama a atenção para uma distorção que julga a mais séria: a determinação da extinção da Ancine e a posterior criação da Ancinav, e não a transformação de uma em outra. Pode parecer uma questão semântica, mas, para ele, o efeito prático pode ser a paralisação da atividade cinematográfica.
- Quando a Ancine foi criada e toda a burocracia referente aos projetos cinematográficos foi transferida da Secretaria do Audiovisual para a agência, até que tudo fosse organizado e o ritmo normal do trabalho fosse retomado, se passou um ano e meio - lembra ele. - Se, no momento em que a Ancine estava começando a caminhar, isso acontecer de novo, vai desestruturar todo o setor. Que se ampliem os poderes do órgão, mas aproveitando uma estrutura que já existe.
A questão também é alvo de críticas de um exibidor, que prefere não se identificar, mas que a ataca por um outro ângulo, menos prático e mais filosófico.
- As agências dos diversos setores foram criadas para dar segurança aos investidores de que as regras do jogo não seriam mudadas. Não se extingue uma agência da noite para o dia - diz ele. - A Ancine ainda tem muito pouco peso no cenário da política nacional, mas, a rigor, seguindo-se essa lógica de raciocínio, alguém poderia extinguir a Anatel amanhã.
Grande parte dos problemas apontados por cineastas e produtores parece dever-se à redação. Um tópico polêmico, que fala em "fomentar a participação diversificada de obras cinematográficas e videofonográficas de outras nacionalidades no mercado brasileiro", é tratado por Barreto como um caso de redação infeliz:
- Está se criando uma grita desnecessária em torno deste tópico. É claro que o governo não vai nem pretende financiar filme estrangeiro no Brasil.
O cineasta Luiz Carlos Lacerda, contudo, é menos condescendente com esse tópico.
- É populista, demagógico, de uma megalomania do Ministério da Cultura querer legislar sobre a difusão do cinema africano no Brasil. Vamos cuidar da prata da casa - pediu ele, que se disse assustado com a sugestão de interferência em conteúdo de produção de filmes ou programação de TV.
A superintendente do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), Glória Braga, disse que é autoritário o anteprojeto de lei, que transfere a administração do direito autoral no país, que é privada, para dentro do governo. Segundo ela, o Ecad e as 12 associações de músicos existentes no país não foram ouvidas pelo Ministério da Cultura.
- Isto só aconteceu em Cuba ou na antiga União Soviética. Não tem nenhum governo no mundo fazendo isso. Adauri Antunes Barbosa, Jaime Biaggio e Janaína Nunes* - Diário de S.Paulo - O Globo
A imagem distorcida
7/8/2004
O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães deve ter achado graça, ou ficado irritado, ao ver que chamei o seu artigo "Subdesenvolvimento e cultura" de paper na coluna de ontem. Deve ter considerado mais uma demonstração de subserviência à hegemonia cultural americana. Em certo trecho do documento, ele diz que "a vulnerabilidade ideológica faz com que as elites intelectuais e dirigentes procurem ver sempre em modelos estrangeiros as soluções para o subdesenvolvimento econômico, para o 'atraso' cultural, para o 'autoritarismo' político e para o 'arcaísmo' institucional brasileiro".
E cita modelos institucionais, alguns em prática no governo a que serve, que seriam importados, como agências reguladoras, Banco Central autônomo, estratégias econômicas como as metas de inflação, e até mesmo o sistema de créditos na universidade como "exemplos dessa mentalidade e atitude miméticas".
Mas, voltando às suas teorias sobre a importância política e social do sistema audiovisual, que deu base ideológica para a proposta de criação da Agência Nacional do Cinema e Audiovisual (Ancinav), muito criticada por seu caráter dirigista, Samuel Pinheiro Guimarães diz que a produção cultural "tem importância fundamental na política internacional". Segundo ele, "nem mesmo os principais dirigentes e intelectuais da nação mais poderosa do mundo têm conhecimento direto de mais do que uma parcela ínfima da miríade de eventos que ocorrem a cada dia em cada sociedade".
Por isso, todas as decisões desses dirigentes, "que afetam profundamente a realidade seriam tomadas a partir de informações e de elaborações culturais que interpretam eventos e que os transmitem através de manifestações culturais sob a forma de livros, filmes, notícias, relatos, fotografias e que vão formar o seu imaginário em confronto com sua experiência pessoal limitada e sua capacidade teórica de processar informações e de encaixá-las em uma visão de mundo".
Assim, as imagens dos países, "inclusive de seu próprio, das sociedades, dos Estados e de seu poder são formadas através de um vasto e contínuo processo multifacetado de elaboração cultural que gera nos diferentes setores sociais essas imagens".
De acordo com a teoria de Pinheiro Guimarães, "a ausência de imagem própria ou a existência de imagem distorcida, fragmentada ou incompleta, afeta não somente as decisões de dirigentes de terceiros Estados em suas relações com o Estado cuja imagem é fraca, mas também a própria sociedade desse Estado, com efeitos sobre sua auto-estima, sua capacidade de apoiar seus dirigentes e a capacidade desses dirigentes de agir para enfrentar os seus desafios internos e externos".
Provavelmente foi por isso que a reportagem do correspondente do "New York Times" sobre suposto hábito de bebida do presidente Lula provocou reação tão extremada no Palácio do Planalto, a ponto de terem querido expulsá-lo do país. E é por isso, segundo ele, que as grandes potências, e em especial os Estados Unidos, conferem importância tão grande à sua indústria cultural e a prioridade que atribuem "ao objetivo de garantir o livre acesso de seus produtos culturais aos mercados culturais de todos os países".
Ter acesso "a todas as estruturas e meios de produção e de difusão de produtos culturais e de formação do imaginário das sociedades de terceiros países" tem objetivos "de natureza cultural, econômica", mas "também política", diz Pinheiro Guimarães. Em seu trabalho, o secretário-geral do Itamaraty diz que "assim como nos mercados de produtos de consumo cabe ao Estado impedir a monopolização, a formação de oligopólios, de cartéis e a prática de concorrência desleal, no interesse de proteger o consumidor individual de preços abusivos e a sociedade da geração de lucros excessivos, com maior razão cabe a ação do Estado nos mercados culturais onde os produtos, além de sua importância econômica, têm uma importância política fundamental".
Segundo ele,"cabe ao Estado garantir a livre competição em cada mercado cultural com muito mais rigor do que nos mercados de produtos 'comuns' de consumo, tendo em vista os efeitos sociais e políticos dos produtos culturais sobre a sociedade, com os objetivos de evitar a hegemonia cultural de outras sociedades; de estimular a mais ampla e diversificada troca de informações culturais com o exterior; de promover a produção cultural doméstica, única capaz de fortalecer e articular o conhecimento da sociedade de si mesma, o qual é indispensável para a formulação de um projeto de futuro e para definir a estratégia e os meios físicos e políticos para implementá-lo, em especial em grandes Estados da periferia como o Brasil".
Esse conceito provavelmente está por trás do artigo 4 do projeto, que diz, em seu parágrafo III, que cabe ao poder público "criar condições para que a evolução do setor seja harmônica com as metas de desenvolvimento social do país". Pinheiro Guimarães diz que a sociedade brasileira se encontra hoje sob a hegemonia cultural estrangeira, "em especial da produção cultural norte-americana", devido "à incompreensão, miopia e omissão dos governos em relação à política cultural, de comunicação e de educação".
Esta "miopia em relação à função política da cultura" fez com que, segundo Pinheiro Guimarães, "em nome da liberdade de expressão e de manifestação cultural se condenasse a ação corretora do Estado e se permitisse a formação e a ação de estruturas oligopolistas".
Para Samuel Pinheiro Guimarães, o Estado brasileiro tem limitado sua ação "a um modesto apoio assistencialista, colonizado e envergonhado" à produção cultural de elite ou de pequeno impacto social através de isenções fiscais, "sem se preocupar em promover e garantir a livre competição nos mercados culturais de massa, onde se forma o imaginário social, essência da própria existência da nação brasileira e da possibilidade desta se organizar para enfrentar seus extraordinários desafios e realizar seu potencial". (Continua amanhã)
Merval Pereira - O Globo
Um futuro de prejuízos
7/8/2004
Criação de órgão regulador para o setor audiovisual deverá aumentar o preço dos ingressos e reduzir o número de salas de exibição no país
Se a criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) sair do papel do jeito que o governo quer, haverá aumento nos preços do ingresso, desemprego nas empresas que administram cinemas e redução no número de salas de exibição em todo o país. A afirmação é do presidente da Associação Brasileira das Empresas Multiplex (Abraplex), Valmir Fernandes, presidente do Cinemark, empresa que possui 290 salas de exibição, 21 delas em Brasília.
Depois de analisar o texto do anteprojeto, que deverá ser encaminhado ao Congresso em outubro, os donos de salas de exibição disseram que haverá uma ''imensa'' carga tributária sobre o setor. O Ministério da Cultura afirma que a contribuição irá financiar a produção nacional. Os exibidores garantem que o efeito será contrário. ''A nossa margem de lucro é muito baixa para um aumento de impostos'', disse Fernandes. ''O governo conduziu a elaboração do anteprojeto de forma equivocada. Será impossível recebermos uma sobretaxa sem repassar aos preços dos ingressos'', disse.
O Brasil tem 1,6 mil salas de cinema, concentradas em 7% dos municípios. O preço médio do ingresso no país é R$ 6, mas em algumas capitais chega a R$ 16. Com a criação da Ancinav, o governo pretende levar salas de exibição a maior número de cidades de médio porte com preços mais em conta.
O assessor especial do Ministério da Cultura, Sérgio Sá Leitão, disse ontem que é natural que os empresários do setor de exibição de filmes sejam contrários ao texto do anteprojeto. ''Eles não estão acostumados a ser regulados pelo governo. Essa reação é natural. Agora, eles não podem espernear feito criança que perdeu a barra de chocolate'', criticou Leitão.
O anteprojeto foi apresentado ontem a representantes da sociedade civil e ao Conselho Superior de Cinema, entidade que reúne representantes de nove ministérios. Na reunião, ficou acertado que os empresários do setor e o próprio governo terão 60 dias para estudar o texto. Ullisses Campbell - Correio Braziliense
Guardado
7/8/2004
Foi para os anais do Senado o comentário da cientista política Lúcia Hipólito há dois dias na Rádio CBN, sobre o anteprojeto do governo para a nova lei do audiovisual, duramente criticado. ''O governo quer controlar corações e mentes.'' Correio Braziliense
A Constituição, antes de tudo
7/8/2004
BRASíLIA - O governo acaba de enviar ao Congresso projeto criando o Conselho Federal de Jornalismo. Vai atropelar a centenária Associação Brasileira de Imprensa e a própria Federação Nacional de Jornalismo, apesar desta ter se empenhado no nascimento da nova estrutura.
é cedo para analisar suas atribuições, que passarão pelo crivo da Câmara e do Senado, além de um debate na sociedade e na categoria. A gente desconfia ter a iniciativa surgido para desviar atenções das denúncias de irregularidades que atingem o sistema financeiro oficial. Terá havido, no mínimo, precipitação. No máximo, redundância.
é necessário regulamentar a Constituição
Primeiro seria necessário regulamentar integralmente a Constituição. Porque a nova carta, na teoria, trouxe mudanças para a atividade informativa, ainda que muitas delas inócuas até hoje. Virou moda comparar a nova Constituição à Geni dos versos do Chico Buarque, depois de ter sido "a Constituição-cidadã, do arrabalde, do mocambo e da favela" à qual se referiu com justo e redobrado orgulho o seu artífice maior, o Dr. Ulysses Guimarães.
é pena que os mortos não falem, porque, mais do que calar o vazio e as críticas oportunistas de hoje, sua voz serviria para lembrar um dos momentos mais expressivos da reconstrução da democracia brasileira. é curta a memória dos sabujos do neoliberalismo, enfileirados todos na tentativa de continuar defendendo o indefensável: a permanência desse modelo cruel que demoliu boa parte das conquistas da Constituição de 1988.
O pretexto foi a ruína das estruturas de um muro de palha. O ilusório mundo globalizado imaginou promover o fim da História e levou esse bloco de irresponsáveis a culpar a Constituição como forma de conquistar migalhas do banquete dos poderosos. Ledo engano. De nada adiantou desfigurar a lei fundamental com emendas que alienaram nossa soberania.
O resultado aí está: 55 milhões que sobrevivem com meio salário mínimo por mês; empresas nacionais condenadas ao fracasso por precisarem livre-competir com multinacionais privilegiadas por reformas adotadas depois de 1988; prevalência da atividade especulativa sobre a atividade produtiva; privatizações do patrimônio público erigido à custa de muito sacrifício e inviabilidade total do modelo responsável por ter culpado a Constituição como causa de nossos males.
Essa seria a mais perfeita Constituição que o Brasil já possuiu, tivesse sido cumprida e não desfigurada pela sanha dos neoliberais que se empenharam em desmoralizá-la, esquecidos de que emergiu da vontade nacional. A conseqüência?
Intenção: erigir cortinas-de-fumaça
Princípios fundamentais revogados, como o dos monopólios do petróleo, do gás canalizado, da propriedade estatal do subsolo e até da navegação de cabotagem; direitos sociais suprimidos em cascata, em nome da livre negociação entre patrões e empregados; serviços públicos de custo multiplicado em favor de oligarquias financeiras alienígenas; desagregação social e aumento da violência por falta de opções aos desgarrados do pequeno clube dos privilegiados.
Está moribundo o neoliberalismo que se opôs à Constituição e conseguiu golpeá-la. São responsáveis por nossa débâcle as elites que subiram ao poder em 1995, usurpando-o quatro anos depois com a vergonhosa emenda da reeleição. Nada é perfeito. Adaptações serão imprescindíveis, mas jamais as que se perpetraram malandramente para destruir o que a Constituição representava: um caminho novo, rumo ao aprimoramento social, econômico e político. Até porque, falta regulamentar princípios como o que demonstra a falácia dos neoliberais.
O artigo 220 determina ao Congresso estabelecer os meios legais para a defesa do cidadão e da família diante dos excessos da programação do rádio e da televisão. Censura, nunca mais, seria renegar o que a Constituição pretendeu consagrar. Mas multas pesadas sobre os que incorressem em baixarias, por que não?
Pois bem, ficará a obrigatoriedade de se pôr fim às baixarias da mídia com o novo Conselho? O que dizer do Conselho de Comunicação Social, que desde 2002 funciona como apêndice do Congresso? Quando proposto, o CCS deveria ter as prerrogativas agora incluídas na estrutura do CFJ. Os neoliberais, àquela época denominados de "centrão", não permitiram. Tanto assim que nem se cogita da possibilidade de enfrentar as baixarias expostas pela mídia eletrônica. Uma evidência de que pretendem erigir cortinas-de-fumaça, sem abordar o principal, descumprindo a Constituição. Voltaremos ao tema, mas com desalento redobrado. Tribuna da Imprensa
Entrevista 1 - Secretário do Audiovisual vê "tempestade em copo d´água" em discussão de nova agência
6/8/2004, 21h08
Brasília - Acusações de intervencionismo e de retrocesso por um lado e aplausos por outro seguiram-se esta semana à divulgação do que o Ministério da Cultura considera um "rascunho" do projeto de lei que regulamentará a nova Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual, a ser enviado em breve ao Congresso Nacional.
"Alguns setores que se julgam possivelmente prejudicados, no sentido de que têm possibilidades de ser taxados, estão reagindo de maneira inesperada a um documento que está ainda em análise", afirma, em entrevista exclusiva à Agência Brasil, o secretário do Audiovisual do MinC, Orlando Senna. Ele identifica entre esses críticos os interesses dos que defendem o "produto audiovisual hegemônico", de origem americana e lembra que a regulamentação do setor é "urgente", em virtude da revolução tecnológica por que passa o setor atualmente. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Agência Brasil - No que, afinal, consiste o projeto ora discutido?
Orlando Senna - A proposta que o Ministério da Cultura está fazendo da criação de uma Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual, além de responder a uma demanda da classe audiovisual, da classe cinematográfica e também dos setores do audiovisual, é no sentido de o Brasil se adequar e modernizar, tanto sob o ponto de vista legislativo como sob o ponto de vista empresarial, sob o ponto de vista institucional para esta nova era de comunicação audiovisual que estamos começando a viver.
É uma proposta, é uma minuta, um rascunho que está colocado para que seja analisado, estudado, complementado, seja tanto pelo Conselho Superior do Cinema que já está trabalhando nisso, inclusive ontem tivemos no Ministério da Cultura, que reúna os nove ministérios e os nove ministros que compõem o Conselho Superior de Cinema, hoje aqui em São Paulo estamos reunindo com os representando civis do conselho exatamente para começarmos a examinar o texto.
Existe muita confusão, uma tempestade em um copo d'água quando alguns setores que se julgam possivelmente prejudicados, no sentido de têm possibilidades de ser taxados, estão reagindo de maneira pública e inesperada a um documento que está ainda em análise, um documento que depois de quatro semanas passando sobre o crivo dos conselheiros irá a consulta pública. Então é um processo muito transparente, um processo que terá de chegar a um termo, ou seja com a participação não apenas dos interessados diretos, ou seja de todas as áreas da atividade audiovisual, mas também da sociedade civil.
ABr - O sr. diz que o projeto vem no sentido de modernizar o setor. Algumas das críticas que aparecem hoje na imprensa consideram a proposta um retrocesso. O que o sr. percebe nessa divergência polar entre as visões?
Senna - O governo terá de chegar a uma mediação, como é obrigação de qualquer governo quando existem opiniões discrepantes. Parte do setor acha que se trata de um avanço necessário, oportuno, aliás urgente, devido à revolução histórica que estamos vivendo em relação a esse tema. Existem outros setores, exatamente os setores sobre os quais poderão recair taxações, que acham que isso é um retrocesso. Não me parece que seja.
Estamos tentando dar uma linha de normatização para a televisão aberta brasileira, que praticamente não tem nenhuma normatização. Isso é uma necessidade, não apenas o Brasil mas para todos os países emergentes, para que possam enfrentar de uma maneira adequada essa nova era da comunicação audiovisual, que já estamos começando a viver.
Temos de estar conectados com o fato de que o antigo cinema hoje é uma outra coisa com a revolução permitida pelas novas tecnologias, Com o comércio desse setor, que é hoje planetário, vamos ter uma verdadeira revolução no que se refere à própria comunicação artística, na medida em que os filmes não serão nem os que nós conhecemos hoje, estarão interferindo nisso a interação, a realidade virtual etc.
Mas, um outro ponto importante é que o audiovisual será cada vez mais uma tecnologia de comunicação interpessoal. Dentro de algum tempo, nossos celulares não só vão receber filmes e programas de televisão, mas também transmitirão imagens, para fazer aquilo que os estudantes de cinema hoje chamam de "videocarta". Estamos caminhando para um certo nível de substituição da linguagem escrita pela linguagem audiovisual. É uma nova era, e os países que não se prepararem adequadamente vão perder o rumo. Spensy Pimentel - Portal da Cidadania - Radiobrás
Entrevista 2 - Regulação do audiovisual é fundamental para economia brasileira, afirma secretário
6/8/2004, 21h13
Brasília - Na segunda parte de sua entrevista exclusiva à Agência Brasil, o secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Orlando Senna, fala sobre a importância estratégica da regulação do setor para a economia do país, com a criação da nova Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual, e lembra exemplos de outros países que enfrentam o desafio.
Agência Brasil - Que exemplos há no mundo de países que já fazem essa regulação do audiovisual?
Senna - Neste momento, todos os países emergentes estão trabalhando em uma normatização dessas novas relações que as novas tecnologias estabeleceram do audiovisual com o público, com os governos e com os Estados. Existe esse trabalho muito intenso neste momento, para falarmos apenas dos nossos vizinhos, na Argentina, na Colômbia, na Venezuela, Peru...
O México fez uma tentativa no ano passado, que foi praticamente abortada pelo poder do produto hegemônico dos Estados Unidos. Isso em nível dos países emergentes, porque, no que se refere aos países centrais, europeus, essa legislação já está em vigor e sendo melhorada. A França, o primeiro país a atentar para isso, conseguiu, há quase três anos, que os seus filmes ocupassem quase 50% do seu próprio mercado. Antes ocupavam 8% e passaram a 50%.
É uma preocupação, neste momento, geral, que se reflete de maneira muito forte nas negociações da OMC, Organização Mundial do Comércio, agora também na Unesco. Nós não podemos nos atrasar ou termos um comportamento temerário ou temeroso com relação a isso, temos que ter um comportamento inteligente, adequado.
O que não se pode admitir é que o Brasil seja um país sem normatização para essa nova realidade da comunicação audiovisual, porque isso não apenas tem a ver com cidadania, com a simbologia ou simbolismo que representa o audiovisual, mas também, sob o ponto de vista econômico, se trata do maior gerador de renda e empregos das próximas décadas, e o comércio audiovisual vai incidir diretamente na sobrevivência das economias emergentes.
ABr - Em outros setores, fala-se em regulação como forma de trazer segurança aos investidores.
Senna - Essa é a idéia central. A proposta em estudo para a criação da Ancinav é dar condições de sustentabilidade à atividade no Brasil. Sustentabilidade no sentido econômico e no sentido também da cidadania, porque o país que, nas próximas décadas, não tiver a sua cara e a sua voz, tanto dentro do seu território como fora dele, possivelmente estará destinado a ser eternamente um país consumidor, um país importador, não apenas de imagens audiovisuais, mas de todas as mercadorias que essas imagens nos impelem a consumir.
ABr - O sr. identifica esses interesses estrangeiros no atual debate?
Senna - Entre as primeiras pessoas a se pronunciarem, inclusive praticamente rejeitando a proposta mesmo antes de ela ser analisada ou estudada totalmente, estão as majors, as grandes distribuidoras de cinemas internacionais ligadas ao produto hegemônico cinematográfico e audiovisual que é o americano.
ABr - Diz-se que uma "democracia cinematográfica" é representada pelo público.
Senna - O que representa o público de um país é a própria população, em primeira instância. Em segunda instância, o governo que ela elegeu. Spensy Pimentel - Portal da Cidadania - Radiobrás
Projeto provoca polêmica desde o governo FHC
9/8/2004
A Ancine (Agência Nacional do Cinema) foi criada em 2001 por medida provisória pelo governo Fernando Henrique Cardoso, a partir de estudos formulados pelo Gedic (Grupo de Desenvolvimento da Indústria do Cinema).
Compunham o Gedic, entre outros, o cineasta Cacá Diegues, que é crítico à proposta de criação da Ancinav apresentada pelo Ministério da Cultura de Gilberto Gil; o exibidor Luiz Severiano Ribeiro, que é membro do atual Conselho Superior de Cinema; o vice-presidente de Relações Institucionais das Organizações Globo, Evandro Guimarães.
A medida de criação da Ancine excluiu proposta do Gedic que previa a inclusão da televisão nos esforços de fomento da produção nacional por meio da destinação de "4% do seu faturamento publicitário para a co-produção e aquisição de direitos de antena dos filmes brasileiros de produção independente". A ausência do item no texto final da medida foi atribuída à ação de lobby das empresas de TV.
No governo Luiz Inácio Lula da Silva, a secretaria do Audiovisual do MinC determinou o objetivo de obter para si o poder de regular também as TVs e obrigá-las a contribuir com o financiamento do cinema brasileiro. Tenta fazer isso com o projeto da Ancinav. Silvana Arantes - Folha de São Paulo
Agência do Cinema teme bloqueio de suas atividades
7/8/2004
Impasse na criação do novo órgão regulador do audiovisual ameaça interromper o trabalho do já existente
A Ancine (Agência Nacional do Cinema), que regulamenta e fiscaliza o setor, ficará com sua capacidade de agir bloqueada a partir de dezembro, caso não sejam nomeados ainda neste ano novos diretores para o órgão.
A agência é responsável pela aprovação de projetos de produção de longas-metragens nas leis federais de incentivo e pela fiscalização de normas como a que prevê um número de dias obrigatório para a exibição de filmes brasileiros no cinema (cota de tela), entre outras atribuições.
Sem substituição
Desde o ano passado, um dos quatro cargos da diretoria colegiada da Ancine está vago. A diretora Lia Gomenssoro renunciou em outubro de 2003. O Ministério da Cultura deixou de indicar um substituto, porque preparava o projeto de extinção da agência e de criação de sua substituta, a Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual), com a atribuição de regular também as TVs.
O projeto do governo para a criação da Ancinav, divulgado extra-oficialmente na semana passada, tornou-se alvo de intensa polêmica e críticas de setores atingidos, como as empresas de televisão, os distribuidores e exibidores cinematográficos.
Na tentativa de administrar as críticas, o MinC (Ministério da Cultura) informou na última sexta-feira que realizaria hoje uma reunião com a Casa Civil, na qual deverá ser definido prazo mínimo de dois meses para a avaliação e discussão do projeto pelo Conselho Superior do Cinema, composto por nove ministérios e nove representantes da sociedade civil.
A intenção inicial do MinC era formalizar o projeto de criação da Ancinav (na forma de medida provisória ou como projeto de lei para trâmite em regime de urgência) no próximo dia 16. O ministro Gilberto Gil faria o anúncio público do conteúdo do projeto na solenidade de encerramento do 32º Festival de Gramado, programada para o dia 21.
Mandato
A extensão do prazo pelo MinC pode afetar o funcionamento da Ancine (criada em setembro de 2001 pela medida provisória 2.228), que terá mais uma vacância em sua diretoria a partir de dezembro, quando vence o mandato de Augusto Sevá.
Se não houver nomeações de novos diretores antes disso, restarão na Ancine apenas dois diretores, número insuficiente para garantir a tomada de decisões por "maioria simples de votos", como prevêem as regras de funcionamento da agência.
Como nomeações de diretores de agência reguladora devem ser submetidas à aprovação do Senado, o prazo de substituição é, na prática, mais curto.
O diretor-presidente da Ancine, Gustavo Dahl, nomeado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), diz que a agência "não entra no mérito do projeto [do MinC para a criação da Ancinav], a menos que seja consultada".
Dahl afirma, porém, que "a partir de seu trabalho e da disposição para colaborar, a Ancine espera demover o ministro Gilberto Gil da intenção de extingui-la".
De acordo com o texto oficioso do projeto do governo, a agência reguladora passaria a exercer exclusivamente atribuições de regulação e fiscalização, deixando de atuar no fomento da produção nacional e perdendo a função de aprovar projetos nas leis de incentivo fiscal. O Ministério da Cultura recuperaria a tarefa de aprovar projetos nas leis de incentivo fiscal e de representar o Brasil em eventos internacionais. Silvana Arantes - Folha de São Paulo
Governo quer controlar conteúdo da internet
9/8/2004
Ministério da Cultura pretende atuar nessa área, além dos setores tradicionais
A polêmica criada pela proposta de Lei do Audiovisual não deve se limitar aos setores tradicionais. Com a transformação da Agência Nacional de Cinema (Ancine) em Agência Nacional de Cinema e do Audiovisual (Ancinav), o Ministério da Cultura quer ampliar seus poderes e regulamentar o conteúdo para internet e celular, disputando espaço com o Ministério das Comunicações e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). "A sobreposição é inevitável", afirmou o coordenador de Cultura Digital do Ministério da Cultura, Cláudio Prado.
O Ministério da Cultura entra, com a sua decisão, na disputa entre as operadoras de telecomunicações e as emissoras de TV pelo mercado da convergência digital. Em um documento chamado Valorização da Produção Cultural Brasileira, entregue ao presidente Lula em 6 de julho, a Rede Globo critica a entrada das operadoras de telecomunicações na produção de conteúdo, competindo com as empresas de comunicação social, sem ter que se submeter à mesma regulamentação.
"A discussão é muito mais ampla", afirmou Prado. "Nos dois mercados existe um jogo de velhas práticas monopolistas. E a herança dos monopólios se vê ameaçada pela tecnologia que eles geraram." O representante do ministério fala com entusiasmo das possibilidades da rede mundial. "A internet é um fenômeno da cultura digital, uma instituição do século 21, sem poder central e anárquica, que gerou uma confusão que agora está vindo à tona."
Essa descentralização deve dificultar o próprio objetivo do ministério de regulamentar o conteúdo na rede, reconheceu Prado. Se uma empresa de internet ficar descontente com as regras, poderia facilmente mudar seus servidores para outro país e continuar atendendo ao mercado brasileiro. "Só se resolve com acordos internacionais."
O jornalista Samuel Possebon, da revista especializada Tela Viva, chamou a equipe de Cláudio Prado de "Ministério da Contracultura" e de "divisão hippie do Ministério da Cultura". Prado - que conheceu o ministro Gilberto Gil no exílio, em Londres, e, nos anos 1970, foi produtor de shows dos Mutantes e Novos Baianos - aceita a identificação com tais ideais, mas não o estereótipo.
Artesanato - "A imagem que ficou marcada para muitos é a do hippie vendendo artesanato na rua e fumando maconha", disse Prado. "Não é isso. Houve maturação da vontade de um mundo melhor, como em Imagine, do John Lennon. O sonho acabou coisa nenhuma."
Ele vê na banda Grateful Dead, dos anos 60, que incentivava fãs a gravarem shows e trocarem entre si cópias das gravações, o conceito de software livre, por exemplo. O software livre pode ser usado e modificado gratuitamente. O sistema operacional Linux é desenvolvido programadores no mundo.
Em junho, Gil participou do lançamento no Brasil do Projeto Creative Commons, do americano Lawrence Lessig, professor da Universidade de Stanford, que leva à produção cultural conceitos do software livre. Renato Cruz - O Estado de São Paulo
Cultura recebe entidades para discutir nova agência
9/8/2004
Pressionado pelo vazamento de informações sobre o texto do anteprojeto de lei com o qual pretende instalar a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), o governo inicia hoje em Brasília uma série de encontros com representantes da classe cinematográfica para discutir o polêmico texto. Às 16h30, serão recebidos no Ministério da Cultura os representantes do Congresso Brasileiro de Cinema (CBC), que congrega 55 sindicatos e associações.
A ex-presidente do CBC, a cineasta Assunção Hernandez, disse considerar que alguns pontos do documento devem ser modificados. O organismo cogita divulgar manifesto "desautorizando pessoas que têm falado em nome do cinema brasileiro, que tem instituições para tratar disso". A decisão deve acirrar o debate.
"Nunca na minha vida eu falei em nome do cinema brasileiro", reagiu o cineasta Cacá Diegues. "Falo em meu nome, como cidadão brasileiro. Se minhas declarações repercutem, é porque são justas e porque tenho credibilidade, algo que adquiri com meus filmes, minha história e minha vida. Além do mais, quem fala em nome do cinema são todas as vozes que fazem cinema no Brasil.
Essas entidades falam em nome de interesses corporativos. O que eu acho é que cercear o direito de qualquer indivíduo de expor sua opinião não é uma coisa democrática."
A redação do documento, que o governo diz buscar mecanismos de "transparência e controle social", causou reação. Certos trechos (não divulgados oficialmente, mas em versão apócrifa na internet) sugerem tom intervencionista e pressupõe que a agência poderá se imiscuir em questões de conteúdo. A proposta foi definida como tentativa de "dirigismo cultural".
"As propostas têm de ser consistentes. Não basta dizer - ah, é stalinista", disse ontem Sergio Leitão, assessor especial do Ministério da Cultura. "O projeto é amparado em estudos jurídicos e é até light", ponderou. Jotabê Medeiros - O Estado de São Paulo
PT prega o fim das panelinhas na cultura
9/8/2004
José Genoino diz que a área tem de ter controle exercido pela sociedade brasileira
"Temos de acabar com as panelinhas que dominaram a cultura nacional", desabafou ontem o presidente do PT, José Genoino, ao defender o projeto do Ministério da Cultura que cria a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) e pregar que haja um "controle público" da política cultural dos governos. Mas ressalvou: "Controle público é um controle feito pela sociedade, não pelo governo".
Genoino cobrou que as aplicações da Lei Rouanet sejam mais democráticas e ironizou: "Dá uma olhada na lista de beneficiários da Lei Rouanet: só tem figurão". Ele rechaçou as acusações de que o projeto estabelece um "dirigismo cultural" e defendeu que a área tenha "um mínimo de fiscalização", o que, a juízo dele, será salutar e estimulante.
Corporativismo - "Como vamos promover a cultura brasileira se ficarmos só no eixo Rio-São Paulo?", perguntou o presidente do PT. E afirmou: "Temos de acabar com o corporativismo que não aceita a verdadeira democratização da cultura nacional, temos de acabar com as panelinhas".
Genoino defendeu que o governo se afaste das grandes decisões da área cultural, criando um grande conselho de cultura, que seria composto por setores variados da sociedade. "Eu topo essa: junta todo mundo lá e deixa eles se digladiarem. é a sociedade que financia, ela é quem deve fiscalizar a qualidade e a correção dos investimentos feitos", assinalou.
Ele dirigiu uma dura crítica à concessão de incentivos fiscais em favor de centros culturais mantidos por bancos privados. "Tem centro cultural de tudo quanto é banco sendo beneficiado pelas leis de incentivo cultural, mas que nem dizem isso em suas propagandas. Tem centro cultural do Itaú, do Unibanco, do Bradesco... E ainda tem o Sesc, que também recorre às leis de incentivo", disse. Para ele, todo financiamento deve ir direto para os artistas.
Jornalistas - Genoino disse que só vale a pena criar o Conselho Federal de Jornalismo se houver um consenso entre o governo e os jornalistas. "Tem de haver uma consulta ampla à categoria e se não for alcançado o consenso, não vale a pena insistir no projeto", defendeu ele. Na opinião do presidente do PT, existem muitas incompreensões nas questões que envolvem a imprensa e os jornalistas: "A escuta clandestina, por exemplo.
Tem de haver punição severa para quem fez a escuta, mas não se pode punir o jornalista que a divulgou", finalizou. Carlos Marchi - O Estado de São Paulo
Audiovisual
9/8/2004
Esperamos que a tal Lei Geral do Audiovisual não seja uma repreensão, mordaça ou censura àqueles que não concordam com certas atitudes governamentais, pois, no Brasil, quem detém o poder sempre acha que está com a razão. Humberto Schuwartz Soares, Vila Velha (ES) Correio Braziliense
Governo quer regulamentar conteúdo para a internet
9/8/2004
A polêmica criada pela proposta de Lei do Audiovisual não deve se limitar aos setores tradicionais. Com a transformação da Agência Nacional de Cinema (Ancine) em Agência Nacional de Cinema e do Audiovisual (Ancinav), o Ministério da Cultura quer ampliar seus poderes e regulamentar o conteúdo para internet e celular, disputando espaço com o Ministério das Comunicações e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). "A sobreposição é inevitável", afirmou o coordenador de Cultura Digital do Ministério da Cultura, Cláudio Prado.
O Ministério da Cultura entra, com a sua decisão, na disputa entre as operadoras de telecomunicações e as emissoras de TV pelo mercado da convergência digital. Em um documento chamado Valorização da Produção Cultural Brasileira, entregue ao presidente Lula em 6 de julho, a Rede Globo critica a entrada das operadoras de telecomunicações na produção de conteúdo, competindo com as empresas de comunicação social, sem ter que se submeter à mesma regulamentação.
"A discussão é muito mais ampla", afirmou Prado. "Nos dois mercados existe um jogo de velhas práticas monopolistas. E a herança dos monopólios se vê ameaçada pela tecnologia que eles geraram."
O representante do ministério fala com entusiasmo das possibilidades da rede mundial. "A internet é um fenômeno da cultura digital, uma instituição do século 21, sem poder central e anárquica, que gerou uma confusão que agora está vindo à tona."
Essa descentralização deve dificultar o próprio objetivo do ministério de regulamentar o conteúdo na rede, reconheceu Prado. Se uma empresa de internet ficar descontente com as regras, poderia facilmente mudar seus servidores para outro país e continuar atendendo ao mercado brasileiro. "Só se resolve com acordos internacionais."
O jornalista Samuel Possebon, da revista especializada "Tela Viva", chamou a equipe de Cláudio Prado de "Ministério da Contracultura" e de "divisão hippie do Ministério da Cultura". Prado - que conheceu o ministro Gilberto Gil no exílio, em Londres, e, nos anos 1970, foi produtor de shows dos Mutantes e Novos Baianos - aceita a identificação com tais ideais, mas não o estereótipo.
Artesanato
"A imagem que ficou marcada para muitos é a do hippie vendendo artesanato na rua e fumando maconha", disse Prado. "Não é isso. Houve maturação da vontade de um mundo melhor, como em "Imagine", do John Lennon. O sonho acabou coisa nenhuma."
Ele vê na banda Grateful Dead, dos anos 60, que incentivava fãs a gravarem shows e trocarem entre si cópias das gravações, o conceito de software livre, por exemplo. O software livre pode ser usado e modificado gratuitamente. O sistema operacional Linux é desenvolvido programadores no mundo.
Em junho, Gil participou do lançamento no Brasil do Projeto Creative Commons, do americano Lawrence Lessig, professor da Universidade de Stanford, que leva à produção cultural conceitos do software livre. Tribuna da Imprensa
Ministério recebe entidades para discutir Audiovisual
9/8/2004
SãO PAULO - Pressionado pelo vazamento de informações sobre o texto do anteprojeto de lei com o qual pretende instalar a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), o governo inicia hoje em Brasília uma série de encontros com representantes da classe cinematográfica para discutir o polêmico texto.
às 16h30, serão recebidos no Ministério da Cultura os representantes do Congresso Brasileiro de Cinema (CBC), que congrega 55 sindicatos e associações.
A ex-presidente do CBC, a cineasta Assunção Hernandez, disse considerar que alguns pontos do documento devem ser modificados. O organismo cogita divulgar manifesto "desautorizando pessoas que têm falado em nome do cinema brasileiro, que tem instituições para tratar disso". A decisão deve acirrar o debate.
"Nunca na minha vida eu falei em nome do cinema brasileiro", reagiu o cineasta Cacá Diegues. "Falo em meu nome, como cidadão brasileiro. Se minhas declarações repercutem, é porque são justas e porque tenho credibilidade, algo que adquiri com meus filmes, minha história e minha vida. Além do mais, quem fala em nome do cinema são todas as vozes que fazem cinema no Brasil. Essas entidades falam em nome de interesses corporativos. O que eu acho é que cercear o direito de qualquer indivíduo de expor sua opinião não é uma coisa democrática."
A redação do documento, que o governo diz buscar mecanismos de "transparência e controle social", causou reação. Certos trechos (não divulgados oficialmente, mas em versão apócrifa na internet) sugerem tom intervencionista e pressupõe que a agência poderá se imiscuir em questões de conteúdo.
A proposta foi definida como tentativa de "dirigismo cultural". "As propostas têm de ser consistentes. Não basta dizer - ah, é stalinista", disse ontem Sergio Leitão, assessor especial do Ministério da Cultura. "O projeto é amparado em estudos jurídicos e é até light", ponderou. Tribuna da Imprensa
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Televisão
Criar sistema digital brasileiro é perda de tempo, diz especialista
9/8/2004
A escolha do sistema digital para a TV aberta no Brasil não é visto com bons olhos pelo setor de TV por assinatura. O governo propõe desenvolver uma tecnologia brasileira, a ser comparada com sistemas internacionais: o americano ATSC, o europeu DVB e o japonês ISDB. "Estão gastando tempo, dinheiro, mobilizando 11 ministérios e dezenas de universidades", criticou o presidente da Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA), Alexandre Annenberg. "é uma absoluta perda de tempo."
Para Annenberg, deveria estar em discussão o modelo de negócios para a TV aberta digital. "Temos de criar um modelo tupiniquim, e não uma tecnologia", afirmou. Ele sugere aproveitar a plataforma digital da TV a cabo para resolver problemas como o do preço dos conversores, usados para receber sinal digital nos televisores atuais, analógicos.
O executivo sugere que o sistema digital de TV paga, que não depende de definições de tecnologia do governo, seja usado para iniciar projeto para baratear decodificadores e criar serviços interativos, para promover inclusão digital e social via TV. "Já apresentei proposta por escrito", contou. "Falamos com o Ministério das Comunicações, a Anatel e o CPqD. Mas parece haver forças contrárias."
O governo pretende criar o sistema brasileiro até março de 2005, compará-lo aos internacionais e implementar a TV digital no Brasil até 2006. Foram liberados R$ 65 milhões para 79 universidades e centros de pesquisa. O governo também criou o conselho consultivo de TV digital, com representantes de associações do setor. "Fazemos parte do conselho, mas nunca fomos consultados nem convocados para uma única reunião", disse Annenberg. Renato Cruz - O Estado de São Paulo
Livro esmiuça papel da televisão no Brasil
7/8/2004
Textos de Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl fazem esforço consistente para explicar a TV e sua influência
"Se tirássemos a TV de dentro do Brasil, o Brasil desapareceria". Parece, e é, uma hipérbole, mas isso não tira a força do quase aforismo a que o jornalista Eugênio Bucci recorre para falar da urgência de uma crítica de televisão, em um dos textos inaugurais de "Videologias".
Mais adiante, a psicanalista Maria Rita Kehl, ao discutir o papel central da televisão na produção mesma da violência, vai ainda além: "Faz sentido pensar que o Outro está encarnado nessa produção imaginária da qual a televisão é o principal veículo. Isso porque ela é de certa forma onipresente e onisciente, como Deus."
O lugar central que a televisão ocupa na sociedade brasileira só muito aos poucos vem merecendo reflexões menos apressadas e mais rigorosas do que a crítica jornalística. Bucci e Kehl fazem uma importante contribuição nesse sentido nessa coletânea de textos que, apesar de produzidos em tempos e para propósitos diversos, constituem um dos mais consistentes esforços de entender a televisão no Brasil.
é uma dupla que leva a televisão a sério e não é de hoje. Maria Rita Kehl, por exemplo, participou do fundamental "Um País no Ar", outra coletânea de ensaios sobre a televisão publicada quase 20 anos atrás e que ainda hoje é referência para qualquer interessado no assunto. Seu ensaio naquele livro, "Eu Vi Um País na TV", sobre a constituição da Rede Globo, é retomado e ampliado por Bucci em "Videologias". Este, por sua vez, vem da crítica de TV em jornais e revistas -escreveu na Folha, na "Veja" e no "Jornal do Brasil", hoje é presidente da Radiobrás.
Ambos partem, entretanto, dos mesmos referenciais teóricos para olhar para a TV -sim, Barthes & Saussure e Freud & Marx-, mas isso não deve assustar o leitor não-acadêmico. Embora seja necessário acompanhá-los em parte de seu percurso teórico, os textos caracterizam-se pela clareza.
O mais complicado, na verdade, é abandonar aquilo a que estamos acostumados a pensar sobre a TV. Por exemplo, que a violência independe dos conteúdos, mas "é própria do funcionamento do imaginário em si", ou seja, "na imagem enquanto imagem, uma vez que esta é elaborada e transmitida de maneira a não só substituir o real, mas sobretudo para oferecer um suposto gozo imediato do telespectador e com isso impedir os processo psíquicos e sociais de simbolização" como diz Marilena Chauí no prefácio.
Claro, a naturalização de cenas chocantes preocupa na medida que alimenta a violência real, no dizer de um dos melhores ensaios de Bucci, mas o buraco fica muito mais embaixo quando é a própria forma de circulação das imagens que é violenta.
Ou quando, nas discussões iniciais sobre o método, Bucci afirma: "A televisão não mostra lugares, não traz lugares de longe para muito perto, a televisão é um lugar em si", que "nada mais é que o novo espaço público". Sujeito às regras do espetáculo, o espaço público constituído pela televisão esgarça os limites entre fato e ficção com conseqüências complicadas para qualquer discussão sobre ética no jornalismo de TV.
Em outra rasteira no senso comum, Kehl propõe uma leitura em que a obscenidade do "Big Brother" está na manipulação dos afetos e não dos corpos. Coerentes com a afirmação de que a "crítica de televisão é, hoje, uma crítica do poder", os autores encerram o volume com um apêndice sobre os direitos do telespectador.
Videologias
Autores: Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl
Editora: Boitempo
Quanto: R$ 32 (252 págs.)
Bia Abramo - Folha de São Paulo
Cabo-de-guerra
7/8/2004
Não são boas as relações entre Antônio Athayde, superintendente comercial do SBT, e Eugenio Lopez Negrete, da Televisa, assessor de Silvio Santos. Eles andam batendo de frente. Patrícia Kogut - O Globo
Obra faz análise aprofundada da televisão
7/8/2004
''Se tirássemos a TV de dentro do Brasil, o Brasil desapareceria''. Parece, e é, uma hipérbole, mas isso não tira a força do quase aforismo a que o jornalista Eugênio Bucci recorre para falar da urgência de crítica de televisão, em um dos textos inaugurais de Videologias (Editora: Boitempo, 252 pgs.R$ 32,00). Mais adiante, a psicanalista Maria Rita Kehl, ao discutir o papel central da televisão na produção mesma da violência, vai ainda além: ''Faz sentido pensar que o outro está encarnado nessa produção imaginária da qual a televisão é o principal veículo. Isso porque ela é de certa forma onipresente e onisciente, como Deus''. O lugar central que a televisão ocupa na sociedade brasileira só muito aos poucos merece reflexões menos apressadas e mais rigorosas do que a crítica jornalística. Bucci e Kehl fazem uma importante contribuição nesse sentido nessa coletânea de textos que, apesar de produzidos em tempos e para propósitos diversos, constituem um dos mais consistentes esforços de entender a televisão no Brasil. Correio Braziliense
O poder da televisão
7/8/2004
Além de ter contribuído para fazer do esporte um espetáculo planetário, as transmissões pela TV tornaram-se uma das principais fontes de recursos dos Jogos Olímpicos
Desde que as Olimpíadas começaram a se mostrar eventos financeiramente inviáveis, a partir dos Jogos de Roma em 1960, os direitos de transmissão pagos pelas redes de televisão assumiram um papel determinante no financiamento da competição e no funcionamento do Comitê Olímpico Internacional (COI).
Esses direitos de transmissão giravam, na época, em torno de US$ 1,18 milhão. Quarenta e quatro anos depois, aumentaram 127 mil por cento, alcançando agora, em Atenas, US$ 1,498 bilhão (1,21 bilhão de euros), dos quais 53% cabem à rede americana NBC, detentora da transmissão nos Estados Unidos.
A previsão é de que, a partir das 21h (15h em Brasília) de sexta-feira, 13 de agosto, quando começa a cerimônia de abertura dos Jogos de Atenas, quase 4 bilhões de pessoas, em todo o planeta, vão acessar a tela olímpica pelo menos uma vez. As competições, na verdade, começam no dia 11, com o futebol. Também haverá provas de arco e flecha no dia 12, mas ninguém considera as Olimpíadas iniciadas sem o show de abertura.
Até os anos 50, os Jogos eram organizados em estilo sóbrio e o COI vivia com modéstia. Quando os membros do comitê se reuniam, precisavam arcar pessoalmente com seus gastos de estadia e transporte. Obrigação da qual foram dispensados desde o início dos anos 80. O valor total de acordos de televisão firmado pelo COI para o período de 1984 a 2008 ultrapassa US$ 10 bilhões, somados Jogos de Inverno e Olimpíadas.
Para os Jogos de Inverno de 2010 e de Verão de 2012, os direitos para os Estados Unidos já foram comprados por US$ 2 bilhões pela rede NBC. Para a Europa (exceto Itália), a União Européia de Rádio-Televisão (UER) obteve esses direitos por 614 milhões de euros. No total, depois da conclusão da negociação com outras regiões do mundo, o COI estima captar US$ 3 bilhões no período 2010/2012. Essa vitória, destaca o COI, foi conseguida obedecendo o respeito do princípio fundamental segundo o qual todos os acordos de televisão devem garantir a retransmissão gratuita e não codificada dos Jogos, acessível a todos.
Os direitos de transmissão constituem atualmente metade das fontes de recursos do COI. Também contribuem em muito para o financiamento da administração olímpica e da redistribuição que a entidade faz às federações internacionais esportivas, assim como aos comitês nacionais olímpicos. O dinheiro que vem da televisão beneficia ainda as cidades organizadoras dos Jogos, cujo orçamento é 50% coberto por recursos do COI. Correio Braziliense
Amor lésbico de "Senhora" começa com selinho
9/8/2004
O romance lésbico de "Senhora do Destino" dará os primeiros passos nesta semana. As personagens Jenifer (Bárbara Borges) e Eleonora (Mylla Christie) irão se conhecer na quadra de uma escola de samba e se tornar amigas.
Segundo o autor, Aguinaldo Silva, desde o primeiro encontro, elas adotarão "o hábito, muito comum entre as meninas mais descoladas de hoje, de trocar um 'selinho' nos lábios". Com isso, diz, "a famosa questão do beijo já estará superada". As duas acharão que são amigas. Só começarão a se ver com outros olhos quando as pessoas passarem a desconfiar.
Aguinaldo não irá esperar a pesquisa com grupos de discussão para saber se o público aprova a relação. O método não é adotado no início de novelas com bom ibope. "Senhora" já atingiu 47 de média. No mesmo período, "O Clone" teve 44, "Celebridade" e "Mulheres Apaixonadas", 40.
"Tenho esperanças de que a história não sofra rejeição, já que vou dar um tratamento natural e não-polêmico. O romance surgirá, aos olhos dos demais personagens, como um fato consumado", diz.
A heroína Do Carmo (Suzana Vieira) dirá que "qualquer espécie de relação, desde que baseada no amor e no respeito, vale a pena."
Em "Torre de Babel" (98/99) um casal de lésbicas morreu na explosão do shopping por rejeição do público. Em "Mulheres" (2003), duas garotas homossexuais tiveram um final feliz. Laura Mattos - Folha de São Paulo
Disputa 1
9/8/2004
Segundo o SBT, a Endemol International (criadora de "Big Brother") entrou em 19 de julho, no Fórum de Osasco, com ação para tentar tirar do ar o "Eu Compro o seu Televisor", e o pedido de liminar foi negado. A empresa acusa o programa de Silvio Santos de ser plágio de "Deal or no Deal", um de seus formatos.
Disputa 2
A emissora afirma ainda que a Endemol recorreu ao Tribunal de Justiça, que também negou a liminar. "Eu Compro o seu Televisor" está agora em férias, sem data prevista para reestréia. Laura Mattos - Folha de São Paulo
Novela faz três merchandisings em 1 minuto
8/8/2004
"Senhora do Destino" conseguiu fazer merchandising de três marcas em menos de 60 segundos, com suas duas principais personagens. No capítulo de quarta, a vilã Nazaré (Renata Sorrah) apareceu usando produtos da Natura. Na seqüência, a heroína Maria do Carmo (Suzana Vieira) mostrou tintas Lukscolor e cimento Votoran em sua loja. Isso mostra que o fato de a novela da Globo não se passar no tempo atual, mas na década de 90, não prejudicou seu faturamento com merchandising (ação mais complicada para tramas de época). O "minuto publicitário" de "Senhora" foi captado pelo Controle Remoto, que monitora publicidade na TV. Laura Mattos - Folha de São Paulo
Mexicana "Amy" segue trilha de "Carrossel"
8/8/2004
Novela do SBT sobre garota órfã vem alcançando bons índices de audiência e obtém sucesso com público infantil
Uma garotinha órfã, que enfrenta uma sucessão de tragédias marítimas, familiares e financeiras, é a última edição das novelas mexicanas infantis do SBT que fazem sucesso no Brasil.
No ar desde 26 de abril, "Amy, a Menina da Mochila Azul", anda sobre os rumos traçados por "Carrossel", que, entre maio de 1991 e abril de 1992, chegou a disputar fortemente a audiência com a Rede Globo. "Amy" também segue "Carrossel" no duro percalço seguido pelos personagens.
A novela conta a história de uma garota que, ainda bebê, é encontrada flutuando no mar, depois de um furacão, por um pescador e sua mulher. Na seqüência, o pescador fica viúvo e perde todo o seu dinheiro. Amy, uma menina esperta e amorosa, é tudo o que resta a seu lado.
A novela se desenrola com uma caça a um tesouro perdido e com a aproximação do verdadeiro pai de Amy, um homem rico e gravemente doente, sem que ela saiba sua verdadeira identidade. A história vem alcançando o segundo lugar na medição de audiência das 19h. Em 2 de agosto, segunda-feira, "Amy" registrou uma média de dez pontos, com picos de 13, atrás somente da Globo, líder do horário com 46 pontos. Em terceiro lugar, veio a Record (seis pontos), seguida pela Bandeirantes (três pontos), pela TV Cultura e pela Rede TV! (ambas com um ponto).
O que atrai as crianças são as aventuras vividas pela personagem. é o que explica Victoria Barreto Ghattas, 6, fã de "Amy". "Ela nada, ela tem um barco, um papagaio. Eu também gostaria de fazer essas aventuras, queria ter um barco. A história é mais ou menos triste, mas mesmo assim eu gosto", conta a menina.
Victoria diz ainda que não há nada que a desagrade na novela. "Tudo é muito legal. Essa é a minha novela favorita, a única a que eu assisto", completa.
Já Rodrigo Autuori, 8, que começou a assistir a novela nas férias, é fã do papagaio -uma espécie de pombo-correio. "Eu não gosto de quem tenta matar o papagaio. Ele é o mais legal. Assisto a "Amy" por causa dele", conta.
Para a professora Maria Lourdes Motter, pesquisadora do Núcleo de Telenovelas da ECA e professora livre-docente da USP, a aceitação de Amy pelas crianças pode ser explicada pelo modelo mexicano, em que os vilões são pérfidos, com todas as características exageradas. "Essa clareza vai pegar um público menos exigente e funciona bem como entretenimento. Por outro lado, o sucesso dela é lamentável porque o programa não mostra a complexidade do ser humano", afirma.
Motter aponta a identificação do espectador com o "herói" como um problema. "A novela pode ser prejudicial porque a criança vai achar que vai ter sucesso, não importa que tipo de adversidades encontrar. Mas isso é fantasia, ela pode se frustrar muito."
Já a psicanalista infantil, especialista no uso da TV para a infância, Ana Cristina Olmos, acredita que "tudo o que ajuda a lidar com a frustração é educativo".
Para ela, a novela consegue a atenção das crianças por ter intervalos comerciais mais curtos, por ter uma edição mais lenta, pelo forte apelo emocional e pelo formato de situações óbvias.
"A "Amy", ainda que estereotipadamente, atinge o mundo infantil fortemente dentro da sintonia de apreensão e de percepção de sentimento nas crianças. Por um lado, a novela é primária. Mas, por outro, está perto dos sentimentos, das sensações e dos medos. A TV não tem o poder de adoecer o espectador, mas também não tem o poder de salvá-lo." ISABELLE MOREIRA LIMA - Folha de São Paulo
Errar era humano
8/8/2004
Uma das coisas que mais irritam um peladeiro é aquele cara que no meio do jogo começa a gritar para os companheiros do time "Tá errado! Tá errado!". Com essa frase, o tal gênio da estratégia futebolística está querendo dizer que você não está marcando o adversário corretamente, que não está voltando para se defender do contra-ataque ou qualquer outra dessas coisas chatas que estragam o prazer de uma descontraída pelada entre amigos. O problema é que essa desagradável frase está se espalhando pela televisão. Basta zapear um pouquinho para ver especialistas dizendo que outras pessoas estão erradas. E não é naqueles programas como o em que Wagner Montes condena os criminosos, praticamente ameaçando quebrar a cara dos bandidos se cruzarem com ele. O "Tá errado!" agora aparece para condenar a sua forma de vestir, nos mais diversos programas da TV aberta e, principalmente, da TV fechada. Está usando uma cor que não realça seus olhos? Está errado! Você gosta de usar cuecas que não aparecem quando você se abaixa? Está errado! E o pior é que todo mundo aceita o pitaco do tal especialista, nem que a tal pessoa a dar ordens seja apenas uma modelo, que fez dinheiro e fama justamente tendo que ignorar as esquisitices que usa nas passarelas.
E como todo mundo aceita que sua personalidade tem que ser abandonada diante da dica de um especialista em moda, surgiram os programas que dizem que seu rosto e seu corpo estão errados. São aqueles que exploram as cirurgias plásticas, estimulando pessoas a se submeter a um bisturi pelos mais superficiais motivos, quase sempre meramente estéticos. Seios, narizes e barrigas são os novos protagonistas da TV, passando por mais reviravoltas que um personagem de novela fadado a um convencional final feliz. Do mesmo jeito que o público assistia a leões devorando zebras em documentários sobre o mundo animal, agora podemos ver cirurgiões retalhando pacientes que ouviram dizer que sua aparência "tá errada!".
A resistência já está começando. Onde? Na televisão, é claro. A série Nip/Tuck, que o canal Fox lança na semana que vem, mostra os bastidores de uma clínica de cirurgia plástica. Obviamente, os cirurgiões americanos condenaram o seriado, dizendo que só mexem o nariz onde são chamados e que não estimulam cirurgias fúteis. Mas as queixas só fizeram aumentar a atenção para a polêmica produção, que conseguiu abrir os olhos das pessoas sem o uso de bisturis. Taí uma boa forma de ganhar ibope: dizendo que você não "está errado!".
Sonho com o dia em que um programa vai fazer o contrário, por exemplo, do Queer eye for the straight guy, que mostra quatro gays ensinando um heterossexual a melhor se vestir, se alimentar, se pentear e decorar sua casa. A tal produção teria quatro caras despojados ajudando um sujeito que assistiu demais a essas atrações que adestram seu comportamento. A equipe do Normal eye for the metrosexual guy diria que ele não precisa ir além da combinação da calça marrom com camisa azul, está autorizado a tirar cantos de unhas com os dentes, pode cultivar uma simpática barriga, tem o direito de acumular mais de vinte peças no cabideiro e, acima de tudo, não será condenado ao fazer a barba no sentido contrário ao do crescimento dos pêlos. Tudo isso sem ouvir um "tá errado!". Jornal do Brasil
Prefácio laureado
8/8/2004
Os jornalistas Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl reuniram bons textos no livro Videologia: ensaios sobre televisão. Mas encomendaram o prefácio à professora Marilena Chauí, que escreve em javanês. Sintam o estilo:
"É uma reflexão sobre os meios de comunicação de massa (particularmente a televisão) enquanto operação imaginária, na medida em que a imagem é simultaneamente alicerce, instrumento e resultado da operação midiática. (...) Os autores enfatizam essa tríplice posição da imagem numa sociedade em que os seres somente são ou vêm à existência se forem dados à visibilidade imediata, ao ver (que, em latim, se diz videre). Não se trata, todavia, de um ver qualquer e sim daquele que é instituído pela mediação tecnológica, econômica e política que define os meios de comunicação."
O prefácio leva o troféu da semana. Os leitores podem saltá-lo e entrar direto no que escrevem os autores. Augusto Nunes - Jornal do Brasil
Estréias desanuviam a tarde na TV
8/8/2004
'Tudo a Ver' e 'Cor-de-Rosa' escanteiam o mundo-cão
O tom sombrio da tarde na TV começou a dar lugar a tons mais pastéis esta semana. Como já foi escrito aqui nesta coluna, a movimentação nas emissoras indicava uma tendência de suavizar a programação que, em princípio, é vista por mulheres, jovens e crianças. O fato é que o processo já começou.
A Record encolheu o Cidade Alerta (fadado à extinção em setembro, quando entra no ar a novela Escrava Isaura), para dar lugar ao Tudo a Ver, noticiário soft apresentado por Paulo Henrique Amorim e Janine Borba, com a ajuda de vários outros. Repórteres da casa (incluindo uma de helicóptero, claro), Luciano do Valle, Sophia Camargo, que fala sobre economia, Luciano Facciolli, um "justiceiro" que sai às ruas para apontar coisas que "assim não dá" (este é o nome do quadro) e depois vai ao estúdio explicar sua reportagem, e a modelona Ana Hickman.
Uma espécie de consultora de estilo e beleza, Ana Hickman vai às compras em época de liquidação para montar um guarda-roupa básico "para durar mais quatro invernos" por um preço acessível. Ela ensina a combinar blazer com saia, com calça, com blusas, etc. Faz direitinho e, com certeza, vai ajudar muita telespectadora a ser mais segura na hora de compor o visual. Afinal, Ana é uma autoridade em vestir.
é evidente que a top model precisa de tantas horas de vídeo quanto tem de passarela para adquirir a desenvoltura necessária para que a telespectadora a tenha como "aquela" amiga. Mas essa não é uma missão impossível.
Paulo Henrique Amorim não consegue resistir à tentação de mergulhar no economiquês e inserta na revista eletrônica o quadro Conversa Afiada (que já foi programa na Cultura e na Record) para explicar a vitória do Brasil contra as restrições internacionais às exportações de algodão e açúcar.
Faz parte, porque Tudo a Ver é eminentemente jornalístico. Mesmo quando fala de coisas de mulher - "Por que as mulheres engordam mais no inverno?" -, a reportagem busca nos restaurantes personagens em luta com a cumbuca de feijoada, mas coloca no estúdio uma endocrinologista para dar as bases científicas do assunto. Incêndios na cidade, catástrofes internacionais e notícias de polícia (como a morte do pai do craque Adriano) e de política entram em forma de reportagem ou de desfile de caracteres ao pé do vídeo.
Tudo a Ver não revolucionou a audiência da Record, mas também não a derrubou. Registra média de 6 pontos no ibope (Grande São Paulo) que a emissora já registrava antes. O mesmo ocorre no SBT, que tem mantido 7 pontos de média depois da estréia de Cor-de-Rosa, o TV Fama de Silvio Santos, apresentado por Décio Piccinini e a herdeira Sílvia Abravanel.
O programa do SBT chama-se Cor-de-Rosa para contrapor-se ao jornalismo marrom, como explica a emissora. é uma revista especializada em celebridades como TV Fama, da RedeTV!, com material pinçado no baú da própria emissora, como o Vídeo Show, da Globo.
Ao contrário da revista da Record, Cor-de-Rosa não tem o menor compromisso com a atualidade. Pega um assunto e cozinha-o, como se diria no jargão jornalístico. Ou seja, monta uma historinha alinhavando material de arquivo.
No caso, trechos dos programas da Hebe, do Gugu, etc. Na estréia, relembrou os melhores momentos da Casa dos Artistas 1, nos seguintes, da Casa 2, da Casa 3. Na quinta, gastou um tempo enorme com a metamorfose da garotinha Wanessa Camargo em "mulherão".
O casal de apresentadores tenta bater uma bola para quebrar o gelo antes de chamar as reportagens, mas a coisa está meio difícil. Décio Piccinini é macaco velho e vai dando conta do seu jeito. O duro é sua partner. Sílvia Abravanel tenta descontrair, mas demonstra ter menos jogo de cintura do que uma geladeira. Mesmo sendo filha do rei, a garota não escapa do nervosismo dos iniciantes. Se o programa durar - no SBT é difícil fazer previsões - é bem capaz que Sílvia supere a timidez e solte a animadora que deve ter no sangue.
O fato é que os dois programas podem não ser a grande maravilha do momento, mas, com toda certeza, dão um upgrade na caída programação vespertina. LEILA REIS, Especial para o Estado - O Estado de São Paulo
Liberdade de dissidência? Não na TV russa
8/8/2004
MOSCOU - Numa democracia, os políticos derrotados têm acesso a veículos de comunicação pelos quais podem criticar a elite governante e procurar convencer a nação de que existem maneiras melhores de resolver problemas públicos. Isso é oposição política. Não na Rússia. Ao menos não para o novo diretor da rede de televisão NTV, Vladimir Kulistikov.
Em entrevista na semana passada, Kulitiskov criticou a rede NTV por conceder tempo demais aos perdedores políticos - marginais, como ele os chamou - que representam uma minoria e criticam Putin. Para ele, isto é reflexo de falta de objetividade. Para salientar seu ponto de vista, Kulitiskov expurgou totalmente a NTV de dissidência política. Uma de suas primeiras decisões foi acabar com o único programa da televisão russa de sátira política e cancelar o último programa de entrevista política ao vivo Nenhum programa desse tipo voltará num futuro próximo, disse ele.
O Kremlin de Putin amadureceu e não está mais para brincadeiras. O propósito da televisão nacional, ficou bem claro, é assegurar uma cobertura favorável ao governo. Qualquer um que expresse insatisfação ou desafie as políticas estatais é persona non grata. O governo não mais se sente compelido nem mesmo a fingir que acredita em direitos iguais de expressão pública.
A Rússia ainda tem uma variedade de mídia impressa livre e crítica, umas poucas vozes de rádio independentes e uma série de sites políticos na web de alta qualidade. Mas esses veículos têm um público pequeno, basicamente elites urbanas instruídas, a maioria de Moscou e São Petersburgo.
A forma como o Kremlin inescrupulosamente aboliu os remanescentes de independência da NTV desperta sérias preocupações sobre o futuro da televisão. A NTV foi uma vez a jóia da coroa do maior grupo privado de mídia da Rússia. Em 2001, seu controle foi assumido por um monopólio controlado pelo Estado, o Gazprom, depois de uma longa e dolorosa batalha. O Kremlin tentou disfarçar sua campanha para controlar o conteúdo da NTV apresentando-a como um conflito de operações empresariais. Negou veementemente que a campanha tivesse algo a ver com a programação, pois as autoridades não quiseram ser tidas como violadoras da liberdade de imprensa.
Havia então ainda um pouco de preocupação com a imagem liberal.
Mesmo após a aquisição, a NTV manteve altos padrões profissionais. Os indícios eram de que não seria transformada facilmente num veículo de propaganda política nos moldes soviéticos, como tinham se tornado as duas redes nacionais totalmente controladas pelo Estado. Em grande parte, o Kremlin tolerou isso. Entretanto, quando os "mimados" jornalistas da NTV foram longe demais, o Kremlin mostrou quem mandava.
Após o cerco ao teatro em Moscou em outubro de 2002, quando repórteres da NTV empreenderam uma investigação sobre a verdadeira causa da morte de mais de cem reféns, o Kremlin considerou a curiosidade deles excessiva e o diretor da rede foi obrigado a renunciar. Mesmo assim, nenhum jornalista foi despedido e nenhum programa cancelado. Aparentemente, o incidente tinha que parecer um problema administrativo e não uma tentativa de restringir a liberdade de expressão.
O novo diretor da NTV era uma mediocridade e nem mesmo era profissional de televisão. Sua única ambição era prestar lealdade absoluta ao Kremlin.
Segmentos "inadequados" tiveram que ser cortados dos noticiários.
Nesse ínterim, os jornalistas das redes totalmente controladas pelo Estado estavam falando mais francamente. De quando em quando, ao conversar com jornalistas estrangeiros, diretores de televisões estatais e âncoras admitiam que se consideravam promotores das políticas do governo e de seus executivos de alto escalão. Há um ano, Konstantin Ernst, o diretor do Canal Um, disse, segundo a revista New Yorker: "é fácil para mim trabalhar aqui porque a política externa e doméstica do Kremlin é sempre clara e compreensível para mim."
No início deste ano, o mais importante âncora da outra rede governamental, a Rossyia, disse ao New York Times que "se não houver nenhuma notícia urgente de última hora óbvia, começamos com o presidente". Porém, até recentemente, a NTV era diferente. A prisão do magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky em outubro parece ter encorajado alguns jornalistas da NTV, pois eles ficaram mais ousados, chegando a fazer troça de autoridades governamentais, como se querendo testar a tolerância do Kremlin. Infelizmente, o nível de tolerância mostrou ser bastante baixo.
O programa Namedni foi cancelado, e seu âncora, Leonid Parfyonov, o astro máximo da TV russa, foi demitido. Depois disso, aquele diretor leal mais tímido foi também despedido. A nomeação no início deste mês de um outro diretor, que veio transferido da Rossiya, acabou com a permissividade. MASHA LIPMAN, The Washington Post - O Estado de São Paulo
Fofocas e bastidores não mudam ibope do SBT
8/8/2004
Um dos projetos mais bem guardados de Silvio Santos, o programa "Cor-de-rosa" estreou semana passada no SBT sem modificar o panorama da audiência no horário: manteve a média de 6 pontos, com picos de 8, mesmo índice que era registrado pela sessão "Cinema em casa". Se alguma coisa surpreendeu foi a apresentação, a cargo de Silvia Abravanel, filha do dono da emissora, e Décio Piccinini, jornalista e veterano jurado de show de calouros. Os dois ainda precisam de um tempo para entrar em sintonia.
A função de Silvia e Décio foi a mais disputada. Durante os três meses em que o programa foi desenvolvido, vários apresentadores fizeram testes. Monique Evans gravou piloto, foi aprovada, mas na hora de acertar com a emissora recusou a proposta porque o salário era baixo: R$ 15 mil. Janaína Barbosa, mulher de Otávio Mesquita, estava bem cotada, mas acabou não aceitando o convite porque sonha com um papel numa próxima novela da Rede Globo.
E aí a apresentação caiu no colo de Silvinha, como ela gosta de ser chamada. A herdeira de Silvio Santos já tinha comandado por alguns meses o "Casos da vida real", retirado do ar pelo pai. Assim como no programa da linha barraco na TV, ela abusa de roupas e penteados à moda mexicana no "Cor-de-rosa".
Décio Piccinini também correu por fora o tempo todo. O diretor Cacá Rosset e o estilista Ronaldo Esper gravaram pilotos antes dele, mas não chegaram a um acordo com o SBT. Silvia e Décio foram a solução caseira encontrada por Silvio Santos para pôr no ar uma revista eletrônica que é uma mistura do "TV fama", da Rede TV!, com o "Video show", da Rede Globo.
Logo na estréia, "Cor-de-rosa" provou que bebeu das duas fontes. Mostrou bastidores de programas da casa, como o "Domingo legal", de Gugu Liberato, e a reforma da mansão--cenário de "Casa dos artistas", que agora ganhou o subtítulo de "Protagonistas de novela". E, claro, fez fofoca, com reportagens sobre uma suposta rivalidade entre Pedro Bial e Glória Maria no "Fantástico", a fama de brigão e conquistador de Dado Dolabella e os casamentos de famosos, como o craque Ronaldinho e a modelo Daniele Cicarelli.
Se alguém torceu por um tom de imprensa marrom, ficou decepcionado. É tudo meio pink mesmo. Mais informação fria e muito VT, já que não há entrevistas com artistas de outras emissoras. Por enquanto, o programa é gravado uma hora antes de ir ao ar. Mas existe a possibilidade de em breve ser ao vivo. Paulo Ricardo Moreira - O Globo
Ex-'esculhambação'
8/8/2004
AINDA SEM sem título definido, o seriado, que se chamaria "Esculhambação", escrito por Alexandre Machado e Fernanda Young para a Rede Globo, só deverá estrear em outubro. A partir desta semana serão gravados pilotos que serão submetidos à direção da emissora. No elenco: Selton Mello, Andréa Beltrão, Marisa Orth e Pedro Paulo Rangel.
Nova trama do SBT
A PRÓXIMA novela do SBT será "Esmeralda", que substituirá "Seus olhos" em novembro. A trama ainda está em fase de pré-produção. Para quem não se lembra, a emissora já exibiu a novela original mexicana entre 2000 e 2001, com médias de audiência em torno de 18 pontos. Baseada em romance de Delia Fiallo, a história gira em torno de uma camponesa cega e milionária. Ao nascer, ela foi trocada por um menino rico. Quando crescem, os dois se apaixonam. Ligado na Telinha - O Globo
'Topo Gigio na televisão'
8/8/2004
Desde 1965, na Globo, até 1983, na Bandeirantes, "Topo Gigio" manteve os seus 15 minutos no ar na TV. Em um mundo povoado de ratos imaginários, Mickey Mouse encabeçando o reino de Walt Disney, Jerry sempre fugindo do gato Tom, Topo Gigio se destacou. Criado na Itália por Maria Perego, ficou famoso por suas aparições na TV, e daí não foi necessário muito esforço para ser reconhecido em todo o mundo. Em 1969, fez sua estréia no Brasil no programa "Mister show" (Globo), ao lado de Agildo Ribeiro. No final de cada apresentação, ele pedia um ingênuo "beijinho de boa noite". Mas os críticos de "O Pasquim" passaram a chamá-lo de gay . Então, a Globo resolveu dividir as atenções de Gigio com Regina Duarte. Na emissora, ele fez um total de 32 apresentações até final de 1970. No episódio final, as crianças não conseguiam esconder a tristeza ao ver o boneco indo embora com uma trouxinha no ombro, virando-se no caminho para acenar para o público. Em 1983, Gigio voltou ao Brasil para se apresentar na Bandeirantes, ao lado do ator Ricardo Petraglia. Mas, dessa vez, não teve a mesma repercussão do programa da Globo. Em 1987, os mesmos empresários insistiram mais uma vez e o ratinho, apaixonado pelos brasileiros, resolveu tentar de novo. "Sou pequeno, doce e macio", como dizia uma das músicas da trilha sonora de seu programa na Band. Era terminantemente proibido fotografar seus manipuladores, para que seu segredo fosse mantido. Porém, não há mistério: à frente de um pano preto, os manipuladores, também vestidos de preto (com capuz e tudo) davam os movimentos ao boneco-rato-menino; por trás dele, havia um mecanismo delicado, que eles manejavam de forma a dar movimento aos bracinhos, olhos e boca. Ele era todo em espuma, mais fina nas orelhas e mais compacta no corpo. Tudo fazia parte de um esquema bem montado, que incluía, além dos programas em TV nos vários países, brinquedos e um disco, que, no Brasil, deu à equipe um Disco de Ouro pela boa vendagem.
Em 2000, depois de 30 anos, a Rede Globo tentou reapresentá-lo. Agildo Ribeiro poderia reviver a dupla com Topo Gigio, seu companheiro no programa "Mister show", que o lançou na TV. Estava nos planos da emissora promover o reencontro dos dois em um novo quadro do "Zorra total". Essa é uma idéia muito bacana, a criançada iria adorar. O Globo
Ele é fofo e veio de outro planeta
8/8/2004
Quem não se lembra do Fofão, boneco que era uma mistura de E.T., cachorro e urso? O personagem idealizado e interpretado por Orival Pessini fez muito sucesso com as crianças no programa "Balão mágico", da Rede Globo, nos anos 80. Agora, o ator acaba de criar um novo bicho, o Fofolo, que é tão estranho quanto Fofão, mas bem menor e mais peludo. O boneco manipulado será um dos moradores da "Vila maluca", seriado infanto-juvenil que a Rede TV! deve estrear em setembro.
- Fofolo é um extraterrestre, uma espécie de bicho de estimação do Fofão. Ele vai provocar situações esquisitas, mas só as crianças da vila poderão vê-lo - conta Pessini.
As gravações do programa começaram semana passada, sob a direção de Adriano Stuart. Além de manipular o novo boneco, Orival Pessini vai interpretar outros quatro personagens usando máscaras: o locutor fanho Juvenal, o mau-humorado Professor Ranulpho, o cantor brega Albério Rogério e o cantor Chico Alberto. Este último pensa que é uma espécie de Frank Sinatra e só vai aparecer na janela da casa do Professor Ranulpho cantando a música "New York, New York".
- Os personagens com máscaras chamam muito a atenção das crianças - afirma o ator, que confecciona as máscaras a partir do molde de seu rosto em gesso.
Aos 60 anos, Pessini não ficou famoso apenas por dar vida a Fofão - o personagem teve seu próprio programa, "TV Fofão", na Band, de 87 a 89. O ator criou o macaco Sócrates, aquele que dizia "Não precisa explicar, eu só queria entender", no humorístico "Planeta dos homens", da Globo. Ele também teve passagens pelos programas "A praça é nossa", do SBT, e "Escolinha do barulho", da Record, vivendo o Patropi.
- Participo de muitos eventos e convenções de empresas pelo país. E sempre faço o Fofão e o Patropi - conta.
Em "Vila maluca", as cinco crianças serão interpretadas por adultos. O elenco conta com Noemi Gerbelli (Dona Valéria), Duda Mamberti (Pepe Lata) e Liza Vieira (Elvira Lata), entre outros. A idéia é que o seriado seja exibido todos os dias às 19h, com reprise no dia seguinte, ao meio-dia. Pessini está empolgado:
- É um projeto infanto-juvenil, mas tenho certeza de que adultos também vão gostar. Paulo Ricardo Moreira - O Globo
As regrinhas básicas de convivência
8/8/2004
A maior dificuldade de Ellen Roche é olhar para Ricardo Macchi nas gravações de "Metamorphoses" e não deixar transparecer para o público que eles têm uma intimidade fora de cena. Afinal, Kelly e Ângelo, seus personagens na novela da Record, não são tão próximos. Já para o ator, o mais difícil é fazer a namorada se desligar do trabalho quando eles não estão no estúdio. Juntos desde 2002, quando se conheceram no reality show "Casa dos artistas", do SBT, eles têm regras básicas para que o trabalho não atrapalhe a intimidade.
- É a primeira novela da Ellen, ela fica empolgada. Tento mudar de assunto, fazer outras coisas, ir a um cinema... Mas ela está sempre pensando na novela - conta Macchi. - Estou orgulhoso dela, nunca pensei que fosse se dedicar tanto. Ela é aplicada e organizada, estuda, decora textos enormes com facilidade e sabe tudo de todos os personagens. Eu só decoro as minhas falas e pronto.
Ellen conta que nem sempre consegue esquecer que quem está ali é o namorado:
- Eu e Ricardo somos cúmplices, passamos o texto juntos. Ele é mais experiente e me dá conselhos. Não estamos o tempo todo juntos, contracenamos poucas vezes, a novela tem várias frentes. É até mais difícil gravar com ele, porque tenho que fingir que não temos intimidade.
Na trama de Letícia Dornelles, Kelly e Ângelo não se topam. Ela é uma menina mimada e escandalosa; ele, um vilão mau como pica-pau. Nas ruas, os dois contam, as pessoas os reconhecem como seus personagens.
- Já me falaram para ser menos mau-caráter. As menininhas dão aqueles gritos histéricos, os meninos implicam comigo e algumas senhoras me abraçam e tiram aquela casquinha - diverte-se ele.
- Uma vez eu estava entrando numa loja e a vendedora disse: "Aqui você não entra!". Tudo porque tinha ido ao ar uma cena em que eu armava um barraco numa loja - lembra Ellen. - Estou extravasando meu lado barraqueira na novela. Eu nunca aprontei nada parecido na vida real.
Fazer o vilão da história, para Macchi, tem sido uma grande aventura. E uma maneira de diversificar a carreira.
- Até então eu só tinha feito papéis de bonzinho, meio bobão. O Ângelo é enérgico, resoluto. E no Brasil temos várias referências de pessoas que fazem tudo por dinheiro. Para mim funciona como uma maneira de mostrar minha revolta contra a falta de valores, de laços de família e de ideologia da sociedade, em que vale mais o "ter" do que o "ser" - comenta o ator. - Ângelo tem o olhar pesado. Ele frita as pessoas com os olhos.
Em tempo: comenta-se nos bastidores que "Metamorphoses" terminará no próximo dia 20, com 25 capítulos a menos do que o previsto. Simone Mousse - O Globo
Culinária para todos os gostos e bolsos
8/8/2004
Uma culinária simples, para todos os tipos de público. É assim que o chef Eduardo Guedes vai comandar seu quadro no "Tudo a ver", da Record, que estreou na última segunda-feira com 6 pontos de média. Quando o rapaz entrou no ar, na terça-feira, a audiência subiu dois pontos:
- Minha participação rendeu o pico do programa - orgulha-se ele.
Aos 30 anos e há nove como profissional de culinária, Eduardo já freqüenta o "Note e anote", de Claudete Troiano.
- Já tenho uma certa experiência em TV. Mas estou melhorando - diz ele.
Foi assim, com esta ligeira timidez, que ele ouviu a declaração de amor da namorada, a apresentadora Eliana, ao vivo na estréia, do estúdio ao lado do que ele estava.
- Foi uma surpresa, não combinamos nada. Naquele momento eu tive que fazer força para não me desestruturar. Fiquei emocionado - conta Eduardo.
No início, o chef estará duas vezes por semana no "Tudo a ver". Com o tempo, a tendência é aumentar a participação e fazer pequenas modificações no quadro.
- Penso em, no futuro, fazer quadros temáticos: um dia de comida light , outro dia só de doces. Vamos experimentando - explica Eduardo, que é administrador de empresas e estudou culinária na Itália. - A idéia é mostrar pratos viáveis, a custos mais baixos, mas sem esquecer o visual, que valoriza a comida. Também vou dar conselhos de como escolher os alimentos, mostrar novidades e entrevistar outros chefs.
Segundo Douglas Tavolaro, diretor de jornalismo da Rede Record, o "Tudo a ver", ancorado por Paulo Henrique Amorim e Janine Borba, tem um público predominantemente feminino, na faixa dos 50 anos. A opção de temas tão variados no programa é para atingir mais gente:
- A proposta é oferecer de tudo um pouco. Temos um telejornal com informação, em formato de revista, com culinária, moda, economia da família... O leque que se abre para o telespectador é enorme. O programa faz parte da nova filosofia da Record: ser popular com qualidade. Simone Mousse - O Globo
O provocador
8/8/2004
O performático Marcelo Tas completa 21 anos de tevê com peça e DVD sobre Ernesto Varela, o repórter cara-de-pau
Marcelo Tas comemora este ano sua maioridade na tevê. Atualmente no comando do programa Vitrine, na TV Cultura, o apresentador, ator e roteirista iniciou uma trajetória de trabalhos bem-sucedidos há 21 anos. Logo no começo da carreira, fez barulho como o memorável repórter Ernesto Varela, versão com cérebro do que é hoje o repórter Vesgo, do programa Pânico na TV, exibido pela Rede TV!. O personagem que pisava no calo dos entrevistados passou pela TV Gazeta, Record, SBT e MTV. Seus melhores momentos serão reunidos num DVD que Marcelo está preparando e numa peça de teatro, A história do Brasil segundo Ernesto Varela. Tas também não descarta a idéia de trazê-lo de volta para a tevê a qualquer momento. ''Varela é uma marca na minha carreira, quase uma matriz de onde saíram influências para outras coisas que fiz na televisão'', analisa.
Apesar de já ter feito de tudo um pouco na tevê - foi um dos criadores do Programa legal, apresentado por Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães na Globo -, Marcelo Tas é mais reconhecido pelos tipos performáticos que incorporou. Além de Ernesto Varela, viveu o professor Tibúrcio no infantil Rá-tim-bum e Telekid no Castelo Rá-tim-bum, ambos da TV Cultura. Telekid, o garoto que sabe responder a qualquer pergunta, está no ar nas reprises do programa.
''Tenho os meus dias de Xuxa por conta desses personagens infantis. Meninas de 20 anos gritam 'Professor Tibúrcio!' quando me vêem e até na Amazônia um molequinho me reconheceu porque assiste ao Castelo pela parabólica'', diz ele, que também criou o Professor Planeta, um crítico de futebol, para o canal por assinatura ESPN Brasil.
Até quando foi apresentador do Vídeo show, em 1986 e 1987, antes do reinado de Miguel Falabella, Tas cumpriu a função com um personagem. Cabeça Branca recebia o espírito de diversos apresentadores de tevê. ''Até hoje muita gente me pára na rua por causa dele. Essa experiência no Vídeo show foi muito bacana'', comenta.
Foi justamente a vontade de criar personagens eletrônicos, ou alter egos eletrônicos, como define, que o levou à tevê. Antes de montar a produtora independente Olhar Eletrônico com um grupo de amigos, entre eles o cineasta Fernando Meirelles (Cidade de Deus), Marcelo cursava Engenharia. ''Larguei a faculdade no último ano, para desespero da minha família. Com a produtora, percebi: é isso que quero fazer quando crescer'', conta. Antes de montar a Olhar Eletrônico, ele integrou o grupo de teatro Macunaíma, do diretor Antunes Filho, e fez aulas de dança.
A paixão pela televisão é o que o move até hoje. Tanto que não faz nada que não lhe dê prazer. ''Meu termômetro é a minha quantidade de diversão. Se não tiver isso, a coisa fica complicada'', enfatiza, antes de dizer que se considera um sortudo. Desde 1998, ele apresenta o Vitrine, que fala sobre internet e novas mídias, e se diz satisfeito com a a TV Cultura. Mesmo assim, não esconde que um projeto sedutor poderia mudar seu rumo. ''Tenho um bicho carpinteiro, gosto de fazer coisas variadas. Minha relação com a Cultura é boa porque me permite isso'', afirma.
Além do Vitrine, Marcelo apresenta o Blog do Tas no telejornal da emissora e anuncia, sem imagem, todos os programas infantis nos intervalos. ''Estou matando a saudade do público infantil com essas chamadas, onde converso com as crianças. Quero muito voltar a fazer tevê para elas'', avisa. Mariana Meireles - Correio Braziliense
Justus, o Trump brasileiro
11/8/2004
Como o magnata dos EUA, ele buscará o empregado ideal em um reality show. No mundo real, funciona?
Eram 11 horas da manhã de 15 de junho passado quando o telefone tocou na agência de publicidade Young & Rubicam, em São Paulo. O publicitário Roberto Justus levantou o aparelho do gancho. Do outro lado da linha, Walter Zagari, o superintendente comercial da Rede Record, foi direto ao ponto. "Não desliga", avisou Zagari. "Queremos fazer um reality show com você." Justus abriu um sorriso e começou a escutar a proposta. Ele havia sido escolhido para protagonizar a versão brasileira do "The Apprentice", o programa protagonizado por Donald Trump, o magnata americano, dono de uma fortuna estimada em US$ 2,5 bilhões. Na atração, 16 candidatos recebem tarefas corporativas e disputam uma vaga nas empresas de Trump com um salário anual de US$ 250 mil. É o campeão de audiência nos EUA. Atraiu tanta publicidade que Trump, agora, pede US$ 18 milhões por episódio - no início da série, recebia meros US$ 50 mil. Na semana passada, Justus, presidente do grupo NewComm, que reúne as agências Y&R, Dez Brasil, Wunderman e Ação, finalmente aceitou o convite, depois de meses de negociação. Deverá estrear na televisão no início de novembro. "Serei o Trump brasileiro", disse Justus com exclusividade à DINHEIRO.
Para chegar no nome de Justus, os executivos da emissora encomendaram uma pesquisa com donas de casa, universitários e até funcionários da empresa. O publicitário concorreu com nomes de peso como Antônio Ermírio de Moares, do grupo Votorantim, e Edmar Cid Ferreira, presidente do Banco Santos. Mais de 70% dos votos foram para Justus. Como é figurinha carimbada em revistas de celebridades, é reconhecido pelas pessoas nas ruas. "Não sou artista mas me pedem autógrafo", ri. Outra de suas facetas é conquistar belas mulheres. Foi casado com Adriane Galisteu, na morou a apresentadora Eliana e agora está ao lado de uma morena, a estilista Guilênia Bogosian, de 30 anos. "Guardadas as devidas proporções, o cabelo e o físico de Justus são semelhantes aos de Trump", diz Zagari, da Record. As madeixas do magnata Donald Trump tornaram-se folclore nos EUA. Por onde passa, as pessoas falam de seu topete. O furor é tanto que no seu último livro ele fez uma revelação. "Não tenho cabelo postiço, mas uso pintura". Justus também sofre com os comentários sobre seu penteado, mas tira de letra. "Apenas seco o cabelo", garante.
Ambos são mestres na arte de fazer negócios e de virar notícia. Trump é o típico exemplo do sonho americano, do self made man. Fez fortuna a partir do nada e construiu um império imobiliário. É dono de prédios como o Trump Tower, na 5ª Avenida, em Nova York, e o cassino Taj Mahal, em Atlantic City.
Justus, de 49 anos, tem trajetória parecida. Criou ao lado de Eduardo Fischer, a agência Fischer, Justus na década de 80. Depois de anos juntos, separaram-se no
fim da década de 90. Justus inaugurou uma agência a partir do nada e acumulou um dos maiores crescimentos da história da propaganda. Em 1998, a NewcommBates exibia R$ 105 milhões de faturamento - em 2003, chegou a R$ 660 milhões. Mas, como nem tudo na vida é perfeito, Justus reconhece, sim, uma diferença em rela-
ção ao americano: "Só queria ter o mesmo dinheiro que o Trump". Na TV, esse detalhe não fará diferença.
O programa brasileiro, cujos direitos foram comprados do produtor americano
Mark Burnett pela Rede Record, será dividido em 15 episódios. Transmitido todas as quintas-feiras, terá duração de uma hora. O nome será definido nos próximos dias. Além de "O aprendiz", poderá se chamar "A grande tacada" ou "A grande chance". A escolha de Justus para a versão brasileira coincide com o lançamento, no dia 18 de agosto, do original, em inglês, no canal a cabo People and Arts. Na edição preparada pela Record, os participantes concorrerão a um contrato de um ano na empresa de telefonia Vivo. O salário: R$ 250 mil por ano. As inscrições poderão ser feitas por meio dos celulares e na internet. Os concorrentes devem ter curso superior. Passarão, ainda, por uma seleção que envolverá as áreas de recursos humanos das empresas.
O jogo corporativo tem um objetivo: avaliar as características de cada um dos 16 participantes. Eles serão divididos em dois grupos e montarão uma empresa fictícia. Cada equipe, com um líder, terá de cumprir as tarefas ordenadas por Justus. Depois de realizadas, Justus dará o veredicto. Toda semana ele eliminará um candidato, submetido ao que ele chama de berlinda. Independentemente do programa de televisão, cabe uma indagação: esse tipo de seleção profissional funciona? "No show, você não é natural, está nos holofotes", diz o headhunter Robert Wong. "A situação real é diferente, conseguir emprego num reality show é como arrumar namorada pela TV". Ainda assim, Justus foi selecionado também por ser reconhecidamente hábil na seleção de pessoas - o que tornará sua participação no programa mais verossímil. "O Justus tem um faro incrível para identificar talentos", diz Walter Longo, CEO da agência Synapys e antigo sócio de Justus. Nos EUA, Trump, o verdadeiro, é reconhecido nas ruas por seu bordão. Com o dedo em riste ele dispara: "You're fired!" (Você está demitido!). Justus ainda não definiu sua marca registrada. "Mas ele já está até tendo aulas de dramaturgia", diz Zagari, da Record.
COMPORTAMENTO
O publicitário é vaidoso. Passa cremes no rosto, transformou o cuidado com a estética em modo de vida. "Mas não sou narcisista", diz. Figura carimbada em revistas de celebridades, pratica esporte todos os dias. No seu guarda-roupas, há dezenas de ternos assinados por estilistas de renome. Pode ficar dois meses sem repetir o traje social.
NEGóCIOS
Comanda o grupo Newcomm, que reúne as agências Young & Rubicam, Dez Brasil, Wunderman, Ação e, em dois meses, lançará uma nova empresa de marketing promocional. O grupo de comunicação, o primeiro do ranking no Brasil, deverá faturar, segundo consultores do mercado, R$ 1 bilhão em 2004.
MULHERES
Namora a estilista e morena Guilênia Bogosian. Foi casado três vezes e é famoso por estar ao lado de beldades. Entre as suas conquistas mais celebradas estão Adriane Galisteu, com quem casou-se em uma das cerimônias mais badaladas do Brasil, e a apresentadora de programa infantil Eliana.
DONALD TRUMP Com a namorada Melania Knauss a bordo de seu Boeing
COMPORTAMENTO
O magnata americano é um dos mais excêntricos bilionários do planeta. Além de cultivar um penteado folclórico e de pintar os cabelos, Trump, uma espécie de personagem da vida real, também é extremamente vaidoso. Todos os seus empreendimentos, aviões e helicópteros levam o seu nome em letras garrafais.
NEGóCIOS
Ele ocupa o 205º lugar entre os homens mais ricos do mundo, com uma fortuna de US$ 2,5 bilhões. Seu conglomerado envolve arranha-céus em Nova York, cassinos em Atlantic City e hotéis em diversas cidades dos Estados Unidos. No Brasil, ele inaugurará, em 2005, o Villa Trump, um condomínio de luxo no interior de São Paulo.
MULHERES
Donald e Ivana Trump formaram um dos casais mais célebres e barulhentos do planeta. Separaram-se em 1990. Donald casou-se, depois do divórcio, com a atriz Marla Maples. O casamento também acabou. A partir daí, foi visto ao lado de belas modelos. Sua namorada atual é a modelo morena Melania Knauss. Carlos Sambrana - IstoÉ Dinheiro
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Política de Rádio e TV
TV poderá ter programação educativa obrigatória
6/8/2004, 16h01
A discussão sobre o papel da televisão na infantil e sobre a qualidade da programação oferecida é um tema freqüente de propostas e debates no Parlamento brasileiro. No mês passado, o deputado Clóvis Fecury (PFL-MA) apresentou à Câmara um novo projeto de lei (PL 3930/04) sobre o assunto. O parlamentar sugere que as emissoras de rádio e TV sejam obrigadas a reservar cinco minutos por dia para veicular programação educativa.
O projeto determina ainda que esse tempo seja reservado no horário nobre da programação, entre as 12 e 14 horas e entre as 19 e 21 horas, de segunda a sexta-feira. O autor justifica a exigência, lembrando que, durante esse período, a audiência é maior, o que ampliará o alcance da medida. Os programas educativos, de acordo com o projeto, deverão ser produzidos e distribuídos pelo Poder público.
Regulamentação
Clóvis Fecury informa que o Decreto-lei 236/67 já prevê que as emissoras transmitam cinco horas semanais de programas educativos, em horários compreendidos entre as 7 e 17 horas. "Como esse dispositivo, no entanto, carece de regulamentação, as emissoras de rádio e TV estão desobrigadas de apresentar qualquer programação educativa", explica.
Tramitação
A proposta de Fecury foi apensada ao PL 5269/01, que trata do mesmo assunto. A matéria está na Comissão de Seguridade Social e Família, onde o relator é o deputado Guilherme Menezes (PT-BA), que acredita ser necessário refletir sobre como melhorar o nível da produção cultural. "Principalmente aquela destinada ao público infanto-juvenil, que tem no rádio e na televisão forte referencial", assinala. O relator adverte, no entanto, que leis que limitem os direitos constitucionais de livre expressão e manifestação de idéias e pensamento devem ser precedidas de um amplo debate. Guilherme Menezes deverá reformular o parecer já apresentado à Comissão de Seguridade para incluir o projeto do deputado Clóvis Fecury.
Também vão analisar a matéria, que tramita em caráter conclusivo, as comissões de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Natalia Doederlein - Agência Câmara de Notícias
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Política de TV por Assinatura
Net anuncia Net Digital no Congresso da ABTA
6/8/2004, 10h30
Empresa reúne imprensa no dia 10 de agosto, às 16h
A Net Serviços realiza coletiva de imprensa no dia 10 de agosto, às 16 horas, durante o Congresso da ABTA 2004. Na ocasião, a empresa apresentará seu mais novo produto, a Net Digital. Além disso, também será apresentado um novo parcerio da empresa nesta empreitada. MMOnline
Internet e telefonia vão ajudar TV paga a crescer
9/8/2004
Depois de três anos de estagnação, base de assinantes avança 3,8% em 12 meses
Desta vez, parece mesmo que a crise da TV paga começa a ficar para trás. Boa parte dos problemas de endividamento das grandes empresas do setor está resolvida e o mercado voltou a crescer nos últimos 12 meses, refletindo, em parte, a recuperação da economia do País. Para sustentar a recuperação, as companhias apostam em novos serviços, como a TV digital interativa, a telefonia e a internet rápida. "Os fatos positivos estão se somando", afirmou Alexandre Annenberg, diretor-executivo da Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA). "Se tudo continuar no ritmo que está, o crescimento ficará em pelo menos 3% no ano."
Depois de quase três anos de estagnação, o setor registrou avanço de 3,8% nos 12 meses encerrados em junho, quando alcançou 3.591 milhões de clientes.
Parte do problema era a situação econômica do País e parte a dívida dos grandes grupos, que havia tirado das empresas sua capacidade de investir e cortado o acesso ao crédito.
A situação começa a mudar. A Net, maior empresa do setor, anunciou em junho a proposta final para renegociação de sua dívida de R$ 1,5 bilhão e o acordo para entrada de um novo acionista, a mexicana Telmex, dona da Embratel e da Claro. A TVA, segunda maior de TV a cabo, encerrou em 2003 um forte programa de ajuste e seu controlador, o Grupo Abril, foi a primeira empresa de mídia a atrair um investidor estrangeiro, ao vender 13,8% de seu capital por R$ 150 milhões para fundos americanos de investimento, da Capital International.
A retomada dos investimentos se reflete nos anúncios preparados para o evento ABTA 2004, que começa amanhã, em São Paulo. Durante a feira, a TVA lança a TV digital interativa e o serviço de telefonia via cabo, que usa a tecnologia de voz sobre protocolo de internet (IP, na sigla em inglês). A voz sobre IP permite usar a mesma tecnologia empregada na internet para chamadas telefônicas. Para isso, a voz é transformada em dados, o que reduz a capacidade de rede exigida para cada chamada e, em conseqüência, diminui os custos para a empresa que opera o serviço. Com a internet de alta velocidade, a qualidade do serviço para o cliente pode ser a mesma do sistema tradicional, com preços menores. Serviços - A estratégia das empresas serão pacotes três em um, unindo TV, internet rápida e telefonia. Com três serviços em uma só rede, as empresas esperam conseguir oferecer preços menores que a soma de cada mensalidade. Internacionalmente, a estratégia é chamada triple play, e já teve resultados positivos nos EUA e no Chile.
A vantagem para as operadoras é óbvia: o aumento da receita média mensal por cliente e uma barreira maior à perda de assinantes. O cliente que assina TV e internet rápida é mais fiel que aquele que contrata só TV. Com a telefonia, o incentivo a permanecer conectado deve aumentar. Fora isso, as operadoras tornam-se menos vulneráveis a crises, ao atuar em diversos mercados. Uma prova foi o crescimento da internet rápida. O número de clientes de banda larga das empresas de TV paga passou de 59 mil no fim de 2000 para 270 mil em junho deste ano, mesmo com as restrições ao investimento causadas pelas dívidas.
"O serviço digital alavanca o processo de crescimento", disse o diretor de Novos Negócios da TVA, Amilton de Lucca. A TV digital aumenta a qualidade de vídeo e áudio e permite o tráfego de mais conteúdo que no sistema analógico.
O grande potencial, porém, deve ser a interatividade. A digitalização possibilita oferecer conteúdos como os da internet, com texto, vídeo e áudio sob demanda, na televisão. "Não seria internet na TV, mas alguns conteúdos interativos em que o espectador navega com o controle remoto", explicou o diretor da TVA. A empresa criou um portal de TV com conteúdos do Grupo Abril. A TVA tem 290 mil assinantes de TV e 25 mil de internet rápida. Competição - Neste novo cenário, as empresas de TV paga se integram à competição entre as operadoras de telecomunicações. Prova disso foi a entrada da Telmex no controle da Net. A rede da Net é uma alternativa à Embratel, controlada pela Telmex, para chegar à casa dos clientes e concorrer com a Telefônica, Brasil Telecom e Telemar no varejo. Durante o evento ABTA 2004, a Net também apresenta seu serviço digital, que deve ser lançado até novembro. A empresa previa lançar a telefonia via cabo só no ano que vem, mas pode antecipá-lo. "Os planos estão passando por uma reavaliação interna", contou Ciro Kawamura, diretor de Marketing e Produtos da Net, que chegou a junho com 1,38 milhão de clientes de TV paga e 131,4 mil de internet rápida.
O mercado de telefonia com voz sobre IP é promissor. Nos EUA, a tecnologia conquistou mais de 2,5 milhões de assinantes em dois anos. No Brasil, o potencial são 10 milhões de residências.
Outro exemplo da recuperação dos investimentos no setor foi a compra da Canbrás, que opera na região do ABC e litoral de São Paulo, pela Horizon, que atua no interior de São Paulo, Manaus e sul do Rio, formando a terceira maior operação de TV a cabo do País, com 265 mil assinantes de TV e 45 mil de internet rápida. O negócio foi anunciado no fim do ano passado. Em setembro, as empresas mudam de nome. "Estamos fazendo nossos estudos sobre digitalização e voz sobre IP, mas ainda não existem datas definidas", afirmou Antônio João, vice-presidente de Operações da Horizon, controlada por fundos americanos e investidores brasileiros.
Na TV via satélite, a Sky informatizou sua rede de mais de 2,16 mil revendedores, com o objetivo de tornar mais eficiente o atendimento. Renato Cruz - O Estado de São Paulo
Diversão popular
11/8/2004
As operadoras de TV paga poderão ser obrigadas a criar pacotes a preços baixos, entre R$ 15 e R$ 20, para a população de baixa renda. O projeto está no Congresso. Fernanda Galvão - IstoÉ Dinheiro
Indústria cresce graças à banda larga e ao pay-per-view
8/8/2004
O número de assinantes de TV paga no Brasil cresceu 1%, do 2.º semestre de 2003 para o saldo fechado no 1.º semestre de 2004, mas a receita do setor cresceu 7% nesse mesmo período. Aumento de mensalidade? Nem tanto. O milagre da multiplicação dos pães, nesse caso, se explica pelo aumento de outras fontes de renda dessa indústria, em especial a venda de programas via pay-per-view, que aumenta assustadoramente em temporadas de Big Brother Brasil, a compra de pontos adicionais num mesmo domicílios, e serviços para internet em banda larga.
CEO (principal executivo) da Net Serviços e presidente da ABTA - Associação Brasileira de TV por Assinatura -, Francisco Valim não nega que a prioridade do setor, nesse momento, é ampliar a oferta de serviços ao público que já é assinante. A discussão em torno de pacotes mais baratos para conquistar a classe C, admite, ficou em segundo plano.
"Não se deve mais esperar uma penetração porcentual como a da Argentina", diz ele. Com situação socioeconômica parecida com a do Brasil, a Argentina exibe 74,8% de penetração de TV paga entre os domicílios com TV, contra apenas 8,7% do Brasil. Mas é preciso ressaltar que o cabo, no país portenho, é antigo, pois sugiu como meio de difundir a própria TV aberta (não é como o sistema de radiodifusão brasileiro, organizado à base de geradoras e retransmissoras). A TV aberta argentina também é muito ruim - a brasileira, em comparação à deles, é ótima -, o que incentiva o consumidor no quesito custo-benefício.
Custo-benefício
O Estado pergunta então a Valim se ele acha que o consumidor brasileiro, com o poder aquisitivo que tem, pagaria o que se cobra pelo serviço aqui, mesmo que a nossa TV aberta fosse tão ruim como a argentina. "Não, acho que não pagaria", reconhece. "Mas não adianta a gente achar que vai ganhar com a conquista da classe C, isso é possível, mas tem um custo. Temos que pensar como indústria e o que se tem hoje é uma indústria que cresce com robustez", diz. "Ninguém está esperando uma explosão de números, mas sim um crescimento de acordo com o ritmo do crescimento econômico do País", completa.
Se criasse pacotes mais baratos para atender não apenas à classe C, mas também a uma parcela de 30% da classe AB, que ainda não assina TV paga, o setor ganharia em adesões, mas também correria grande risco de perder em faturamento. Isso porque muitos dos assinantes que hoje pagam caro por TV poderiam fazer opções mais baratas.
Apesar do baixo índice porcentual, o Brasil ocupa a 6.ª posição entre os mercados considerados mais importantes para o setor. A conta é simples: em números absolutos, mesmo com seus 8,7%, o País alcança 3,59 milhões de lares - mais que Colômbia, que tem 42% de penetração, mas 3,4 milhões de assinantes, e pouco menos que o México, que soma 18,9% de penetração, porém 3,8 milhões de assinantes. O Brasil tem mais de 41 milhões de domicílios com TV, e, mesmo que o avanço sobre todo esse público não seja prioridade, alcançar essa platéia não é estratégia desprezível.
Parte desse público já vê TV paga, mas não paga por ela. O assunto pirataria é tema de uma das coletivas de imprensa que a ABTA realiza na Feira Congresso 2004 que leva seu nome, anual, com início marcado para esta terça-feira, no ITM Expo, em São Paulo. Na ocasião, serão apresentados números estimados de ligações ilegais e programas para tentar combater as infrações. Uma delas, claro, com restrições geográficas a áreas carentes, é oferecer pacotes mais baratos. No caso desses, para o setor, é melhor que eles paguem pouco do que nada pelo serviço. (C.P. e E.J.) O Estado de São Paulo
TV paga e aberta brincam de espelho, espelho meu
8/8/2004
Em 1996, quando o setor de TV paga se endividava para emplacar seu produto nos hábitos de um consumidor voraz por televisão, estimativas otimistas previam para 2003 uma soma de 11 milhões de assinantes. Hoje, o setor conta com 3,5 milhões de pagantes, nem metade daquela conta, e ainda comemora - ao contrário do telespectador, que não encontra grandes vantagens no custo-benefício do serviço.
É que a indústria de TV paga, que por anos acalentou o sonho de conquistar a classe C, até vem cedendo a estratégias mais populares na programação, mas reposicionou em segundo plano a idéia de criar pacotes mais baratos. A principal meta, hoje, não está na mira dos mais pobres, mas sim dos mais ricos, com serviços adicionais oferecidos pelas operadoras (leia texto ao lado).
Fato é que a nossa TV aberta, em relação à argentina e à mexicana, não é tão ruim assim, a ponto de seduzir o consumidor a pagar o que se cobra por um serviço que, digamos, também não é lá essas coisas. É claro que o assinante tem uma infinidade de chances de assistir a filmes mais recentes na TV paga, com legendas e sem intervalos comerciais, mas a interferência dessa oferta nos hábitos do consumidor brasileiro tem peso questionável.
Por exemplo, o canal TNT, que só exibe filmes dublados, com intervalos comerciais, apresenta títulos nada inéditos e, mesmo assim, é o canal pago mais visto, segundo o Ibope, entre o público com mais de 18 anos (veja ranking na pág. ao lado). A versão em português tanto é atrativo de público que, a partir de 1.º de outubro, a Rede Telecine também lança um canal só com filmes dublados, o Telecine Pipoca, que substituirá o Happy.
No GNT, canal que muito contribuiu para a ampliação do mercado de produtoras independentes, fomentando a criação de documentários e programas de debates e entrevistas, a estrela da programação hoje atende por Beleza Comprada, produção nacional, sim, mas na linha mais fútil dos reality shows, que expõe a insegurança de personagens diante do espelho. Quem se dispõe a pagar pelo menos R$ 60 mensais para assistir a programas facilmente encontrados na TV aberta?
Efeitos do Ibope
Desde que o Ibope passou a medir a audiência da TV paga, também se constata o orgulho de seus executivos em anunciar que programas desse gênero lideram a audiência. A diretora-geral do GNT, Letícia Muhana, acredita em Beleza Comprada, "um programa em que os participantes são jovens e bonitos" - em suas palavras -, e o compara com atrações como Queer Eye for the Straight Guy e Extreme Makeover, ambos realities de sucesso no canal Sony. A diferença: o primeiro é divertido e apresenta dicas de beleza e boas maneiras para homens; o segundo trata a cirurgia plástica como recurso corretivo extremo para pessoas que realmente precisam.
Desde setembro do ano passado, o GNT passa por um "reposicionamento", como diz Muhana, para focar melhor o conteúdo do canal e priorizar o público feminino. Moda, beleza, gastronomia e comportamento passaram a ser o alvo do GNT, em detrimento dos documentários. O resultado foi significativo em ibope e anunciantes. De setembro de 2003 a junho de 2004 houve aumento de 34% em audiência, o que resultou em 81% do crescimento da receita publicitária da emissora no mesmo período. Apesar dos números, Letícia Muhana não acredita que o canal tenha se popularizado e discorda que haja uma tendência de a TV paga se assemelhar à aberta. Para ela, programas como o Beleza Comprada ou o Gente Pop - que apresenta celebridades - podem ter formatos que geram interesse mais amplo, mas "não são popularescos", diz.
Para o diretor do canal Multishow, Wilson Cunha, os números do Ibope só ajudaram a melhorar a programação. "É preciso saber ler os números, e não obedecer cegamente aos índices. Reposicionamos vários programas com base nos números do Ibope, agrupando programas de acordo com a faixa etária de cada horário", argumenta.
De acordo com Cunha, a medição do Ibope só fez bem ao Multishow. "Fizemos os ajustes necessários, sem abastardar a programação", fala. Como exemplo, o diretor cita a faixa Mandou Bem, direcionada ao público jovem, que multiplicou o público do canal em 61% no horário (de segunda a sexta, às 18h30). No entanto, o programa que mais alavancou a audiência do canal, nos períodos em que esteve no ar, foi o Big Brother Brasil. O Multishow exibia 20 minutos diários do reality show, ao vivo, após a edição diária da TV Globo.
Voz do povo
Apesar de ser uma boa ferramenta para descobrir o gosto do público, o Ibope não é o único recurso. Para lançar o Telecine Pipoca, a Rede Telecine se baseou em e-mails de telespectadores, pesquisas qualitativas e grupos de discussão. "Recebemos e-mails interessantes com pedidos de mais filmes dublados", conta o presidente da rede, João Mesquita. "Foi uma resposta à Sessão Pipoca (bloco do Telecine Happy), que tem um público mais jovem." O novo Pipoca exibirá longas de três canais da rede - Premium, Emotion e Action. Os títulos que hoje entram em cartaz no Telecine Happy passarão para o Telecine Emotion.
O sucesso da versão portuguesa, segundo Mesquita, se deve à cultura nacional e independe de classe social ou do costume do brasileiro às regras da TV aberta. "Na França e na Espanha, países já acostumados à TV paga, o telespectador é parecido com o brasileiro e os canais que dublam filmes também têm boa audiência", explica. Porém, os filmes dublados não tomam o lugar dos legendados. "Nos grupos de discussão sentimos que as pessoas não querem deixar de ter filmes com som original, mas querem a opção da versão dublada."
O Telecine Pipoca competirá com o líder TNT e contará com vantagens e desvantagens em relação ao concorrente. O TNT possui um acervo de filmes mais antigos, porém está nos pacotes básicos de todas as operadoras, vitrine maior que a do Telecine, que por sua vez exibirá blockbusters recentes, mas só chega aos assinantes de pacotes completos - e mais caros - da operadora Net e na Sky.
O fato de estar nos pacotes básicos guiou o TNT no caminho da dublagem. "Foi a estratégia do canal", fala o vice-presidente da Turner no Brasil, Anthony Doyle. A situação privilegiada não exclui a corrida à melhoria da qualidade do canal. "O público da TV por assinatura é infiel", diz Doyle, que não adiantou as novidades que o TNT apresentará em breve, mas garantiu que a emissora não se acomodou. Em algumas operadoras na América Latina, o TNT oferece a opção da tecla SAP ou um canal extra com a versão legendada do canal.
A Turner também engloba outro líder de audiência no setor, o Cartoon Network. A emissora seduz os telespectadores com vinhetas feitas especialmente para o Brasil, assim como os concorrentes Nickelodeon e Jetix.
Apesar de o público de TV paga em geral ser infiel, Doyle sente um progresso. "Vejo que a TV paga cada vez mais vai fazendo parte da vida dos telespectadores e que os programas caíram no gosto popular", diz. "O público já sabe em que dia da semana passa determinado programa."
Para Doyle, a TV por assinatura, apesar de cara, oferece uma variedade muito grande de opções. "Há entretenimento, esporte, notícia e atende a quase todos os gostos", fala. Letícia Muhana destaca também a programação diferenciada: "Variedade e diferencial caminham juntos".
Assinantes preferem TV aberta
É difícil saber o quanto a TV paga vai crescer. Mas fato é que a TV aberta ainda é a grande paixão do brasileiro. Segundo o gerente-geral dos canais Fox e National Geographic no Brasil, Gustavo Leme, os assinantes de TV paga ainda consomem, em média, 60% de seu tempo diante da TV assistindo a programas da TV aberta.
"É uma relação muito forte", diz Leme, que acredita ser esse um dos fatores que impedem o crescimento mais rápido do mercado de TV por assinatura. Outro elemento, claro, é o preço. "TV paga ainda é artigo de luxo."
Identificação também pesa. Com o crescimento das produções locais, os programadores esperam chegar mais perto do telespectador - vide audiência dos canais Globosat - e ver o ibope crescer. A National Geographic produziu, com verba da Ancine, documentários sobre a vida animal no Brasil. O canal deve estreá-los em um grande bloco com ampla divulgação. "A expectativa é grande", comenta Leme.
O dinheiro da Ancine continuará sendo usado pelo grupo para alimentar a grade do National Geographic com documentários. Séries, reality shows e outros programas que poderiam ser agregados ao canal Fox estão fora de cogitação. "Documentários agregam valor para a cultura. Teríamos condições para fazer séries, mas isso não agregaria tanto valor."
Parecida ou não em conteúdo com a TV aberta, a TV paga caminha a passos lentos em números de assinantes. Já em relação à forma, afora alguns tropeços, a tendência é fazer com que ela ofereça mais serviços - em pay-per-view, novos canais e banda larga - e fale a língua do telespectador. CRISTINA PADIGLIONE e ETIENNE JACINTHO - O Estado de São Paulo
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Imprensa & Jornalismo
Pecado original
8/8/2004
Muita tinta será gasta e algumas palavras serão brandidas com indignação no debate sobre o projeto de lei enviado pelo presidente Lula ao Congresso propondo a criação do Conselho Nacional de Jornalismo. Sua função, disciplinar o exercício da profissão. No pronunciamento que pensa fazer esta semana, Lula deve voltar ao tema do "denuncismo". FH já se ocupava dele.
Cerceamento, censura e controle da liberdade estarão entre as expressões lançadas à discussão, necessária por sinal. Talvez ela tivesse outro rumo se o governo não o tivesse patrocinado. E justamente agora, quando pipocam denúncias contra autoridades financeiras - ainda que carregadas dos desvios colados à imprecisa idéia do denuncismo. Ao fazê-lo, o governo decidiu correr, livremente, o risco das acusações previsíveis: o de estar tentando coibir a fiscalização da imprensa e o surgimento de denúncias; o de preferir a opacidade à transparência. O mesmo risco correu, há poucos dias, quando o ministro Márcio Thomaz Bastos anunciou projeto propondo regras mais rígidas contra o vazamento de grampos realizado no âmbito de investigações judiciais. Vivemos mesmo numa "grampolândia", expressão cunhada pelo jornalista Alberto Dines, e os grampos já não são apenas instrumentos de investigação policial, mas armas regulares nas lutas política e empresarial.
O presidente Lula está indignado com a seqüência de denúncias contra o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, nas quais ninguém pode ignorar dois aspectos: 1) Elas servem ao interesse político da oposição, que neste caso levou a melhor na disputa de munição com o PT dentro da CPI do Banestado. 2) Elas se apóiam também numa ilegalidade, perpetrada por autor desconhecido, a quebra de sigilo fiscal não autorizado por qualquer juiz nem aprovada pela própria CPI. Do segundo aspecto vem a pergunta: para combater uma ilegalidade pode a imprensa valer-se de outra?
A indignação foi má conselheira para Lula, embora tenha atendido à Federação Nacional dos Jornalistas, defensora da instalação do Conselho. As reações estão a caminho, tanto as de setores da imprensa como as do do meio político. Na sexta-feira, o senador Antero Paes de Barros, justamente o maior suspeito, como presidente da dita CPI, de ser o municiador das denúncias da hora, já acusava o governo de estar tentando "reintroduzir a censura no país". Nesta direção, espera-se um caudal de palavras.
Por outro lado, as práticas da imprensa nunca foram tão questionadas como hoje. Primeiro, pelos próprios consumidores de informação - leitores, ouvintes e telespectadores - através de blogs, sites, seções de cartas de leitores e outros espaços. Poucos jornalistas e teóricos de comunicação se ocupam delas. Mas os governos de plantão estão sempre às voltas com o assunto, quando viram bola da vez. Aqui mesmo, nesta coluna, o ex-presidente Fernando Henrique fez um desabafo sofrido contra o "denuncismo", em que disse um "chega de fascismo!". Estava revoltado como Lula agora.
Naquela época, cobra-se sempre esta recordação, o PT era o grande provedor das denúncias. Sinal disso, o fato de que a primeira fita vazada no atual governo foi a gravação de uma reunião do ministro Palocci com a bancada petista, pela qual se soube das contestações à política econômica. Mas depois, a oposição pegou o baralho e passou a dar as cartas. Tivemos os casos Waldomiro, Kroll e agora as operações financeiras dos dirigentes do BC e do BB.
Sustentar que as práticas da imprensa não podem ser discutidas é acreditar que tudo lhe é permitido. É presumir que os demais cidadãos devam ser consumidores passivos de informação. Todos devem discutir a necessidade ou o perigo deste Conselho. Devem se perguntar se os profissionais da imprensa, tal como os médicos, os engenheiros e outros, devem sujeitar-se a um órgão regulador. O perigo talvez não se apresentasse se a proposta não tivesse ganhado o selo do governo. Poderia o órgão de classe ter tomado a iniciativa. Poderia ter recorrido a parlamentares ou mesmo à Comissão de Legislação Participativa da Câmara, onde toda entidade representativa pode apresentar propostas. Tereza Cruvinel - O Globo
Governo propõe criação de conselhos de Jornalismo
5/8/2004, 19h13
O Governo enviou hoje ao Congresso projeto que cria os conselhos federal e regionais de Jornalismo, encarregados de disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão. Os conselhos também deverão zelar pela ética e disciplina dos profissionais da área, e pela defesa do direito à livre informação.
Para o presidente da Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público, deputado Tarcisio Zimmermann (PT-RS), o projeto chega em boa hora. "Os jornalistas passam a contar com um instrumento efetivo de proteção do exercício da profissão, enquanto a sociedade ganha maiores garantias no que diz respeito à qualidade da informação", afirmou o parlamentar.
Já o presidente em exercício do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, Paulo Miranda, é contrário ao projeto. Para ele, os futuros conselhos não beneficiarão os profissionais e ainda acabarão com os sindicatos da categoria. "A medida vem para atrapalhar o movimento sindical, além de gerar mais um órgão estatal a ser financiado com dinheiro do trabalhador", protestou Miranda. "Nas categorias que têm conselho, o sindicalismo não existe".
Segundo dados da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), 110 mil jornalistas estão registrados legalmente em todo o País. Alexandre Lemos -Agência Câmara de Notícias
Gushiken quer "proteger a sociedade"
7/8/2004
O ministro Luiz Gushiken (Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica) afirmou ontem, por meio de sua assessoria de imprensa, que a criação do CFJ (Conselho Federal de Jornalismo) e de suas seções regionais visam proteger tanto os jornalistas como a sociedade.
"A idéia é proteger o jornalista e a sociedade, assegurando condições para que o jornalismo continue sendo indispensável a todos", disse Gushiken.
O texto do projeto prevê que o conselho e suas seções estaduais tenham poderes para "orientar, disciplinar e fiscalizar" o exercício da profissão e das atividades de jornalismo -com possibilidade de cassar registros profissionais.
Segundo a Secretaria de Comunicação de Governo, o Palácio do Planalto apenas encaminhou ao Congresso uma "antiga reivindicação" da categoria, que, em abril, entregou ao governo um anteprojeto de lei por meio da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais).
"Os jornalistas são uma das poucas categorias profissionais do país que ainda não contam com uma entidade como essa", disse o ministro, que cita exemplos bem-sucedidos de outras categorias, como engenheiros, médicos, arquitetos e advogados.
Gushiken admitiu, porém, que o projeto de lei encaminhado nesta semana ao Congresso ainda está sujeito a modificações. Folha de São Paulo
Fenaj apóia conselho de jornalismo; ABI veta
7/8/2004
Projeto de lei que governo enviou ao Congresso para criação de órgão fiscalizador da profissão divide entidades
O projeto para a criação do Conselho Federal de Jornalismo divide duas das principais entidades da categoria. Enquanto a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) defende a íntegra do texto como um caminho para o aperfeiçoamento da profissão, a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) classifica a proposta de inconstitucional e perigosa.
A discussão cresceu nesta semana, após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhar o projeto de lei ao Congresso Nacional.
"Esse projeto não é do governo federal, é do movimento de jornalistas. Estamos construindo esse projeto há sete anos. A primeira proposta de criação de um conselho federal de jornalistas foi em 1997, durante um congresso em Vila Velha, no Espírito Santo", disse a presidente da Fenaj, Elisabeth Villela da Costa.
O presidente da ABI, Maurício Azêdo, não concorda. Ele disse nunca ter discutido o texto e afirmou, após ler a íntegra, estar convicto da necessidade de pedir ao Congresso Nacional a rejeição do projeto de lei.
"O texto tem um teor repressivo e é inconstitucional. A própria Constituição, em seu artigo 220, garante que nenhuma lei poderá criar embaraços à liberdade de informação jornalística."
Fiscalização
Para Elisabeth, a função do conselho será regulamentar e fiscalizar a categoria, atribuição que seria do Ministério do Trabalho. Em nenhum momento, disse ela, o órgão poderá interferir na liberdade de imprensa.
"O conselho apenas cumpriria um vazio que existe hoje, até porque o Ministério do Trabalho não quer mais fiscalizar as profissões. O órgão atuaria em casos de abuso ou como uma alternativa para quem se sentisse ofendido ou incomodado com alguma reportagem. Poderia evitar ainda que pessoas não-qualificadas entrassem no mercado."
Para Azêdo, o texto enviado ao Congresso não esclarece nem define as atribuições do conselho. "Fala-se em fiscalização, mas fiscalização em que aspecto? O texto é muito abrangente e, por isso, perigoso à liberdade de imprensa. A Fenaj pariu mal esse projeto. Vamos pedir ao Congresso a rejeição total da proposta."
Por meio da assessoria de imprensa da ANJ (Associação Nacional de Jornais), o diretor-executivo Fernando Martins informou que a entidade somente irá se manifestar sobre o projeto de lei após o texto ser analisado pelo comitê de assuntos jurídicos da associação. Lilian Christofoletti - Folha de São Paulo
Conselho vai coibir excessos, diz Berzoini
7/8/2004
Para ministro do Trabalho, denúncias irresponsáveis afetam "negativamente" o país; governo não irá interferir, afirma
O ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, declarou ontem que o Conselho Federal de Jornalismo vai permitir que a própria categoria estabeleça "mecanismos de controle ético", uma vez que as denúncias irresponsáveis afetam "negativamente o país, a economia, o clima social", gerando "instabilidade".
Para exemplificar, o ministro citou recentes acusações contra o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. "Ontem [anteontem], por exemplo, em cima de uma notícia que, aparentemente, foi precipitada, porque não propiciou o contraditório antes de ser divulgada, nós tivemos uma variação na Bolsa que chegou a quase 5%", disse ele, referindo-se à reportagem veiculada na internet pela revista "Veja", na quinta-feira, segundo a qual o presidente do Banco Central teria feito operações financeiras irregulares no exterior.
O governo federal encaminhou ao Congresso Nacional projeto de lei elaborado pelo Ministério do Trabalho que prevê a criação do conselho federal e de seções estaduais. O conselho teria poderes até mesmo para cassar o registro profissional de jornalistas. Leia a seguir trechos da entrevista:
Folha - De quem foi a idéia no governo de criar o conselho?
Ricardo Berzoini - Esse projeto está parado no Ministério do Trabalho há uns dez anos. Recentemente [há cerca de três meses], no Dia do Jornalista, a Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais] pediu que nós déssemos uma resposta objetiva [sobre a criação ou não do conselho].
Nós avaliamos que havia razões para criar, pela natureza da função do jornalista, pela importância social [...] de ser o mediador das informações do Estado para a opinião pública e, ao mesmo tempo, porque é uma atividade que, se exercida de maneira irresponsável, pode produzir danos extremamente graves para empresas, para pessoas, para o país. Nossa preocupação é ter a própria categoria estabelecendo mecanismos de controle ético e de debates sobre a natureza da profissão.
Folha - A decisão de criar esse conselho vem depois do caso Larry Rohter [jornalista americano que chegou a ter seu visto revogado pelo governo] e, agora, da afirmação do ministro José Dirceu de que as acusações contra Cássio Casseb [presidente do Banco do Brasil] e Meirelles beiram o denuncismo.
Berzoini - Não tem nenhuma relação entre uma coisa e outra. Nós só atendemos à federação nacional de uma categoria.
Folha - O conselho poderia disciplinar, coibir matérias caracterizadas como simples denuncismo?
Berzoini - Quem vai determinar como o conselho vai funcionar, qual será o critério ético para tomar qualquer tipo de medida será a própria categoria. Portanto o governo não irá interferir. Obviamente, quando falamos de denuncismo, não estamos falando só da imprensa, estamos falando do jogo político. Nós entendemos que é preciso garantir toda a liberdade de expressão, de opinião e de comunicação. Agora, também chamamos a atenção para que, se houver irresponsabilidade em denúncias, obviamente isso pode afetar negativamente o país, a economia, o clima social do país, porque isso cria instabilidade.
Ontem [anteontem], por exemplo, em cima de uma notícia [contra Meirelles] que, aparentemente, foi precipitada, porque não propiciou o contraditório antes de ser divulgada, nós tivemos uma variação na Bolsa que chegou a quase 5%. Uma notícia que não havia, no meu entendimento, elementos suficientes para caracterizar irregularidade de uma pessoa que morou no exterior [...]. O nosso governo não tem nada contra a prática livre de denúncias. Ao contrário, achamos que é forma de exercer a democracia. Mas é preciso, ao mesmo tempo, ter responsabilidade.
Folha - Pelo texto do projeto, o conselho terá poderes para "orientar, disciplinar e fiscalizar" o exercício da profissão. Haveria algum tipo de punição aos jornalistas?
Berzoini - O texto é claro. Como todo conselho profissional, como o de medicina, pode determinar uma advertência e até a cassação de registro profissional. é um tratamento típico de conselho profissional.
Folha - Um médico, para exercer a profissão, tem de ter graduação. O conselho de medicina só pode cassar seu registro porque o médico tem um registro. Como o conselho de jornalismo cassaria o registro de um profissional que não tem graduação?
Berzoini - Aí você entra num outro campo que não está na órbita do projeto. Hoje, no Brasil, o ordenamento legal vigente obriga o diploma. Se tem alguém exercendo sem ter, em tese, está exercendo ilegalmente a profissão. Eu tendo mais a ser favorável a não exigir o diploma do que exigir. Leonardo Souza - Folha de São Paulo
Lula defende Meirelles e ataca denuncismo
7/8/2004
Presidente diz que, nos últimos anos, pessoas têm sido "condenadas em massa por manchetes de jornais"
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu ontem em defesa do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que tem sido alvo de acusado de supostas irregularidades em suas movimentações financeiras.
O presidente criticou o que chamou de "denuncismo" e afirmou que "o que nós estamos assistindo no Brasil há alguns anos são pessoas serem condenadas e massacradas por manchetes de jornais".
Pela manhã, durante discurso para um grupo maior, o presidente já havia repetido o que havia dito na quarta-feira: que "picuinhas" não iriam atrapalhar o processo de crescimento econômico que o país atingiu. Anteontem, o presidente atacou: "Se todos nós formos tomados desse desejo [de retomar a auto-estima] e dessa força interior, certamente, não haverá intriga, não haverá futrica, não haverá eleição que possa brecar, frear o desenvolvimento que este país precisa e deve ter".
"O denuncismo não ajuda ninguém neste país", disse Lula ontem durante a reunião fechada com os empresários. Para o presidente, apesar das denúncias recorrentes, "passam 50 anos e não se prova um único erro da pessoa". Segundo Lula, "o papel correto seria investigar, apurar. Quando tiver a denúncia concreta, a apuração concreta, manda prender o cidadão".
Lula fez as críticas durante encontro fechado com empresários, em Belo Horizonte, em reunião à qual a imprensa não teve acesso. O objetivo do encontro, organizado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), era a apresentação, para os 27 presidentes das federações estaduais das indústrias, de um pacote de desoneração de impostos.
O trecho em que ele criticou as denúncias contra o presidente do BC foi registrado por cinegrafistas da Radiobrás, agência de notícias do governo e único meio de comunicação que teve acesso à sala de reunião. Fotógrafos e cinegrafistas de outros meios tiveram acesso ao local por apenas alguns minutos. Os repórteres não puderam entrar. Na reunião, estavam o vice-presidente José Alencar e os ministros que o acompanharam na viagem, entre eles, Antonio Palocci (Fazenda), Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento) e José Dirceu (Casa Civil).
José Alencar, após o final do encontro, disse que preferia não comentar as denúncias contra o presidente do BC. Ele argumentou que, como criticava muito a política de juros do Banco Central, seria inadequado fazer qualquer comentário a respeito do presidente da instituição. Folha de São Paulo
Os pontos mais polêmicos do projeto
7/8/2004
Abaixo, os principais pontos do projeto de lei que cria o o Conselho Federal de Jornalismo e os Conselhos Regionais de Jornalismo.
"Ficam criados o Conselho Federal de Jornalismo - CFJ e os Conselhos Regionais de Jornalismo - CRJ, com sede nas capitais dos Estados e do Distrito Federal, dotados de personalidade jurídica de direito público, autonomia administrativa e financeira, com a atribuição de orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de jornalista, e zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe em todo o território nacional."
"O CFJ tem por atribuição pugnar pelo direito à livre informação plural e pelo aperfeiçoamento do jornalismo."
"A organização, estrutura e funcionamento do Conselho Federal e dos Conselhos Regionais, bem como as condições para a inscrição, cancelamento e suspensão da inscrição dos jornalistas ou revisão dos registros existentes e, ainda, a instituição do Código de ética e Disciplina e as normas complementares de processo, serão disciplinados em seu estatuto e regimento, mediante decisão do plenário do Conselho Federal, podendo ocorrer por decisão do conselho provisoriamente composto nos termos desta Lei."
"Compete ao CFJ elaborar, ouvido os Conselhos Regionais, a FENAJ e os Sindicatos, as listas de nomes previstas para o preenchimento de cargos em quaisquer órgãos relativos à Comunicação Social, em que haja a participação de jornalistas, de âmbito nacional ou regional."
"Compete ao CFJ fixar normas sobre a obrigatoriedade de indicação do jornalista responsável pelo material de conteúdo jornalístico publicado ou veiculado (...)" "Os conselhos regionais exercerão, nas respectivas jurisdições, as competências e funções atribuídas ao Conselho Federal, no que lhes couber, observando-se as normas gerais estabelecidas nesta lei e nas Resoluções e nos Provimentos por ele baixados. Parágrafo único. Compete privativamente aos Conselhos Regionais, dentre outras a eles atribuídas:
I - editar seu Regimento Interno e Resoluções; II - criar e regular o funcionamento das seções; III - reexaminar, em grau de recurso, as decisões dos respectivos presidentes.
IV - fiscalizar a aplicação da receita, deliberar sobre o balanço e as contas de suas diretorias e das seções; V - fixar tabelas de honorários válidas nas respectivas bases territoriais; VI - deliberar sobre os pedidos de inscrições no quadro de jornalistas; VII - manter cadastro de jornalistas inscritos."
"Todo jornalista, para exercício da profissão, deverá inscrever-se no Conselho Regional de sua área de ação, atendendo as condições estabelecidas pelo sistema. Aceita a inscrição, ser-lhe-á expedida pelo Conselho Regional a Carteira de Identidade Profissional, onde serão feitas anotações relativas à atividade do portador."
"Constituem patrimônio dos Conselhos as doações, legados, rendas patrimoniais ou eventuais, bens adquiridos, taxas, anuidades, multas e outras contribuições. Constitui título executivo extrajudicial a certidão passada pela diretoria do Conselho Regional competente, relativa a crédito previsto."
"No exercício de sua profissão o jornalista deve pautar sua conduta pelos parâmetros éticos definidos no Código de ética e Disciplina a ser editado por Resolução do Conselho Federal, mantendo independência em qualquer circunstância, sem receio de desagradar a quem quer que seja. >>Parágrafo único. O Código de ética e Disciplina deverá regular também os deveres do jornalista para com a comunidade, a relação com os demais profissionais e, ainda, o dever geral de urbanidade e os respectivos procedimentos disciplinares, observado o disposto na presente lei."
"Constituem infrações disciplinares, além de outras definidas pelo Código de ética e Disciplina:
I - Transgredir preceito do Código de ética Profissional; II - Exercer a profissão quando impedido de fazê-lo, ou facilitar, por qualquer meio, o seu exercício aos não inscritos ou impedidos; III - Solicitar ou receber de cliente qualquer favor em troca de concessões ilícitas; IV - Praticar, no exercício da atividade profissional, ato que a lei defina como crime ou contravenção; V - Não cumprir no prazo estabelecido, determinação emanada do órgão ou autoridade dos Conselhos, em matéria da competência destes, depois de regularmente notificado; VI - Deixar de pagar aos Conselhos, pontualmente, as contribuições a que esteja obrigado."
"As penas aplicáveis por infrações disciplinares são as seguintes: I - Advertência; II - Multa; III - Censura; IV - Suspensão do exercício profissional, até 30 (trinta) dias; V - Cassação do exercício profissional, ad referendum do Conselho Federal."
"O poder de punir disciplinarmente os inscritos no CFJ compete exclusivamente ao Conselho Regional em cuja base territorial tenha ocorrido a infração, com recurso para instância superior."
"O processo disciplinar pode ser instaurado de ofício ou mediante representação de qualquer autoridade, pessoa interessada ou entidade de classe dos jornalistas."
"O processo disciplinar tramitará em sigilo, só tendo acesso às informações e documentos nele contidos as partes, seus defensores e a autoridade judiciária competente, respeitado o disposto nesta lei."
"Caberá recurso ao Conselho Federal de todas as decisões definitivas proferidas pelo Conselho Regional, quando não tenham sido unânimes ou sendo unânimes, contrariem esta Lei, decisão do Conselho Federal ou de Conselho Regional e, ainda, o Regulamento Geral, o Código de ética e Disciplina e as Resoluções dos Conselhos Federal e Regionais."
"Todos os recursos têm efeito suspensivo, exceto quando tratarem de eleições, de suspensão preventiva acerca do cancelamento de inscrição obtida com falsa prova."
"Os servidores dos Conselhos Federal e Regional de Jornalismo serão regidos pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho."
"Até noventa dias após a posse da primeira diretoria do Conselho Federal de Jornalismo, a competência para a emissão da carteira de identidade profissional, prevista na Lei 7084, de 21 de dezembro de 1982, permanecerá como a Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais - FENAJ."
"A primeira composição do Conselho Federal de Jornalismo será provisória e contará com dez jornalistas profissionais efetivos e dez suplentes, indicados pelo Conselho de Representantes da Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais, e tomará posse no máximo em sessenta dias após a publicação desta Lei."
"O mandato dos conselheiros provisórios a que refere este artigo terá duração máxima necessária para organizar a eleição de cinco Conselhos Regionais e, caso ultrapasse dois anos, o Conselho de Representantes da Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais indicará nova diretoria provisória, nos moldes do caput, para ultimar a eleição dos cinco Conselhos Regionais." O Estado de São Paulo
Jornalistas condenam projeto de conselho federal
7/8/2004
Plano que tenta controlar a atividade é criticado por políticos e profissionais
Uma ampla condenação de profissionais e lideranças da imprensa desabou sobre o projeto de criação do Conselho Federal de Jornalismo, que o governo enviou ao Congresso esta semana, e que contém uma série de normas que são apontadas como tentativa de controle da imprensa. "A idéia é pelega e estadonovista", disse o jornalista Alberto Dines, diretor do Observatório da Imprensa. "É de teor repressivo", afirmou o jornalista Maurício Azedo, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). "É extremamente perigoso", destacou o jornalista Audálio Dantas, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.
O líder do PFL na Câmara, deputado José Carlos Aleluia (BA), qualificou o projeto como "uma mordaça da mídia". Segundo ele, o projeto "é inaceitável, é um ato arbitrário, um viés absolutista". Ele disse que a oposição vai lutar para rejeitar o projeto. "Já querem amordaçar o Ministério Público e agora, sem conseguir controlar os meios de comunicação, o governo quer punir os jornalistas. Mordaça na mídia, não", rechaçou. O líder do governo na Câmara, deputado Professor Luizinho (PT-SP), não quis se comprometer com o projeto: disse que, se houver algo errado com ele, o Congresso fará mudanças.
Poder - O projeto só recebe o apoio incondicional da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). A presidenta da Fenaj, jornalista Beth Costa, que o projeto é "uma forma de luta, porque a distribuição da informação no Brasil não é plural, porque o modelo permite a concentração nas mãos de grupos econômicos, como não ocorre em nenhum outro país". Beth admitiu, no entanto, que o projeto concentra o controle do futuro Conselho nas mãos do grupo que hoje domina a Fenaj - e que é ostensivamente ligado ao PT - já que todos os 10 integrantes da comissão provisória que assumiria o Conselho seriam indicados pelo Conselho de Representantes da Fenaj.
Controle - O jornalista Ali Kamel, embora ressalvando que falava como profissional, e não como Diretor de Jornalismo da Rede Globo de Televisão, disse ser "absolutamente contra o projeto". Para ele, "jornalismo não pode ser exercido sob nenhuma forma de pressão e esse Conselho seria uma forma de pressão sobre a atividade jornalística". Já o professor de Ética Jornalística Carlos Alberto di Franco, acha que o projeto "é uma clara tentativa de controle da imprensa". Ele afirmou que os jornalistas "não podem estar submetidos a formas de punição controladas pelo governo".
Quase todos os jornalistas ouvidos pelo Estado defenderam que não faz sentido criar um conselho federal para jornalistas, uma profissão que trabalha com a apreensão de fatos e idéias, que são transmitidos à população. "O projeto tem um certo sentido de imitação", constata o presidente da ABI, jornalista Maurício Azedo, observando que a criação do CFJ se espelha de forma simplista nas outras profissões liberais.
"Conselhos existem para profissões liberais e jornalista, em geral, é assalariado", disse Azedo. Ele também percebeu que o projeto prevê a fiscalização da profissão, mas não regula essa fiscalização. Carlos Marchi - O Estado de São Paulo
Orientar e disciplinar, verbos perigosos
7/8/2004
Jornalistas vêem perigo na intenção de controlar a busca da informação
O projeto que cria o Conselho Federal de Jornalismo é, claramente, "uma forma disfarçada de controlar a imprensa", avalia o professor Carlos Alberto di Franco. "Por que diabos o governo pensa que pode ser tutor do que é bom e o que não é bom para ser publicado e para ser lido pelo povo brasileiro?", pergunta ele, contrariado.
"Eu não tenho medo da atual direção da Fenaj, tenho medo é do guarda da esquina", ironiza, a respeito do Conselho, o jornalista Audálio Dantas. O ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo estranhou a presença, no texto do projeto, dos verbos "orientar" e "disciplinar". "Estes verbos são incompatíveis com o exercício da atividade jornalística. Toda vez que eles aparecem em regulamentos de governos que tentam disciplinar ou orientar a imprensa, os resultados são trágicos, afundamos no obscurantismo", disse.
"O abstrato torna-se abrangente", insiste o presidente da ABI, jornalista Maurício Azedo, ao lembrar que o texto do projeto fala em "disciplinar", "orientar", "fiscalizar", mas não indica o regulamento. "Se não há regulamento explícito, pode ser qualquer um. é aí que mora o perigo", desabafa.
Beth Costa, presidente da Fenaj, rebate a idéia. Ela diz que "muitos movimentos sociais, de negros, de índios, reclamam do comportamento da imprensa". E ela sonha com um modelo em que o CFJ seja estruturado e a atividade dos jornalistas passe a ter um controle externo, através de um conselho integrado por "representantes da sociedade civil, da OAB e outras entidades". Ela pouco se importa que a OAB não tenha convidado jornalistas a tomarem parte em seu conselho. "Nós devemos dar o exemplo", diz.
O professor Laurindo Leal Filho, do Departamento de Jornalismo da USP, aprova a idéia do conselho: "A idéia é nobre, mas não pode ser aprovada dessa forma. Não me consta que as universidades tenham sido consultadas. Uma ampla discussão pública é indispensável, até para legitimar a idéia e o projeto", observa.
Audálio Dantas discorda e alega que qualquer tipo de controle sobre uma profissão que lida com idéias impõe o sério risco de levar ao autoritarismo.
"Idéias são subjetivas", argumenta Audálio, "e quem as exercita será julgado pelo conselho de forma subjetiva. O que se pretende é julgar idéias e julgar idéias é uma das mais infelizes das invenções humanas", observa. Ele comenta que os sindicatos de jornalistas foram infestados, nos últimos anos, pela partidarização e que essa partidarização, inevitavelmente, contaminaria o conselho, se aprovado esse projeto.
Ali Kamel aponta que o projeto é uma iniciativa da Fenaj, e não do governo e que, portanto, não se pode responsabilizar o governo por sua lavra. A reação do líder do governo na Câmara, Professor Luizinho (PT-SP), confirma aquele sentimento: "Ora, a vida toda ouvimos falar que os jornalistas queriam o conselho, algo semelhante à OAB ou ao Conselho de Medicina", disse ele ontem. "O Congresso existe para isso, para mudar", disse ele contemporizador, sinalizando que, no caso, o PT não será obstáculo a negociações. Carlos Marchi - O Estado de São Paulo
Se passar no Congresso, idéia pode cair no STF
7/8/2004
BRASíLIA - Se for aprovado pelo Congresso Nacional, o Conselho Federal Jornalismo (CFJ) corre o risco de ser declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ministros do STF afirmaram ontem em caráter reservado que o projeto de lei que propõe a criação do CFJ é questionável porque dentre as atribuições do órgão está a de orientar, disciplinar e fiscalizar a atividade jornalística.
De acordo com os ministros consultados, essas competências contrastam com o que estabelecem a Constituição Federal e outras legislações que garantem a liberdade de imprensa no País. Citado pelos ministros do STF, o parágrafo 1º do artigo 220 do texto constitucional brasileiro é claro: "Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social."
Caso o Congresso aprove o projeto de lei encaminhado ao Congresso nesta semana pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, caberá aos inconformados propor ações diretas de inconstitucionalidade (adins) contra as regras que estabelecerem o Conselho.
Esse tipo de ação pode ser proposto por partidos políticos, confederações sindicais e entidades de âmbito nacional e autoridades como o procurador-geral da República e governadores de Estado. Mariângela Gallucci
'Pode ser um passo para a tragédia da censura'
7/8/2004
O projeto de lei que o governo Lula mandou ao Congresso para criar o Conselho Federal de Jornalismo (CFJ) e os conselhos regionais, com a função de orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão e da atividade de jornalismo, foi duramente criticado ontem pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e especialistas. Ministro da Educação no primeiro ano do governo Lula e senador do PT, Cristovam Buarque também protestou em seu blog: "Precisamos estar atentos, todos os brasileiros, ainda mais nós do PT e o próprio governo. Em nome de uma boa intenção, podemos estar dando o primeiro passo para a tragédia da censura".
O presidente da ABI, Maurício Azêdo, questionou a necessidade de um órgão para fiscalizar a profissão:
- Conselhos são naturais em profissões de caráter técnico, como medicina e química. Com o CFJ, vamos fazer como no tempo da ditadura, com uma comissão dizendo quem pode ou não ser jornalista. Isto é de uma violência inaudita.
Segundo Azêdo, a ABI apresentará ao Congresso as alterações que a associação julga necessárias no projeto.
O jornalista Alberto Dines, editor-responsável do site Observatório da Imprensa, vai ainda mais fundo nas críticas ao projeto do governo. No artigo "Contra o denuncismo, o peleguismo", Dines classificou de desastrada a proposta de criação do conselho de jornalismo.
"A iniciativa é a mais inábil e atarantada já produzida na esfera da imprensa por algum governo desde a redemocratização em 1985", escreveu.
Para Dines, "jornalistas não precisam ser protegidos pelo Executivo; ao contrário, precisam libertar-se das amarras do poder político". Dines acredita que o governo Lula escolheu um mau momento para encaminhar o projeto ao Congresso.
"A oportunidade é desastrosa. No momento em que o governo é acossado por denúncias, não pode propor um negócio desses, que prevê punições para jornalistas. Além disso, o projeto parte de uma premissa errada, de que o exercício do jornalismo é semelhante ao da medicina ou da engenharia. O jornalismo é uma atividade política, que não pode ser regulamentada pelo Estado", escreveu Dines. Ele considerou a criação do CFJ mais grave do que a tentativa de expulsão, pelo presidente Lula, do jornalista americano Larry Rohter, do "New York Times". "A proposta não vai passar e ainda deixará esta mácula no governo. E logo um governo do PT", prevê.
O jornalista protestou ainda: "Ao invés de buscar as simpatias de uma parcela dos jornalistas, sobretudo os hospedados nas assessorias de comunicação dos órgãos públicos, o governo deveria buscar as simpatias dos leitores. São eles os principais interessados numa imprensa sadia, livre dos malabarismos do marketing e dos espasmos sensacionalistas".
Fenaj: conselhos vão defender a sociedade
O petista Cristovam Buarque afirma que, embora a intenção possa ser defender o exercício da profissão de jornalista, ao longo do tempo a medida poderá, porém, "se transformar no controle da imprensa". E acrescenta: "Um projeto como este não deveria ser enviado ao Congresso sem um cuidadoso debate com toda a sociedade, especialmente com os deputados e senadores".
A criação do CFJ foi proposta pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Com a criação dos conselhos federal e regionais, os jornalistas passariam a pagar duas taxas, uma para o sindicato e outra para a nova entidade. O artigo sétimo prevê as penas para jornalistas que se recusarem a sustentar financeiramente os conselhos: advertência, multa, censura, suspensão do exercício profissional até 30 dias e cassação do registro profissional. O projeto, porém, ainda tem de ser aprovado pelo Congresso.
No site da Fenaj, a presidente Beth Costa diz que a criação do CFJ "não é uma luta corporativa, pois os conselhos vão atuar em defesa da sociedade ao disciplinar e fiscalizar a prática do jornalismo". Giampaolo Braga - O Globo
ANJ analisa proposta
7/8/2004
BRASÍLIA. O projeto que cria o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Jornalismo ainda será analisado pela diretoria da Associação Nacional dos Jornais (ANJ). A proposta está sendo examinada pelo comitê de assuntos jurídicos da entidade. A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) tem posição firmada contra leis restritivas, como a que exige o diploma de jornalista.
- A ANJ é contra toda norma que impeça a liberdade de expressão. Vamos examinar o projeto a partir desta visão - disse o diretor do Comitê Jurídico da ANJ, Tonet Camargo.
O ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, ao apresentar o projeto que cria o CFJ, sugeriu que ele passaria a controlar a qualidade das informações e do trabalho dos jornalistas. "A criação de um conselho para fiscalização do exercício da profissão de jornalista é, portanto, instrumento fundamental para a construção de uma comunicação social submetida ao interesse público e aos princípios da responsabilidade social", diz a exposição de motivos apresentada pelo ministro. O Globo
Condenação ao conselho
7/8/2004
Uma ampla condenação desabou sobre o projeto de criação do Conselho Federal de Jornalismo, que o governo enviou ao Congresso e que contém uma série de normas apontadas como tentativa de controle da imprensa. ''É de teor repressivo'', afirmou o jornalista Maurício Azedo, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). O líder do PFL na Câmara, deputado José Carlos Aleluia (BA), disse que a oposição vai lutar para rejeitá-lo. Correio Braziliense
Imprensa sob pressão
7/8/2004
"Se o governo decide o que é "conduta adequada", você não pode ser independente... Se você realmente acredita em imprensa livre, qualquer um tem o direito de expressar a sua opinião, sem ter que receber licença de ninguém." Bill Kovach - Um dos principais teóricos do jornalismo nos EUA, sobre a proposta de criação do Conselho Federal de Jornalismo no Brasil, ontem na Folha - Folha de São Paulo
Jornalismo orientado
7/8/2004
"Gostaria muito de saber a opinião do jornalista Ricardo Kotscho, que faz parte do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, sobre o tal Conselho Federal de Jornalismo que o alto comissariado quer criar para "orientar e fiscalizar" a profissão ("Lula quer conselho para fiscalizar jornalismo", Brasil, pág. A11, 6/8). Kotscho, que sempre se pautou pela ética e pela postura digna de defender a liberdade de imprensa no Brasil, deve, salvo engano, estar muito incomodado com essa questão."
Keko Ribeiro (São Paulo, SP)
"Apesar das críticas feitas anteriormente por Luiz Gushiken à mídia, continuam sendo divulgadas notícias desfavoráveis ao governo, especialmente sobre casos que envolvem membros da administração. Será que a proposta de criação do Conselho Federal de Jornalismo é uma evidência de que a liberdade de imprensa incomoda o governo democrático do PT?"
Odilon O. Santos (Marília, SP) Painel do Leitor - Folha de São Paulo
Tiroteio
9/8/2004
Do procurador de Justiça Airton Florentino de Barros, presidente do Movimento do Ministério Público Democrático, sobre o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, ter dito que o Conselho Federal de Jornalismo vai coibir excessos:
-A imprensa não pode ser vítima do governo que se diz democrático. Se há abusos, há instrumentos legais para coibi-los. Não se pode admitir ingerência política sobre a imprensa. Painel - Folha de São Paulo
Controle
9/8/2004
Pelo menos um petista, o senador Cristovam Buarque, reagiu ao projeto de lei que cria o Conselho Federal de Jornalismo.
Em blog recém-criado, diz ele que o resultado "pode ser o controle da imprensa" e que "um projeto como este não deveria ser enviado ao Congresso". Folha de São Paulo
Censura
9/8/2004
"O regime de força (ou aquele que pretende sê-lo) precisa calar os que podem criticá-lo, confrontá-lo ou punir seus favoritos. A história mostra que primeiramente se avança sobre a imprensa e, a seguir, sobre o Judiciário. Com relação ao Judiciário, um bom começo é o controle externo, agregado ao impedimento de investigações pelo Ministério Público, mais a "Lei da Mordaça". Para a imprensa, o bom começo é o projeto que o governo acabou de mandar ao Congresso Nacional propondo a criação do "Conselho Federal de Jornalismo". Como se percebe, apenas inverteu-se aqui a ordem de ataque, primeiro sobre o Judiciário independente e, a seguir, sobre a imprensa livre. Vamos ver se finalmente a imprensa começa a perceber que, para ser livre, necessita de um Judiciário independente."
Manoel Justino Bezerra Filho, juiz do 1º Tribunal de Alçada de SP (São Paulo, SP)
"Por que engenheiros, contabilistas, médicos podem ter conselhos nacionais disciplinando essas categorias, e jornalistas não? Os meios de comunicação são importantes para a democracia, não há duvida, mas não estão acima de qualquer suspeita. Nenhuma categoria ou segmento da sociedade detém liberdade absoluta. Todos têm regras e limites."
Antonio Negrão de Sá (Rio de Janeiro, RJ) Painel do Leitor - Folha de São Paulo
Imprensa
9/8/2004
Gostaria de destacar a lucidez de Dora Kramer ao analisar o Conselho Federal de Jornalismo como tendo a vil intenção de controle da imprensa livre, disfarçado num órgão ''para orientar, disciplinar e fiscalizar'', mas que tem por fim punir jornalistas desobedientes à disciplina e orientação do Estado. É assim que funciona em vários países, bastante conhecidos, em que os contrários às regras de seus governos vão enferrujar em sórdidas masmorras. Não me lembro do poema e de seu autor, mas me parece ser Maiakovsky que mostra que, bem devagarzinho, aquele que parece bonzinho de intenções vai tomando o lugar do outro e se apossando das mentes livres do povo. Com a aprovação dessa lei, adeus Cartas ao Editor, em que não jornalistas expressam suas opiniões, livremente, a cada dia. Mais uma perda para nós brasileiros, já tão decepcionados com nossos políticos, juízes, desembargadores, polícia e, agora, intelectuais que se unem para manifestações de apoio a regimes de força.
Cláudio Tavares Cals de Oliveira, Rio de Janeiro.
O assunto abordado este-domingo (8/8) pela jornalista Dora Kramer merece profunda reflexão e a manifestação de repúdio de todos os meios de comunicação. Trata-se da ideia sinistra de controlar, ''orientar'' e ''fiscalizar'' o trabalho dos jornalistas. Não se pode ignorar que, em casos isolados, a ação de alguns profissionais mal preparados atinge o direito e às vezes a honra do cidadão. Para esses casos, existem mecanismos legais de reparação. A ideia de tolher a liberdade de expressão, concebida nos laboratórios subterrâneos do governo, deixou humilhados os que conceberam algumas monstruosidades criadas pela ditadura. A criação desse conselho nada mais é do que a versão moderna de dar um golpe de Estado sem colocar na rua um único militar. Se aprovada no Congresso, será a ditadura do partido único, a materialização do projeto do PT de se instalar no poder por pelo menos três gerações.
Francisco Arruda Pontes, Fortaleza.
A proposta de um controle da imprensa sinceramente não me surpreende em nada: é mais um ato de autoritarismo do PT. De um presidente que se sente tão bem ao lado de ditadores - do Gabão, da Venezuela ou de Cuba, países onde a imprensa só imprime o que governo acha que fica bem - o que mais poderíamos esperar? Depois de tantos escândalos nunca apurados, ainda existe algum brasileiro que não entenda esse ato contra a liberdade de imprensa?
Eny Seidel, Deerfield Beach, Flórida (EUA).
Parece que muitos jornalistas não entenderam a questão da criação de seu conselho de classe. Esse conselho, assim como os das demais categorias, serve justamente para proteger a classe e evitar a ''pirataria'' profissional. Os profissionais jornalistas fazem vestibular, cursam por anos uma faculdade, para depois disputarem o mercado com pessoas não qualificadas oficialmente e que em diversos jornais se intitulam falsamente de ''jornalista responsável''.
Heitor Vianna P. Filho, Araruama (RJ). Cartas - Jornal do Brasil
A imprensa do projeto petista de poder
9/8/2004
Depois de ter ameaçado revogar o visto de um jornalista norte-americano só porque publicou no New York Times uma reportagem desfavorável ao presidente Lula, o governo petista voltou a reagir de forma antidemocrática ao que classifica como "futricas" da imprensa, ou seja, as denúncias contra membros do governo, como José Dirceu no caso Waldomiro e, agora, Henrique Meirelles. Desta vez, a pretexto de "zelar pela fiel observância dos princípios da ética", propõe a criação de um Conselho Federal de Jornalismo (CFJ), atribuindo-lhe a prerrogativa de "orientar, disciplinar e fiscalizar" o exercício da profissão de jornalista e a atividade jornalística no País.
Elaborado com discrição pelo Ministério do Trabalho e pela Casa Civil, o que já é uma atitude suspeita, dada a importância dessa matéria para a plenitude do regime democrático, o projeto enviado ao Congresso é marcado pelo seu viés centralizador e burocratizante. Entre as competências que esse Conselho terá, todas apresentadas de modo preocupantemente vago, uma é "definir as condições para a inscrição, cancelamento e suspensão da inscrição dos jornalistas, bem como revisão dos registros existentes" e "deliberar" sobre os pedidos apresentados pelos jornalistas (art. 2.º, inciso XVI e art. 3.º, inciso 7). Na prática, isso significa que o CFJ definirá quem estará habilitado a exercer a profissão.
Outras competências são as de editar um "Código de ética", estabelecer procedimentos disciplinares e "supervisionar a fiscalização" da atividade jornalística (art. 2.º, incisos III, IV e V), podendo punir as condutas que julgar inadequadas com sanções que vão de uma simples advertência à "censura" e até à cassação do registro profissional (art. 7.º). E, como o Conselho também terá a incumbência de emitir a carteira de trabalho para quem quiser atuar nos meios de comunicação, na prática ele poderá deter o controle absoluto de uma atividade em cuja essência estão as liberdades de expressão e de informação asseguradas pela Constituição no capítulo relativo aos direitos fundamentais.
é justamente esse o maior perigo do projeto. Só a ditadura militar ousou tanto na tentativa de intimidar jornalistas e calar a imprensa. A diferença está na forma utilizada. Enquanto os generais recorriam à truculência, o governo do PT optou pela sutileza retórica, valendo-se de um projeto que confunde deliberadamente a auto-regulação de profissionais liberais, da qual a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) é o exemplo mais conhecido, com a tutela de profissionais assalariados.
Além disso, ao recorrer a um sem-número de lugares-comuns, abusando do conceito de ética sem em momento algum defini-lo, o projeto dá ao CFJ o poder de fazer o que quiser, em nome da "valorização" do jornalismo. A própria exposição de motivos assinada pelo ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, evidencia esse risco. "A sociedade tem o direito à informação prestada com qualidade, correção e precisão, baseada em apuração ética dos fatos", diz o texto.
Diante de tanta vagueza, como classificar as reportagens sobre os achaques do ex-braço direito do ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz, e sobre os expedientes aos quais o sr. Delúbio Soares recorre para reforçar o caixa do PT? Na lógica moralista e punitiva dessa exposição de motivos, esse noticiário seria "ético" ou "antiético"?
Ainda em matéria de ética, o projeto também peca por carecer daquilo que quer cobrar da imprensa livre. Em princípio, o CNJ seria um órgão representativo dos jornalistas e por eles dirigido. Mas, enquanto jornais, revistas, rádios e tevês privadas vêm diminuindo o tamanho de suas redações, por razões de sobrevivência econômica, o governo reinaugurou a Rádio Nacional e vem ampliando o quadro da Radiobrás e planejando uma TV Pública internacional. Em que medida essas duas situações opostas não podem desequilibrar a representatividade do tal Conselho? Até que ponto um órgão dominado por jornalistas do setor público e a serviço de um partido político não teria, na atribuição de "disciplinar" o jornalismo, pretexto para interferir nas empresas privadas de comunicação?
Por tudo isso, e mais a ominosa "coincidência" de ter sido divulgado no mesmo dia em que veio à luz o projeto do Audiovisual, o melhor a se fazer com esse projeto do governo, de viés stalinista, com seus jornais sem redações e sua imprensa alimentada pelas sinopses aprovadas pelos ditadores de plantão, é jogá-lo no lixo, impedindo assim mais um perigoso avanço do Projeto de Poder do PT. O Estado de São Paulo
Partido único
9/8/2004
Agora é oficial! O governo do sr. Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou ao Congresso projeto de lei que cria o Conselho Federal de Jornalismo (6/8, A17). Essa medida é mais um passo para completar o aparelhamento do Estado brasileiro e caminharmos celeremente para o partido único e a mexicanização do processo político nacional. é impressionante como este governo, que recebeu uma consagradora vitória nas urnas, num processo civilizado e democrático, teima em pensar pequeno e colocar todos numa gigantesca canga!!! Eduardo Augusto de Campos Pires (eacpires em uol.com.br), São Paulo O estadista alemão Hans Dietrich Genscher disse: "A imprensa é a artilharia da liberdade." O momento atual da imprensa brasileira, porém, é perigoso por causa da "guerra das revistas semanais", que está sendo travada com armas pesadas. No meio desse "fogo cruzado", nada impede que possa haver "balas perdidas" atingindo a mais importante das combatentes do exército da democracia: a credibilidade. Neste caso, os dois lados perdem. E nós, também. Lincoln Scorsoni (lincoln_scorsoni em yahoo.com.br), São Paulo
Fórum de Leitores - O Estado de São Paulo
A costumeira enganação
9/8/204
Com as Olimpíadas, mais um exemplo do tradicional esforço da elite nativa para iludir a nação
Quem olha a tevê, escuta o rádio ou lê os jornais, nestes dias, habilita-se à convicção de que o Brasil vai ganhar as Olimpíadas de Atenas. Na voz dos locutores, na pena dos comentaristas, registra-se a euforia das grandes vigílias.
Não é que as Olimpíadas não sejam excepcional espetáculo e não mereçam cobertura especial. Não é que o Brasil careça de condições para se tornar potência do esporte mundial, bem como em outros domínios.
Ocorre que o esporte, bem como outras manifestações do homem, não escapam às contingências políticas, econômicas e sociais. De sorte que, na circunstância em questão, desenrola-se mais um capítulo da retórica engendrada por uma elite (elite?) ignorante, predadora, arrogante e hipócrita. E o povo, alvo da operação e caldo de cultura de eventuais heróis olímpicos? O povo que se moa.
O Brasil é país de terra antiqüíssima e população jovem, cosmopolita na acepção mais grandiosa, fruto de miscigenação em pleno andamento e perspectivas vigorosas. Destinado, portanto, a produzir, entre outras coisas, atletas extraordinários, com a contribuição da fibra longa da musculatura africana.
Está provado que medalhas esportivas premiam um praticante em cada 100 mil, ou mais, a depender da modalidade, salvo a eventual explosão de super-homens. As estatísticas são claras a respeito e o brasileiro sabe que Pelé é o seu único herói definitivo e absoluto. Embora também saibamos que os mesmos mandachuvas, prontos a elevar à honra do altar da nacionalidade os craques canarinhos quando devidamente uniformizados, fugiriam tomados de pavor se cruzassem com eles, em roupas paisanas, na calada da noite e até ao sol do meio-dia. Ou chamariam seus seguranças.
Para a prática do futebol basta o que não falta por aqui, vontade e espaço. E até bola de meia se presta ao talento verde-amarelo. Já o exercício de outros esportes exige recursos mais complexos, a começar por investimentos maciços e polpudos. E aqui, como é fácil perceber, assume a ribalta a tal elite (elite?) talhada para o fornecimento dos vice-reis da colônia.
Por obra desta turmeta de donos do poder, às vezes chamados de cartolas, o Brasil não é a potência que merece ser, no esporte e em tudo o mais. Quanto às Olimpíadas, a representação nativa conseguiu sua melhor colocação, 15º lugar, em Antuérpia, há 84 anos, quando os participantes eram poucos e bastavam três medalhas para se destacar.
Em 1924, 28, 32 e 36, zero medalha. Nas últimas Olimpíadas, Sydney 2000, o Brasil foi o 52º, com 12 medalhas, 6 de prata e 6 de bronze. Resultado paupérrimo para uma nação de quase 200 milhões de habitantes. Nos últimos 84 anos, atletas brasileiros penduraram no peito 66 medalhas olímpicas. As duas Alemanhas, atualmente unificadas com cerca de 80 milhões de habitantes, só em 1976 ganharam exatamente o dobro.
Há diferenças óbvias, está claro. E as Olimpíadas teriam de registrar, muito antes que uma contenda entre nações, a prova da perfectibilidade do ser humano. Mas não exageremos nas expectativas.
Aceitemos os arroubos contingentes de quem identifica na vitória esportiva a demonstração de uma supremacia nacional. Causa espécie, contudo, a euforia hipócrita dos comunicadores, motivada pela exclusiva razão mercadológica. Resulta na enésima enganação do povo sofrido. Mino Carta - Carta Capital
A força das revistas
11/8/2004
Como fazer um planejamento de mídia eficiente? Essa é a questão central do livro Media Handbook: um Guia Completo para Eficiência em Mídia, da americana Helen Katz, vice-presidente da Zenith Media de Nova York. O livro, recém-lançado no Brasil pela Nobel, faz parte da biblioteca do Grupo de Mídia São Paulo. Um dos capítulos aborda os benefícios das revistas para os anunciantes. Acompanhe:
94% de toda população adulta americana lê revistas ao longo de um ano
36% dos leitores ignoram anúncios na TV, mas apenas 11% ignoram a publicidade impressa
44% dos consumidores costumam comprar produtos depois de ver um anúncio em revista Fernanda Galvão - IstoÉ Dinheiro
Entidades dos EUA condenam conselho de jornalismo no país
8/8/2004
Instituições vêem ameaça à liberdade de expressão; para teórico da área, idéia encampada pela gestão Lula é assustadora
"Isso é assustador", afirmou Bill Kovach, um dos principais teóricos do jornalismo nos EUA, sobre a idéia de criação do Conselho Federal de Jornalismo no Brasil, instituição que é encampada pelo governo Lula e serviria para "orientar, disciplinar e fiscalizar" o exercício da profissão de jornalista.
Representantes de entidades ligadas ao jornalismo nos EUA condenaram veementemente qualquer órgão de fiscalização da imprensa ligado ou criado pelo governo brasileiro, ainda que composto de representantes dos jornalistas -pelo projeto de lei de autoria da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), a comissão não poderia ser composta por membros do governo federal.
As entidades americanas afirmam que organismos desse tipo representam uma ameaça à liberdade de expressão e uma forma de tentar impor controle e censura aos veículos de comunicação.
"Se você permite isso, permite também que o governo enfraqueça o principal objetivo do jornalismo -que é a vigilância do próprio governo", disse o diretor da ONO (sigla em inglês para Organização de Ombudsmans de Notícia) Manning Pynn. "é terrível."
A proposta de criação do conselho foi elaborada pela Fenaj, em conjunto com o Ministério do Trabalho, e encaminhada ao Congresso pelo governo Lula. Entre as funções previstas, estão "zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe" e a capacidade de punir "condutas inadequadas" dos jornalistas.
Para Pynn, os verdadeiros juízes do trabalho dos jornalistas devem ser os leitores e os espectadores -a pena para "condutas inadequadas" é a perda de credibilidade-, e eventuais abusos devem ser levados, por quem se sentir prejudicado, à Justiça comum.
Ele também criticou outra função proposta para o conselho, a de registrar os profissionais de imprensa. "Jornalistas são independentes, ninguém deve dar licença, ninguém deve controlar [quem pode ou não escrever], qualquer um pode ser", afirmou Pynn.
"Não tem que ter diploma. O que não significa que as empresas vão contratar qualquer pessoa", isso porque, de acordo com o diretor da ONO, os veículos de comunicação não vão querer ser responsabilizados judicialmente por erros de maus jornalistas.
Para Bill Kovach, que é presidente do Comitê de Jornalistas Preocupados, organização dedicada a estudar e aperfeiçoar os padrões éticos da profissão, "se o governo decide o que é "conduta adequada", você não pode ser independente". "Suponha que o partido no poder esteja incomodado. Essa legislação permite que possam punir jornalistas", disse.
"Mesmo que o governo peça à imprensa que faça o conselho. Estão dando o poder para o sindicato. Mas eles representam todos os jornalistas?", perguntou Kovach. "Se você realmente acredita em imprensa livre, qualquer um tem o direito de expressar a sua opinião. Sem ter que receber licença de ninguém", afirmou o ativista.
O diretor-executivo do Conselho de Imprensa de Minnesota, Gary Gilson, também disse acreditar que qualquer conselho com poder de punição representa uma ameaça à liberdade de imprensa.
Alternativas
Como alternativa a iniciativas como a do governo Lula, o diretor do conselho de Minnesota propõe que os jornalistas criem órgãos auto-reguladores sem capacidade de punição e com participação de membros da sociedade, não-jornalistas, nos seus conselhos.
Se forem confiáveis, afirma Gary Gilson, poderão apontar à sociedade os exemplos que encontrarem de mau jornalismo, e isso já será um grande golpe na credibilidade dos envolvidos.
O comitê do qual ele participa é independente. Um dos princípios do órgão, na definição de seu diretor, é: "O Conselho de Imprensa não tem nenhuma autoridade -e não quer nenhuma- para dizer a qualquer veículo de comunicação o que fazer ou não". RAFAEL CARIELLO - Folha de São Paulo
Sem acreditar
8/8/2004
"Não dá para acreditar! é de arrepiar! Primeiro querem amordaçar o Ministério Público, depois querem controlar o cinema e as produções afins e, por último, calar o único meio que o povo tem para se informar sobre os atos do governo: a imprensa. Está na hora de perguntar: o que é isso, companheiros?"
Leila E. Leitão (São Paulo, SP)
"Em vez de honrar as promessas de campanha e o estatuto do PT e de promover o real crescimento do país, o governo do PT parece ter como norma atribuir todos os problemas brasileiros à "herança maldita" dos anos FHC e inventar medidas que desviem a atenção do verdadeiro cerne das principais questões brasileiras. Agora, através do Ministério do Trabalho, o presidente Lula pretende instituir um conselho para fiscalizar o exercício do jornalismo no Brasil. Depois de ter expulsado o jornalista Larry Rohter e ter tido de voltar atrás, pensava-se que, pelo menos no que diz respeito à liberdade de imprensa, eles tivessem aprendido alguma coisa. O exercício do jornalismo é regulado por uma única diretriz, qual seja, a busca da verdade dos fatos, e não a publicação de notícias que agradem a fulano ou a beltrano. E é o próprio mercado e sua competição que regulam o exercício da profissão. A liberdade de imprensa é um dos requisitos básicos e um dos pilares de qualquer democracia. Que critérios, além dos subjetivos e dos corporativos, teriam os integrantes do tal conselho para "orientar, disciplinar e julgar" o jornalismo brasileiro? Que tal criarem um "house-organ" do Palácio do Planalto, entregá-lo a Duda Mendonça e deixarem os meios de comunicação brasileiros trabalharem em paz? Nem mesmo todas as dificuldades financeiras enfrentadas atualmente pelos veículos brasileiros, como é de domínio público, podem justificar tamanho disparate."
Adriana B. Leite e Santos (Macaé, RJ) Painel do Leitor - Folha de São Paulo
Profissão não pode ter nenhuma forma de pressão, diz promotor
8/8/2004
Os mesmos argumentos utilizados pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Carlos Velloso para apoiar a criação de um Conselho Federal de Jornalismo servem também para o promotor e professor de direito constitucional Vidal Serrano Nunes Júnior condenar a proposta.
Para Velloso, assim como outras profissões têm seus conselhos próprios, como medicina, engenharia e enfermagem, é natural e salutar que os jornalistas tenham suas atividades regulamentadas e fiscalizadas por um conselho que, segundo ele, deveria ser composto exclusivamente por profissionais da área.
"O processo para a criação do conselho deve ser conduzido de forma ponderada. Mas a idéia é o primeiro passo para um aperfeiçoamento da atividade jornalística, com a ética como preocupação central. E hoje a sociedade tem fome de ética", disse o ministro.
Na avaliação de Nunes Júnior, autor do livro "A Proteção Constitucional da Informação e o Direito à Crítica Jornalística", lançado em 1997, as comparações com outras categorias não se aplicam nesta discussão.
"A profissão do jornalista é diferenciada e não pode ser comparada a outras profissões com conselhos próprios. A liberdade de informação é uma garantia da democracia e das liberdades individuais e, contra isso, não pode ser criada nenhuma forma de pressão sobre o jornalista ou sobre o seu trabalho", disse o promotor.
Tanto Velloso quanto Nunes Júnior concordam em um ponto: que a Constituição poderá barrar o projeto de lei de criação do conselho nacional.
Segundo o artigo 220 da Carta Magna, que trata da comunicação social, "nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social".
"A liberdade de imprensa precisa ser aperfeiçoada, mas por outros caminhos", afirmou Nunes Júnior.
Categoria
Para a presidente da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), Elisabeth Villela da Costa, que participou da elaboração do texto para a criação do Conselho Nacional de Jornalismo, o órgão deverá assumir as tarefas de fiscalização e de regulamentação que hoje são de atribuição do Ministério do Trabalho, mas que não são cumpridas.
"O conselho não será um órgão que irá cercear a liberdade de imprensa ou a liberdade dos jornalistas, mas vem para dar mais força à categoria. E a criação do projeto não é do governo federal, é do movimento de jornalistas", afirmou Elisabeth.
O presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Maurício Azêdo, não concorda com o projeto e informou que irá recorrer ao Congresso Nacional para que a proposta seja rejeitada na íntegra. "Não vamos pedir a inclusão de "esparadrapos" ou de emendas ao projeto de lei. Queremos que ele seja rejeitado."
A ANJ (Associação Nacional dos Jornais) informou que está estudando o texto do projeto e que ainda não tem uma posição definida sobre o tema. LILIAN CHRISTOFOLETTI - Folha de São Paulo
O grande companheiro
8/8/2004
Na ficção de George Orwell, o controle da sociedade pelo Estado dava-se através da permanente vigilância do ''Grande Irmão''.
Na realidade sonhada pelo governo do PT, e agora assumida como proposta de lei, tal fiscalização dar-se-ia através do Conselho Federal de Jornalismo, uma espécie de ''grande companheiro'', com a função de ''orientar, disciplinar e fiscalizar'' as atividades jornalísticas e, quando for o caso, punir jornalistas desobedientes à disciplina, à orientação e às regras da fiscalização impostas pelo Estado já devidamente aparelhado por um partido.
É possível dizer várias coisas a respeito dessa idéia materializada em projeto de lei enviado há dias ao Congresso - e diremos algumas a seguir -, só não se pode duvidar da ousadia de seus autores.
O desejo do controle e da restrição é inerente a qualquer governo. O cerne do autoritarismo, ainda que bem disfarçado quando há pudores a serem preservados, não tem ideologia.
Mesmo Fernando Henrique Cardoso, cujas relações com a imprensa e a liberdade de expressão foram de reconhecida correção, teve seus momentos de delírios restritivos.
Nada parecido com o que propõe agora o presidente Luiz Inácio da Silva, num acesso de dirigismo tão despudorado que ignora o preceito constitucional sobre o direito do cidadão à informação e à livre opinião.
Em 1998, FH pronunciou-se chamando às falas a imprensa no tocante à responsabilidade sobre o conteúdo das publicações. Na ocasião, foi lembrado de que tal manifestação caberia perfeitamente ao cidadão Fernando Henrique fazer, mas não ao presidente da República.
Pelo simples fato de que a defesa de limites à liberdade de imprensa quando parte do Estado deixa de ter o caráter de manifestação de opinião, para assumir um viés indubitavelmente autoritário. Ainda que a abordagem aponte erros verdadeiros e correções necessárias.
As relações entre a sociedade e os canais através dos quais ela toma conhecimento do que se passa obviamente devem ser reguladas, mas pelo bom senso, pelas normas de mercado (informação, veículos e jornalistas sem credibilidade costumam ser péssimos negócios ) ou pela Justiça quando há infração às leis.
A tutela de conselheiros nomeados pelo Estado cria restrições a priori, e liberdade restrita não é liberdade, é, no máximo, uma contradição em termos.
Da mesma forma como abusos na comunicação social perdem apoio da coletividade pela compreensão geral de que acabam por prejudicar a todos indiscriminadamente, a restrição do direito de informar e ser informado termina em subtração coletiva.
É claro que no processo de discussão desse projeto criando um órgão supremo com a função de zelador da ''fiel observância dos princípios de ética e disciplina'' jornalísticas, seus proponentes negarão quaisquer relações com o conceito de censura.
Meras palavras. E, se é para pegar pela palavra, tomemos o significado, na língua portuguesa, do ato de censurar: ''Fazer reparos, condenar, reprovar''.
Pois é justamente a isso que se propõe o governo através do conselho cujo mote de existência são os reparos, as condenações e as reprovações que existem no Palácio do Planalto e adjacências ao exercício da liberdade de imprensa.
Se não é isso, raciocinemos: qual o objetivo de tal proposição? Ainda mais por iniciativa de um governo de explícitas relações distorcidas com a liberdade de expressão, a começar pela lógica interna da submissão da ação ao pensamento, adotada pelo PT.
O meio é o conselho, mas o fim é o controle da informação. Surpreende é o entusiasmo com que algumas entidades da categoria dos jornalistas receberam a medida.
Como por ingenuidade não é, o apoio só pode ser por cupidez corporativa ante a possibilidade de integrarem uma nomenclatura da comunicação subserviente aos ditames do Estado, com postos e poder garantidos por ele.
A esse tipo de profissional distanciado da atividade-fim e ligado ao dirigismo oficialista, costumava-se dar o nome de pelego. A eles pouco importa a preservação do bem coletivo - no caso, a informação livre -, desde que suas ''colocações'' no estamento estejam garantidas.
Por isso é preciso atenção para evitar deformações no debate que está por vir. Quais sejam a de atribuir as críticas ao conselho a posições corporativistas, quando é exatamente o contrário. A burocracia controladora proposta atenderá a apaniguados, mas desassistirá a sociedade em seu pluralismo e diversidade.
Não há como não enxergar retrocesso numa proposta que retoma o espírito da previsão não realizada de George Orwell - na qual o autoritarismo venceria no final - e ignora a realidade de um Brasil contemporâneo onde o ''Big Brother'', carnavalizado pela subcultura da diversão instantânea, no máximo agride ao gosto. Mas este, como o direito à livre opinião e informação, não se discute. Dora Kramer - Jornal do Brasil
Mordaça na imprensa
9/8/2004
Não dá para acreditar! é de arrepiar! Primeiro, querem amordaçar o Ministério Público; depois, controlar o cinema e as produções afins; e, por último, calar o único meio que o povo tem para informá-lo sobre os atos do governo: a imprensa. O que é isso, companheiros?! Estarão todos com a malfadada "síndrome de Estocolmo"? Ficaram tão encantados com seus opressores na maldita ditadura que vão imitá-los? Leila E. Leitão, São Paulo Não falta mais nada: querem amordaçar a imprensa. é só denunciar membros deste governo que eles já vêm com o papo de que é uma orquestração contra eles. Ouvi o sr. Lula dizer - aludindo a leviandades por parte da mídia - que devemos tomar cuidado, pois existem acusações que nunca foram comprovadas ao longo dos anos. Se pensarmos assim, vamos inocentar Collor já. Ailton Dias Pereira (ailton7 em ig.com.br), Ribeirão Preto é de um cinismo insuportável a declaração do ministro do Trabalho do governo Lula sobre o projeto de lei que cria o Conselho Federal de Jornalismo, embutindo um rol de punições aplicáveis contra jornalistas que cometerem irregularidades. Conforme reportagem do Estadão (6/8, A17), o ministro disse que "informações inverídicas e mal apuradas podem promover linchamento moral, destruir vidas, provocar falências, entre outros sérios danos às instituições e às pessoas, danos inclusive sob o prisma da saúde, do bem-estar físico e psíquico". Muito cinismo. Logo um ministro do PT, partido que usou e abusou de informações de jornal, inverídicas ou mal apuradas, pouco se importando com o fato de estar linchando moralmente alguém, destruindo vidas, etc., inclusive sob o prisma da saúde, do bem-estar físico e psíquico. Exemplo emblemático, para só citar um: o caso Eduardo Jorge. Joel Samways, Curitiba Muito graves as últimas atitudes do governo federal do PT, como o projeto para controlar a produção audiovisual e jornalística, bem como a centralização excessiva das decisões de aplicação dos recursos arrecadados com impostos. é a volta da censura? Do controle absoluto do Estado sobre tudo e todos? Desde domingo passado, acompanhando reportagens do Estado, o artigo do ex-presidente FHC e editoriais, podemos constatar o óbvio: o que se poderia esperar de um partido que confunde interesses partidários com os de Estado? Que paparica governos de ditadores na áfrica e em Cuba? Que tem em seu núcleo de poder inspirações trotskistas, stalinistas, maoístas e vai saber que outras mais, de orientação autoritária, repressoras e muito distantes de modelos democráticos? Essa centralização de poder é prejudicial ao sistema republicano, que o PT ignora. Essa retórica do cunho social para justificar modelos ditatoriais de um pequeno grupo que chega ao "Poder" e seus apadrinhados políticos não pega mais. Afinal, só se ajudam os pobres se eles forem do partido do governo ou contribuírem para eles? O Brasil precisa tomar cuidado para não descambar novamente numa nova ditadura, só que agora com a cor vermelha, e não verde. Não necessariamente com a mesma configuração da que tivemos no País nos anos 1960 e 1970. Mas com outras formas de censura, de isolamento ou aniquilação dos opositores, como, por exemplo, não liberando verbas para cidades ou Estados governados por políticos contrários à orientação do partido do governo, tratando a opinião pública como cretina, na leniência com grupos aliados político-paramilitares que desrespeitam as leis, patrulhamento ideológico, etc. Não esqueçam que a "direita" sisuda ainda não morreu! Ditadura, nunca mais!!! Nem a dos companheiros! Ou acabaremos levantando placas nas ruas com os dizeres: "Eu já sabia!" Espero estar enganado. Torço para o Brasil real, que trabalha, produz e está fazendo com que o País se desenvolva, apesar desse governo partidarizado. Será que estão usando toda a estrutura estatal, a máquina administrativa, para fortalecer o partido? Já vimos no que isso deu, numa República distante e gelada, outrora muito grande e unida. Maurício Petrosino, São Paulo. Fórum dos Leitores - O Estado de São Paulo
O grande companheiro
8/8/2004
Na ficção de George Orwell, o controle da sociedade pelo Estado dava-se através da permanente vigilância do "Grande Irmão".
Na realidade sonhada pelo governo do PT, e agora assumida como proposta de lei, tal fiscalização dar-se-ia através do Conselho Federal de Jornalismo, uma espécie de "grande companheiro", com a função de "orientar, disciplinar e fiscalizar" as atividades jornalísticas e, quando for o caso, punir jornalistas desobedientes à disciplina, à orientação e às regras da fiscalização impostas pelo Estado já devidamente aparelhado por um partido.
é possível dizer várias coisas a respeito dessa idéia materializada em projeto de lei enviado há dias ao Congresso - e diremos algumas a seguir -, só não se pode duvidar da ousadia de seus autores.
O desejo do controle e da restrição é inerente a qualquer governo. O cerne do autoritarismo, ainda que bem disfarçado quando há pudores a serem preservados, não tem ideologia.
Mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cujas relações com a imprensa e a liberdade de expressão foram de reconhecida correção, teve seus momentos de delírios restritivos.
Nada parecido com o que propõe agora o presidente Luiz Inácio da Silva, num acesso de dirigismo tão despudorado que ignora o preceito constitucional sobre o direito do cidadão à informação e à livre opinião.
Em 1998, FHC pronunciou-se chamando às falas a imprensa no tocante à responsabilidade sobre o conteúdo das publicações. Na ocasião, foi lembrado de que tal manifestação caberia perfeitamente ao cidadão Fernando Henrique fazer, mas não ao presidente da República.
Pelo simples fato de que a defesa de limites à liberdade de imprensa, quando parte do Estado, deixa de ter o caráter de manifestação de opinião para assumir um viés indubitavelmente autoritário. Ainda que a abordagem aponte erros verdadeiros e correções necessárias.
As relações entre a sociedade e os canais através dos quais ela toma conhecimento do que se passa obviamente devem ser reguladas, mas pelo bom senso, pelas normas de mercado (informação, veículos e jornalistas sem credibilidade costumam ser péssimos negócios) ou pela Justiça, quando há infração às leis.
A tutela de conselheiros nomeados pelo Estado cria restrições a priori e liberdade restrita não é liberdade, é, no máximo, uma contradição em termos.
Da mesma forma como abusos na comunicação social perdem apoio da coletividade pela compreensão geral de que acabam por prejudicar a todos indiscriminadamente, a restrição do direito de informar e ser informado termina em subtração coletiva.
é claro que, no processo de discussão desse projeto criando um órgão supremo com a função de zelador da "fiel observância dos princípios de ética e disciplina" jornalísticas, seus proponentes negarão quaisquer relações com o conceito de censura.
Meras palavras. E, se é para pegar pela palavra, tomemos o significado, na língua portuguesa, do ato de censurar: "Fazer reparos, condenar, reprovar."
Pois é justamente a isso que se propõe o governo através do Conselho, cujo mote de existência são os reparos, as condenações e as reprovações que existem no Palácio do Planalto e adjacências ao exercício da liberdade de imprensa.
Se não é isso, raciocinemos: qual o objetivo de tal proposição? Ainda mais por iniciativa de um governo de explícitas relações distorcidas com a liberdade de expressão, a começar pela lógica interna da submissão da ação ao pensamento, adotada pelo PT.
O meio é o Conselho Federal de Jornalismo, mas o fim é o controle da informação. Surpreende é o entusiasmo com que algumas entidades da categoria dos jornalistas receberam a medida.
Como por ingenuidade não é, o apoio só pode ser por cupidez corporativa ante a possibilidade de integrarem uma nomenclatura da comunicação subserviente aos ditames do Estado, com postos e poder garantidos por ele.
A esse tipo de profissional distanciado da atividade-fim e ligado ao dirigismo oficialista, costumava-se dar o nome de pelego. A eles pouco importa a preservação do bem coletivo - no caso, a informação livre -, desde que suas "colocações" no estamento estejam garantidas.
Por isso é preciso atenção para evitar deformações no debate que está por vir. Quais sejam a de atribuir as críticas ao Conselho a posições corporativistas, quando é exatamente o contrário. A burocracia controladora proposta atenderá a apaniguados, mas desassistirá a sociedade em seu pluralismo e diversidade.
Não há como não enxergar retrocesso numa proposta que retoma o espírito da previsão não realizada de Orwell - na qual o autoritarismo venceria no final - e ignora a realidade de um Brasil contemporâneo onde o Big Brother, carnavalizado pela subcultura da diversão instantânea, no máximo agride ao gosto. Mas este, como o direito à livre opinião e à informação, não se discute. O Estado de São Paulo
Dirceu defende controle sobre imprensa e MP
8/8/2004
Ministro da Casa Civil afirma que vazamento de informações leva a Estado de arbítrio
BELO HORIZONTE - O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, defendeu ontem a adoção de mecanismos de controle sobre a atuação da imprensa, dos parlamentares e do Ministério Público. O argumento é o combate ao vazamento de informações protegidas por sigilo legal. "O que não pode no País, seja imprensa, parlamentares e promotores, é vazar informações sigilosas de empresas ou pessoas físicas", afirmou o ministro, sem fazer distinção entre o que é a violação de segredo de Justiça e a divulgação da informação vazada, um direito constitucional da imprensa.
Além da lei da mordaça, que pune com maior rigor as violações de dados protegidos por sigilo legal, o governo, segundo Dirceu, prepara legislação para definir a responsabilidade de quem faz escutas telefônicas. "Não pode pegar o adversário político, nem divulgá-lo na imprensa ou na internet. Se não, seremos o estado do arbítrio."
Em visita de campanha a uma favela em companhia do candidato do PT à prefeitura, Fernando Pimentel, Dirceu disse que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, deve explicações à sociedade sobre as acusações veiculadas na imprensa, mas não pode haver pré-julgamento.
Ele usou também como exemplo um caso que costuma evitar: o do seu ex-assessor, Waldomiro Diniz, afastado por denúncias de corrupção. "O juiz considerou inepta a denúncia e mandou a polícia refazer o inquérito. Quem fez a denúncia? O Ministério Público!"
Críticas - O secretário de Imprensa da Presidência da República, jornalista Ricardo Kotscho, disse ontem que o governo não quer impor a criação do Conselho Federal de Jornalismo aos jornalistas. Ele aceita críticas ao projeto e disse que, ao enviá-lo ao Congresso, o governo convocou um debate. "O texto não é definitivo", disse. CHRISTIANE SAMARCO - O Estado de São Paulo
'Estão nos levando a implodir nossa cultura'
8/8/2004
NOVA YORK. Diretora do curso de jornalismo internacional da Universidade de Columbia, Anne Nelson afirma que a manipulação de notícias sobre ameaças terroristas está matando os americanos de estresse. Ela identifica duas tendências na cobertura da campanha presidencial. Uma delas é favorecer o presidente George W. Bush para não ser acusada de apoiar seu adversário, John Kerry. A outra, procurar pequenas contradições nos candidatos em vez de discutir com eles questões importantes. Anne é autora de uma peça de sucesso nos EUA, "The guys" ("Os caras"), sobre sua vivência do 11 de Setembro, quando ajudou a escrever o elogio fúnebre de bombeiros mortos no atentado.
A imprensa tem feito uma cobertura imparcial dessa campanha eleitoral?
ANNE NELSON: É uma eleição inacreditavelmente complexa e vejo duas tendências. A primeira é que muita gente tem descrito a imprensa escrita como de esquerda. Para provar que isso não é verdade, os jornais acabam sendo brutais com Kerry e condescendentes com Bush. Um exemplo: há algumas semanas, Bush deu uma entrevista e fiquei impressionada como ele estava incoerente e confuso. Parecia ansioso, suas frases não faziam sentido. No outro dia, os jornais não faziam menção a suas incoerências e foram extremamente exigentes com Kerry ao analisarem o discurso dele na convenção democrata. Foi um discurso forte mas os jornais criticaram, disseram que faltou falar de coisas concretas. E não é porque odeiam Kerry e amam Bush. Estão tentando provar que são imparciais.
E a segunda tendência?
ANNE: O verdadeiro problema é o jornalismo de pegadinha, que vem sendo praticado. É mais forte na TV, mas também acontece nos jornais. Estão todos esperando um pequeno erro dos candidatos para atacarem. Este país ainda tem milhões de crianças pobres, escolas péssimas, problemas de acesso ao sistema de saúde, mas a mídia não tem discutido isso. Por exemplo: o "60 Minutes", programa da ABC que faz jornalismo de qualidade, entrevistou Kerry e Edwards mas só fez perguntas sobre pequenas coisas, minúcias. A repórter ficou o tempo todo tentando pegá-los em pequenas contradições, em pequenas coisas sem importância alguma. A campanha presidencial era uma oportunidade de discutir grandes problemas, grandes idéias, grandes propostas, mas isso não tem acontecido. Os repórteres tentam ser estrelas maiores que os candidatos. Jornais e TVs falam demais em pesquisas de opinião e dão muito espaço a repercussões, quando deveriam forçar os candidatos a falar de questões importantes.
Esta semana, Paul Krugman disse num artigo que a CNN está ficando tão parcial em sua cobertura das eleições quanto a Fox News. Concorda com ele?
ANNE: Acho que estamos caminhando para uma reorganização da televisão. Durante 50 anos, três canais dominaram a mídia e ganhavam dinheiro com publicidade. Isso está mudando. Esse modelo vem definhando nos últimos cinco ou dez anos. A TV a cabo permite às pessoas ver televisão sem publicidade. O público de TV está ficando menor, mais velho e com menos instrução, o que torna o veículo menos atraente financeiramente. Os jovens usam mais internet e TV a cabo. Durante um tempo a CNN dominou, mas teve que ser toda remodelada para concorrer com a Fox News, um canal aberto com estilo dinâmico que atraiu as atenções. A CNN abandonou seus valores tradicionais e passou a investir no design e nos âncoras em vez de manter o foco na notícia. Fechou muitos escritórios internacionais, está menos preocupada em aprofundar os assuntos.
A polarização do país está deixando a imprensa em situação desconfortável?
ANNE: A polarização do país e da mídia é a maior desde os anos 30. Outro dia, um dos mais famosos homens do rádio americano estava na TV dizendo que Bush é um homem mau. Usava uma linguagem infantil. Esse tipo de linguagem costumava ser usada pelos conservadores, mas agora os liberais estão fazendo a mesma coisa. Isso não é jornalismo. As empresas de notícia, que eram éticas, estão divididas, não sabem se investem em jornalismo sério, não sabem se é isso o que o país quer.
Esta semana, houve intenso debate sobre se existiram de fato novas ameaças terroristas ou se tudo não passou de uma política do medo. O "New York Times" disse que era manipulação do governo, Bush reclamou, o jornal recuou. Acha que aceitou as pressões?
ANNE: É a velha dança das informações sobre segurança nacional. O governo sempre diz que tem razões para confiar nas suas informações mas não pode divulgá-las. O problema é que, depois da história das armas de destruição do Iraque, o público está desconfiado. Numa democracia, você sempre tem de questionar as chamadas razões de segurança nacional. O fato de o "Times" recuar está no jogo. É a dança das informações de segurança.
Nesses tempos de eleição, como os jornais podem distinguir quando as ameaças terroristas são para valer e quando se trata de manipulação política?
ANNE: Não conseguem. Ainda estamos vivendo os tempos de Pearl Harbor e da Segunda Guerra. Temo que a al-Qaeda tenha uma compreensão muito grande dos americanos. Eles sabem como jogar com nossos medos e nossas ansiedades. Não temos um entendimento tão sofisticado deles. Qualquer menino com explosivos nas costas pode explodir todo o sistema de segurança do país. Todos os jornais noticiam como é fácil entrar em usinas nucleares e químicas. As medidas de segurança que vêm sendo tomadas são inócuas, o governo só está mostrando serviço. Não sei se reduz a ansiedade das pessoas obrigar todo mundo a tirar o sapato no aeroporto. Todo o sistema de alerta não faz sentido. Se existe alto risco de atentado tem de esvaziar cidade, o edifício... Dizer que está sob grande risco e nada fazer não adianta. O aumento das doenças ligadas ao estresse aumentaram drasticamente desde o 11 de Setembro, as pessoas estão morrendo de terrorismo mesmo se a causa mortis for ataque do coração. Isto é consequência da maneira como a informação está sendo manipulada. Isso não é uma vitória da al-Qaeda? Estão nos levando a implodir nossa própria cultura. As pessoas estão cansadas, nem dizem mais que estão com medo. Moro aqui há 27 anos e percebo o efeito desse estresse. Helena Celestino, Correspondente - O Globo
Visita a castelo descortina vida de Hearst
9/8/2004
Magnata da mídia, que inspirou Orson Welles a revolucionar o cinema com seu "Cidadão Kane", passou a infância no local
No alto de uma montanha, no meio do caminho entre Los Angeles e San Francisco, visitado diariamente por 5.500 pessoas, o castelo Hearst (www.hearstcastle.org) é cercado de zebras por todos os lados. Esses animais, remanescentes do antigo zoológico local, são emblemáticos da magnificência do império midiático edificado por William Randolph Hearst (1863-1951), o homem que inspirou o cineasta Orson Welles a filmar o clássico "Cidadão Kane" (1941).
Hoje o "Shanadoo" -nome que o castelo, no topo de uma colina de San Simeon, recebeu no filme- é administrado pela guarda-florestal californiana, mas conserva todas as peculiaridades do tempo em que era visitado por astros do cinema como Charlie Chaplin, Douglas Fairbanks Jr. e Mary Pickford, pois, além de proprietário de 26 jornais no território dos EUA, Hearst também era dono da United Artists.
Políticos como Winston Churchill e cientistas como Albert Einstein também ali estiveram.
é o avô de Patrícia Hearst, que galvanizou o foco da mídia ao ter sido seqüestrada e cooptada nos anos 1970 pelo exótico Simbionês de Libertação, casando, depois, com seu guarda-costas. William R. Hearst, que não conheceu a neta, herdou dos pais uma imensa fortuna -que soube multiplicar.
Quando seu pai comprou a colina onde o castelo seria edificado, ele tinha apenas dois anos de idade. Assim, o jovem Hearst nasceu milionário: seu pai, senador por San Francisco, havia feito fortuna com fazendas e mineração de prata na Califórnia, e a sua mãe, igualmente notável, foi a primeira mulher a estudar na Universidade de Berkeley. Mas Hearst teve o mérito de multiplicar a fortuna de família e, como bom "robber baron" (gíria para "barão-ladrão" nos EUA), soube, muito além de se dedicar ao milagre da multiplicação de cifrões, consolidar um poder nunca antes imaginado por um "publisher".
Gênese
O pai de Hearst, que morreu quando ele tinha 28 anos, adquiriu a colina de 488 m de altitude, diante de oito quilômetros de costa, em San Simeon, em 1865.
Hearst passou a infância freqüentando o local e, quando cresceu, com alguma falta de modéstia, sua família se dizia "cansada de acampar" ali.
Ainda jovem, Hearst foi estudar em Harvard e, depois de dois anos de vida acadêmica pouco prolífica, em 1887, comprou o jornal "San Francisco Examiner". O resultado foi tão surpreendente que, nos anos seguintes, seu grupo incorporou e fundou diversos jornais, caso do "New York World", que pertencia ao igualmente mítico Joseph Pulitzer, o "Chicago American" e o "Boston American".
A um só tempo, Hearst foi ganhando poder e se tornando o grande magnata da imprensa que comprava partes inteiras de conventos, castelos e casas aristocráticas na Europa para juntá-las em seu incrível "bolo de noiva", o castelo Hearst.
"Blending together, just like America" (misturando, exatamente como a América), dizia o arquiteto Julian Morgan, responsável pela montagem do conjunto, cuja entrada, do século 16, veio de um convento da Espanha e que foi encaixada a esculturas, torres e grades renascentistas provenientes da Itália, da França e dos países mediterrâneos em geral.
Hearst morreu zilionário e arquipoderoso em sua casa de Beverly Hills, em Los Angeles, mas viu seu império midiático enfrentar alguma crise nos anos 30, época da Grande Depressão nos EUA.
Seus detratores diziam que ele fora o pai do "jornalismo amarelo" e que ele "criava notícias".
Há quem diga que mesmo o castelo Hearst andou vendendo parte de seu patrimônio -uma quirela se considerado em sua totalidade- em lojas de departamento durante a Segunda Guerra (1939-1945). Nada que fizesse falta, é verdade, como se pode constatar facilmente nas visitas guiadas à propriedade.
Terminado o conflito mundial, o grupo Hearst logo se reergueu lançando títulos de revistas, caso da "Cosmopolitan", da "Good Housekeeping" e da "Town and Country".
"Shanadoo"
Isolado até hoje e, mais ainda num tempo em que carros e estradas eram raros, o castelo Hearst era relativamente auto-suficiente, gerava sua própria energia hidrelétrica, tinha três reservatórios com 5,7 milhões de litros de água, granja, pomar e gado, um aeroporto onde vôos diários de avião DC-3 particular garantiam a ida de relatórios secretos que viravam notícia e a vida de celebridades e de exemplares de jornal.
Entre os aviadores que visitaram a propriedade estão o milionário Howard Hughes e a pioneira Amélia Lindberg.
Mas o grande tesouro do local são as 22.500 obras de arte que despertam a inveja de grandes museus. Silvio Cioffi - Folha de São Paulo
Passeio pelo ventre do palácio custa US$ 24
9/8/2004
Erguido num local chamado "La Cuesta Encantada", o castelo Hearst domina o alto da maior colina à beira-mar em toda a Califórnia. Quem vem de carro de Los Angeles deve seguir até Los Alamos pela estrada 101 e então pegar a estrada 1 e seguir rumo ao norte. A maior cidade da região é San Luis Obispo.
Uma boa dica é pernoitar em Cambria, um balneário sonolento e, logo cedo, pegar um dos ônibus que partem da base da montanha, onde um moderno centro com auditório, lojas e restaurantes faz as vezes de rodoviária.
Convém evitar visitas nos fins de semana, quando a Califórnia inteira vai para lá.
Entre os passeios oferecidos, de duas horas cada um (US$ 24), o número um mostra a piscina coberta -forrada de pastilhas de vidro feitas em Murano (ilha de Veneza) e cercada por luminárias de alabastro-, a piscina aberta -e cravejada de estátuas greco-romanas originais-, uma sala de cinema e a Casa del Sol, algo gótica, com salas cheias de passagens secretas de onde, dizem, Hearst ouvia conversas que, à revelia dos convivas, viravam notícia.
O tour dois vai à Casa Grande, onde ficam o quarto de Hearst, com objetos que eram de doges venezianos, a cozinha e as bibliotecas. O três explora a Casa del Monte e alguns dos 35 quartos de hóspedes; já o quatro passa pela adega, pela Casa del Mar e pelos nada modestos vestiários da piscina. Silvio Cioffi - Folha de São Paulo
Jornalistas em debate sobre televisão
6/8/2004, 13h50
Jim Clancy, Ernesto Paglia e Marcelo Parada participam de debate na ABTA 2004
O âncora e correspondente da CNN International Jim Clancy e os jornalistas brasileiros Ernesto Paglia, da TV Globo, e Marcelo Parada, vice-presidente da TV Bandeirantes, realizam um debate sobre o jornalismo televisivo no próximo dia 11, às 14h, durante a Feira e Congresso ABTA 2004. O evento, da Associação Brasileira de Televisão por Assinatura, será entre 10 e 12 de agosto, no ITM Expo em Sâo Paulo. O moderador será o acadêmico e jornalista Laurindo "Lalo" Leal Filho, professor da ECA-USP e co-fundador da ONG TVer. O debate será aberto ao público. As inscrições para o debate sobre jornalismo poderão ser feitas previamente através do site www.abta2004.com.br, na seção "visitantes". MMOnline
Cobertura em duas frentes
8/8/2004
Repetindo o que faz nos últimos quatro ciclos olímpicos, a partir de Seul, em 1988, o grupo Associados estará presente em mais uma Olimpíada. Desde sexta-feira estão em Atenas - berço da maior competição esportiva do planeta - os repórteres Leonardo Meireles, do Correio Braziliense, e Ivan Drummond, do Estado de Minas.
Leonardo e Ivan são experientes profissionais em coberturas esportivas nacionais e internacionais, e, agora, vão acompanhar a preparação final dos atletas brasileiros. Em Brasília e em Belo Horizonte, as editorias de Esportes do Correio Braziliense e do Estado de Minas se mobilizaram para preparar as edições diárias sobre os Jogos Olímpicos de Atenas, com reportagens especiais dos enviados, o quadro de medalhas, os recordes, a programação da TV etc.
A cobertura do Correio em Atenas contará também com o acompanhamento de 12 alunos do curso de jornalismo da Universidade Católica de Brasília (UCB), repetindo a parceria feita durante os Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, em 2003. Coordenados pelo professor Paulo Trindade, os alunos da UCB produzirão textos para o jornal. Uma parceria que visa despertar nos futuros jornalistas o interesse pela reportagem esportiva.
Correioweb
Paralelamente, o grupo Associados lançou um hot site especial sobre os Jogos de Atenas-2004. Além de informações sobre os atletas e as 36 modalidades, 13 jornalistas de Brasília, Minas Gerais, Paraíba, Maranhão, Pernambuco e Rio Grande do Norte prepararam um material que vai desde a história da Grécia Antiga aos Jogos da Era Moderna, o dia-a-dia na sociedade grega, o valorizado turismo daquela região, dicas e curiosidades.
''Esse é o primeiro projeto online que utiliza a força de todo o grupo Associados. Em um único site, teremos a visão dos esportes do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, com toque especial para essas regiões'', disse o superintendente do Uai e CorreioWeb, Geraldo Teixeira da Costa Neto.
E nada melhor que depoimentos dos próprios atletas para aproximar ainda mais os Jogos Olímpicos do leitor. Por isso, o saltador César Castro e o nadador Jáder de Souza estão escrevendo, direto da capital olímpica, um diário online, trocando impressões com os internautas.
''Esse é mais um desafio para mim, porque sou bem fechado e não costumo revelar meus sentimentos,'' afirmou César Castro à equipe do CorreioWeb. Os atletas ''blogueiros'' também terão a companhia dos enviados especiais, Leonardo Meirelles e Ivan Drummond.
Para completar, colunistas dos cinco estados e do Distrito Federal também vão prestigiar o site. ''Essa é uma maneira de regionalizar um conteúdo que é mundial. O site, feito em parceria entre portais do grupo, faz com que ganhemos em produção. Ele fica mais rico em conteúdo,'' finaliza, o superintendente do CorreioWeb e Uai, Geraldo Teixeira da Costa Neto.
Para a cobertura completa dos Jogos Olímpicos de Atenas, basta clicar no endereço www.correioweb.com.br/hotsites/olimpiadas2004 Correio Braziliense
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Mercado de Comunicação
RBS está em busca de oportunidades no centro do país
9/8/2004
Grupo renegocia dívidas com bancos e credores estrangeiros e faz planos para expansão
Pedro Parente, vice-presidente da RBS: participação de um sócio estrangeiro é possível, mas não está em discussão
Concluído o processo de reestruturação financeira e operacional implementado desde março de 2003, o grupo RBS, dono de seis jornais, 17 emissoras de televisão afiliadas à rede Globo e 24 rádios no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, prepara-se agora para avançar com mais força para além das fronteiras dos dois Estados. A estratégia prevê um trabalho mais agressivo de captação de recursos nos mercados publicitários do centro do país e possíveis aquisições de jornais ou rádios em outras regiões, diz o vice-presidente executivo, Pedro Parente, contratado em fevereiro do ano passado para desenvolver todo o projeto.
A reestruturação, que incluiu o alongamento de uma dívida remanescente de US$ 125 milhões em bônus no exterior e de mais um terço desse valor junto a quatro bancos no país, colocou a empresa "numa posição melhor para pensar em crescimento", afirma Parente. No acerto com os detentores dos títulos internacionais, a RBS fez uma amortização antecipada de US$ 10 milhões e dividiu o saldo em duas parcelas. Uma, de US$ 58,1 milhões no vencimento original, em 2007, e outra, de US$ 56,8 milhões, estendida para 2010. Os juros permaneceram em 11%, com pagamento semestral.
A negociação com os bancos no país (Bradesco, Unibanco, ABN e Banrisul) foi fechada em agosto do ano passado, garantindo três anos de prazo, sendo um de carência, para a liquidação de débitos até então de curtíssimo prazo. Os pagamentos iniciam no mês que vem. Também fizeram parte do pacote de reestruturação um aporte de capital pelos sócios controladores e a venda de parte das ações da Net Serviços detidas pelo grupo.
Segundo Parente, a RBS está avaliando possíveis aquisições "entre Brasília e o Sul do país", mas a dificuldade neste tipo de negócio é que os donos dos jornais ou das emissoras de rádio em geral "atribuem ao intangível um valor muito alto". A RBS também admite a abertura à participação de um sócio estrangeiro, desde que a operação esteja associada a um projeto de crescimento bem estruturado. "É uma hipótese aberta, mas não há nada de concreto em discussão." A expansão territorial do grupo não inclui operações em televisão devido ao contrato com a Globo, que "vai muito bem", disse o vice-presidente.
Fruto do ajuste operacional e financeiro, o novo fôlego da RBS já aparece em alguns indicadores de desempenho. No primeiro semestre, a receita bruta aumentou em 23% nominais (15% em termos reais) em relação ao mesmo período do ano passado, para um valor "ligeiramente superior" a R$ 400 milhões, disse Parente. Nos 12 meses de 2003, o grupo havia ampliado em 16,5% nominais o faturamento na comparação com o exercício anterior, para R$ 750 milhões. Cerca de 25% da receita dos jornais e rádios da RBS provêm do mercado nacional.
Na outra ponta, o controle de gastos resultou em economia de R$ 17 milhões no semestre, tomando como base os seis primeiros meses de 2003. O valor corresponde, conforme o vice-presidente, a 20% da geração de caixa medida pelo conceito lajida acumulada ao longo de todo o ano passado. A redução de despesas incluiu renegociações de contratos com fornecedores e o corte de 211 funcionários no fim de 2003, mas desde então houve a admissão de um contingente praticamente igual de novos empregados, restabelecendo o quadro total de 4,4 mil pessoas.
Na semana passada, os funcionários do grupo também receberam o equivalente a meio salário nominal como antecipação do programa de participação nos resultados deste ano. Em 2003, a distribuição de resultados, limitada a três salários nominais extras por pessoa, totalizou R$ 18,4 milhões, ante R$ 4,9 milhões em 2002.
Agora, a estratégia de expansão está sendo tocada pelo escritório de São Paulo, que neste ano deixou de limitar-se a uma operação comercial e passou a cuidar da promoção institucional do grupo no centro do país e da observação de novas oportunidades de negócios. O próprio Parente participará de um "road show" em 25 agências de propaganda em São Paulo entre agosto e setembro. Sérgio Bueno - Valor Econômico
Faturamento cresce mais que a base de assinantes
9/8/2004
O crescimento do faturamento das empresas jornalísticas gaúchas não vem sendo acompanhado, na mesma medida, pela expansão da base de assinantes dos principais jornais do Estado. As receitas estão aumentando graças à reação do mercado publicitário registrado na esteira do melhor desempenho da economia brasileira, entende o diretor comercial do "Correio do Povo", Aluizio Ribeiro.
Maior concorrente da "Zero Hora", principal jornal do grupo RBS, o "Correio do Povo" vem mantendo sua circulação próxima dos 180 mil exemplares médios por dia nos últimos 12 meses, disse Ribeiro. Já o faturamento com publicidade cresceu 18% no primeiro semestre em comparação com igual período de 2003 e tende a fechar o ano na faixa de 15% de expansão.
"É um movimento firme, o melhor dos últimos dois anos, mas não espero nada maravilhoso daqui para a frente", comenta Ribeiro. Segundo ele, por enquanto o aumento das receitas tem servido para cobrir a elevação dos custos de produção.
Na "Zero Hora", o número médio de exemplares subiu 0,4% nos primeiros cinco meses do ano em comparação com o mesmo período de 2003, chegando a 182,4 mil por dia em maio, conforme o Instituto Verificador de Circulação (IVC). No total, a tiragem dos seis jornais da RBS era de 404,8 mil exemplares por dia em maio.
As maiores taxas de crescimento nos cinco meses pertencem aos títulos mais recentes. O "Jornal de Santa Maria", lançado em 2002 e hoje com 12,7 mil exemplares por dia, cresceu 17,9%. O "Diário Gaúcho", um jornal popular com quatro anos de circulação, avançou 17,1% e em maio tinha uma tiragem diária de 133,8 mil exemplares. Incluindo as emissoras de rádio e TV, o faturamento da RBS aumentou 23% no semestre.
Com uma tiragem de 30 mil exemplares, o "Jornal do Comércio", especializado em economia, vem aumentando sua base de assinantes a uma taxa média de 5% ao ano, diz o diretor-presidente Mércio Tumelero. Segundo ele, a receita cresceu 27% em 2003 sobre 2002 e deve fechar este ano com nova expansão de 24%. Sérgio Bueno - Valor Econômico
RBS realiza operação de troca de título de dívida
9/8/2004
A RBS-Zero Hora Editora Jornalística (RBS-Zero Hora), membro do grupo de companhias de multimídia da Rede Brasil Sul, anunciou nesta semana a troca de um valor principal agregado de US$ 66,845 milhões de Títulos Garantidos de 11%, com vencimento em 2007 (Títulos Nominais RBS) emitidos pela RBS participações S.A., por um valor principal agregado de US$ 56.818.250 de seus Títulos Garantidos de 11%, com vencimento em 2010 (Títulos RBS-Zero Hora) e um pagamento em dinheiro agregado de US$ 10.026.750.
De acordo com as condições da Oferta de Troca, os portadores dos Títulos Nominais RBS receberam um valor principal de US$ 850 em Títulos RBS-Zero Hora e um pagamento em dinheiro de US$ 150, acrescido de juros acumulados e não pagos sobre os Títulos Nominais RBS na data da troca, por cada valor principal de US$ 1.000 de Títulos Nominais RBS ofertados e aceitos. A liquidação ocorreu em 4 de agosto de 2004. Como resultado da Oferta de Troca, US$ 58.155.000 em Títulos Nominais RBS permanecem circulantes.
Os Títulos Nominais RBS são conjunta e separadamente garantidos pela Televisão Gaúcha S.A., RBS TV de Florianópolis S.A., RBS-Zero Hora e Rádio Gaúcha S.A., todos membros do Grupo Rede Brasil Sul. Os Títulos RBS-Zero Hora são conjunta e separadamente garantidos pela Televisão Gaúcha S.A., RBS TV de Florianópolis S.A. e Rádio Gaúcha S.A. Os Títulos RBS-Zero Hora e as garantias não foram e não serão registradas de acordo com a Lei de Títulos dos EUA (U.S. Securities Act) de 1933, conforme retificado (a Lei de Títulos), ou com qualquer autoridade reguladora de títulos de qualquer Estado ou outra jurisdição dos Estados Unidos.
Fora dos EUA
Sujeitos a certas exceções, os Títulos RBS-Zero Hora não podem ser ofertados ou vendidos ou entregues dentro dos EUA ou para, ou na conta ou benefício de pessoas dos EUA (conforme definido no Regulamento S da Lei de Títulos (Regulation S).
A Oferta de Troca foi efetuada e os Títulos RBS-Zero Hora foram oferecidos ou vendidos fora dos EUA para pessoas que não são dos EUA, de acordo com o Regulamento S. A Oferta de Troca com respeito aos Títulos Nominais RBS também foi efetuada, e os Títulos RBS-Zero Hora foram oferecidos e vendidos dentro dos Estados Unidos, para compradores institucionais qualificados se ativeram numa isenção de registro da Lei de Títulos. Gazeta Mercantil
Audiência lucrativa
11/8/2004
Um fato inédito marca 2003 na mídia dos EUA: pela primeira vez a receita gerada pelos consumidores (assinatura de TV, vídeo, web, entre outros) superou o valor obtido com anúncios. Conheça os números da pesquisa feita pelo banco Veronis Suhler Stevenson, divulgada no site Meio & Mensagem.
Os gastos de compra e acesso de conteúdo cresceram 6,5% em 2003 frente ao ano anterior. Nesse período, os investimentos publicitários aumentaram 3,2%.
Até 2008, a verba de cada americano para informação e entretenimento deverá passar dos atuais US$ 778 ao ano para mais de US$ 1 mil ao ano. Fernanda Galvão - IstoÉ Dinheiro
HSBC paga US$ 1,75 bi por 20% de banco
8/8/2004
O britânico HSBC anunciou a compra de 19,9% do Banco de Comunicações da China por US$ 1,747 bilhão. Essa é a maior operação de investimento já realizada por uma instituição estrangeira no setor bancário chinês.
"O investimento é vital e representa uma etapa importante no desenvolvimento de nossas atividades na China", afirmou, em nota, o presidente do HSBC, John Bond. A instituição, líder na Europa em valor de mercado, já efetuara outras duas aquisições no país.
O acordo prevê a criação de uma empresa conjunta para os cartões de crédito e de mecanismos de assistência técnica.
A aquisição do Banco de Comunicações, que tem a quinta maior carteira de empréstimos do país, permitirá ao HSBC ter acesso a 137 cidades na China. No fim de 2003, o banco tinha US$ 111,9 bilhões em ativos. Folha de São Paulo
País da vodca, Rússia mergulha na cerveja
8/8/2004
Na tentativa de conter o consumo desenfreado da bebida no país, Legislativo aprova projeto de lei que limita publicidade
A terra da vodca está alagada de cerveja não só nos cafés, restaurantes e bares, mas também no metrô, nas calçadas e nos parques. A qualquer momento do dia, é possível ver russos, jovens e velhos, de estudantes cabulando aula em grupo a executivos -e executivas- bem vestidos, a caminho do trabalho ou de casa, caminhando pela rua com uma garrafa de cerveja na mão.
Agora, os legisladores russos tentam conter o dilúvio. A Câmara Baixa do Parlamento aprovou na quinta-feira, por unanimidade, um projeto de lei que restringe a publicidade e o comércio de cerveja -bebida que começa a levar a culpa por boa parte dos males russos, do alcoolismo entre os jovens às arruaças públicas, passando pela apatia política.
Se a lei for aprovada pelo Conselho da Federação e sancionada pelo presidente Vladimir Putin, toda publicidade de cerveja na TV e no rádio será proibida das 7h às 22h. A lei restringe ainda o conteúdo da publicidade noturna: exclui imagens de pessoas e animais e proíbe slogans que criem "a ilusão de que beber cerveja é importante para obter sucesso, social ou em outras esferas".
As restrições afetam também a veiculação de publicidade a menos de 100 m de escolas, hospitais, estádios e ginásios esportivos e instituições culturais. As novas regras não se aplicam ao Parlamento, cuja sede vive cercada por outdoors de publicidade da cerveja Zolotaya Bochka, ou "Barril Dourado", mostrando um atleta musculoso sob o slogan "nossa vitória, nossa recompensa".
"é um primeiro passo no sentido de civilizar a nossa publicidade", disse Lyubok Sliska, primeira vice-presidente do Parlamento e um dos proponentes da lei.
Alexei Krivoshapko, analista do United Financial Group em Moscou, disse que a lei, caso entre em vigor, será a mais restritiva da Europa. Mas o efeito das restrições está longe de ser claro. Os oponentes dizem que as novas normas prejudicarão os esportes profissionais e a televisão, já que cerca de 10% do US$ 1,5 bilhão investido anualmente em comerciais vêm das fábricas de cerveja.
Descobrir de que modo a cerveja se tornou o flagelo do Parlamento russo é uma tarefa trabalhosa, já que o projeto tramitou por pelo menos dois anos, sem votação, até que fosse subitamente revivido nos últimos meses.
Alguns sentem a mão oculta das destilarias de vodca, temerosas do crescimento incansável da cerveja, ou a influência da Igreja Ortodoxa Russa e de vozes conservadoras que imputam à onipresente publicidade de cerveja a culpa pela difusão da bebida. Outros dizem que o Parlamento precisava de uma distração populista para desviar a atenção de uma medida impopular que substitui benefícios sociais por um sistema de pagamento em dinheiro.
"é uma reação puramente emocional dos deputados populistas", disse Krivoshapko. "Se eles estivessem interessados na saúde do país, achariam maneiras de restringir o consumo de vodca."
Não há dúvida de que a demanda por cerveja, um produto escasso na era soviética, disparou. O consumo per capita de cerveja dobrou depois de 1998, quando era em larga medida equivalente ao de vodca e outras bebidas pesadas, atingindo 52,5 litros anuais.
Para muitos russos, a cerveja é vista quase como um refrigerante, e é por isso que não é incomum que as pessoas tomem cerveja pela manhã. Pelo mesmo motivo, a cerveja não foi enquadrada nas restrições à propaganda de bebidas alcoólicas, que incluem a proibição de comerciais de vodca na TV, em vigor desde 1995.
"Em Moscou, é difícil evitar os grupos de adolescentes bebendo cerveja em quantidades que bateriam recorde mundial em uma feira de cerveja em Munique", escreveu Vladimir Simonov em artigo para a Agência Russa de Informação, órgão do governo. Para ele, há um elo entre a ascensão da cerveja e a apatia dos eleitores.
Para os fabricantes de cerveja, o projeto de lei ignora os problemas associados à bebida e censura a livre expressão publicitária. "é uma lei estúpida e ridícula", disse Oleg Tinkov, fundador da Tinkoff Private Brewery, cujos comerciais estão entre os mais audaciosos da TV. Para ele, seria melhor aumentar os impostos sobre a cerveja -a garrafa de meio litro é vendida por menos de um dólar- e elevar de 18 para 21 anos a idade mínima para o consumo de bebidas alcoólicas, além de proibir o consumo em lugares públicos.
Essa última idéia é apoiada por Vladimir Zhirinovsky, líder do Partido Liberal Democrata. "Beber cerveja em público deveria ser considerado má educação e vulgaridade", disse ele, que tem contrato com uma destilaria que vende uma vodca com o nome dele.
O diretor da União Russa dos Fabricantes de Cerveja, Vyacheslav Mamontov, disse que mais razoável seria a adoção de um código de auto-regulamentação pelos produtores. Em 2003, os membros da união adotaram um "código de honra" sob o qual prometiam não visar às crianças com sua publicidade nem encorajar o consumo excessivo de álcool.
Sliska disse que a lei não fora inspirada pelo desejo de proibir o consumo de álcool, mas pela preocupação quanto às influências negativas do consumo do produto. "O Partido Rússia Unida adora beber, mas defendemos a saúde da nova geração." STEVEN LEE MYERS, DO "NEW YORK TIMES", EM MOSCOU - Folha de São Paulo
De Cebolinha a softwares, a nova exportação
8/8/2004
BRASÍLIA. Engana-se quem pensa que só carro, celular e biquini são vendidos no exterior com o selo "made in Brazil". Desenho animado, peça publicitária, joguinho para celular, software para banco e construção de suntuosas hidrelétricas do Brasil da soja e dos aviões estão cada vez mais virando produtos de exportação.
Se a balança comercial deve gerar superávit de US$ 30 bilhões este ano, o setor de serviços deve ter um déficit de US$ 5 bilhões. Mas um sinal positivo foi a queda do déficit em serviços de US$ 2,306 bilhões no primeiro semestre de 2003 para US$ 1,869 bilhão no mesmo período deste ano.
Na vanguarda, o cartunista Maurício de Sousa invadiu a Itália com a Turma da Mônica. A RAI, rede de televisão italiana, apresentou este ano a série "Cippolino i Pattaca" - ou Cebolinha e Cascão. Virou febre.
- São 30 países e os negócios vão de vento em popa. Eu me preparo agora para o grande salto - afirma Maurício de Sousa, referindo-se à montagem de uma estrutura que garanta a produção em escala de filmes, puxando a venda de revistas e o licenciamento de produtos.
O setor de audiovisual (filmes, música, publicidade) tem grande potencial. As exportações somam apenas US$ 29 milhões ao ano, enquanto as compras internacionais são quase dez vezes esse valor: US$ 221,4 milhões em 2003. Um dos segmentos mais promissores é o publicitário, em que as campanhas com sotaque brasileiro começam a agradar mercados globais.
Para dar um empurrão na balança de serviços, o Ministério do Desenvolvimento encomendou estudos que apontaram três setores centrais na agenda brasileira de comércio exterior: construção civil, softwares e distribuição de produtos. O setor de softwares exporta US$ 100 milhões, mas tem uma meta ambiciosa para 2007: chegar a US$ 2 bilhões.
A EverSystems trabalha com programas para bancos e começou exportando um serviço para pagers em 1993. Segundo o diretor de Marketing da empresa, Raul Pavão, 35% das receitas vêm de exportação. O mercado potencial são os bancos na América Latina.
- Com o gerenciamento remoto, é possível prestar os serviços a partir do Brasil e gerar empregos aqui - disse Pavão.
Na informática, surgem casos curiosos, como o da Meantime, nascida em um centro de empresas tecnológicas em Recife. A empresa venceu um concurso da SingTel, de Cingapura, no fim de 2002, para jogos de celulares. Hoje exporta para 13 países o joguinho do mergulhador que caça no mar. O setor de software foi um dos quatro escolhidos para os benefícios da nova política industrial do governo, junto com medicamentos, bens de capital e eletroeletrônicos.
Custo Brasil atrapalha projetos de exportadores
Na exportação de serviços, também existem os gigantes. A construtora Odebrecht foi para o exterior há 25 anos, quando as grandes obras minguaram no Brasil, e teve 80% do seu faturamento de R$ 4,5 bilhões em 2003 vindo de projetos lá fora, como uma hidrelétrica em Angola. Algumas pequenas empresas brasileiras só exportam devido aos projetos da Odebrecht.
O novo mundo, porém, é cheio de intempéries.
- Há mercado e demanda no exterior, mas esbarro no custo Brasil (altos impostos e burocracia). Os estrangeiros dizem preferir a produção do material na China. Talvez a saída seja montar aqui uma área especial de exportação - disse Maurício de Sousa.
Há duas semanas, ele levou o caso ao ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, que pediu uma análise da Agência de Promoção das Exportações (Apex) para ver se o grande salto do cartunista pode ser viabilizado. Enio Vieira - O Globo
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Audiovisual
Documentários podem ser a salvação das telas
7/8/2004
Ficção ficou previsível, viciou-se em violência gratuita, perdeu seu encanto e tende a mofar
Há quatro meses, publiquei na revista Bravo! uma sincera e intransigente defesa do cinema de ficção. E fiquei à espera da reação de alguns leitores a provocações como esta:
"Embora reconheça sua importância e aprecie ver os que merecem ser vistos, os documentários têm, na minha dieta cinematográfica, o mesmo valor que, na alimentar, dou a saladas e legumes cozidos. Sei que fazem bem à saúde - do cinema e da gente - mas é quase por obrigação que deles me sirvo. O cinema que me fisgou é o da pura fantasia, com alta taxa de colesterol e carboidratos: a imaginação (ou a mentira) 24 vezes por segundo."
Surpreendentemente, os poucos leitores que se manifestaram a respeito fecharam comigo. Tenho, portanto, sólidas razões para suspeitar que a maioria esmagadora dos espectadores ainda prefere a fantasia, ainda pensa como E.M. Cioran ("O real me dá asma") e Blanche Dubois ("Não quero realismo, quero magia"). Mas isso pode estar mudando. Não por obra exclusiva de uma safra de excelentes ou, no mínimo, excitantes documentários, mas porque a fantasia ultimamente produzida na tela viciou-se por completo em fórmulas previsíveis e violência gratuita, perdeu seu encanto e tende a mofar.
Há provas numéricas de que as "saladas" estão em alta no cardápio cinematográfico mundial. Se apenas Fahrenheit 9/11 estivesse batendo recordes de bilheteria, poderíamos apontar o ódio mundial ao governo Bush como a causa do seu sucesso, considerar o filme de Michael Moore um caso excepcional, e encerrar a discussão. Como, porém, explicar a formidável repercussão de documentários que nada têm a ver com a invasão do Iraque, como Edifício Master (de Eduardo Coutinho), Nelson Freire (de João Moreira Salles), A Captura dos Friedmans (de Andrew Jarecki), e Sob a Névoa da Guerra (Fog of War), de Errol Morris)?
Estaremos, ao contrário de Cioran e Blanche, sedentos de realidade? E por que ficamos mais interessados no mundo real? Que influência sobre essa propensão tiveram os reality shows da TV, a pandêmica alcoviteirice embutida no culto às celebridades, a frenética voga da auto-ajuda e a popularização dos canais a cabo Discovery, National Geographic e History? Pois não podemos negligenciar o fato de que o documentário tem o seu lado voyeurístico, pode nos ajudar a entender melhor o mundo e as pessoas, e até utilizar-se de certos procedimentos do cinema de entretenimento.
As restrições que andaram fazendo a Fahrenheit 9/11 me pareceram um tanto ou quanto ingênuas e exageradas. Manipulação em qualquer filme existe, em maior ou menor grau. Todo enquadramento é uma escolha, uma tomada de posição, um parti pris. O tão superestimado "cinema verdade" já trazia sua falácia estampada no nome. Fahrenheit 9/11 não pretende ser uma reportagem isenta (outra utopia), mas um deslavado e competente agit prop, com um duplo objetivo: esclarecer a opinião pública sobre o "modus operandi" do atual governo americano (tarefa não cumprida pela mídia americana durante a montagem e a montante da invasão do Iraque) e contribuir para que Bush seja derrotado nas próximas eleições presidenciais.
O primeiro objetivo Moore alcançou plenamente. Nem a Casa Branca conseguiu encontrar em seu filme mentiras suscetíveis de um processo. Suas possíveis impurezas e apelações são ninharia perto das sucessivas (e letais) mentiras do governo Bush. Em nome de quê deveríamos nos bater por um tratamento "imparcial e desapaixonado" para um líder tão nefasto? Em nome da "pureza" do documentário não é, já que o documentário nunca foi uma vestal. E não estou pensando apenas nas wagnerianas exaltações nazistas que a alemã Leni Riefenstahl confeccionou nos anos 1930.
O revolucionário Dziga Vertov nunca fez documentários inocentes sobre a aurora soviética. O holandês Joris Ivens e seus amigos manipularam muitos cinejornais para efeitos políticos. Outro mestre do documentário, o belga Henri Storck, compilava imagens filmadas pela alemã UFA e as submetia a uma "montagem satírica", de que é exemplo clássico Histoire du Soldad Inconnu (1932), feroz filme de montagem contra a burguesia, a religião e o capitalismo, mais anarquista e surrealista do que marxista. O que Alberto Cavalcanti fez com (ou contra) Mussolini no documentário Yellow Caesar (1941), manipulando sua voz e seus gestos, deixaria os mais intransigentes críticos de Michael Moore em estado catatônico.
No dia 20 estréia no Brasil outro documentário polêmico: Super Size Me, de Morgan Spurlock. O alvo desta vez é o império McDonald's. Razias por escrito, na imprensa e em livros, a maior cadeia de fast food do planeta já recebeu, nenhuma, contudo, tão contundente quanto esta. Para demonstrar que fast food engorda e, por conseguinte, faz mal à saúde, Spurlock transformou-se em cobaia de si mesmo, passando a fazer todas as suas refeições no McDonald's, durante um mês. Ou seja, consumindo cinco mil calorias por dia, durante 30 dias. Engordou 11 quilos, sua taxa de colesterol subiu de 165 para 300 e seu fígado quase virou patê. Super Size Me já faturou US$ 10 milhões - bem mais do que Spurlock precisaria para curar todas as mazelas decorrentes de sua Mcdieta.
Parece até um complô, mas não é. Apenas coincidência. As grandes corporações e os poderosos do dia são os alvos preferidos dos documentaristas mais bem-sucedidos da atualidade. "Estamos fazendo o que os grandes jornais e, sobretudo, os telenoticiosos abdicaram de fazer", justificou-se Mark Achbar, autor de The Corporation, duas horas e meia de vigorosas e, por vezes, divertidas, dizem, críticas à cupidez e à falta de escrúpulos de grandes empresas multinacionais, com sede nos EUA. Aplaudido nos festivais de Toronto e Sundance, bateu recordes de bilheteria em seu país de origem (Canadá) e começou a correr o mundo.
"As pessoas se desencantaram com o comportamento aético e brutal das grandes corporações e querem ver isso denunciado e submetido a reflexões na tela", acrescentou Achbar, que em seu filme chega a comparar as ações de certas instituições às de um psicopata. Noam Chomsky e o historiador Howard Zinn ajudam o cineasta a pôr lenha na fogueira, secundados por Michael Moore, que sustenta a tese de que as grandes corporações fazem qualquer coisa por dinheiro, até apoiar filmes que, em princípio, são contrários aos seus interesses.
Confere. A Disney não se envolveu com o projeto de Fahrenheit 9/11 e os donos da Miramax não o bancaram até o fim? Não custa lembrar que ao conglomerado Viacom pertence a editora The Free Press, que publicou a versão literária de The Corporation, escrita por Achbar e Joel Bakan, e que a United Artists comprou os direitos de distribuição de The Yes Man, uma gozação na Organização Mundial do Comércio.
A mídia não podia ficar de fora desse fogo cruzado. Enquanto Jehane Noujaim produzia Control Room, documentário sobre a manipulação da notícia centrado na americana Fox News e em seu contraponto no Oriente Médio, a Al-Jazeera, primeiro canal de TV independente do mundo árabe, Robert Greenwald dissecava, implacavelmente, os distorcidos noticiosos da Fox News (sempre a favor de Bush e da invasão do Iraque) em Outfoxed: Rupert Murdoch's War on Journalism.
Responsável por quase meia centena de abusados documentários contra o que no seu tempo de juventude chamavam de "establishment", Greenwald, de 58 anos e tão obsessivo quanto Morgan Spurlock, gravou todos os noticiários da Fox News durante seis meses e contratou cinco tarimbados editores para agrupar por temas todo o material coligido. Queria ter provas irrefutáveis da impostura do canal presidido pelo magnata da imprensa Rupert Murdoch, que se vangloria de oferecer uma cobertura dos fatos "fair and balanced" (justa e equilibrada) - e as obteve com acachapante fartura. Em seguida, entrevistou antigos empregados da empresa, comentaristas respeitáveis, como Walter Cronkite, e críticos de mídia do porte de Mark Crispin Miller e Eric Alterman. Por meios inconfessados, obteve cópias de comprometedores memorandos internos da emissora - e fez a festa.
"Usei a Fox contra si mesma",vangloriou-se Greenwald, para quem o canal de Murdoch é mais do que conservador, "é acintosamente republicano e mentiroso". Daí o apelido de Faux News, trocadilho que só tem graça se pronunciado à americana (Fouquis News), mas faz sentido até em francês (faux quer dizer falso).
Saladas suculentas como esta fazem um bem danado. Até à alma. Sérgio Augusto - O Estado de São Paulo
Anima Mundi reúne mais de 2 mil visitantes
9/8/2004
Festival que trouxe à cidade 79 filmes termina mas deixa saudade
A 2ª edição do Festival Anima Mundi de Brasília, exibido no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), terminou ontem e reuniu ao longo dos sete dias de exibição, 2.200 visitantes . A mostra, que trouxe à cidade 79 filmes nacionais e internacionais, selecionados entre os participantes das etapas do Rio de Janeiro e São Paulo, já se prepara para voltar a Brasília no ano que vem.
O festival, que existe há 12 anos no Rio de Janeiro, e há oito em São Paulo, procura se estabelecer na cidade. De acordo com a diretora do evento Aída Queiroz, ainda não há competição na cidade pelo pequeno número de espectadores.
- Estamos em uma fase experimental em Brasília. No Rio, como o evento já ganhou grandes proporções, premiamos os filmes através do voto popular e com um júri especial, que seleciona por categoria. Este ano tivemos mais de 58 mil visitantes na etapa carioca do Anima Mundi - afirmou.
Para o ano que vem a direção quer apresentar o festival na sala de teatro do CCBB, com capacidade para 300 pessoas.
A produção do evento montou uma programação para que cada título fosse apresentado três vezes durante a mostra. Segundo Aída, a idéia foi levar os filmes a um maior número de pessoas, pois a sala de exibição contava apenas com 90 lugares.
- A procura foi muito grande. Pelos bastidores nós ouvíamos reclamações do público que compareceu e não conseguiu assistir. Não faria sentido mostrar um bom filme para um público pequeno - comentou.
O animador Paulo Anderson Flores assistiu a quatro sessões e comemorou a segunda edição do festival.
- Trabalho com animação, fiz um filme mas não fui selecionado. É muito bom que Brasília tenha a oportunidade de conhecer os mestres da animação - afirmou.
Além da mostra cinematográfica, quem compareceu ao festival pode participar de quatro oficinas de animação, com modalidades de massinha, pixilation (animação com pessoas), zootrópio (brinquedo que imita um projetor de cinema) e de desenho animado. A idade mínima para participar era de oito anos, o que atraiu públicos de todas idades.
- Mais de 600 pessoas passaram por aqui. O bom do festival é que o visitante assiste aos filmes e depois aprende como ele foi feito - comentou Aída.
A produção do festival também trouxe a Brasília o animador Flávio Del Carlo, que foi o homenageado do festival. O animador responsável pelas animações do Castelo RA-tim-Bum, programa infantil da TV Cultura, deu palestra e comandou um workshop para profissionais da área. Ana Carolina Freitas - Jornal do Brasil
A mão sinistra
8/8/2004
Em um clássico do cinema, dirigido pelo cineasta norte-americano Stanley Kubrick, o ator Peter Sellers interpreta o memorável doutor Strangelove, numa corrosiva sátira ao militarismo anticomunista norte-americano dos tempos da Guerra Fria. Ele vive às voltas com seu braço mecânico, que insiste em se erguer inadvertidamente em saudação fascista, acentuando as tendências ideológicas da personagem. Também partidos de esquerda, mesmo convertidos às regras do convívio democrático, parecem às vezes ser vítimas do tique revelador de Strangelove: quando não se espera, eis que erguem o braço e deixam entrever os traços de suas surradas concepções autoritárias e centralizadoras.
Nesta semana, dois fatos restabeleceram as ligações entre o governo petista e alguns conhecidos cacoetes stalinistas: o texto de uma lei para criar a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) e a proposta, encaminhada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Congresso, com vista a instituir o Conselho Federal de Jornalismo (CFJ).
Nos dois projetos, temos a mão sinistra do estatismo e do dirigismo procurando regulamentar, controlar e domesticar a livre expressão do pensamento. No caso do CFJ, a justificativa apresentada pelo ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, fala por si: "Não há nenhuma instituição com competência legal para normatizar, fiscalizar e punir condutas inadequadas dos jornalistas". O ministro, talvez inspirado no exemplo do líder cubano Fidel Castro, que ocupa lugar proeminente na galeria dos heróis petistas, não deixa dúvida sobre o que se pretende: independentemente de já existir legislação específica, cria-se uma instância de "fiscalização" ligada ao governo federal, que terá enorme potencial de ser instrumentalizada para coagir profissionais da imprensa.
A idéia, que foi lamentavelmente sugerida pela própria Federação Nacional dos Jornalistas, ganha contornos ainda mais alarmantes ao se recordar que o governo recentemente pretendeu expulsar do país um correspondente do jornal "The New York Times", além de solicitar, por intermédio do ministro Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação, que a imprensa fosse menos "negativista". Não satisfeito, o mesmo Gushiken afirmou anteontem que o CFJ irá "proteger a sociedade".
No mesmo sentido vai o projeto da Ancinav, segundo o qual o Estado arvora-se em ente todo-poderoso no planejamento, regulamentação, fiscalização e administração das atividades cinematográficas e audiovisuais, tratando de submetê-las a valores éticos e a finalidades "relevantes" que serão, afinal, definidas por quem detém o poder político.
é fato que a legislação sobre cinema merece aperfeiçoamentos, notadamente no que tange às regras do incentivo fiscal, por demais concessivas e consideradas por muitos ineficazes para estimular a formação de investidores privados. Bem diferente é trilhar o caminho do intervencionismo e procurar colocar sob o jugo do poder central a própria "responsabilidade editorial e as atividades de seleção e direção da programação".
Felizmente, as veementes reações da sociedade parecem ter, nesse caso, surtido algum efeito. O Ministério da Cultura viu-se compelido a ampliar o debate e rever o texto. Quanto ao infame Conselho Federal de Jornalismo, é de esperar que seja rechaçado pelo Legislativo. Editorial - Folha de São Paulo
Choque de visões marca Festival Judaico
8/8/2004
Evento tem início amanhã com longas e documentários que situam as particularidades de ambientes e religiões
Marcado fortemente por questões como choque, memória e convivência, será inaugurado amanhã o 8º Festival de Cinema Judaico de São Paulo.
A programação do evento, que termina no dia 15 e está instalado em diferentes salas paulistanas, está dividida em quatro partes: filmes de ficção (entre filmes convidados e filmes em mostra competitiva), documentários (que também competirão), o ciclo "Dois Olhares, Um Desafio" e a retrospectiva do produtor alemão Artur Brauner (obras de realizadores conhecidos, como Andrezj Wajda, estão previstas). Há ainda um pacote de curtas de animação.
"A distância e a tolerância, incidindo não apenas no âmbito religioso, me parecem questões muito presentes nesses filmes", afirma Daniela Wasserstein, diretora artística do festival. "Não há aqui um cinema judaico para a comunidade, meio na linha de esses são "bons", e aqueles, "maus'; os filmes problematizam tanto a vida judaica quanto os conflitos atuais, de forma lúcida. Mostram também que todas as comunidades, inclusive a judaica, possuem suas particularidades, contradições."
Choque parece ser a senha para muitos dos filmes da programação. Não exatamente o físico, mas aquele entre visões, versões e percepções de mundo. O documentário "Atrás das Linhas Inimigas", do ciclo "Dois Olhares", percorre Jerusalém no compasso da tensa discussão entre dois amigos, um jornalista palestino e um chefe de polícia judeu especialista em táticas e em movimentos militares.
O projeto do documentário previa que cada um escolhesse pontos pertencentes ao seu ambiente religioso e cultural, para mostrar ao outro sua opinião sobre as coisas. Um momento emblemático ocorre quando os dois vão à casa do judeu, Benny, uma construção vistosa e espaçosa, vizinha de propriedades palestinas raquíticas. Essas propriedades estão separadas da casa de Benny por uma protetora e metálica cerca. Verbos acalorados surgem após o amigo conhecer a dinâmica paisagística daquela vizinhança.
Boa parte dos filmes de ficção tratam de outro tipo de choque, bastante atual no universo judaico: a tradição versus a "assimilação" e o desejo de rompimento com valores conservadores, sobretudo por parte dos jovens. Um exemplo é "Bit By Bit". Curiosamente, a tradição é lida no filme "Sociedade Cemitério" menos como uma força opressora e mais como chave libertadora.
"Embaixo d'água" também sintetiza o choque nas entranhas da religião: em sua busca por identidade, uma menina, carente de amor paterno, se vê diante da distorção, manifestada nas vias filosófica e física, que se origina da figura do pai, ultraortodoxo.
A memória, como tema, também é visitada na via do choque. Em "Vozes de Dachau", destaca-se a imagem de um campo de golfe cercado por arame, provável resquício do campo de concentração que era aquele terreno décadas antes. Em "Gevatron", a memória surge como dispositivo de reflexão sobre conceitos como juventude e envelhecimento, exercício da arte e decadência física. Alguns poderão notar parentesco entre este filme e "Buena Vista Social Club", de Wim Wenders.
A perseguição aos judeus e o Holocausto não são temas dissociados do festival. "Passagem Secreta" tenta reconstituir a Inquisição. "Monsieur Batignole" se passa na França de 1942 e viaja o interior campestre do país rumo à fronteira com a Suíça, que abrigaria crianças judias fugitivas.
O filme "Um Mundo Quase Pacífico" também é contextualizado na França, porém poucos anos depois da guerra. Em foco, está uma alfaiataria e seu cotidiano. A obra, do veterano Michel Deville ("Dossier 51"), incorpora formalmente, além do sentimento de reconstrução, o alívio que se originou após o fim da guerra.
8º FESTIVAL DE CINEMA JUDAICO. Onde: Centro da Cultura Judaica (r. Oscar Freire, 2.500; tel. 0/xx/11/3065-4333; ing.: um quilo de alimento); Cinesesc (r. Augusta, 2.075; tel. 0/xx/11/ 3082-0213; ing.: grátis; retirar com antecedência); A Hebraica (r. Hungria, 1.000; tel. 0/xx/ 11/ 3818-8888; ing.: até R$ 5); MIS (av. Europa, 158; tel. 0/xx/11/3062-9197; ing.: grátis; retirar antes). Quando: de amanhã a 15/8. CLAUDIO SZYNKIER, FREE-LANCE PARA A FOLHA - Folha de São Paulo
Caraca
8/8/2004
A Ancine (Agência Nacional de Cinema) aprovou na semana passada a captação de patrocínio de "Tati, o Filme". O longa-metragem vai mostrar as aventuras da adolescente e louca por gírias Tati (Heloísa Périssé), que nasceu na peça "Cócegas", "bombou" no "Fantástico", já virou livro e CD. O orçamento previsto é de R 5,9 milhões. Laura Mattos - Folha de São Paulo
Lei do Audivisual
8/8/2004
Está na incubadora a Lei Geral do Audiovisual. Não será surpresa se tratar de uma censura a quem contestar ações do governo, pois quem detém o poder, por maior absurdo que faça, sempre acha que está com a razão. Já vimos alianças com a escória da política nacional e, em seguida, os integrantes do governo legislando em causa própria para obter ganhos financeiros como se heróis fossem, devido à perseguição sofrida durante o regime militar. Paira no ar a possibilidade do tolhimento da liberdade de imprensa, garantindo proteção contra quaisquer atitudes governamentais nefastas.
Humberto Schuwartz Soares, Vila Velha (ES) Cartas - Jornal do Brasil
'Esse governo quer controlar o mundo'
8/8/2004
Para o cineasta Arnaldo Jabor, projeto sobre audiovisual tem inspiração stalinista
O cineasta Arnaldo Jabor, de 63 anos, ficou estarrecido com o teor da minuta do projeto de lei do governo que cria a Agência Nacional de Cinema e Audiovisual (Ancinav). Ele acredita que essa proposta é a expressão de um poder que tem duas cabeças: uma que funciona durante o dia e defende a democracia, e outra que se reúne à noite, em células stalinistas, para negar essa mesma democracia. Jabor se refere ao ditador russo Josef Stalin (1879-1953), que governou a antiga União Soviética com mão de ferro de 1924 a 1953. "Essa proposta pode ser resumida a uma frase: a Albânia ataca", diz, referindo-se ao país europeu onde as idéias de Stalin resistiram até o fim dos anos 90.
Para o diretor de filmes como Pindorama (1970), Toda Nudez Será Castigada (1973), O Casamento (1975), Eu Te Amo (1980) e Eu Sei Que Vou Te Amar (1984), com essa atitude o governo agride a liberdade de expressão e corre o risco de interromper um momento de renascimento do cinema. "Hoje, o cinema brasileiro está revigorado, é uma indústria que cresce e esse tipo de atitude só serve para criar turbulências."
Jabor poupa o presidente Lula dos ataques que faz "àquelas mentes stalinistas, de uma esquerda que não sabe conviver com o sucesso e tem influência nesse tipo de atitude, a turma do turno da noite". No turno da manhã ele inclui o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e até o ministro da Cultura, Gilberto Gil, que, acredita, esteja ouvindo essas vozes do atraso.
"Corremos o risco de que o chavismo prolifere, se leis como essas tiverem respaldo", argumenta, referindo-se ao estilo de governo do presidente venezuelano, Hugo Chávez.
Jabor faz até uma defesa veemente do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que acredita ser vítima de uma "oposição ressentida pelo sucesso da política econômica com uma parte do poder ressentida porque os que pensam de dia eliminam as teses dos que agem de noite". A seguir os principais trechos de sua entrevista:
Estado - O que achou do projeto que cria a Agência Nacional de Cinema e Audiovisual?
Arnaldo Jabor - O importante não são os detalhes e o conteúdo do projeto, o grave é que a cabeça desse governo é dividida ao meio: metade finge ser liberal e a outra metade é soviética stalinista. No fundo, e isso mais que o texto, o que me preocupa e preocupa a todos que defendem a liberdade de expressão é que há um desejo neste governo, que é característico da antiga esquerda, de controlar o mundo, de controlar a realidade ao seu redor. é isso que está por trás dessa proposta. Se não fosse o núcleo duro desse governo, com ministros como Palocci, Furlan, Roberto Rodrigues, Ciro Gomes e Meirelles no Banco Central, o governo estaria perdido. Lula é um homem inteligente, bem intencionado, mas há vozes que o cercam. Há um perigo real que o ronda. Há um chavismo rondando decisões como a de criar regras para o cinema e o jornalismo. E há um conflito claro entre a cabeça que pensa de dia, que é liberal, e a que pensa à noite, que é stalinista. O presidente está no meio desse conflito.
Estado - Então, o sr. acha que essa lei é fruto do conflito entre essas duas correntes?
Jabor - E isso ocorre sem necessidade nenhuma, num momento de vitalidade do cinema nacional. Isso é resultado de uma mão que tem vários dedos. Essa questão do Meirelles, eu acho um absurdo. Ficar aporrinhando esse sujeito porque mandou US$ 50 mil há dois anos para o exterior é uma besteira diante da importância do Banco Central. Você vê dedos querendo acabar com uma sensatez macroeconômica, não sei se o José Dirceu (ministro da Casa Civil) ou o desenvolvimentista do Carlos Lessa (presidente do BNDES), mas há vozes que querem quebrar o equilíbrio macroeconômico. Tudo porque de um lado há uma restrição da política econômica e de outro um desejo incontido de populismo, que se prevalecer pode levar o País para o buraco, e também as atividades econômicas, como o cinema.
Estado - E Gilberto Gil?
Jabor - Essas vozes do atraso também estão rondando o Gil, que é um homem inteligente. Um compositor inteligente, um dos criadores do movimento tropicalista. Ou você imagina o Gil compondo músicas de conteúdo ligado ao desenvolvimento social? Teria de compor músicas em defesa da reforma agrária, em louvor do MST. Teríamos de criar peças teatrais sobre a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e, quem sabe, fazer um filme do tipo A Vida Privada de d. Tomás Balduíno.
Estado - Mas seus formuladores dizem que a criação da agência nacional significará mais verbas para o cinema.
Jabor - Durante vários anos o cinema brasileiro foi fruto de uma estranha combinação. Nos anos 70 e 80, o cinema viveu das migalhas do dinheiro que foi enviado pelo mercado financeiro internacional e o que sobrava o Estado repassava para a Embrafilme financiar projetos. A Embrafilme não impunha regras, do tipo faça isso ou faça aquilo, mas criou um modelo perverso porque o filme não tinha a menor importância. O investimento em cinema era a fundo perdido e isso corrompeu o cinema, que precisa ser competitivo.
Precisa do desafio do mundo real da bilheteria. Se nos anos 70, foi uma conquista, esse modelo nos anos 80 gerou déficit monumentais, entre obra e bilheteria, criou uma distorção e foram muitos os filmes ruins produzidos.
Estado - E depois disso?
Jabor - As regras de hoje nunca foram tão boas. A Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual ajudaram o cinema nacional a se reerguer, a reencontrar seu público. Os filmes hoje estão melhores, fazem sucesso de público. O cinema nacional está tendo um crescimento de 200% do público.
Estado - E o projeto de lei?
Jabor - Essa lei é coisa de velhos bolchevistas stalinistas e burros que estão incrustados no governo. Querem transformar o cinema numa coisa soviética, numa atitude jdanovista (do ministro da Cultura da ex-URSS Andrei Jdanov) de "servir" ao desenvolvimento, com o desejo de interferir na realidade ao redor. O cinema brasileiro quebrou de 1990 a 1995, e agora que renasceu querem mexer num time que está ganhando. é lamentável que no século 21 o Brasil venha a virar soviético. Essas ameaças populistas têm de ser combatidas. é um indício de chavismo no horizonte. Na dificuldade de criar uma alternativa à política macroecônomica restritiva, passar para a desenvolvimentista sem quebrar o País, isso pode levar a um atalho simplista, muito parecido com o populismo chavista na Venezuela. é um absurdo que o PT mande representantes para defender a permanência desse demagogo, desse caudilhista, desse populista no poder na Venezuela. Isso é ridículo, como é ridículo você querer controlar a realidade ao seu redor, como no caso do cinema e do jornalismo. CARLOS FRANCO - O Estado de São Paulo
Estatização do cinema e da TV
8/8/2004
"Dirigismo cultural" é uma expressão insuficiente para definir os estragos que o anteprojeto de 141 artigos do Ministério da Cultura, criando a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) para controlar a produção cinematográfica, a programação e as concessões de emissoras de televisão, poderá fazer na liberdade de artistas e produtores culturais e no direito de todos a entretenimento e cultura. Dado a conhecer graças a um vazamento na internet pelo site PayTV, o anteprojeto é, como definiu o cineasta Cacá Diegues em artigo no Globo, "autoritário, burocratizante, concentracionista e estatizante, tirando de uma vez do horizonte do cinema brasileiro a possibilidade de sua auto-sustentabilidade, pois ele nunca mais deixará de depender do Estado, viverá eternamente da boa vontade e da iluminação dos sabichões ministeriais encarregados de decidir que filmes devem ser feitos no país".
A reação do diretor de Deus é brasileiro ecoa a indignação da comunidade "audiovisual", que levou o governo não a recuar, mas a admitir discutir por mais um mês mudanças no projeto, em particular no que se refere ao artigo 43. Como foi redigido, este permitirá que os cinco membros da Ancinav, que terá o papel (com mais poder) da Agência Nacional de Cinema (Ancine) hoje, decidam sobre a "responsabilidade editorial" de emissoras de TV, em cuja programação o Ministério da Cultura passaria a intervir, se o projeto de lei for aprovado sem modificações.
Também circula na internet o arrazoado que serviu de base a mais essa tentativa governamental de avançar com mão grande sobre a criação artística e cultural no País. Intitulado Subdesenvolvimento e cultura, o texto, da lavra do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães - eminência parda da política externa do atual governo e a quem se atribui também a inédita substituição de três dos quatro juízes brasileiros acreditados na Corte Internacional de Haia -, atribui à indústria cultural dos EUA culpa pelo que ele chama de "vulnerabilidade ideológica" da sociedade brasileira, responsável, por sua vez, pela "consciência colonizada" das elites dirigentes, que gera manifestações de impotência e baixa auto-estima do povo. Daí, ele tira a conclusão de que cabe ao Estado substituir a cultura exógena por outra, autóctone, "combatendo a hegemonia cultural de qualquer origem no Brasil".
Esse raciocínio é que inspirou o parágrafo XIV do artigo 4.º do anteprojeto da Lei Geral do Audiovisual, que define como papel do Estado "fomentar a participação diversificada de obras cinematográficas e videocinematográficas de outra nacionalidade no mercado brasileiro". Como se fosse possível a este governo (ou a qualquer governo) determinar do alto de sua sapiência de que filme, telenovela ou minissérie o povo deve gostar - o sonho megalomaníaco do burocrata stalinista Jdanov que manteve os súditos do império soviético ignorantes da moda e das manifestações de arte e cultura "capitalistas" do Ocidente, mas não imunes à sedução das mesmas, o que os fazia disputar camisolas de jérsei e tênis comuns como se fossem o ouro do Alasca.
O vezo stalinista se faz apresentar logo na introdução do texto de 44 páginas, que submete cinema e televisão aos valores éticos e sociais determinados pelo governante de plantão; à valorização de tendências artísticas, culturais ou regionais determinadas pelo gosto dos políticos no poder; e, como já havia determinado antes o secretário de Comunicação da Presidência, Luís Gushiken, ao fixar critérios para financiamento de produções artísticas por empresas estatais, a "vínculos com finalidades públicas relevantes". Tudo isso evidentemente seria determinado pelo burocrata carimbador de plantão, nomeado pelo "comissário do povo" da ocasião. Em seu detalhamento caprichoso e leviano, o projeto também taxa em 10% os ingressos de cinema, aumentando-lhes o preço e afugentando o pobre de uma das poucas diversões baratas com que ainda conta.
A divulgação, no mesmo dia, desse projeto e do projeto de criação do Conselho de Jornalismo é uma prova assustadora do dinamismo do Projeto de Poder do PT. Vamos ver se o Congresso está consciente da ameaça que ronda a democracia brasileira. Editorial - O Estado de São Paulo
Surto autoritário
8/8/2004
Há um mês, cineastas, jornalistas, escritores e artistas entregaram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um documento com propostas de valorização da produção cultural brasileira. Pediam incentivos, investimento, ações pela educação e em defesa da cultura nacional, sem - registrava o texto - "cair em tentações autoritárias". O anteprojeto da nova Lei do Audiovisual, que cria a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), mostra que o Ministério da Cultura optou exatamente pelo rumo oposto ---- o do dirigismo e intervencionismo.
Se aprovada, a proposta, em vez de valorizar, desestimulará a produção cultural de massa. Mas vai além o efeito danoso do projeto. A sua linha centralizadora fica visível na idéia de entregar o destino de boa parte da produção cultural brasileira a três pessoas - a maioria simples das cinco que formarão o Conselho Diretor da Ancinav. A eles caberá, segundo o projeto, planejar, regulamentar, administrar e fiscalizar as atividades cinematográficas e audiovisuais.
É a planificação centralizada ao extremo, algo comparável aos tempos do DIP, de Getúlio Vargas, aos piores momentos dos governos militares ou mesmo ao stalinismo. Não se pode entender de outra maneira cláusulas como aquela que atribui à Ancinav a capacidade de "promover a articulação dos vários elos da cadeia produtiva da indústria cinematográfica e audiovisual brasileira". Ou o artigo que lhe faculta dispor sobre a seleção e direção da programação das emissoras de rádio e TV. O texto investe contra a liberdade de expressão e comunicação e contraria a Constituição ao conferir ao conselho poderes que só cabem à Justiça e ao Legislativo. Até mesmo o direito à propriedade, gestão e operação das TVs abertas e de qualquer empreendimento no ramo audiovisual é afetado. E sequer haverá transparência absoluta nas decisões, pois o conselho poderá fazer reuniões secretas quando a divulgação dos assuntos que tratar "puder colocar em risco a segurança do país, ou violar segredo protegido ou a intimidade de alguém". Mas como se decidirá que o parecer sobre alguma produção cultural será uma ameaça ao país?
E como se não bastasse tudo isso, o projeto cria um novo tributo - a Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica e Audiovisual Brasileira. Ou seja, mais encargos indiretos sobre o setor que supostamente vem apoiar. Além do que esse imposto vai na direção oposta à da intenção manifesta do governo de reduzir a já insuportável carga tributária.
Diante da unânime reação negativa do setor cultural, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, e assessores trataram de esclarecer que tudo será debatido, nada está decidido. Até ampliou-se o prazo para a discussão pública do projeto, antes do seu envio ao Congresso. Menos mal.
Gil, equipe e o próprio governo, porém, precisam estar preparados para fazer um projeto novo, que seja simplesmente de fomento do cinema e da indústria audiovisual. É imperioso evitar-se tamanho retrocesso inspirado num autoritarismo anacrônico que já não tem mais espaço no país, seja qual for o governante do momento. Opinião - O Globo
O imaginário social
8/8/2004
O secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, autor de um documento intitulado "Subdesenvolvimento e cultura", que deu o suporte ideológico ao projeto de lei que cria a Agência Nacional de Cinema e Audiovisual ( Ancinav), classificado pelo cineasta Cacá Diegues de "autoritária, burocratizante, concentracionista e estatizante", acha que a questão do imaginário social "e, portanto, da política cultural e de comunicação", está vinculada ao sistema educacional.
"Este sistema tem sido articulado pelo governo como um processo de formação de indivíduos como produtores de maior ou menor qualificação técnica, e não como um processo de formação de cidadãos", diz no trabalho. Os valores transmitidos pelo sistema educacional seriam, na visão de Pinheiro Guimarães, os "da produção material e da maximização do consumo individual, do ser humano como unidade de trabalho e não como cidadão político solidário, digno de uma vida espiritual superior".
Ele vê essa "vida espiritual superior" prejudicada "pelos programas degradantes e idiotizantes de televisão", atividade que consome, segundo sua conta, "mais de 80%" de tempo livre do cidadão comum. "Esse tempo foi 'capturado' pela televisão, que os estados e os governos têm tratado como uma atividade econômica 'normal', e não como um veículo com influência extraordinária sobre a sociedade e seu imaginário".
Para ele, a situação se agravou com a emenda constitucional que permitiu a participação do capital estrangeiro na propriedade dos veículos de comunicação e com a ausência de regulamentação do artigo 221 da Constituição Federal que se refere à programação das emissoras de rádio e televisão. Pinheiro Guimarães lamenta que as crianças e os jovens utilizem grande parte de seu tempo fora das salas de aula em frente à TV, em cuja programação há, segundo ele, "um permanente, ainda que difuso, processo de transmissão de um imaginário estrangeiro, além de estímulos ao consumo conspícuo, ao individualismo, à violência, à banalidade e ao culto do corpo".
Para resolver essa situação, Pinheiro Guimarães sugere que seja "ampliada gradativamente o número de horas de permanência dos estudantes na escola, para reduzir sua exposição à TV". Essa "solução" ainda não foi adotada oficialmente pelo Ministério da Educação.
Para Samuel Pinheiro Guimarães, é preciso "reconstruir a escola como o veículo de transmissão de valores culturais brasileiros", e estimular a televisão e os meios de comunicação a diversificar sua programação "de modo a ampliar a gama de influências culturais brasileiras e estrangeiras a que deve ter acesso a sociedade brasileira, e assim ampliar sua margem de escolha e de reflexão sobre os valores sociais".
Está aí a gênese do artigo 43 do projeto de lei, que diz que "à Ancinav compete, no que diz respeito à regulação e fiscalização da exploração das atividades cinematográficas e audiovisuais pelas prestadoras de serviço, dispor sobre a responsabilidade editorial e as atividades de seleção e direção da programação, em articulação com o Ministério das Comunicações".
Segundo Pinheiro Guimarães, "os recursos da coletividade, que são arrecadados através de impostos, devem estar a serviço de uma política cultural que amplie a competição entre produtos culturais de diferentes origens, estimule a produção cultural brasileira e diversifique as influências culturais".
Pinheiro Guimarães adverte que os estímulos à preservação do patrimônio e à produção cultural individual "não terão impactos sociais, políticos e econômicos se não forem conjugados com a possibilidade de sua difusão através dos veículos econômicos".
Segundo ele, a atual legislação de concessão de isenções fiscais a empresas para investimentos em atividades culturais "não garantem sua difusão e, portanto, o cumprimento de sua função social". Para Pinheiro Guimarães, uma política cultural eficaz deve estar articulada com as políticas de comunicação e educação "e deve ter como seu objetivo estratégico permanente a redução da hegemonia cultural de qualquer manifestação estrangeira face à produção cultural brasileira, e a ampliação da diversidade de oferta cultural à disposição da sociedade brasileira".
Para tanto, ele sugere várias medidas, como "estabelecer tratamento fiscal diferenciado e mais favorável às empresas produtoras e às empresas difusoras de produtos culturais que em suas atividades e programação ampliassem a participação das manifestações culturais brasileiras".
Também o BNDES estabeleceria linhas de crédito especiais para financiar investimentos e a operação "de empresas que assumam o compromisso de diversificar sua atividade de produção e difusão cultural, e de garantir a igualdade de participação do produto cultural brasileiro face ao produto cultural de qualquer outra origem". Estaria aí a explicação para o enigmático parágrafo IV do artigo 8, que diz : "Haverá relação de equilíbrio entre os deveres impostos aos exploradores das atividades e os direitos a eles reconhecidos? Quem regularia direitos e deveres?"
Pinheiro Guimarães sugere no documento que a legislação estabeleça limite máximo de ocupação do mercado para produtos audiovisuais "quando há situações de oligopólio e integração vertical com risco não só de hegemonia cultural como de exclusão do produto cultural brasileiro. O limite do número de cópias por lançamento de filme é um exemplo desse tipo de medida". É a partir desse conceito que o projeto de lei prevê o aumento, que os distribuidores estão considerando "abusivo", da taxa para filmes com mais de 200 cópias. Tudo para impedir que o "Homem-Aranha" ou o monstro verde "Shrek" dominem o circuito de exibição. Merval Pereira - O Globo
Ameaça à liberdade
8/8/2004
Há reações indignadas de porta-vozes oficiais quando a imprensa enxerga ranço stalinista em certas propostas do governo. Os áulicos palacianos vêem as críticas do gênero contaminadas por suposto espírito emulativo dos órgãos de comunicação. Salvo exceções ocasionais, ninguém à sombra da gestão executiva dá-se ao trabalho de refletir sobre atos tidos como de viés ideológico inaceitável. Assim, a administração muitas vezes avança por desvios sem encontrar o leito natural das soluções democráticas.
É o que se dá agora com a versão preliminar do projeto de lei sobre a criação da Agência Nacional do Cinema e Audiovisual (Ancinav). O intervencionismo e o controle estatais sobre a produção, divulgação, distribuição e emissão de sons e imagens atestam a marca bolchevique da iniciativa.
A concepção admitida na proposta passa ao largo do conceito de cultura como expressão espontânea, autônoma, da atividade intelectual e artística para vê-la como inspiração da inteligência criadora sujeita a limites e regras severas. Assim, vai ao ponto de considerar os bens culturais no campo da televisão, do rádio, do cinema, da publicidade, das telecomunicações em geral perigosas à sociedade e à segurança do Estado.
Há aí exagero? O parágrafo único do artigo 8º do monstrengo estabelece que o Conselho Diretor da Ancinav deve reunir-se em segredo para agir ''quando a publicidade puder colocar em risco a segurança do país''. Pior, os registros da reunião devem ser mantidos em sigilo. Só um desavisado imaginaria que a publicidade pudesse conspirar contra a estabilidade institucional. No melhor estilo da nomenclatura soviética oficializa conduta proibida nos regimes democráticos - reunião secreta de burocratas.
Não é tudo. O espaço totalitário aberto às ações da Ancinav lhe dá poderes para estabelecer ''a responsabilidade editorial e as atividades de seleção e direção da programação'' das empresas de radiodifusão, de televisão e de sons e imagens. Só as ditaduras mais retrógradas do continente admitiram intervir com tanta brutalidade nos direitos às liberdades de expressão e manifestação artística. E, para embrulhar o rebento ditatorial, seus autores restringiram o acesso às exibições artísticas mediante incidência de taxa fiscal.
O ministro da Cultura, Gilberto Gil, garante que a matéria representa apenas o esboço do projeto a ser enviado ao Congresso dentro de trinta dias. Menos mal. Melhor seria substituí-lo por outro inspirado em conceitos e soluções sensatas, abertas, solidárias, democráticas. Os pilares da iniciativa atual violam a liberdade intelectual, artística, científica e de comunicação posta a salvo de censura ou licença pelo texto constitucional (artigo 5º, IX). Visão do Correio - Correio Braziliense
Gil defende construção de salas de cinema em regiões carentes
7/8/2004, 13:33
São Paulo - Levar o cinema para as regiões mais carentes de salas de exibição é um dos projetos do Ministério da Cultura para promover a inclusão cultural da população. O ministro da Cultura, Gilberto Gil, explicou que a proposta deverá formar platéias para o cinema nacional e melhorar a distribuição dos filmes brasileiros, uma das grandes reivindicações dos cineastas. O teatro também terá atenção especial do governo.
Segundo o ministro, o projeto tem a adesão e o apoio de outros órgãos do governo, como o Banco do Brasil e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
"Estamos com esse projeto de construção de salas (de cinema) em articulação com vários órgãos ou instituições. Temos uma série de salas a serem criadas em um projeto com o Banco do Brasil, e com o BNDES estamos projetando instalar, nos próximos dois anos, pelo menos mil salas novas de cinema em cidades onde elas não existem ou ampliar o número existente em outras cidades", explicou o ministro.
Outro ponto importante, segundo Gil, é o incentivo que o Ministério está articulando para melhorar a distribuição dos filmes. "Estamos incentivando a formação de grupos e de estruturas de distribuição e exibição, não só intensificando o trabalho com as empresas estrangeiras já instaladas mas também tentando consolidar empresas nacionais que operam e possam vir a operar na distribuição e exibição do filme brasileiro", disse.
Em relação ao teatro, o ministro disse que é preciso identificar as necessidades da área. "Estamos convocando uma convenção nacional de teatro, para recolher as grandes demandas. Vamos estimular a nova dramaturgia, incentivar a formação de novos públicos, vamos atuar no teatro", informou o ministro. Liésio Pereira, Repórter da Agência Brasil - Portal da Cidadania
A festa do DVD
11/8/2004
Demanda por filmes em DVD cresce 50% ao ano e faz do Brasil o 8º mercado do mundo, com vendas de R$ 550 milhões
No ano passado, os brasileiros compraram 8 milhões de filmes em DVD. Este ano estima-se que comprarão 12 milhões. O Brasil é talvez o mercado que mais cresce no mundo, superando, inclusive, os escandinavos, que têm seis meses de inverno rigoroso por ano. No ano passado, o mercado de títulos de DVD movimentou no Brasil cerca de R$ 550 milhões, sem incluir shows musicais e produções pornô, que respondem por 25% das vendas. Este ano, a arrecadação pode chegar a R$ 800 milhões. Nada, nem mesmo na explosiva indústria de entretenimento, consegue fazer sombra a esse desempenho. Ele é simplesmente espantoso. Com o lançamento dos aparelhos de DVD, em meados de 1998, os brasileiros descobriram algo que americanos e europeus já tinham descoberto na Era VHS - o prazer de comprar e colecionar títulos. A partir daí inventou-se uma indústria que hoje emprega 70 mil pessoas e para a qual o céu é o limite, até porque a venda de aparelhos de DVD, que poderia limitar a demanda pelos filmes, não dá sinal de arrefecer. No final do ano passado, havia no País 4,2 milhões de leitores de DVDs. Este ano eles deverão chegar a 6 milhões. Quando se imagina que há no País um parque de 22 milhões de videocassetes, e que cada um deles tende a dar lugar a um usuário de DVD, é fácil perceber o enorme terreno para o crescimento da indústria - sobretudo porque os preços dos aparelhos chegaram a R$ 300 e não param de cair. "O potencial do Brasil é imenso, absurdo", resume Dilson Santos, o homem da distribuidora Fox responsável pela América Latina, que detém 24% do mercado brasileiro. "Não é por outro motivo que, nos últimos anos, todas as grandes distribuidoras se instalaram no País." A venda de DVD já representa 60% da receita da empresa no Brasil, contra 40% da venda de ingressos de cinema.
Em termos quantitativos, o Brasil já é o oitavo mercado do mundo para o varejo de filmes em DVD. Ultrapassou o México no ano passado, empatou com a Espanha e avança. Esse sucesso, em boa medida, deve-se aos preços praticados no Brasil. "Temos os DVDs mais baratos do mundo", afirma Oceano de Mello, fundador da distribuidora Versátil, especializada em filmes de arte. Aqui, filmes e shows são lançados com preço em torno de R$ 40, enquanto na Europa eles custam o equivalente a R$ 100 e nos EUA algo próximo de R$ 75. Mesmo a diferença de poder aquisitivo entre brasileiros e consumidores do primeiro mundo não tem sido capaz de esfriar a demanda. No ano passado, foram lançados no País 519 títulos. Filmes como A Paixão de Cristo, da Fox - que sairá em DVD nos próximos dias - tem um potencial de venda que o mercado avalia em até 300 mil cópias. Já O Leopardo, da Versátil, uma obra-prima do diretor italiano Luchino Visconti, é um sucesso, tendo vendido, no lançamento, quatro mil cópias. As distribuidoras americanas detêm 90% do mercado, mas, mantidas as proporções, há espaço para todos - pelo menos enquanto as vendas crescerem como estão crescendo.
"Duplicamos nossa área de venda porque a demanda está aumentando muito
rápido", diz João Diniz, diretor da Fnac. Com seis mil títulos na prateleira, a cadeia francesa faz com os DVDs mais de um terço do seu faturamento de música e vídeo. A Fnac é uma das maiores vendedoras do Brasil, embora a liderança nesse segmento, como em quase tudo, esteja com os hipermercados e magazines. A força desses varejistas, aliás, demonstra acima de tudo que o hábito de colecionar filmes não está mais restrito às classes A e B. Prenuncia-se um final cada vez mais feliz à aventura do DVD no Brasil. Ivan Martins - IstoÉ Dinheiro
Escola Darcy Ribeiro forma roteiristas
9/8/2004
Cerca de um ano e meio depois de iniciar suas atividades, a Escola de Cinema Darcy Ribeiro começa a colher frutos, ao anunciar a finalização dos primeiros roteiros de longa-metragem, originais, assinados pelos seus alunos.
O curso de roteiro da Escola Darcy Ribeiro começou em março de 2002 com 18 alunos, dos quais 14 fizeram os três semestres previstos. A formação incluiu não só aulas sobre roteiro propriamente ditas, mas também sobre crítica, fotografia e aspectos da dramaturgia, entre outros.
A parte prática evoluiu da adaptação de argumentos, até o desenvolvimento de roteiros de curtas e longas-metragens originais. Os poucos que desistiram o fizeram por conta de viagens ou de seus estudos universitários.
- Existe uma depuração natural, porque há quem chegue aqui pensando em ser escritor, e depois vê que não tem nada a ver - observa o roteirista Paulo Halm, professor da escola.
Interesse por curso reflete sucesso do cinema nacional, diz Jorge Durán
O perfil dos alunos que concluíram o curso é variado: houve um equilíbrio entre o número de homens e mulheres, mas a idade variou de 16 a 57 anos. Há desde pessoas que já trabalham com cinema até estudantes e corajosos iniciantes.
- Tem havido um interesse crescente nas chamadas áreas de cabeça do cinema, que são roteiro e direção - diz Jorge Durán, também professor da escola. - É um reflexo do sucesso do próprio cinema brasileiro.
Atriz e formada em Comunicação, Márcia da Justa chega ao fim do curso de roteiro depois de completar os três módulos. Após passar anos acumulando escritos aleatórios, Márcia conclui seu curso após ter adaptado um roteiro para longa, escrito cinco curtas originais, e finalmente terminado seu longa, "Futura", ficção-científica que envolve tráfico de drogas nos subterrâneos de um Rio de Janeiro futurista, daqui a 20 anos.
- Foi uma vitória. Nunca imaginei que teria talento para escrever um longa - diz Márcia, que pretende, algum dia, tocar o filme com outros amigos, gente, segundo ela, que também está começando. - Tenho a idéia desta ficção científica há uns dez anos na minha cabeça. Acho interessante o gênero, porque praticamente ninguém se interessa em produzir algo assim no Brasil.
Já Liliane Silva, autora do roteiro do longa "Labirinto", pretende continuar seus estudos em outras áreas e eventualmente dirigir seu próprio roteiro.
- Estou entrando em contato com produtores, para inscrever o projeto na Lei Rouanet - diz Liliane, que afirma já ter uma empresa interessada e sonha em começar a rodar o longa em dois anos. - Estou certa de que vou fazer este filme, que trata da solidão do indivíduo na sociedade.
Acostumado a escrever contos desde garoto e já tendo até livro publicado, Gustavo Galanternick é um daqueles que se surpreenderam com o caráter menos literário do curso de roteiro. Mas não abriu mão do sonho e tem em mãos "Anjo Gabriel", roteiro que fala da falta de sentido do homem diante da vida, numa trama que envolve o polêmico tema da eutanásia.
- Minha intenção é apresentar em concursos, levar a produtores - adianta Galanternick, que, antes de concluir o roteiro do longa, escreveu textos originais de curtas, e adaptou um outro roteiro de longa-metragem. - Antes de levar adiante meus planos, quero começar um curso de direção.
Com 150 alunos, escola quer ampliar cursos para categorias técnicas
Segundo Halm, que é formado pela Escola de Cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), o curso da Darcy Ribeiro tem como vantagem o foco mais preciso em diferentes áreas de interesse:
- Este é o grande diferencial em relação às outras escolas. Aqui busca-se a profissionalização, pode-se fazer cursos completos em três ou quatro anos, e pular semestres dispensando disciplinas de tronco comum.
Com um total de 150 alunos e 30 professores, a Escola de Cinema Darcy Ribeiro está com inscrições abertas. Anualmente a escola realiza laboratórios com profissionais de fora que funcionam como avaliação externa de seu trabalho. Além do curso de roteiro e direção, a escola pretende passar a se dedicar também à formação de profissionais da área técnica.
Para Halm, outro resultado positivo desses três semestres de atividades é o aproveitamento de alunos: o próprio roteirista contratou dois estudantes para ajudá-lo no desenvolvimento de um projeto de longa-metragem que ele já encaminhou ao Ministério da Cultura.
- Aqui é um ponto de encontro - comemora Halm. Eduardo Simões - O Globo
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Cultura
Gil apresenta sistema nacional de cultura no Espírito Santo
6/8/2004, 10:46
Brasília - O ministro da Cultura, Gilberto Gil, apresentou, no Espírito Santo, o Sistema Nacional de Cultura criado pelo governo federal. O ministro também participou do lançamento do Plano Estratégico Cultural do Estado. Foram assinados convênios e termos de operação técnica para identificação de bens culturais, intercâmbio e estágios para estudantes universitários, reformas e restaurações de prédios históricos.
O ministro recebeu da presidente do Sindicato dos Artistas um documento com as 13 principais reivindicações da categoria, entre elas o pedido de descentralização das verbas federais e mais facilidade do acesso da classe artística à Lei Rouanet, de incentivo à cultura. Segundo o ministro, é preciso estreitar o diálogo com a classe empresarial para incentivo aos artistas. "Vamos ter uma reunião com os empresários, no sentido de fazê-los entender os benefícios de estarem aderentes a esse mecanismo, trabalharem com o mecanismo da lei de incentivos", disse o ministro em reportagem apresentada no Jornal NBR Manhã, da TV acabo da Radiobrás. Portal da Cidadania - Radiobrás
Exercícios da memória
8/8/2004
Em entrevistas inéditas, Henri Cartier-Bresson fala sobre a sua relação com os amigos e a arte
Em entrevistas inéditas, Henri Cartier-Bresson, morto na última terça, aos 95 anos, fala de seu trabalho, de seus amigos, de suas relações com a imprensa, de sua agência e de seu gosto pela arte.
Tivemos vários encontros com Henri Cartier-Bresson, a partir de 1990, em seu apartamento iluminado na Rue de Rivoli. às vezes para uma entrevista ao "Monde", várias vezes pelo simples prazer de conversar com ele. Algumas das entrevistas foram gravadas. De vez em quando Cartier-Bresson recusava o gravador. "Faz bem trabalhar a memória", dizia.
Os jornais e a época
Dizem que os jornais dos anos 50 eram melhores do que os de hoje. Era a saúde do mundo que estava melhor. Hoje nos pedem que vivamos em segunda mão. Alguns dias atrás eu estava no TGV (o trem de alta velocidade). à minha frente, uma mulher lia uma revista de psicologia. Eu disse a ela que, no meu tempo, as pessoas se falavam nos trens e aprendiam psicologia dessa maneira. Ela riu. Concordou comigo. Ter tempo, tomar tempo para fazer as coisas, foi o único luxo de minha vida. As pessoas apressadas são infelizes. Cioran já disse que a morte nunca exigiu que se marcasse uma hora para ela. O que me alimenta é a imprensa escrita, o ponto de vista dos redatores, os comentários. Leio os jornais diários para ficar em contato com a vida do dia-a-dia. Não leio o tipo de revista em que as mulheres são inatingíveis.
Um ganha-pão
Para mim, a imprensa foi apenas um ponto de apoio. Ela me permitiu viver, foi um ganha-pão. Convivi muito bem com a imprensa. Durante minhas reportagens, antes e depois da guerra, eu fotografava todos os dias, mas não tinha nem tempo nem vontade de me interessar pela publicação das fotos. A agência Alliance Photo, antes da guerra, e a Magnum, no pós-guerra, se encarregavam de vender as imagens. Eu passava três quartos do tempo viajando, não via as fotos publicadas. Meu tesouro de guerra não é a imprensa, é a exposição e o livro, o lado visual.
O "Ce Soir", de Aragon
Nos anos 30 trabalhei durante alguns meses para o diário comunista "Ce Soir", de [Louis] Aragon. Foi lá que conheci Robert Capa e Chim Seymour, com os quais fundei a agência Magnum, depois da guerra. éramos os fotógrafos credenciados do jornal. Aragon nos deixava totalmente à vontade. Vivíamos à margem da sociedade; o dinheiro de um era o dinheiro do outro. Ao nosso lado havia outros fotógrafos, colegas sindicalizados. O "Ce Soir" me enviou a Londres, juntamente com Paul Nizan, para cobrir a coroação do rei Edward 8º. Foi quando fiz aquela foto de pessoas dormindo num parque.
Em 1934, um amigo organizou em sua casa uma reunião contra o coronel de La Roque. Havia muitos intelectuais, Guehenno, talvez Malraux, todos os surrealistas, menos Aragon e Sadoul, que tinham viajado a Kharkov, na União Soviética, para um congresso. Sabemos o que foi feito deles -o movimento surrealista foi denunciado nesse congresso, que marcou a ruptura entre os comunistas, que seguiram Aragon, e os surrealistas, que seguiram Breton. Eu, de minha parte, me sentia próximo de um ideal comunista, um pouco como os primeiros cristãos. Depois mudei um pouco de idéia com a leitura do livro de Gide sobre a URSS.
Mas não sou um homem de partido, sou um revoltado. Assim, não cheguei a conhecer verdadeiramente Aragon, que se desentendeu com os surrealistas. Quanto a Breton, a última vez em que nos vimos não foi bem. Jantamos juntos, e ele me disse: "Você que gosta de Cézanne", esboçando um movimento como se fosse me dar um soco no queixo. Respondi: "Sim, e daí?". Breton respondeu: "Esse sr. nunca teve a coragem de dizer à sua mulher que, para pintar banhistas, era preciso contar com corpos femininos de verdade". Breton tinha um ponto de vista tão moral... Depois disso ele falou mal de Alberto Giacometti. Foi o fim. Alberto era meu mestre em termos de pensamento.
Manipulação das revistas
Para mim, as imagens devem ser mudas. Elas precisam falar ao coração e aos olhos, não devem ser ligadas ao texto. Podemos fazer uma imagem na imprensa dizer qualquer coisa. Mostrei minha foto do papa à minha mãe, que era uma mulher religiosa que lia os pré-socráticos, Demócrito, Heráclito, Espinoza. Ela disse que era minha foto mais religiosa. Um amigo me declarou, pelo contrário, que era a mais anti-religiosa possível. Então... A imprensa ilustrada aproveita essa ambiguidade das imagens para manipular. Com freqüência, ela faz mais comunicação do que jornalismo.
A agência Magnum
Quando criamos a Magnum, eu e Chim Seymour nos perguntávamos como faríamos para que Capa pudesse sobreviver, ele que vivia em grande estilo, oferecendo refeições suntuosas. éramos ingênuos. Na verdade, foi ele quem nos fez sobreviver. Chim imaginou os estatutos e a organização da Magnum, mas era Capa quem negociava os contratos com os jornais. Ele o fazia muito bem -e como! Eu ficava espantado com seu dom da palavra. Capa não era comerciante, mas jogador de pôquer. Se Chim e eu tivéssemos ido aos jornais para falar de dinheiro, teríamos sido lamentáveis.
é preciso lembrar que o mundo era outro, não havia televisão. Como imaginar, quando me vi na China no momento da revolução, que não havia outros fotógrafos comigo? Quando parti para a URSS, em 1954, não foi para a "Paris Match", mas para a Magnum. Foi apenas mais tarde que a reportagem saiu na revista.
Devo muitíssimo à Magnum. Especialmente pelos arquivos, que constituem a riqueza da agência. Sabíamos que nossos arquivos eram nossa "segurança". O problema são os vínculos entre a imprensa e o dinheiro, especialmente com a publicidade. Espero que o lado aventureiro da Magnum continue presente sempre. Numa empresa pequena, é preciso permanecer aventureiro.
Um trabalho político
As exposições permitem que se dê forma ao conjunto de imagens. é a força do documentário, poder conferir forma a um tema. Mas saber o que esse conjunto prova, não sei nada. Dou meu testemunho de que estive lá e que vi aquilo. Sou herdeiro de uma tradição, a de Walker Evans. Tomemos o caso da globalização, que me apavora. O problema é que a Leica não pode dar conta dela. Acho que não se pode fazer um trabalho diretamente político com a máquina fotográfica. Não posso provar com minha máquina, posso apenas testemunhar a partir da vida de todos os dias. Aliás, existe um buraco na Magnum, que é a guerra da Argélia.
Nunca pus meu trabalho a serviço de uma idéia. Tenho horror às imagens que defendem uma tese. é o subconsciente que joga, e é preciso respeitá-lo. Querer "pensar" alguma coisa -não, não e não! As pessoas estão fartas de idéias. Como se houvesse um prêmio por ser inteligente.
Não tenho nada a provar -eu vi isso, eu vi aquilo. Confio no homem, mas acho a sociedade lamentável. Por outro lado, não há dúvida de que vejo aquilo que outros não enxergam. Corremos, suamos e fazemos fotos. Existem os fotógrafos como eu, que sofreram duas doenças profissionais, nos joelhos e na coluna vertebral. E existem os fotógrafos conceituais, que pensam. Essa noção de artista é definida pela burguesia do século 19 -Haydn tinha que mostrar que tinha as mãos limpas como as das pessoas da casa.
Dizem que sou surrealista. Sem dúvida, mas poucas pessoas compreendem que sou o surrealista da realidade. As pessoas acham que, para ser surrealista, é preciso obrigatoriamente colocar uma lata de lixo na cabeça. Meu sogro me disse um dia: "Henri, você não tem bom senso!". O bom senso não foi uma qualidade primordial para os surrealistas. O surrealismo não é o chapéu engraçado, é mais do que isso.
Música, arte, cinema
Ouço música o tempo todo enquanto trabalho -jazz, música clássica. Na escola, eu tocava flauta para não precisar jogar futebol. Um dia meu professor, que era do Conservatório, me disse que eu não tinha ouvido. Foi ele quem me incentivou a fazer outra coisa: desenho, pintura. Durante toda a minha vida, sempre que eu ia fotografar em um país, minha recompensa era ir aos museus. Foi ali que compreendi que fazer um retrato significa representar a si mesmo. Nos retratos feitos por Avedon, é Avedon quem eu vejo.
Mas, você sabe, a fama... Me irritava com alguém que me perguntava se tal pintor era conhecido. Respondi que ele provavelmente era conhecido por seu zelador e pelo serviço de informações. No cinema, que aprendi em 1935, com Paul Strand, há um discurso a conduzir, pois você nunca vê a imagem: é preciso ordenar as frases, conhecer a gramática. é um discurso com imagem. Enquanto isso, na fotografia, há o lado aventureiro e existe sempre a preocupação da geometria.
"Jesuíta protestante"
Falar de mim não interessa a ninguém. O que vale é a atitude, aliada a uma certa cultura. Eu leio muito, é uma maneira de viver. Mas sou reservado. Quando se fala de mulheres, eu enrubesço. Jean Lacouture me dedicou seu livro sobre os jesuítas: "A um jesuíta protestante".
Medo da morte? Da morte, não, mas do sofrimento, sim, penso nisso a toda hora. é normal. Nos EUA me sinto pouco à vontade, porque não se fala da morte. Prefiro o México ou a Espanha, onde existe uma continuidade natural entre a vida e a morte. Durante uma exposição da Magnum em Londres, respondi a uma pessoa que não me reconheceu e que me fez uma pergunta sobre HCB. Eu disse: "Ele morreu faz tempo e era um safado. Pergunte aos fotógrafos -eles lhe dirão por que".
Tenho horror da segregação entre jovens e velhos. Perguntei à loja da prefeitura até quando era válido um cano que eu tinha acabado de comprar. "Até 1995." Respondi que tenho 82 anos e que o cano ainda vai durar muito tempo. Um negro alto me olhou fixamente: "82 anos!". Eu o olhei e lhe disse que, quando tinha 21 anos, quase morri em seu país por causa de uma febre. Como ele ficou surpreso, acrescentei: "Você deve ser da Costa do Marfim". Ele respondeu: "Sim. Venha me contar a história num café. Para nós, os velhos são a memória". Eu lhe falei da áfrica que conheci, falei de Céline, palavra por palavra. Espero comunicar uma alegria e uma esperança de viver. Pois, se sou ladrão -e eu teria gostado de ser Arsène Lupin, mas não sou tão talentoso assim-, sou um ladrão que doa. MICHEL GUERRIN, DO "MONDE", Tradução de Clara Allain - Folha de São Paulo
Alvos múltiplos
8/8/2004
Depois de Renato Aragão - que concordou com a crítica -, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros vai investir contra outros comediantes.
João Kleber, Chico Anysio e Tom Cavalcanti também serão instados a deixar de explorar estereótipos negativos de homossexuais.
O cerco aos três será público. Ricardo Boechat - Jornal do Brasil
Funarte lança projetos para teatro, dança e circo
7/8/2004, 15:41
São Paulo - A Funarte (Fundação Nacional de Arte) lançou três projetos para beneficiar o teatro, a dança e o circo: a Caravana Funarte de Circulação Regional Sudeste/Sul, o Prêmio Funarte de Dramaturgia 2004 e o Prêmio Funarte de Estímulo ao Circo.
A Caravana, que já teve uma etapa na região Nordeste, ajudará companhias de teatro e dança a mostrar seus espetáculos em várias cidades de sua região. Serão selecionados até 80 grupos das regiões Sul e Sudeste, com prêmios totalizando R$ 3,3 milhões.
"Pensamos em priorizar a circulação porque, além de cumprir o papel de democratizar o acesso à produção cultural e conseguir descentralizar essa produção para outros lugares do país, tem alguns aspectos importantes com relação ao próprio fomento. Hoje, a manutenção e a duração dos espetáculos de teatro e dança das companhias brasileiras é muito curta. Eles podem ter uma vida muito maior. A circulação garante essa sobrevida", explicou o presidente da Funarte, Antônio Grassi.
O Prêmio Funarte de Estímulo ao Circo é destinado a companhias circenses em atividade no país nos últimos dois anos. O valor do prêmio foi ampliado de R$ 390 mil para R$ 1 milhão. "O circo é uma ferramenta poderosíssima de inclusão, de diálogo entre todas as artes e de circulação. É fundamental que a gente possa fazer uma política mais consistente para a área do circo", destacou Grassi.
Estimular o surgimento de novos autores, renovando a dramaturgia nacional, e a formação de platéia. Este é o principal objetivo do Prêmio Funarte de Dramaturgia, que na edição deste ano premiará os autores por região, nas categorias Teatro Adulto e Teatro Infantil. Os primeiros colocados receberão R$ 15 mil; os segundos, R$ 12 mil; e os terceiros, R$ 10 mil, nas duas categorias. Segundo Grassi, os principais critérios de avaliação dos projetos são a qualidade e o alcance mais amplo. "É preciso que sejam bons projetos, não só na qualidade da apresentação, mas no seu conteúdo", observou. Liésio Pereira, Repórter da Agência Brasil - Brasil Agora - Portal da Cidadania
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Política
Parceiros em um linchamento moral
7/8/2004
Quando Luiz Inácio Lula da Silva se elegeu presidente, este jornal sustentou que a grande mudança previsível na política brasileira seria a do papel da oposição. Entre o pleito e a posse do candidato vitorioso, o espetáculo da mais civilizada transição administrativa a que o País poderia aspirar apenas fortaleceu o prognóstico de que o PSDB e o PFL não tratariam o governo do PT com o misto de truculência, primarismo e desdém pelo interesse público que marcou, inesquecivelmente, o comportamento do PT diante do governo da coligação PFL-PSDB. Hoje está claro que era ilusória a expectativa de que os costumes políticos nacionais passavam por uma bem-vinda metamorfose.
Assim como o governo Lula proporcionou aos brasileiros a grata surpresa de dar continuidade às diretrizes da gestão macroeconômica dos anos Fernando Henrique, a nova oposição surpreende, só que desalentadoramente, ao reproduzir o padrão deletério do então oposicionismo petista. Anteontem, nos Estados Unidos, em mais de uma das suas constrangedoras trapalhadas verbais, o presidente Bush disse que o seu governo jamais "parará de pensar em novas maneiras de prejudicar nosso país e nosso povo". No Brasil, é o que tucanos e pefelistas parecem fazer - conscientemente - ao buscarem se aproveitar do noticiário que pretende incriminar o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles.
Mesmo que sejam dissidentes petistas os responsáveis pelo vazamento dos supostos delitos de Meirelles, a oposição se associou, com indesculpável leviandade, ao espalhafato produzido por um tipo de jornalismo que atira primeiro e pergunta (às vezes) depois. Equivalessem as acusações a Meirelles ao flagrante dos malfeitos de Waldomiro Diniz, o protegido do ministro José Dirceu, nem a imprensa nem os políticos sérios poderiam ter agora uma atitude diferente da que tiveram naquela ocasião. O Estado não hesitou em defender o afastamento do ministro até a apuração cabal dos atos de seu apadrinhado promovido a assessor da Casa Civil. E apoiou uma CPI para o caso.
Mas o escândalo de agora se caracteriza pela porosidade das denúncias apregoadas trefegamente por força da concorrência entre duas revistas. Istoé abriu o placar "denunciando" - como se fosse crime - que o então superexecutivo do BankBoston, residente nos Estados Unidos, tinha domicílio fiscal naquele país e domicílio eleitoral em Goiás (onde viria a se eleger deputado em 2002 pelo PSDB). Veja empatou, uma semana depois, com a procuração a um primo para que vendesse um imóvel de sua propriedade e sendo o primo apanhado pela Polícia Federal com R$ 32 mil em dinheiro. A mesma Veja fez 2 x 1 com o envio de US$ 50 mil de uma conta nos EUA, não declarada à Receita, para uma conta cujos titulares seriam doleiros paulistas. Ontem, Istoé conseguiu empatar com a compra de um terreno de 34 mil metros quadrados registrado pelo valor simbólico de R$ 0,01.
As respostas de Meirelles têm sido convincentes. Enquanto viveu na América pagou ali os impostos devidos; de volta ao Brasil, foi tributado pelo Leão.
Os reais em poder de seu primo se referiam a uma transação com um terreno em Piracicaba. E os US$ 50 mil saíram de uma conta aberta em agosto de 2002 e encerrada no mês seguinte, por isso não aparecem na sua declaração de bens em 2003, e foram para a conta indicada por um prestador de serviços, quando preparava a sua mudança para o Brasil, sem que nada soubesse sobre os seus titulares. (Não havia resposta para a última denúncia quando redigimos este editorial.) A defesa mais robusta do presidente do BC é também a mais singela. "Sou um homem rico. Cheguei a ganhar US$ 5 milhões em um ano", argumenta. "Por que iria dar mutretas de R$ 32 mil ou fazer remessas ilegais via doleiros?"
Confrontando o que se tem levantado contra ele com as suas explicações - e com a colossal diferença de escala entre a sua fortuna de origem conhecida e as nebulosas irregularidades que lhe atribuem -, ninguém de boa-fé dirá que Meirelles é um sonegador. À luz dos fatos conhecidos, nem é tecnicamente correto dizer que as acusações a Meirelles são "muito graves" (Agripino Maia, líder do PFL no Senado) nem, ainda menos, que "a autoridade dele já está corroída" (Artur Virgílio, líder do PSDB no Senado).
é da natureza do linchamento moral que a vítima sucumba não às acusações, mas ao seu barulho. "Vai ser uma denúncia por dia", antecipa Meirelles. Se isso acontecer, será uma vitória do jornalismo de tablóide e de uma oposição que aposta no quanto pior, melhor. Editorial - O Estado de São Paulo
Mostrando a cara
7/8/2004
O governo dá sinais de já se sentir seguro para tentar introduzir partes do programa do PT
Não é incomum a qualquer governante deixar de explicitar suas razões substantivas na prática de gestão do Estado ou durante o processo político, fazendo da manifestação adjetivada, floreada de simbologias, seu meio de comunicação para captar simpatia e apoio heterogêneos, sempre difusos, normalmente majoritários e arredios a novidades. É menor o risco da dispersão, resultado de decisões plebiscitárias a cada vez que a opinião pública se vê confrontada por opções tipo ou preto ou branco - tanto mais arriscada ainda quando a escolha lhe é posta de improviso, sem prévia preparação.
Esta introdução vem a propósito do polêmico projeto de lei da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual, que o Ministério da Cultura fez divulgar certamente para ir preparando a sociedade para o novo e tomar o pulso das partes interessadas. O texto, que foi tratado ontem nesta coluna, traz um forte viés estatizante.
Imiscui, entre outras propostas desastrosas, o Estado em searas impróprias à sua atuação, como a liberdade de criação, e confere à nova agência, digamos, funções de um departamento de censura, quando o espírito da proposta é fomentar, proteger e difundir a produção cultural brasileira. Mais: cogita um imposto de 4% sobre a publicidade em TV, rádio, cinemas e internet, além de aluguel de vídeos e na venda de aparelhos de DVD e videocassete.
Expurgada de seus excessos, porém, a proposta expressa a síntese do programa do governo Lula para a cultura audiovisual, de filmes a produções de TV e rádio, em coerência com o plano defendido pelo partido durante a campanha presidencial. Os autores da versão à qual agora se dá a definição de preliminar é que foram inábeis ao tratar do assunto ao lhe conferir uma amplitude muito além daquilo que o governo Lula razoavelmente pode esperar aprovar no Congresso e junto à opinião pública. Mais assustou que entusiasmou.
Não se discute aqui a eficácia do modelo proposto, que não parece o mais apropriado até por não ser a cultura uma atividade de cunho estritamente empresarial para requerer uma agência regulatória nos moldes de uma Anatel, que regula e controla as telecomunicações. Disso, a coluna tratou ontem, como de outras seqüelas trazidas pelo anteprojeto da chamada Ancinev. O que chama a atenção é que o governo dá sinais de agora se sentir seguro para tentar introduzir partes do programa do PT ou, pelo menos, testar os limites para algumas das transformações prometidas em campanha e cujo adiamento tem sido motivo de frustração, se não do eleitorado geral que votou em Lula, da militância comprometida com o partido.
É possível ver tais sinais também na mudança de tratamento que se começa a dispensar ao planejamento da economia, uma área sensível e para a qual qualquer barbeiragem na direção - como as fintas dos auxiliares do ministro Gilberto Gil na pilotagem do projeto de lei da Ancinev -, pode provocar uma crise de grandes proporções. Onde então estão as sutilezas?
Exemplo: a criação da Comissão de Política de Desenvolvimento Econômico e a nomeação do ministro José Dirceu, que nunca se habituou à ortodoxia fiscal e monetária de seu colega Antonio Palocci - apenas assentiu taticamente - para dirigi-la. Indícios de mudança de tom há em toda parte, com o deslocamento do embate que dividia o governo e o PT em torno do apoio às medidas de disciplina macroeconômica, como o superávit primário e o regime de metas de inflação, para a concepção do modelo de desenvolvimento que se pretende empreender na reta final do mandato de Lula.
O pau pode comer
O núcleo de decisões do presidente busca uma composição entre o papel estilizado pelo mercado financeiro para Palocci e as idéias mais agressivas para o crescimento econômico defendidas pelo grupo liderado por Dirceu, aparentemente já liberto do trauma de seu ex-assessor Waldomiro Diniz, aquele flagrado extorquindo um bicheiro. Nestas discussões, fala-se em idéias ''mais criativas'', para não configurar um contraponto ao tripé da política macroeconômica, que se completa com o câmbio flutuante, que parece absorvido pelo PT.
A última resolução de seu diretório nacional, de 24 de julho, diz o professor José Márcio Camargo, aponta nesta direção ao excluir qualquer menção à transitoriedade da política exercida por Palocci e reconhecer que o ajuste fiscal é de longo prazo. ''A centralidade agora consiste em construir condições adequadas para que haja a retomada dos investimentos públicos, privados e estrangeiros'', define o documento petista. A avaliação de Camargo é que ''as divisões relevantes no governo'' deslocaram-se para a concepção das medidas que devem ser adotadas para garantir o desenvolvimento. E isto porque, segundo ele abstrai do documento, ''a cúpula do PT tem ainda uma visão pouco clara da nova agenda a ser buscada'', o que inclui as reformas microeconômicas e a visão intervencionista do estado como instrumento em favor do desenvolvimento.
Muito dos ruídos políticos das últimas semanas já refletem essa disputa, mas não a ponto, ainda, de despertar preocupação. Nem o superávit primário, alicerce central da gestão de Palocci, está em causa, nem a Fazenda se revela insensível aos apelos do PT por um crescimento mais robusto, tanto que acaba de anunciar um pacote de incentivos tributários que contemplam o investimento produtivo e as aplicações de longo prazo. As atenções devem voltar-se para a inflação em agosto e setembro: se houver repique e o BC replicar com o aumento da Selic, o pau vai comer. Antônio Machado - Correio Braziliense
Dirceu defende mais verba para PT
9/8/2004
O ministro José Dirceu (Casa Civil), em campanha eleitoral do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT) -que tenta a reeleição-, defendeu no sábado, no microfone da Rádio Favela, que as prefeituras petistas das capitais recebam 20% dos recursos distribuídos.
Entrevistado na rádio comunitária, Dirceu negou que o governo Lula privilegie os petistas dos grandes centros urbanos, mas disse ser "natural" que os prefeitos do PT recebam mais recursos, porque dirigem cidades que concentram grande contingente populacional.
"Alguns jornais nos criticam e dizem que nós privilegiamos as prefeituras do PT. Nós governamos oito capitais e quatro delas são as maiores: Recife, Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte. Se juntar, dá quase 20 milhões de habitantes. Então, é natural que também 20% dos recursos têm de ir pelo menos para essas cidades."
Usando outro argumento, que, sob sua ótica, justifica a distribuição das verbas, o ministro disse que "quase a metade" dos recursos do Fundo de Garantia "vem de São Paulo", que é administrada pela prefeita petista Marta Suplicy -em campanha pela reeleição.
Dirceu não explicou a origem dos 20% -se apenas dos recursos do orçamento para investimentos ou se conta também, por exemplo, verbas do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Paulo Peixoto - Folha de São Paulo
A CPI da discórdia
9/8/2004
Guerra entre tucanos e petistas tem como pano de fundo um CD com arquivos explosivos que vão muito além do que já revelaram as contas do Banestado
Nas últimas duas semanas, o PSDB viveu a confortável situação de ser estilingue. No Congresso, os tucanos cantaram alto a necessidade de os presidentes do Banco Central e do Banco do Brasil darem satisfações sobre suas mal contadas movimen-tações financeiras. Mas a mesma fonte que municia a oposição também pode armar o contra-ataque governista. O bangue-bangue tem como pano de fundo um CD com arquivos que servem tanto a gregos quanto a troianos.
A origem do CD - Em 1999, o delegado da Polícia Federal em Foz de Iguaçu (PR) Davi Makarausky foi pego em calças curtas pelos seus próprios colegas ao jogar de cima de um edifício na avenida Paulista, em São Paulo, um computador que continha informações sobre as movimentações do doleiro Silvio Roberto Amnspach. A manobra do delegado, que foi condenado a oito anos de prisão e expulso da PF, não teve, no entanto, o resultado esperado. Depois de juntar as peças do computador, os peritos conseguiram recuperar os arquivos que continham uma classificação misteriosa: "MTB, Banestado II." O mistério somente começou a ser desvendado em março deste ano, quando o chefe da Promotoria Distrital de Nova York, Robert Morgenthau, enviou à CPI do Banestado um CD com informações sigilosas do antigo MTB Bank de Nova York. Os arquivos do MTB, hoje absorvido pelo Hudson Bank, reúnem 750 mil operações de contas de passagem abertas por um grupo de 22 doleiros. São contas usadas para levar e trazer de paraísos fiscais dinheiro obtido por narcotráfico, corrupção e terrorismo. Ou seja, o MTB foi apelidado pelos doleiros de "Banestado II" porque substituiu o banco estadual do Paraná a partir de 1999, quando o organismo estatal foi fechado. A análise dos arquivos do MTB traz revelações ainda mais explosivas do que as contidas no antigo Banestado.
Em suas milhares de planilhas, a base de dados do MTB contém 1,5 milhão de operações financeiras clandestinas que comprometem milhares de empresários, criminosos de vários calibres e pessoas públicas do País. Tudo está armazenado em um CD e são informações capazes de provocar danos na imagem tanto de autoridades do governo Lula quanto de integrantes do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Alertado por sua assessoria desse poder destruidor, o relator da CPI do Banestado, deputado José Mentor (PT), com a cumplicidade de governistas e oposicionistas, escondeu os registros do banco americano durante quatro meses. Mas, alguém quebrou o sigilo. é com base nos dados contidos nesse CD que a oposição tem tirado o sono do governo atual ao disparar petardos contra os presidentes do Banco Central e do Banco do Brasil, acusados de movimentar dinheiro por contas da mesma rede de doleiros que trabalhou para criminosos como João Arcanjo Ribeiro e Fernandinho Beira-Mar. Entre os doleiros que migraram para o MTB estão o próprio Amnspach, Alberto Youssef, hoje preso por sonegação fiscal, e Dario Messer, que operou as remessas da turma do ex-fiscal fazendário do Rio de Janeiro, Rodrigo Silveirinha.
Mão dupla - Para a oposição, o CD é um prato cheio. Mas o mesmo CD também contém munições para que os governistas disparem contra tucanos. Nos arquivos do MTB há chumbo grosso contra personagens protagonistas dos principais escândalos que abalaram o governo de FHC. Os documentos atingem em cheio o ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio e Sérgio Luiz Augusto Bragança, sócio do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes, na Consultoria Macrométrica. Acusado de receber propina na condução da privatização das teles, Ricardo Sérgio, ex-tesoureiro de campanha do PSDB, deixou o governo em 1998 ao ser flagrado em um grampo do BNDES dizendo ao então ministro das Comunicações, Luís Carlos Mendonça de Barros, que agia "no limite da irresponsabilidade". Já Francisco Lopes foi acusado de manter, em 1996, US$ 1,6 milhão em contas no Exterior em nome de Sérgio Bragança.
As denúncias não são novas. ISTOé divulgou no ano passado a existência de indícios de que Ricardo Sérgio movimentava dinheiro por meio do doleiro Alberto Youssef. Os dados agora descobertos vão além dos indícios. No mundo da lavagem há uma técnica básica usada pelos doleiros para fugir da fiscalização: o dinheiro sujo tem de rodar em várias contas antes de chegar a seu destino final, em geral em paraísos fiscais. Dentro dessa lógica, a agência do Banestado em Nova York abrigava o que os peritos da PF chamam de "contas de segunda camada". Após receber o dinheiro dos laranjas de Foz de Iguaçu, as contas do Banestado se encarregavam de transportar o dinheiro para as contas de outros doleiros, que, em seguida, remetiam a dinheirama para paraísos fiscais. Essas escalas frequentemente impediam as autoridades de localizar as contas finais de políticos e criminosos nos paraísos fiscais. Tal problema não acontece com as informações do CD. Por estar duas camadas depois do Banestado, na maioria das vezes as contas abertas por doleiros no MTB alimentavam diretamente as contas finais. é exatamente isso que torna esse CD tão precioso.
No caso do tucano Ricardo Sérgio, as operações trazem detalhes de duas empresas ligadas ao ex-diretor do BB, investigadas pelo Ministério Público: a Consultatum e a Franton Interprise Inc., uma off-shore que movimenta contas milionárias nos EUA. A Consultatum chamou a atenção do Ministério Público ao comprar em 1999, por R$ 11 milhões, dois prédios da Petrus - o Fundo de Pensão dos funcionários da Petrobras. Embora a Consultatum esteja registrada em nome de Ronaldo de Souza, sócio do ex-diretor do BB, uma procuração anexada numa ação de improbidade administrativa contra Ricardo Sérgio mostra que era o ex-diretor do BB quem mandava na empresa. O documento assinado por Ronaldo de Souza dava a Ricardo Sérgio amplos poderes para vender os bens da Consultatum, ainda para movimentar suas contas bancárias. No entendimento do Ministério Público, o documento prova que Ronaldo, antigo funcionário de Ricardo Sérgio em uma de suas empresas, não passa de um testa-de-ferro. Os registros do MTB mostram a associação inequívoca entre a Franton Inc. e o testa-de-ferro Ronaldo. Várias remessas chegam a registrar o nome da empresa, sediada nas Ilhas Virgens, e de Ronaldo juntos como beneficiários. Em algumas operações, o nome de Ricardo Sérgio também aparece acompanhando a Consultatum. Além disso, a Franton é uma das empresas com as quais Ricardo Sérgio tem negócios. Em 1998, o ex-diretor do BB chegou a declarar ao Fisco ter feito uma doação de R$ 13l mil para a off-shore. Questionado pela Receita a respeito da transação, Ricardo Sérgio disse que o dinheiro se referia ao pagamento de um empréstimo com juros bancários. Nessa época, Ronaldo de Souza já usava o MTB para movimentar dinheiro por intermédio das duas empresas.
Agora, os dados do CD mostram que Ronaldo de Souza, Consultatum e Franton movimentaram por intermédio dos doleiros do MTB US$ 1,35 milhão de dólares em bancos americanos entre 1997 e 2002. As investigações das autoridades americanas revelaram que as duas empresas estão envolvidas nas chamadas operações privadas de câmbio. Ou seja, operações clandestinas de câmbio, feitas sem a autorização do Banco Central dos EUA. Essas transações tentam driblar o rastreamento das autoridades financeiras. O esquema funciona da seguinte maneira: tanto os doleiros como os correntistas possuem contas em bancos americanos. Se o investidor precisa que o doleiro envie o dinheiro para determinado paraíso fiscal, deposita nas contas dos doleiros do MTB, que se encarregam de completar a operação. Se necessitar internar dinheiro, o correntista faz a mesma transferência para a conta do doleiro nos EUA, que lhe entrega o dinheiro em espécie no Brasil.
Detalhes comprometedores - No caso da Consultatum, da Franton e de Ronaldo de Souza, as operações aparecem em detalhes na base do MTB. No centro das movimentações das duas empresas está a Kundo, uma off-shore aberta pelo doleiro paranaense Alberto Youssef e que movimentava a conta número 00030101301 no MTB. No dia 28 de novembro de 2000, por exemplo, Ronaldo de Souza enviou por intermédio da conta da Franton Intl Bank de Miami US$ 100 mil dólares para a conta da Kundo. Na operação, a própria Franton aparece como beneficiária da transação. No dia 21 de outubro de 1997, a Consultatum manda, por intermédio da Kundo,
US$ 800 mil para Ronaldo de Souza na mesma conta da Franton no banco de Miami. As provas contra o ex-diretor do BB são irrefutáveis: o nome de seu testa-de-ferro sempre aparece nas duas pontas da transação ao lado do nome da Franton ou da Consultatum, cujo endereço em São Paulo também é detalhado. A Consultatum tem o mesmo endereço da Planefin, uma das empresas de Ricardo Sérgio.
O mesmo esquema do MTB foi utilizado por Sérgio Luiz Augusto Bragança, sócio de Francisco Lopes, acusado de vender informações para o mercado financeiro. Segundo os dados armazenados no CD, o sócio de Chico Lopes enviou por intermédio da conta de doleiros cerca de U$ 350 mil para uma conta no banco de Nassau, nas Bahamas. Toda dinheirama passava pela conta da General Star, uma off-shore que recebia repasse de vários doleiros do Banestado. No dia 1º de janeiro de 2001, por exemplo, a General Star enviou US$ 40 mil para a conta de Sergio Bragança. O Ministério Público do Rio de Janeiro tem agora uma valiosa pista para perseguir o dinheiro de Bragança e tentar desvendar se há relação entre essas movimentações e o US$ 1,6 milhão de Chico Lopes.
Mais chumbo - De fato, tanto para o governo como para a oposição há farta munição. Disposto a provar que preside à CPI do Banestado com isenção, ao ser informado das novas denúncias por ISTOÉ, o senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT) disse que na próxima segunda-feira apresentará um requerimento em que convocará para depor Ricardo Sérgio, tesoureiro na campanha de Fernando Henrique para a presidência em 1994 e de José Serra para o Senado em 1996. Serra, aliás, também quer tirar proveito da história. Articulou com os tucanos a convocação de Paulo Maluf, seu adversário na atual disputa pela Prefeitura de São Paulo, também implicado no CD. Há mesmo muita nitroglicerina na base do MTB, que ainda não veio a público. Resta saber se governistas e oposicionistas sairão vivos dessa troca de chumbo ou se haverá algum acordo de cavalheiros. Amaury Ribeiro Jr. - IstoÉ
Reforço de peso
8/8/2004
A Secom de Luiz Gushiken sugeriu e a CBF concordou: Ronaldo e Roberto Carlos, os jogadores mais conhecidos no Haiti, iniciarão o amistoso do dia 18 jogando pelo Brasil, mas, no segundo tempo, atuarão alguns minutos pelo time da casa. Painel - Folha de São Paulo
Vamos incluir orelhas nos contratos
8/8/2004
Primeiro Zezé di Camargo e Luciano buscaram a via rápida: o Banco do Brasil entraria com R$ 500 mil no patrocínio da turnê nacional, que tornaria ainda mais popular o logotipo famoso. Um surto do que o governo considera "jornalismo denuncista" impediu o acerto e alguém teve a idéia salvadora: que tal se a bolada fosse dividida em fatias? O banco poderia, por exemplo, comprar pilhas de convites para shows da dupla, promovidos pelo PT? E assim se fez.
Para os apreciadores do gênero musical, Zezé di Camargo e Luciano estão entre os melhores da praça. Agentes da própria carreira, souberam administrá-la muito bem. E cuidaram com bastante competência da multiplicação do patrimônio. No Brasil, só enriquece quem é duro na queda. Isso sabemos que são, principalmente Zezé. Essa faceta foi escancarada entre dezembro de 1998 e março de 1999, nos 94 dias de duração do seqüestro do irmão caçula Wellington José Camargo.
Deficiente físico, com problemas de alcoolismo, vivia com a mulher em Goiânia ao ser capturado. Os episódios seguintes, marcados por cenas brutais, incluiriam a penosa exposição das almas em conflito. Zezé foi logo avisando que não haveria negociação. Cuidaria do caso a polícia, que começou a soltar, irresponsavelmente, balões de ensaio irresponsavelmente amplificados pela imprensa.
O primeiro insinuava que a vítima planejara o seqüestro. Os Camargo famosos pareciam mais indignados com a descoberta da existência do caçula incômodo do que com o sumiço de Wellington. Luciano, que na dupla faz a segunda voz, nem piou. Ficou uns tempos no exterior e depois caiu no colo dos pais, recolhidos a ruidoso silêncio. Ouviu-se perfeitamente só a voz de Zezé, chefe da dupla e da família.
- Quero meu irmão de volta - repetia num bordão sempre turvado com ressalvas. - Vivo ou morto - reiterava, por exemplo. - Os bandidos precisam saber que não temos tanto. Patrimônio é uma coisa, dinheiro vivo é outra.
Quanto queriam os seqüestradores? Calcula-se que acabaram recebendo, como resgate, entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, num epílogo sublinhado pelo horror.
O apresentador de TV Ratinho lançou em seu programa uma campanha para a coleta de contribuições. Mais de 150 mil espectadores enviaram donativos. Como a polícia insistia na tese de que lidava com amadores, os carcereiros resolveram mostrar que não brincavam em serviço. Mandaram aos familiares uma orelha de Wellington, decepada com faca de cozinha. Sem anestesia. E enfim Zezé aceitou pagar o exigido.
Meio milhão de reais, parece. A mesma quantia que a dupla pretendia ganhar do BB. Para Zezé, hoje amigo do presidente Lula, virou coisa pouca o dinheiro que considerava uma demasia como preço pela vida do irmão. As fatias já começaram a entrar, na forma de cachês. Dois shows foram feitos. Outros virão. Os contratos mereciam uma cláusula preventiva: se algo desse errado, o Banco do Brasil seria indenizado com alguma orelha da dupla.
O problema é que os diretores do BB andam muito mal no retrato. Zezé poderá exigir garantias semelhantes. Augusto Nunes - Jornal do Brasil
Carta marcada
8/8/2004
Tem endereço certo o empenho da Casa Civil em eliminar a exigência de diploma de nível superior para os diretores e presidente das agências reguladoras.
O alvo é o petista Keiji Kamashiro, ex-secretário-executivo do Ministério dos Transportes.
Seu destino é a Agência Nacional de Transportes Terrestres. Ricardo Boechat - Jornal do Brasil
Modesto
7/8/204
No debate de anteontem da Band, quando Carlos Nascimento disse que seria "o maior acontecimento político do ano na TV", o canal tinha 1,4 ponto no Ibope (menos de 70 mil domicílios na Grande SP). Estava em quinto, atrás da Globo, SBT, Record e Rede TV!. Na média, ficou em terceiro, com sete pontos. Laura Mattos - Folha de São Paulo
Lula pode usar TV para defender Meirelles
8/8/2004
Presidente do BC se diz 'exausto' de reagir a ataques, mas governo nem pensa em deixá-lo sair
BRASíLIA - O governo vai reforçar nesta semana a defesa do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Alvo de sucessivas denúncias produzidas pela oposição, Meirelles já demonstra impaciência em relação às pressões a que está submetido, sinal que tem preocupado o ministro da Fazenda, Antônio Palocci. No Palácio do Planalto, a ordem é dar cada vez mais visibilidade à chamada agenda positiva. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá até mesmo ir à TV para falar dos resultados extremamente favoráveis na economia em cadeia nacional.
Meirelles já avisou que pretende abandonar a estratégia do governo de ficar de plantão para responder a cada nova denúncia. "Estou exausto", disse ele no fim da semana em que foi alvo de uma super exposição na mídia.
O presidente do Banco Central admite que a tática da oposição, de submetê-lo a um desgaste incessante, tem cumprido o seu objetivo e dificilmente será interrompida antes das eleições municipais de outubro. Por isso, não vê mais sentido em ficar "24 horas no ar", dando explicações. Acha que, a partir de agora, quem tiver denúncia de sonegação fiscal contra ele deve ir direto à Receita Federal.
Pressão - Lula está convencido de que Meirelles merece apoio e não vai afastá-lo do cargo. "Nunca agi sob pressão e não vai ser agora que vou agir", disse ele, recentemente, a mais de um interlocutor.
Tanto Lula quanto Palocci avaliam que Meirelles tem dado justificativas "consistentes" para as acusações.
A Secretaria de Comunicação do Governo e Gestão Estratégica (Secom) chegou a analisar a possibilidade de Lula aparecer em cadeia nacional nesta semana para falar dos números positivos da economia e, indiretamente, defender Meirelles. Mas a estratégia pode ficar para uma segunda etapa. Motivo: o governo não quer passar a impressão de que está preocupado em demasia.
Em pleno inferno astral - ele completará 59 anos no dia 31 deste mês -, Meirelles ainda administra, como autoridade monetária, os vasos comunicantes entre as denúncias e o comportamento do mercado financeiro, que exibiu, na semana passada, os primeiros sinais de contaminação.
Copom - A situação é, de fato, delicada. Dentro de oito dias, o presidente do Banco Central estará presidindo a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) para definir a trajetória de juros do País. Para o governo, o ideal é que, ao longo desta semana, a "crise Meirelles" seja deslocada para as páginas internas dos jornais e que a chamada agenda positiva passe a ocupar lugar de destaque.
Conflito - O governo trabalha para que a atual onda de denúncias não comprometa a condução da política monetária."Seguramente, Meirelles saberá prestar esclarecimentos sobre tudo", afirmou o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP). Na prática, porém, o Planalto ainda tenta negociar a melhor data para a ida de Meirelles à Comissão de Fiscalização e Controle do Senado.
"Ele virá aqui, mas não para falar apenas desse episódio. Vai abordar também os ótimos resultados da economia", argumentou Mercadante.
O presidente do PT, José Genoino (SP), que ficou ostensivamente fora do conflito, admite que sua preocupação, no momento, é exclusivamente com a campanha eleitoral. Para ele, as denúncias contra Meirelles não passam de fofoca. "Essa turma da oposição pensou que ia ser fácil vencer as eleições e agora está vendo que vai perder. Aí apela, mas não estou nem aí", disse Genoino, dando de ombros. SHEILA D'AMORIM e VERA ROSA - O Estado de São Paulo
Uma iniciativa temerária
8/8/2004
A prefeita Marta Suplicy contratou 8 empresas para a construção de 24 Centros Educacionais Unificados (CEUs), no valor de R$ 480 milhões. O detalhe é que as obras só começarão em 2005, quando não se sabe quem estará à frente da Prefeitura. Seja por excesso de confiança, seja por qualquer outra razão, a prefeita vinculou as ações do futuro governo no setor educacional aos seus escolões, obras de resultados ainda polêmicos.
A iniciativa da prefeita Marta Suplicy foi planejada em detalhes. Os contratos com as empreiteiras (cada uma delas receberá R$ 60 milhões, em média) foram assinados em 30 de abril, data-limite estabelecida pela Lei de Responsabilidade Fiscal para que prefeitos contraíssem obrigações de despesas que não podem ser pagas naquele mesmo exercício fiscal ou que tenham parcelas previstas para o exercício seguinte, sem que haja verba disponível para o pagamento.
Marta Suplicy quis perpetuar sua bandeira eleitoral e, mesmo na próxima administração, esteja ou não na Prefeitura, quer ver a continuidade da "reforma" educacional que iniciou, ainda que à força.
Em entrevista à Rede Globo, na quarta-feira, Marta Suplicy anunciou que seu interesse é criar a rede CEU na cidade. "O que quero é poder construir mais 24 CEUs e não ter nenhuma criança da rede municipal que não participe dessa infra-estrutura que potencializa a criança", afirmou.
Se o próximo prefeito eleito não quiser dar continuidade aos CEUs terá de indenizar pesadamente as empreiteiras, segundo especialistas em direito administrativo. A Prefeitura, no entanto, contesta. "Esse risco não existe, porque a gente não deu autorização para o início das obras", explicou ao jornal Folha de S.Paulo a secretária da Educação, Maria Aparecida Perez.
Segundo a professora de direito administrativo da USP Odete Medauar, mesmo sem o início das obras, as construtoras poderão comprovar prejuízos com a contratação de mão-de-obra e a aquisição de material e obter altas indenizações, que comprometerão ainda mais a situação financeira da Prefeitura.
O vereador Roberto Tripoli (PSDB) informou que os novos CEUs oferecerão 57 mil vagas. Cada escolão custará R$ 20 milhões. Segundo ele, o total de recursos previstos para cobrir os novos contratos seria suficiente para assegurar a oferta de 270 mil vagas em escolas convencionais.
A política educacional da atual administração se baseou em ações capazes de assegurar forte apelo popular e visibilidade política. Da distribuição de uniformes à construção dos CEUs, a orientação da prefeita Marta Suplicy para o setor sempre teve caráter assistencial e não propostas claras de orientação curricular e capacitação de professores.
Em distribuição de material escolar e de uniformes foram investidos R$ 38,9 milhões, em 2003, para atender os 850 mil alunos do ensino fundamental e infantil. O transporte gratuito para 102 mil crianças custou R$ 69,1 milhões - esse, sim, considerado útil para os alunos.
A evasão escolar caiu quase pela metade desde o final do governo Celso Pitta. é um bom resultado do transporte gratuito, do Bolsa-Escola e da melhoria da merenda, mas não reflete melhoria da qualidade do ensino.
Nem justifica a atitude da prefeita de tentar obrigar o próximo governo, que pode não ser o seu, a seguir uma política educacional de resultados mais que duvidosos. Editorial - O Estado de São Paulo
Godofredo Pinto (PT)
8/8/2004
Criação de um Conselho municipal de Cultura, de uma lei de incentivo à cultura e de uma Diretoria de Captação de Recursos na Secretaria de Cultura.
Criação da Escola Municipal de Artes, para alunos de escolas públicas e particulares, e de espaços para ensino de teatro.
Manutenção dos projetos atuais, como "Aprendiz", selos Niterói Discos e Livros e Caminho Niemeyer.
Manutenção dos 2% atuais dos recursos municipais para o setor (cerca de R$ 10,3 milhões)
Criação de um pólo audiovisual, unindo Faculdade de Cinema da UFF e Centro BR de Cinema.
União do Rota das Artes e do Artes de Portas Abertas.
Realização do II Musifest.
Qualificação da reserva técnica do MAC.
Gegê Galindo (PSDB)
Criação de um pólo de cinema.
Criação de um grupo teatral numa comunidade carente.
Incentivos fiscais para casas noturnas e bares que investirem em apresentações musicais.
Revitalização de bandas de música dos colégios.
Criação de festivais de música.
Ampliação do projeto "Aprendiz".
Construção de um centro cultural na Zona Norte.
Revitalização do carnaval, com criação de escolas profissionalizantes.
Criação de uma escola de circo.
Heitor Fernandes (PSTU)
Inclusão de disciplinas artísticas como música, dança e cinema no currículo escolar.
Extensão da meia-entrada em ingressos para desempregados e para todos os estudantes.
Criação de tendas circenses e de uma escola de circo.
Criação de um Conselho Popular e Socialista de Arte, para discussão da fatia da cultura no orçamento municipal; o conselho seria criado por um projeto de lei de iniciativa popular, instrumento previsto na Lei Orgânica municipal que não precisa passar pela Câmara se houver um número x de assinaturas da população.
Criação de rádios e TVs comunitárias.
Apoio a manifestações da cultura negra e popular. O Globo
Ministros do PT farão propaganda do governo nas campanhas municipais
8/8/2004
O PT nacional prepara uma agressiva estratégia de marketing para divulgar as realizações do governo Lula nas disputas eleitorais nos municípios. Em comerciais para a televisão, depoimentos, mensagens para o rádio, cartazes e folhetos, ministros petistas farão propaganda do governo. O material, idealizado pelo publicitário baiano Duda Mendonça, ficará à disposição dos candidatos a prefeito do PT para ser usado como peça de propaganda.
As peças publicitárias contarão casos de sucesso dos programas federais, especialmente na área social. O pacote de redução de impostos, anunciado na última sexta-feira, será um dos principais temas. Com a ofensiva, o PT opta por federalizar as campanhas municipais.
A mudança de estratégia foi motivada pelos resultados positivos na economia, registrados este ano, e que deverão ser explorados ao máximo. No Rio de Janeiro, o candidato Jorge Bittar já adotou a nova estratégia:
- O começo foi difícil, mas o presidente está mostrando a que veio. Baixou os impostos e os supermercados estão baixando o preço dos alimentos - discursou ele para candidatos a vereador de sua coligação ontem de manhã na Uerj.
Cesar vai à favelas com Gabeira e recebe passe
O deputado Fernando Gabeira (sem partido-RJ) estreou ontem na campanha do prefeito Cesar Maia (PFL). Petista até o ano passado, andou com Cesar em duas favelas encravadas na Floresta da Tijuca. Queria conferir se as intervenções do programa Favela-Bairro respeitaram o meio ambiente e disse ter gostado do que viu. Cumprimentou eleitores, com quem tirou fotos. Só não pediu votos.
Na Favela Mata Machado, , Cesar foi a um terreiro de umbanda em plena sessão. Cumpriu o ritual à risca: esperou ser convidado para entrar, abraçou o pai-de-santo e tomou um passe. Ao sair, agradeceu a hospitalidade e foi aplaudido:
- Obrigado por me receber. Peço, mais do que qualquer coisa, a oração de vocês. Lydia Medeiros - O Globo
PT aposta na estrela do Planalto
8/8/2004
Petistas acreditam que a geração de empregos e as ações do governo federal nas áreas de saúde e segurança vão beneficiar seus candidatos nos grandes centros urbanos, prioritários para o partido
A cúpula do PT aposta no crescimento econômico e na imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para alavancar as candidaturas petistas às prefeituras. Especialmente nos grandes centros urbanos, que são a prioridade do partido nas eleições. Mas, como apenas a ligação com o governo federal não garante o topo das pesquisas e muito menos a vitória na eleição, os petistas também investem na qualidade das equipes de campanha e na trajetória de seus candidatos.
Desde que a retomada do crescimento econômico deu os primeiros sinais, governistas e oposição trocaram de lado. Dirigentes petistas aceitaram o desafio lançado pelos adversários e nacionalizaram a disputa. ''Como os principais problemas da população são emprego, segurança e saúde, o desempenho do governo federal nessas áreas vai influenciar positivamente as candidaturas do PT'', garante Sílvio Pereira, secretário-geral do partido e coordenador do grupo de trabalho eleitoral.
Essa tendência, diz Pereira, está favorecendo o partido nas grandes cidades. Cita a liderança do PT em Aracaju (SE), Santo André (SP), Porto Alegre (RS), Guarulhos (SP), Recife (PE), Ipatinga (MG), Diadema (SP) e Santa Maria (RS). Segundo o monitoramento do PT, os candidatos petistas garantirão uma vaga no segundo turno em São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG), Gravataí (RS), Niterói (RJ), Mauá (SP) e Belém (PA). Nessas cidades, os dirigentes avaliam que o partido tem efetivas possibilidades de vitória eleitoral.
Três cidades são consideradas problemáticas: Rio de Janeiro (RJ), Campinas (SP) e Ribeirão Preto (SP). Nesses municípios, segundo Sílvio Pereira, o ambiente nacional acaba neutralizado por fatores locais. ''O caso do Rio de Janeiro é atípico, pois a esquerda está muito dividida. Lá nós temos a governadora Rosinha e o (Anthony) Garotinho (PMDB), tinha o Brizola e ainda temos a Jandira (PCdoB)'', avalia. ''Mas acreditamos que nosso candidato pode crescer com o horário eleitoral. No Rio de Janeiro, nunca uma eleição terminou como começou'', acredita, minimizando o favoritismo do prefeito Cesar Maia (PFL), candidato à reeleição.
Estar ligado ao presidente Lula, porém, não é suficiente para sair na dianteira das pesquisas. O deputado Jorge Bittar (PT) tem contra si o fato de o Rio de Janeiro ser um dos lugares onde a avaliação da administração federal contrariou a tendência, e caiu. O histórico da votação petista lança mais luzes sobre o cenário carioca.
O cientista político Cesar Romero Jacob, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), explica que, ao contrário do que ocorre em São Paulo, Lula não consegue transferir votos para os candidatos a prefeito no Rio. Nas quatro eleições à Presidência da República que disputou, de 1989 a 2002, Lula aumentou gradualmente o volume de votos na capital carioca. No primeiro turno, os percentuais de votação começaram com 12,1% na primeira disputa para alcançar 47,2% em 2002.
Em 1996, o candidato do PT, Chico Alencar, no entanto, obteve apenas 21,7% dos votos. Menos do que Lula, dois anos antes (27,2%). Em 2000, Benedita da Silva, a candidata petista, nem passou perto da votação do então candidato a presidente. Obteve 22,6% dos votos, enquanto Lula, em 1998, já tinha chegado ao patamar de 42% da votação na capital do estado. ''A melhoria das condições econômicas favorece os candidatos do PT, mas isso não é tudo. Entram questões locais e até fatores imponderáveis'', justifica Jacob.
Qualidade na equipe de campanha também é fundamental. Por enquanto, o único palpite a que a diretora de Opinião do Ibope, Márcia Cavallari, prefere arriscar é o de que as campanhas petistas têm obtido bons resultados. ''O momento crítico é quando começa o horário eleitoral gratuito na TV e no rádio'', justifica. Helayne Boaventura e Luiz Carlos Azedo - Correio Braziliense
Hegemonia tem limites
9/8/2004
Há uma contradição entre a hegemonia petista e o amplo consenso político existente em torno do Estado brasileiro, que nada tem a ver com os ideais socialistas do PT
O PT pode não ter um programa de governo, mas tem um projeto de poder duradouro, centrado na reeleição de Lula e, caso viabilize o espetáculo do crescimento, na eleição de um dos atuais cardeais petistas para sucedê-lo - o sonho de 20 anos de poder. Numa ordem democrática, é um projeto tão legítimo quanto a alternância de poder, nas eleições de 2006, no caso de um fracasso do governo Lula, como sonha o PSDB.
A estratégia petista de conservação do poder desenvolve-se, hoje, em três esferas de relações: a econômica, onde busca transitar de uma política de estabilização para uma agenda de desenvolvimento; a política propriamente dita, em que o partido disputa posições nas principais prefeituras do país para calçar suas relações no Congresso Nacional e conquistar os governos estaduais; e junto à chamada sociedade civil, no sentido restrito das instituições não-estatais, onde o partido, desde sua origem, procura seduzir corações e mentes.
O xis do problema, na estratégia petista, é a tal da hegemonia. Um conceito que os cientistas políticos universalizaram e que, entre os marxistas, tem as mais diversas interpretações, do dirigismo estatista russo de Lênin à construção do consenso político do italiano Antônio Gramsci. A rigor, a hegemonia se exerce pela superioridade de força, em qualquer circunstância, mas no plano político se traduz pela existência de um Estado amplamente aceito e reconhecido pela sociedade. Por isso, a Revolução Francesa é a marca registrada dos estados nacionais e dos regimes republicanos, tal como os conhecemos hoje.
O problema do PT, no governo Lula, é que o partido representa os interesses de trabalhadores urbanos e rurais e das camadas médias assalariadas, onde tem suas raízes históricas, cujas reivindicações não podem ser plenamente atendidas a curto prazo. Para isso, há limitações estruturais, principalmente na economia, e institucionais, pois as velhas elites brasileiras continuam controlando a vida do país. Não é um problema novo, pois a esquerda européia, no poder, enfrentou o mesmo dilema. A solução que encontrou foi jogar fora o antigo programa social-democrata e administrar a vida como ela é.
É mais ou menos o que o presidente Lula está tentando fazer, com apoio principalmente do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e que os setores dissidentes do partido chamam de ''transformismo''. Segundo eles, Palocci opera uma ''revolução passiva'', na qual o empresariado - tanto o capital financeiro, como os chamados ''setores produtivos'', nacional ou estrangeiro, sem exceção -, que conhece tão bem o PT das greves e campanhas salariais, administra uma nova forma de convivência com o poder. Afinal, se o governo é outro, o Estado é o mesmo.
Há uma outra contradição, estritamente política, entre a hegemonia petista e o amplo consenso existente em torno do Estado brasileiro, que nada tem a ver com os ideais socialistas e as mudanças defendidas pelo PT. Esse consenso gravita em torno das tradições políticas republicanas, tantas vezes suprimidas ou ameaçadas, que podem até parecer envelhecidas, mas são conquistas democráticas da sociedade brasileira, inclusive das esquerdas.
Trocando em miúdos, o predomínio do PT no governo Lula não significa que suas idéias sejam hegemônicas em relação ao Estado brasileiro, cujos fundamentos são federativos, positivistas e liberais. O uso do poder para impor decisões contra esse consenso político-social vira hegemonismo puro e simples. Agride o bom senso da opinião pública, fragiliza alianças políticas e gera turbulências institucionais, como está acontecendo com alguns projetos polêmicos do governo, nas mais diversas áreas: arrecadação, saneamento, imprensa, audiovisual, etc...
Para promover mudanças estruturais nas relações das União com os estados e do governo com a sociedade é preciso uma nova textura hegemônica: uma teia favorável de instituições, relações sociais e idéias. E a construção de um novo bloco político com força de fato transformadora, o que não se consegue através do dirigismo estatal, nem de alianças políticas conservadoras. Neste aspecto, com sinal trocado, as limitações do PT no governo Lula são as mesmas enfrentadas pelo PSDB no governo Fernando Henrique Cardoso. Nada avança sem um certo compromisso entre ambos. Luiz Carlos Azedo - Correio Braziliense
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Literatura e Mercado Editorial
Fenômeno Da Vinci
9/8/2004
Best-seller "O Código Da Vinci" gera movimento de resistência e livros que contestam teorias conspiratórias
Quinze milhões de livros vendidos no mundo todo, número um nas listas de mais vendidos na Inglaterra, nos Estados Unidos, Alemanha, Argentina, Brasil e outros países, traduzido para 42 idiomas e com um filme já em andamento, nas mãos da mesma equipe (o diretor Ron Howard e o roteirista Akiva Goldsman) que transformou a história do matemático John Nash em "Uma Mente Brilhante", Oscar de melhor filme de 2002. O comportamento do best-seller "O Código Da Vinci" não difere de muitos livros que passaram do mercado editorial para o imaginário popular, sempre com cifras de oito ou nove dígitos.
A linguagem ágil e a narrativa cinematográfica dada por seu autor Dan Brown também o aproximam de outros popstars da zona do crepúsculo entre o cinema e os livros, como Stephen King, J.K. Rowling, Robert Lundlum e John Grisham. Mas é o conteúdo de "Código" que o torna tão alienígena tanto nas prateleiras quanto futuramente nas salas de cinema.
é que o livro acompanha as aventuras do professor de Harvard Robert Langdon e da criptóloga parisiense Sophie Neveu, que se encontram após o assassinato do curador do museu do Louvre. Seguindo uma série de pistas deixadas de formas estratégicas, os dois aos poucos desvendam o que chamam de "a maior conspiração da história": que a Igreja Católica foi fundada sobre o segredo de que Jesus Cristo era um simples mortal (casado, e com filhos, com Maria Madalena) e que sua santidade foi aferida séculos após sua morte, para justificar a própria existência da igreja.
Pelo livro, os dois protagonistas se guiam por pistas deixadas em quadros de Leonardo da Vinci, cujo clássico "A Última Ceia" seria uma grande piada contada sob o nariz da Igreja Católica, sem que esta percebesse. Ainda cruzam o livro sociedades secretas como a Opus Dei, os Cavaleiros Templários e o Priorado de Sião, esta última dedicada a passar, pelos séculos, a verdade sobre o Vaticano. A história ainda é temperada por assassinatos, autoflagelação, rituais mágicos e o clima de thriller policial que faz Brown parecer uma espécie de Umberto Eco pop.
O nervo cutucado pelo livro surtiu efeito e pode ser medido além do sucesso editorial de "Código", em várias publicações que surgiram a partir deste. São mais de doze livros publicados sobre o tema, quase todos mostrando que as argumentações de Brown são falhas ou incríveis, esquecendo-se que o livro pertence ao território da ficção. Dois destes livros acabaram de chegar ao Brasil: "Quebrando o Código Da Vinci", do professor Darrell L. Bock, e "Revelando o Código Da Vinci", de Martin Lunn (veja quadro).
"A maior parte do material usado por Brown veio do livro "A Irmandade Secreta e o Santo Graal" ("Holy Blood, Holy Grail", de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, de 1983) ou foram emprestadas preguiçosamente de algumas idéias em aulas de religião sobre Jesus dadas em universidades", explica Bock, que enfatiza não ser católico.
"Há, na verdade, três grandes falsas acusações quando nos referimos à igreja", diz o autor. "A primeira é que Jesus foi casado com Maria Madalena e teve filhos. A segunda é que a divindade de Jesus foi votada em um conselho fechado no início do século 4. A terceira é que os quatro evangelhos da Bíblia foram escolhidos a partir de 80 outros evangelhos porque eles consideravam Jesus divino", conclui Bock.
Ele segue rebatendo cada uma das acusações. "Primeiro, não há nenhum texto que diz que Jesus foi casado. Na verdade, teólogos liberais e conservadores concordam que Jesus não foi casado. Tal concordância é rara e quando ocorre é muito provável que o assunto seja correto."
"A divindade de Jesus foi afirmada em seu próprio tempo, por seus seguidores diretos", diz o professor Bock. "Há inclusive uma carta de um governador romano do século 2 que reporta cristãos cantando hinos para Jesus como Deus, e isso 200 anos antes da data que Dan Brown afirma que este assunto foi resolvido. Além disso, duas pessoas do Conselho de Nice, que era composto por 216 ou 316 pessoas, votaram contra a afirmação que lá foi defendida. Não há números corretos sobre a quantidade de pessoas que compareceram. Os votos foram abertos."
"Quanto à terceira acusação, há apenas 12 evangelhos dos séculos 2 e 3 além dos evangelhos bíblicos do primeiro século, e não 80, e eles contam muito pouco sobre Jesus. Alguns desses textos têm uma teologia diferente da cristã, por isso foram rejeitados. Por exemplo, em alguns textos, Jesus riu no paraíso porque as pessoas achavam que estavam crucificando Jesus, mas de acordo com estes textos, não era ele quem foi crucificado porque Deus não pode ter carne humana." Alexandre Matias - Folha de São Paulo
Livros culpam bancos por fracassos
9/8/2004
Autores apontam instituições financeiras como responsáveis pelas crises econômicas na Argentina
Nos últimos anos, os argentinos parecem exorcizar os males do passado pela literatura. Desde o colapso econômico de 2001, uma série de lançamentos vêm dissecando os fracassos econômicos do país. Em quase todos os livros os bancos são apontados como principais protagonistas das crises e saqueadores das riquezas -ou pelos menos como importantes atores.
O jornalista Adrián Murano conta em "Banqueiros, os Donos do Poder", o mais recente lançamento, uma série de negociatas que permitiram que, pouco antes do "corralito" (o sistema que congelou os depósitos bancários em 2002), os bancos autorizassem 144 cancelamentos de depósitos fixos no valor de US$ 83,6 milhões.
Resultado de 50 entrevistas e dois anos de pesquisas em material das comissões parlamentares, Murano detalha como, por mais de um século, os bancos desenvolveram um mecanismo padrão na Argentina que consistiria em emaranhar-se no poder e no sistema produtivo, influenciar a elaboração das leis, sugar os recursos, muitas vezes por meio de corrupção, e sair ilesos, protegidos pelas leis que ajudaram a criar.
O livro de Murano vai da influência do magnata do início do século passado Ernesto Tornquist na negociação da dívida com os credores britânicos do Baring Brothers -o primeiro "default" da Argentina- à participação do Banco Geral de Negócios, do Banco Galícia, do BankBoston e do Citibank na longa história de endividamento do país e na onda de privatizações dos anos 90, quando, segundo o autor, todos foram investigados por corrupção.
"Citibank versus Argentina, História de um País em Bancarrota", escrito pelo jornalista Marcelo Zlotogwiazda e pelo contador público Luis Balaguer, lançado no ano passado, dedica 460 páginas a relatar como a presença do principal banco norte-americano na Argentina se confunde com a história do país.
"A primeira sucursal do Citibank aberta fora dos EUA foi a de Buenos Aires, em 1914, o que mostra o que era a Argentina para o imperialismo emergente norte-americano naquele momento", diz Zlotogwiazda.
Segundo os autores, "o livro ajuda a entender como a Argentina passou de uma das nações mais poderosas e promissoras do mundo, quando aqui desembarcou o Citibank, ao país quebrado, com miséria e sem futuro certo que é atualmente". Cláudia Dianni - Folha de São Paulo
Mito forte
8/8/2004
EM ROTEIRO DOS ANOS 60 Só AGORA PUBLICADO EM LIVRO, O CRíTICO ROLAND BARTHES DISCUTE A RELAçãO DO HOMEM COM O ESPORTE
Entre a publicação de "Mitologias" (1957) e o lançamento de "Sobre Racine" (1963), Roland Barthes recebeu um curioso convite: escrever a narração de um filme documentário sobre esportes. O convite foi feito por um jovem diretor canadense, Hubert Aquin, numa carta despachada de Montreal em 4 de abril de 1960. "Minha intenção não é fazer a história do esporte, mas sobretudo, digamos, sua fenomenologia e sua poética", escreve Aquin, que mais tarde trocaria o cinema pela literatura. Barthes aceitou o convite. Aquin foi encontrá-lo na França, e, depois, o crítico visitou o Canadá para conhecer o hóquei, o único dos esportes citados no filme que ainda lhe era estranho. Além do hóquei, o filme trataria de outras quatro modalidades: as touradas, as corridas de carro, o Tour de France (ciclismo) e, claro, o futebol.
Em 1º de junho de 1961, "O Esporte e os Homens" estreou na TV canadense, numa série chamada "Tempo Presente". E nunca mais se falou do filme.
Só agora esse roteiro perdido no tempo -que não foi nem sequer incluído nas "Obras Completas" de Barthes- chegou às livrarias do Canadá e da França. "Le Sport et les Hommes" (Les Presses de l'Université de Montréal, 80 págs., 13 euros) é um pequeno, charmoso e comovente livro de 80 páginas, com o comentário de Barthes (1915-1980), as cartas de Aquin (1929-1977) e fotos esportivas da época. Em seu prefácio, Gilles Dupuis o qualifica como sendo um conjunto de "mitologias inéditas", referindo-se à obra que consagrara Barthes no final dos anos 50 e que ainda hoje é uma de suas mais lidas.
Sem dúvida, há ecos das "Mitologias" (ed. Difel) no roteiro, mas as diferenças entre eles são o que mais surpreende. No roteiro, Barthes abandona a perspectiva política (de fundo marxista) e a mordacidade crítica (de laivos brechtianos) de seu livro famoso -que buscava desnaturalizar certos mitos da sociedade de massa e revelar seu fundamento ideológico- em prol de uma análise em tom quase épico e de cunho singularmente humanista sobre a relação dos homens com o esporte.
No roteiro, Barthes procura o inatual nos esportes -o mito no sentido forte. "Todo nosso esporte moderno está contido nesse espetáculo de uma outra era, herdeiro dos antigos sacrifícios religiosos", escreve sobre a tourada, no início do filme.
O esporte moderno não nasce da sublimação da violência de homens contra homens, mas é a estilização de disputas míticas que eles travam contra inimigos comuns: contra o animal -e "a ignorância, a necessidade"- (na tourada), contra o tempo (na corrida de carros), contra a natureza (na corrida de bicicletas do Tour de France).
O esporte é um modo espetacular (para quem o pratica e quem assiste a ele) de saber qual é o melhor dentre os homens, qual possui maior domínio de si, da técnica, qual tem mais capacidade para dominar as coisas. "Quem se sai melhor em vencer a resistência das coisas, a imobilidade da natureza? Quem se sai melhor em trabalhar o mundo, oferecê-lo aos homens... a todos os homens?", escreve Barthes no extraordinário trecho sobre o futebol, reproduzido a seguir.
Onde encomendar
"Le Sport et Les Hommes", de Roland Barthes, pode ser encomendado, em SP, na livraria Francesa (0/xx/11/3231-4555) e, no RJ, na livraria Leonardo da Vinci (0/xx/21/2533-2237). Alcino Leite Neto, Editor de Domingo -Folha de São Paulo
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Programação de TV por Assinatura
Atrito põe luta no pay-per-view
7/8/2004
A transmissão da luta de Popó em pay-per-view a um preço médio de R$ 50 foi causada por desentendimentos com a TV Globo, segundo representantes do pugilista (DirecTV, TVA e o canal Premiere transmitem o combate ao vivo). é a primeira vez que uma defesa de título do brasileiro não é exibida pela TV aberta no país.
"[A Globo] tratava Freitas como um atleta de segunda classe. Quando comentou um combate para a emissora, disse que nem as passagens aéreas pagaram", aponta Arthur Pelullo, promotor do brasileiro. "E, em 2002, a Globo disse que exibiria unificação com Joel Casamayor. Dois dias antes da luta, disseram que fôssemos procurar outra emissora -não encontraríamos. Tivemos de aceitar valor três vezes menor."
Agora, até os "highlights" provocam confusão. "A Globo não mandou ninguém para cobrir a luta, disse "talvez da próxima vez". Agora querem que cedamos de graça os "highlights". Se exibirem sem pagar, processaremos", ameaça Stephen Stim, que negocia as lutas de Popó com as TVs.
Popó isolou-se da confusão. "Como lutador, eu nada tenho contra a TV Globo", analisou.
A Central Globo de Comunicação informou que não passará a luta porque sua proposta, cujo valor seria equivalente ao de seus últimos combates, não foi aceita. Acrescenta que "as afirmações do time de Popó não são reais e que a Globo não divulga, nem comenta detalhes de contratos". Folha de São Paulo
HBO vai co-produzir sua segunda série no Brasil
9/8/2004
Depois de 'Mandrake', com a Conspiração, empresa investe em 'Carnaval', com a O2
Além da série Mandrake, em parceria com a Conspiração Filmes, a HBO tem mais um projeto no Brasil. Carnaval é o nome da atração que a empresa está co-produzindo com a O2 e que deve estrear no segundo semestre de 2005 - após o lançamento de Mandrake, que está previsto para o primeiro semestre do ano que vem.
Carnaval desmitificará o universo carnavalesco do País ao mostrar os bastidores dos desfiles das escolas de samba. Apesar da temática, a atração não seguirá a linha documental, mas trará imagens dos desfiles, uma vez que as filmagens vão começar em fevereiro, bem na época da grande festa popular.
Os bastidores do carnaval aparecem na trama a partir da história de uma família envolvida com "negócios ilegais", nas palavras do vice-presidente de Programação, Aquisição e Produção da HBO na América Latina, Luis Peraza - e família de bicheiros, para o entendimento do leitor. "Eles estão envolvidos no carnaval, não?", pergunta Peraza, apesar de já saber a resposta. "A dinâmica do carnaval será pano de fundo para a história, que achamos interessante", diz. "A série também será monumental em termos de visual."
Tanto o elenco de Mandrake - série em 13 capítulos inspirada nas histórias do escritor Rubem Fonseca - como o de Carnaval devem contar com artistas renomados, a exemplo de Epitáfios, co-produção da HBO com a Pol-Ka Producciones, de Buenos Aires. O suspense portenho conta com a estrela Cecilia Roth, que já trabalhou com Pedro Almodóvar, entre outros nomes consagrados naquele país. Peraza afirma que a escolha de elenco ainda não foi definida e que novidades devem ser anunciadas em outubro.
Epitáfios foi filmada em película (16 mm), recurso cinematográfico pouco usado em TV, e as duas produções brasileiras devem seguir esse mesmo rumo.
Na série argentina, a HBO usou dois diretores: Alberto Lecchi e Jorge Nisco.
Já aqui no Brasil, a direção de Carnaval será do cineasta Cao Hamburger, criador do Castelo Rá-Tim-Bum. No caso de Mandrake, serão vários os diretores encarregados dos episódios, que serão histórias fechadas.
Investimento - O impulso para a HBO investir em co-produções com Brasil, Argentina e México surgiu do exemplo que, há muito tempo, dá certo nos Estados Unidos. "Estamos há 10 anos no Brasil e há 14 anos na Argentina. Durante esse tempo, acompanhamos o processo da HBO nos Estados Unidos, com as séries Os Sopranos, Band of Brothers - de Steven Spielberg e Tom Hanks -, Sex and the City, Six Feet Under...", explica Peraza. "Hoje a programação nos EUA é tão sólida, que a estratégia mais lógica é seguir a mesma linha."
O vice-presidente, no entanto, faz ressalvas. "O mercado latino-americano é menor, menos homogêneo, mais difícil, mas há a possibilidade de firmar a marca HBO como algo distinto", afirma Peraza, que sabe que o público é exigente e que, devido à situação econômica dos países latinos, a TV por assinatura deve ter um diferencial para fazer com que o telespectador se disponha a "tirar dinheiro do bolso para ter a HBO." Etienne Jacintho - O Estado de São Paulo
Televisão para Homens
11/8/2004
A partir de janeiro de 2005, entra no ar no Brasil um canal voltado exclusivamente para a audiên-
cia masculina. é o FX, criado pela Fox Latin America, que será distribuído via operadoras de TV por assinatura. O novo canal de variedades será dirigido a homens das classes sociais A e B, na faixa de 18 a 49 anos. A programação é pautada por assuntos tidos como de interesse masculino: lançamentos em aparelhos eletrônicos, carros, videogames, fitness e estilo na área de consumo e comportamento. Haverá, ainda, séries e filmes de ação, como 24 Horas e Arquivo X - além de esportes e, é claro, programas de apelo sensual. Fernanda Galvão - IstoÉ Dinheiro
ABTA
8/8/2004
A mais importante feira de TV por assinatura do país, que será realizada esta semana, em São Paulo, vai ferver. Uma das novidades a ser anunciada é a criação do canal Telecine Pipoca, só com filmes dublados. O Telecine Happy será extinto.
Mais canal novo
O grupo Fox também vai anunciar o lançamento de um canal, de variedades, que estará no ar em janeiro. E a Turner revelará em que operadora entrará o Turner Classic Movies.
Reforma total
Na feira estarão ainda executivos da Universal, para falar da transformação do USA em Universal Channel. O canal ganhará novas séries, incluindo "Medical detectives", sobre o trabalho de médicos que ajudam a desvendar crimes; e "Touching evil", série policial produzida por Bruce Willis.
Brasil no E!
Já o E! anunciará na ABTA sua nova apresentadora: a brasileira Bel Mota. Outro brasileiro, um médico que vive em Beverly Hills, será a estrela da edição de estréia do novo reality show do canal, sobre cirurgia plástica.
Outra da feira
Tem mais: programas do Discovery estarão disponíveis em breve para os usuários de uma poderosa empresa de telefonia celular.
Matt Groening: Criador na tela
No episódio "My big fat geek wedding", que faz parte da temporada de "Os Simpsons" em cartaz atualmente no Fox, o criador da família de Homer, Matt Groening, aparecerá dando autógrafos durante uma convenção realizada em Springsfield.
MTV 2
Zico Góes, diretor de programação da MTV, anunciou durante uma coletiva, em São Paulo, que o segundo canal da grife (cuja grade está praticamente fechada) deverá entrar no ar no Brasil em maio de 2005. O MTV 2 será pago e dirigido a um público mais velho que o da emissora UHF. Proposta parecida com a do Multishow Bis.
Comilança
O GNT vai trazer outra série com o chef inglês Jamie Oliver: é "Happy days live", em que ele cozinha diante de uma platéia.
Outros sotaques
Bia Corrêa do Lago já está gravando a nova temporada do "Umas palavras", que estréia no Futura daqui a um mês. Os primeiros convidados serão escritores estrangeiros que participaram do Festival Literário de Paraty, como o angolano José Eduardo Agualusa.
Bis
Duas séries já conhecidas do público brasileiro entrarão na grade do Fox: "Sex and the city", que chega ao fim no Multishow dia 23, e a comédia "Grounded for life", exibida pelo Sony. Lilian Fernandes - O Globo
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Telecom
Novo regulamento não colide com a LGT, afirma consultoria
6/8/2004
O gerente da Value Partners, Marco Bochi, empresa contratada pela Anatel para auxiliar na formulação dos regulamentos de interconexão e separação de contas, afirmou hoje, 6, que a nova regulação, que passará a diferenciar as operadoras entre as que detêm poder significativo de mercado (PMS) e aquelas que não serão controladas, não colide com a Lei Geral de Telecomunicações, embora alguns juristas entendam o contrário. Bochi admitiu, no entanto, que essa nova forma de regular o mercado não está prevista na LGT. Para ele, o arcabouço regulatório brasileiro está atrasado frente às experiências dos demais países. Bochi explicou ainda que a Anatel decidiu adotar critérios de custos diferenciados para as redes fixas e móveis (custo incremental para as fixas e histórico para as móveis) porque, além da rede móvel se renovar em muito menos tempo, a Agência decidiu proteger a base dos pré-pagos. Miriam Aquino - Telecom Online
Intelig será vendida para uma das teles locais
6/8/204, 17h05
Os bancos UBS e Deutsche Bank, principais credores da dívida da Intelig, recusaram a proposta de pouco mais de US$ 170 milhões para compra da espelho feita pelo grupo de investidores representado por José Carlos Cunha, ex-presidente da operadora. "Eles assumiram a postura de que pretendem vender a Intelig para uma das três concessionárias locais brasileiras", informou Cunha, que esteve reunido com os banqueiros nesta semana, em Nova York. Vale ressaltar que a proposta feita pelo seu grupo de investidores não era toda em "cash".
As últimas informações que circularam no mercado há alguns meses era de que a Telefônica, dentre as três teles locais, seria a principal interessada na Intelig.
Marvin Getlan
Cunha finalmente revelou o nome do principal investidor por trás de sua proposta para compra da espelho. Trata-se de Marvin Getlan, um milionário norte-americano. "Ele ainda está interessado em investir no Brasil e analisará novas oportunidades", disse Cunha. Segundo o executivo, havia também um outro grupo investidor envolvido, cujo nome não pode ser revelado. Da Redação - TELETIME News
Voz na rede
11/8/2004
Telefonia pela internet cresce e ameaça hegemonia das operadoras
Uma nova tecnologia batizada de Voz sobre internet (VoIP) está ganhando clientes em todo o mundo. Concorrentes menores estão conseguindo ofertar a preços reduzidos serviços de telefonia atualmente sob controle das grandes operadoras, que já perceberam a ameaça. Na telefonia pela internet, as ligações dispensam os cabos e trafegam pela rede como se fossem e-mails. Dois fatos ilustram bem o atual cenário. Nos Estados Unidos, duas das maiores companhias desse setor, a AT&T e a Verizon, agiram na tentativa de entender o que está acontecendo ao seu redor. A Verizon foi mais ousada. No início de agosto iniciou um serviço no qual os consumidores pagarão US$ 40 por mês e poderão fazer quantas ligações desejarem na internet. No Brasil, a Primeira Escolha, uma operadora lançada na semana passada, oferecerá algo semelhante em escala nacional, iniciando pelo mercado de São Paulo. De casa ou do escritório qualquer pessoa pagará em média 50% menos nas chamadas interurbanas ou internacionais. Ao discar de
seu telefone o código 24, o cliente da Primeira Escolha se comunicará com seu destino como se estivesse conectado ao seu computador. "As pessoas mudarão a maneira como enxergam o mercado de telecomunicações", afirma Mario Leonel Neto, diretor da Primeira Escolha.
Há várias maneiras de aplicar essa tecnologia no dia-a-dia, mas seu grande atrativo é para empresas com filiais ou subsidiárias espalhadas no mundo. "Nesses casos, a redução de custos pode ser de 20 a 40 %", afirma Marcelo Lopes, executivo da Siemens. Até agora empresas em todo o planeta gastaram US$ 4,9 bilhões na adaptação da infra- estrutura para a tecnologia VoIP. Este ano, os investimentos irão crescer em 48%. No Brasil uma em cada quatro grandes companhias já faz alguma experiência com a telefonia pela internet. é o caso do laboratório farmacêutico Pfizer. Houve redução de custos e aumento de produtividade. Os vendedores da Pfizer ganharam flexibilidade ao manter o mesmo número comercial em viagens ou quando estão fora do escritório. Nessas situações, as chamadas não atendidas caem direto na caixa postal do e-mail ou podem ser acessadas com a ajuda de um software no computador conectado à internet. "é uma maneira moderna de usar o sistema de telecomunicações que está modificando as relações de trabalho", afirma Carlos Borges, engenheiro da Cisco, a empresa líder na implantação dessa tecnologia na América Latina. O mercado é tão atraente que já chama a atenção de companhias de tv por assinatura, como a Net Serviços das Organizações Globo e do empresário mexicano Carlos Slim, dono da Embratel. A idéia é colocar telefonia pelo mesmo cabo que leva o sinal da tv e dessa forma conquistar clientes para o mercado em ascensão. Juliana Mariz - IstoÉ Dinheiro
Mais lenha
8/8/2004
Os fundos de pensão que participam da Brasil Telecom vão exigir, na Justiça, que o banqueiro Daniel Dantas informe quanto gastou para contratar os serviços de espionagem da agência de detetives Kroll.
Em seguida, cobrarão a devolução do dinheiro aos cofres da holding de telefonia. Ricardo Boechat - Jornal do Brasil
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Comunicação & Educação
No Sul, um centro de formação de professores
8/8/2004
Iterra é a mais antiga organização educacional do MST e atrai candidatos de todo o País
VERANóPOLIS - O Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária - Instituto de Educação Josué de Castro (Iterra) é a mais antiga organização educacional do MST. Fundado em janeiro de 1995, mantém cerca de 350 alunos em quatro andares de um antigo seminário na cidade de Veranópolis, a 170 quilômetros de Porto Alegre. Em mais quatro Estados (Paraná, Bahia, Pernambuco e São Paulo), o Iterra mantém outros 300 alunos conveniados com instituições de ensino superior.
Seus cursos formam basicamente professores de nível médio (curso normal ou magistério) nas habilitações de comunicação popular, agente comunitário de saúde, alfabetização e administração de cooperativas. Os estudantes vêm de todas as partes do Brasil e moram na escola durante o período de aulas, que pode se estender por até quatro anos.
"Estou aqui para ajudar nossas comunidades depois de concluir os estudos", diz a sem-terra Elizabete, que veio do Pará enfrentar o frio da Serra gaúcha para cursar a escola técnica de saúde. A turma "Ernesto Che Guevara", da qual ela faz parte, se formou neste sábado, depois de três anos e meio de estudos.
A rotina do Iterra é puxada. O regime de ensino inclui cinco horas diárias em sala de aula, além de estudos complementares e trabalho voluntário - na agroindústria ou no panifício mantidos pela entidade - para auxiliar na manutenção e na conservação do instituto. O desempenho escolar é acompanhado periodicamente, além dos professores, por representantes do MST. Para ingressar em alguma turma, os candidatos precisam ser escolhidos pelo grupo ou organização a que estiverem ligados.
Regime - Os alunos despertam às 6h45 ao som da rádio do MST, que toca músicas e divulga informações gerais. As aulas ocorrem de manhã ou à tarde. No outro turno, os alunos podem cursar oficinas de habilidades manuais, como artes ou artesanato, ou trabalhar pela manutenção da escola, além de complementar o aprendizado teórico do dia.
"Somos uma escola que não abre mão de sua perspectiva de classe", define o sem-terra Toni Escobar, responsável pelo setor de Formação do Iterra.
"Trabalhamos o tema de reforma agrária em aula porque ela faz parte da nossa realidade."
Cada turma tem uma coordenação coletiva e é dividida em pequenos núcleos de base, com até sete integrantes, que se reúnem duas vezes por semana para trocar informações de interesse da escola.
As informações debatidas nos encontros vão parar no boletim interno do Iterra, que circula também duas vezes por semana com o noticiário oficial da entidade. Além disso, há reuniões diárias, celebrações com música e palavras de ordem e a organização de brigadas de voluntários para trabalhos de limpeza e manutenção da escola. "A sala de aula é um dos espaços educativos, mas não o único", justifica Escobar.
Isolamento - Os estudantes egressos do Iterra atuam prioritariamente nas escolas mantidas pelo MST em assentamentos ou acampamentos por todo o Brasil. Segundo a coordenação regional do movimento no Rio Grande do Sul, há cerca de 160 mil estudantes nos níveis fundamental e médio ligados ao MST no País.
"Nossa demanda por professores é muito grande e sempre há mais interessados do que vagas", explica Enedina de Andrade, paulista de Ribeirão Preto que está há dois anos no Iterra. Os 40 professores também são, de alguma forma, simpatizantes ou vinculados diretamente ao MST.
O isolamento é regra no Iterra. Dificilmente os estudantes são vistos pela cidade e os moradores de Veranópolis - que tem menos de 20 mil habitantes - pouco sabem sobre as atividades de seus vizinhos. "Eles não deixam ninguém saber de nada", diz Fernanda Mazzarolo, secretária na universidade que funciona ao lado do Iterra.
O prefeito élcio Siviero vai mais longe. "Eles não geram receita nenhuma porque são isentos de impostos, mas sobrecarregam diariamente nossos postos de saúde", reclama. O prefeito também estranha a rapidez com que o instituto aprova convênios com o governo, especialmente com os Ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Agrário. Do início de 2003 até julho deste ano, foram 21 projetos aprovados com a liberação de R$ 4,63 milhões. No mesmo período, a prefeitura recebeu R$ 1,56 milhão.
A direção do MST no Rio Grande do Sul informou que a fonte de receitas do Iterra se divide entre os convênios federais e a venda de produtos. "é uma entidade privada que se auto-sustenta", define Miguel Stédile, da direção do MST. Flávio Ilha - O Estado de São Paulo
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Regulação
Projeto regula tamanho de letra usada em propaganda
6/8/2004 15h54
A Câmara analisa o Projeto de Lei 3932/04, que limita o uso de letras pequenas em material publicitário. Segundo o deputado Antônio Carlos Biffi (PT-MS), autor do projeto, o objetivo é evitar que as restrições de ofertas veiculadas em propagandas continuem aparecendo em letra bem menor do que a utilizada no restante do anúncio, o que pode lesar o consumidor.
De acordo com a proposta, a menor letra da propaganda não poderá ser inferior a 50% do tamanho da maior letra usada no mesmo anúncio.
A matéria será encaminhada à análise das comissões técnicas. Natalia Doederlein - Agência Câmara de Notícias
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Sociedade da Comunicação
Governo e teles discutem proposta de computador popular
6/8/204, 18h47
O governo federal deverá reunir nesta segunda, 9, em Brasília, representantes das operadoras de telecomunicações e das associações de classe (Abrafix, Acel e ABTA), além de representantes da indústria de hardware e de software, para apresentar as idéias iniciais para retomar a proposta de construir um computador popular no país.
O projeto faz parte do Programa Brasileiro de Inclusão Digital, considerado prioridade absoluta absoluta do governo, e sobre o qual o próprio presidente Lula tem recomendado atenção especial. De acordo com o assessor especial da Casa Civil, Cezar Alvarez, esta primeira reunião pretende mostrar as intenções do governo e verificar a viabilidade técnica da proposta: a idéia será "produzir um computador que seja barato, mas nem tão desprovido de recursos e que possa conectar-se à rede mundial de computadores", resume Alvarez. O Programa Brasileiro de Inclusão Digital tem outros programas que vêm sendo articulados na tentativa de evitar superposição de esforços e o conseqüente desperdício de recursos. Da Redação - PAY-TV News
Nas ondas da rádio indígena
8/8/2004
Parceira do Ministério da Educação com a USP leva equipamentos às aldeias para que as tribos tenham um novo veículo de comunicação
Só em desenho animado índio usa fumaça para se comunicar. Ao contrário do que muita gente pensa, a comunidade indígena brasileira cada vez mais se apropria das tecnologias em benefício da própria cultura. Assim acontece com os estudantes da reserva indígena de Amambai no estado do Mato Grosso do Sul (MS). Eles fazem produção de informes locais como parte do projeto Educom Rádio, dentro do programa Rádio-escola, uma parceria do Ministério da Educação (MEC) com a Universidade de São Paulo (USP). No projeto os estudantes usam a técnica e a linguagem radiofônica e criam informativos voltados para a cultura Guarani e Kaiowa.
''São 20 escolas no Mato Grosso do Sul, 20 no Mato Grosso e 30 em Goiás. Cada escola tem pelo menos 15 alunos, dois professores e dois moradores das comunidades envolvidos'', estima o coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da Escola (NCE) da USP, Ismar de Oliveira Soares.
Pesquisadores do NCE capacitam professores e alunos por meio de oficinas nas escolas das comunidades indígenas. Em seguida, as escolas recebem equipamentos do MEC para dar continuidade ao projeto. ''É um incentivo à cultura local'', afirma Mário Villalva Filho, integrante do Educom Rádio. Em julho deste ano, Mário visitou a escola Mbo'eroy Guarani Kaiowa, na reserva indígena de Amambai (MS) para troca de experiência.
Mário falou sobre responsabilidade informativa do jornalista, deu aula sobre técnicas radiofônicas, jornal mural, entrevistas e comerciais de rádio. ''O trabalho resultou em uma rádio-novela sobre o mal do alcoolismo em português e guarani'', conta.
A experiência das populações indigenistas brasileiras com a comunicação vai mais longe. O representante do Conselho Indigenista Missionário do Mato Grosso do Sul (CIMI), Jorge Vieira, diz conhecer pelo menos 39 aldeias de índios terena com rádio comunitária própria. Segundo Vieira, a idéia comum de aldeia com ocas formando círculo desmatado rodeado de floresta é limitada. ''Os terenas, por exemplo, espalham-se na reserva. O rádio é uma forma de eles comunicarem-se''.
A comunicação radiofônica entre os índios não é só estimulada pela habilidade, como mostra o coordenador executivo do Centro de Trabalho Indigenista, Gilberto Azanha. ''Muitas rádios funcionam com equipamentos doados por religiosos. Ainda bem que a maioria dos índios não tem fronteiras ideológicas como os ocidentais. Eles acabam misturando informação, música, ensino e religião sem preconceito'', observa.
Em Miranda (MS), os índios mostram seu poder de comunicação. A rádio FM Terena abrange todo o município ao atender oito aldeias. A programação é variada. São veiculados programas evangélicos, música sertaneja, anúncios, recados e até cultos católicos.
Os terenas, por exemplo, espalham-se na reserva. O rádio é uma forma de eles comunicarem-se
Jorge Vieira, representante do Conselho Indigenista Missionário do Mato Grosso do Sul (CIMI) Hércules Barros - Correio Braziliense
Valorização do ser humano
8/8/2004
Entrevista // Mário Villalva Filho
Em contato com os estudantes da reserva indígena de Amambai (MS), Mário Villalva Filho, pesquisador do projeto Educom Rádio, resgatou a própria história de vida. Mário tem descendência indígena. Natural de Corumbá (MS), foi criado em Assunção, onde o guarani é língua materna ensinada na escola e faculdade, além do espanhol. Fez Comunicação em Rádio e TV na Escuela Municipal de Locución Radial y Televisiva e voltou ao Brasil em 1988. Em entrevista ao Correio, ele contou como funciona o trabalho.
CORREIO BRAZILIENSE - Há preservação da identidade e da cultura neste tipo de atividade?
Mário Villalva Filho - O principal é que eles se valorizem como seres humanos e exerçam a cidadania e, assim, ajudem toda a aldeia. É a apropriação das novas tecnologias em benefício próprio.
CORREIO - Fazer programa de rádio contribui para os índios desenvolverem e valorizarem a língua guarani?
Villalva - Mesmo com o curto tempo que passei na aldeia - dois dias - vi essa realidade. O primeiro programa eles fizeram em português, o segundo já com jopará - mistura de português e guarani no diálogo - e o último documentário, em vídeo, foi totalmente em guarani.
CORREIO - Existe algum aluno que tenha demonstrado vocação para o jornalismo na experiência com a rádio?
Villalva - Há sempre aqueles que se destacam. Alguns deles querem ser jornalistas e têm habilidade para tal.
CORREIO - Que tipo de programa de rádio
os alunos fazem na reserva indígena de Amambai (MS)?
Villalva - Já fizeram vários tipos de gêneros radiofônicos; jornalísticos, musical, publicitários e até radiodrama. Entrevistaram moradores da aldeia e funcionários de um posto de saúde sem problemas.
CORREIO - Houve muita interferência do professor ou eles pegaram as técnicas de comunicação rápido?
Villalva - Em todas as práticas, nas três escolas que mediei o trabalho, fiz questão que eles operassem o equipamento sozinhos. Em relação à escola da aldeia Guarani Kaiowa não cheguei filmando o que via. Para gravar as imagens externas da escola, coloquei a câmera fotográfica e a filmadora na mão deles. Registraram o que queriam mostrar. Correio Braziliense
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Ciência & Tecnologia
Robótica e suas leis complexas
9/8/2004
Isaac Asimov criou regras de aplicação difícil para evitar agressão de robôs a humanos
Procurando um bom robô para o lar? De acordo com o site NS-5.com, o primeiro assistente doméstico automatizado acabou de ser lançado. O Nestor Class 5 tem 1,80 m de altura, aparência humana e pode realizar uma gama enorme de tarefas, como lavar a louça e gerenciar suas finanças. Só há um problema - o site é uma fantasia para promover o filme Eu, robô, que estreou no Brasil na última sexta-feira.
A película mistura ficção científica e ação, estrelada por Will Smith. O ator encarna um detetive encarregado de investigar o assassinato de um famoso cientista, que trabalha para a empresa fictícia US Robotics. Mas a grande atração é o robô NS-5.
Embora os autômatos tenham mecanismos embutidos que os impedem de machucar humanos, o investigador suspeita que o crime foi cometido por um NS-5.
Isaac Asimov escreveu mais de 500 contos e romances e inventou o termo ''robótica''. Sua apropriação da ciência - ele se tornou PhD em Química - emprestou rigor a sua ficção científica.
Eu, robô é baseado livremente numa coleção de histórias de Asimov, que evoluem em volta das famosas ''três leis da robótica'', propostas pelo escritor em 1940.
Nessa época, apenas duas décadas depois que a palavra ''robô'' foi cunhada pelo autor checo Karel Capek, outros se inspiravam em sua história de como robôs malígnos dominavam o mundo. Mas Asimov já estava refletindo sobre as medidas práticas que a humanidade deveria tomar para evitar esse destino.
A solução encontrada foi a programação de todos os robôs para que sigam três leis básicas.
1 - Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um homem sofra algum mal.
2 - Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos que em elas contrariem a primeira lei.
3 - Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.
Essas diretrizes podem parecer uma boa forma de manter os robôs domesticados. Mas para um ''roboticista'' (outro neologismo de Asimov), as leis podem trazer mais problemas do que soluções.
O escritor tinha consciência disso, e muitos dos seus contos tratam das contradições e dilemas implícitos nas três leis. A conclusão geral que emerge dessas histórias é que a prevenção da violência robótica contra humanos vai exigir bem mais do que a programação das máquinas.
Na verdade, o ajuste das máquinas para que elas sigam as três leis é uma tarefa muito difícil. Para começar, o robô precisaria reconhecer os humanos e não os confundir com chimpanzés, estátuas e outros autômatos.
Isso pode parecer fácil para nós, mas tem sido extremamente complicado para as máquinas, como qualquer especialista em visão eletrônica pode confirmar.
Para obedecer à segunda lei, o robô teria que distinguir uma ordem de um pedido casual. Essa é uma tarefa muito distante da inteligência artificial atual, como a área do processamento de linguagens naturais também confirma.
Para seguir a qualquer das três leis, o robô teria que determinar se e em que intensidade elas se aplicariam em uma determinada situação - o que envolve raciocínio complexo sobre as consequências das suas ações e as de outros robôs, humanos e animais na proximidade.
O problema é que a primeira lei não restringe a sua atuação à vizinhança física do robô. E se ele estiver no Ártico, por exemplo, e descobrir que pode levar comida para a África e salvar crianças da fome? Se ele permanecer onde está pode, pela falta de ação, permitir que um humano sofra um mal.
Mesmo que a inteligência artificial evolua para garantir a inclusão das três leis num robô real, os problemas estariam apenas no começo. As regras abrem caminho a uma série de dilemas e ordens conflitantes.
Os problemas entre as leis são determinados pelo fato de que elas são hierarquizadas. Mas o que aconteceria com múltiplos conflitos relacionados a uma das leis?
Imaginemos um robô encarregado de guardar um terrorista que plantou uma bomba-relógio. Se a máquina torturar o bandido para descobrir o paradeiro do explosivo, quebrará a primeira lei, e se não fizer nada, também infringirá a regra, ao permitir que outros humanos se machuquem.
Dilemas como esse são conhecidos como problemas de ''escolha do mal'' por filósofos da moral, e mesmo eles têm dificuldade para lidar as questões. Para evitar que os robôs caiam nesses problemas, seria necessário um tipo de ''chip ético''.
Se essas especulações parecem distantes, saiba que o dia em que elas serão relevantes está bem perto. Bill Joy, cientista da computação e co-fundador da Sun Microsystems, é um dos especialistas que convocam a sociedade a pensar sobre os perigos embutidos no avanço rápido da robótica. O Greenpeace emitiu um relatório especial no ano passado pedindo que o assunto seja tão debatido como a engenharia genética é atualmente.
No entanto, não é preciso tanto alarme. Embora a robótica esteja avançando rapidamente, ainda há muito o que fazer até que os autômatos se tornem tão inteligentes como o NS-5.
- Hoje, o maior perigo que os robôs oferecem aos humanos é o risco de tropeçarmos neles - brinca Chris Melhuish, um dos maiores roboticistas britânicos.
Robôs no cinema
C-3P0
Da série Guerra nas estrelas, foi criado pelo garoto de 9 anos Anakin Skywalker. O andróide tradutor C-3PO fala e reclama sem parar. Ao encontrar o robô R2-D2, foi criada uma das duplas mais engraçadas do cinema
Robocop
O filme, de 1987, é situado no futuro violento da cidade americana de Detroit. O ciborgue RoboCop (Peter Weller) combina o sistema neural humano com a robótica para criar o policial perfeito. Dylan Evans - The Guardian - Jornal do Brasil
Invenções de bolsistas do CNPq geram novas empresas e acordos internacionais
7/8/2004, 18:41
Brasília - O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), agência vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, possui 41 inventos desenvolvidos por bolsistas que têm sido objeto de patentes no País e no exterior. Em dois deles foram negociados acordos com universidades estrangeiras para a comercialização dos produtos resultantes, com previsão de pagamento de royalties associado ao êxito comercial dos empreendimentos.
Em 2003, o Serviço de Suporte à Propriedade Intelectual (Sespi), da Procuradoria Jurídica do CNPq, negociou com a University College of London as condições para exploração comercial de um equipamento que estabiliza a freqüência de emissão de laseres, desenvolvido por bolsista de doutorado no exterior. A tecnologia tem aplicações em redes de comunicações e, pelo acordo, o CNPq vai receber 3,25% de participação acionária da empresa constituída para a comercialização. Dois outros acordos estão em negociação com a Cambridge University, um deles já aprovado pela Diretoria Executiva do CNPq.
Também estão protegidas as marcas do CNPq, como a da Plataforma Lattes, que tem mais de 400 mil formulários cadastrados e 12 mil acessos diários, além de ser o currículo-padrão da comunidade acadêmica brasileira. Há ainda marcas de produtos, como a coleção "Memória do Saber", editada em conjunto com a Biblioteca Nacional e a Fundação Miguel de Cervantes; o Prêmio Jovem Cientista, realizado em parceria com a empresa Gerdau e a Fundação Roberto Marinho; e a logomarca do Proantar, escolhida por meio de concurso.
São cinco marcas próprias registradas e outras 17 estão em processo de registro. Existem também quatro registros de softwares requeridos ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi). O Sespi foi criado em 1998 e tem por objetivo apoiar servidores, bolsistas e pesquisadores que concebam inventos com aplicações comerciais durante suas atividades.
Apenas no primeiro semestre de 2004, o serviço recebeu 63 consultas para proteção dos direitos de propriedade intelectual. Na página do CNPq existe uma seção chamada Os 7 passos eficazes para se obter uma patente, de auxílio aos pesquisadores. "É fundamental que o pesquisador mantenha discrição sobre suas pesquisas com aplicações econômicas. Nessa área, o segredo é a alma do negócio", diz Eury Luna-filho, do Sespi, que recomenda a consulta à Procuradoria Jurídica do CNPq, capaz de fornecer assessoria especializada sobre o assunto. Brasil Agora - Portal da Cidadania
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Indústria Fonográfica
Tudo pelo marketing
8/8/2004
Se tem uma pessoa no mundo do funk que sabe fazer o seu marketing pessoal, esse alguém é o DJ Marlboro, que tornou-se personagem nacional quando foi DJ do Xou da Xuxa, na Rede Globo. Para alavancar os negócios de sua gravadora, que já lançou mais de 200 títulos, ele se vale do programa de rádio. Nos bailes, distribui CDs, camisetas, adesivos e chaveiros com a sua marca.
- O cara é bom no que faz, mas chega a ser ostensivo no merchandising - analisa o DJ Gustavo Tatá.
Marlboro diz que o trabalho de promoção é essencial para o fortalecimento de sua marca.
- Se eu não fizer esse tipo de divulgação, não tem quem faça por mim.
Para propagar os negócios, acaba de lançar aRevista Big Mix, um produto editorial dirigido à massa funkeira, com preço de capa a R$ 2. São dez mil exemplares por mês, com matérias sobre o mundo do funk, os últimos lançamentos da indústria, etc.
O polêmico Mr. Catra, expoente do funk consciente, é o destaque do mês. Em sua entrevista à publicação, fala sobre o sucesso em Paris e comenta:
- O Marlboro é uma peça bem forte de sustentação do funk, um dos nomes mais maneiros do movimento - diz Catra, outro carioca que começa a abrir espaço nas pistas do mundo.
Para o rei do pancadão, o melhor ainda está por vir.
- Bom mesmo vai ser quando o funk for reconhecido pelo poder federal. Jornal do Brasil
O rei do pancadão
8/8/2004
Grife por trás de 30 bailes funk por semana, DJ Marlboro conquista as pistas de dança do mundo
Fernando Luiz Mattos da Matta não gosta de contar a idade. Mas sabe-se que nasceu no dia 3 de janeiro de 1963. Carioca, solteiro e sem filhos, é fã de futebol, dos amigos e das mulheres. Morador do Lins de Vasconcelos, na Zona Norte do Rio, adora um prato feito. Se tiver língua com purê de batatas, melhor ainda. Fernando seria um típico suburbano carioca, não fosse ele também o DJ Marlboro, dono da gravadora e da Equipe Big Mix, um dos inventores do funk, responsável pela explosão do batidão nos anos 90 e, mais recentemente, pela investida internacional do gênero.
Rei nos bailes de favelas e bairros da periferia, ele agora se apresenta em clubes badalados. Depois de ganhar uma noite quinzenal na Bunker, na Zona Sul do Rio, estreou na última quarta-feira na Lov.e, em São Paulo. Além disso, passou a figurar nos eventos internacionais de música eletrônica. Mês passado, foi a estrela do Sónar, um dos maiores da Europa, em Barcelona.
- O reconhecimento internacional é fruto do meu trabalho com mixagens, algo que nenhum outro DJ de funk sabe fazer. Eu me orgulho disso, mas ainda sonho ter um programa de funk na TV Educativa - diz Marlboro.
Apresentador do Big Mix, o programa de maior audiência da rádio carioca (FM O Dia), Marlboro está por trás de 30 bailes por semana. Como DJ, comanda pelo menos seis. O público médio varia de 4 a 5 mil pessoas por noite. De olho nos fãs, lançou até uma revista, Big mix, distribuída em mais de 200 pontos-de-venda na cidade, a maioria na Zona Sul da cidade. Paradoxalmente, Marlboro prefere quando a mídia não faz barulho sobre o movimento. Divulgação excessiva atrai a perseguição das autoridades, acredita.
- O funk não precisa estar na moda para existir, é auto-suficiente. Até prefiro quando a imprensa não divulga os bailes, porque assim gozamos da liberdade de tocar.
Marlboro tem uma observação curiosa sobre como as autoridades se relacionam com a música eletrônica.
- A eletrônica é o único gênero musical em que a secretaria municipal envolvida é a de Segurança, e não a de Cultura. E o pior é que a polícia acaba com o baile funk do preto mas não contém as brigas de pitboys nas boates da Zona Sul. Quando a polícia fecha um baile, ou uma rave, quem gosta de funk, trance e techno fica privado da música. Que sejam punidos os responsáveis por isso, mas não o público - critica.
O DJ começou a se interessar por música na década de 70. De tanto ouvir programas de rádio, acabou virando um expert na música black americana. Anotava os títulos, elegia seus próprios Top 10, até que resolveu compartilhar conhecimentos e mixar as primeiras faixas. Passou a ser chamado para animar festas de 15 anos próximas a Alcântara, onde morava (diziam que o distrito de São Gonçalo era a ''terra de Marlboro'' - daí o apelido). Dos bailes de debutantes passou para os hi-fis, com um público mais velh. Em 1979, surgiu o convite para substituir um DJ no baile do Clube Lagoinha, também em Alcântara. Marlboro não entendia porque os DJs de bailes funk não faziam mixagens e resolveu lançar moda.
- Foi preciso pegar emprestado as picapes de um amigo, porque eu não tinha como ensaiar. Passei uma semana treinando as técnicas de mixagem. Foi assim que faturei o primeiro lugar no DMC, o principal concurso brasileiro de DJs. Na versão mundial do mesmo concurso, fiquei entre os dez melhores.
Apesar do hype atual, Marlboro continua o mesmo. O estilo é casual: jeans, tênis, camisetão de malha ou tecido sintético, sempre com a marca de sua equipe de som. O DJ não tem vícios, não fuma nem bebe. Católico, não quer casar.
- Calculei que o mundo tem 20 mulheres para cada homem. A maioria deles está passando da validade, boa parte já casou e outra virou homossexual. Mulher é bom demais para se ter uma só - diverte-se.
Marlboro é para muitos a maior referência no mundo do funk. Tanto que a bibliografia sobre ele não pára de crescer, com livros como Mundo funk carioca, de Hermano Vianna, Abalando os anos 90 e Funk e Hip Hop invadem a cena, ambos de Michael Reacherman, Funk no Brasil - DJ Marlboro por ele mesmo, de Luzia Sales, e Na terra do funk, de Suzana Macedo.
- Ele me surpreendeu com sua inteligência, correção e disciplina. É o único que toca em todos os morros da cidade, e agrada do Terceiro Comando ao Comando Vermelho - diz Suzana. Gilberto de Abreu - Jornal do Brasil
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Informática
Linux deixa de ser sistema só de gente grande
9/8/2004
Incentivadas pelos pais, crianças viram fãs mirins do sistema de código aberto e não querem usar Windows
Toda vez o Windows trava no computador do curso de informática da escola, Nathanny Christine Claro, de 7 anos, reclama com a professora dizendo que, se estivesse utilizando o sistema operacional Linux em vez do Windows, isso não aconteceria.
Crianças como Nathanny, que virou uma verdadeira fã mirim do sistema de código aberto, são cada vez mais comuns. Geralmente, seus pais são pessoas que também utilizam o Linux ou trabalham com o sistema. E parece que o ditado "filho de peixe, peixinho é" parece cair bem nestes casos.
Os pais são fãs incondicionais do Linux e os filhos acabam aprendendo com muita facilidade. é o caso de Leonardo Maçan, de 7 anos. Desde os 3 ele usa Linux para jogar, processar texto, acessar a internet etc. Atualmente, o pequeno Leonardo já tem seu próprio blog feito em Linux.
O pai, o engenheiro de computação Eduardo Marcel Macan, fala com orgulho do rebento. "Nós até temos Windows em casa, mas ele prefere o Linux por ser mais maleável. Quando encontro alguma dificuldade nos joguinhos, consigo fazer modificações para facilitar para ele."
Leonardo diz que só sente falta do sistema da Microsoft quando quer jogar algum game de revistas de banca que vêm com CD-ROM. "Eles só rodam em Windows e às vezes pego algum jogo emprestado e tenho de deixar o Linux de lado." O garoto também usa o sistema para rodar softwares de desenhos e pesquisas na web.
O eletrotécnico Rodrigo Tadeu Claro, de Santa Bárbara d'Oeste (SP), pai de Nathanny e Tuanny Claro, de 7 e 15 anos, é usuário de Linux desde 1997 e tem três computadores em casa com o sistema. "A menor sabe até editar textos já e possui seu próprio login e senha. Sozinha, ela abre o micro e usa a internet, fica trocando roupinhas das bonecas Dolls, checa e-mails e joga", explica o pai.
Já a garota Mariana Iglesias, de Porto Alegre (RS), vestiu literalmente a camisa do Linux. Sua mãe, Fabiana Iglesias, é membro do Projeto Software Livre (PSL), organizadores do Fórum Internacional de Software Livre, e convive com o sistema desde pequena. "Ela tem amigos hackers e mantém contato com eles diariamente", conta Fabiana.
Vestindo a camisa - Mariana faz em ambiente Linux páginas web, navega pelo Orkut, publica galerias de fotos, até já criou um domínio virtual e usa comunicadores instantâneos pelo Linux, como o ICQ e o IRC. A garota afirma que tem duas máquinas com Kurumin Linux e um servidor proxi que ela mesma instalou. Usa os computadores para editar desenhos animados, baixar músicas, navegar na internet e chegar seus e-mails."
Usuários mirins do Linux estão espalhados por todo o Brasil. Técnicos da IBM, que tem alguns centros técnicos dedicados inteiramente ao desenvolvimento da tecnologia Linux, se surpreenderam como aumentou o número de crianças interessadas no sistema. Nos eventos realizados pela companhia, muitas crianças participam.
No Ceará, por exemplo, José Alves Queiroz Neto, de 8 anos, e Alana Queiroz, de 5, não trocam o Linux por nada. Seu pai, Eleudson Queiroz, é analista de sistemas e ensinou os filhos a usarem a ferramenta. "Eles conseguem jogar, desenhar no software Tux Paint e produzir textos em Linux", destaca.
Escolas - O projeto Linux para as Escolas defende o uso do sistema para incentivar as crianças a usar o sistema. Existe uma idéia enganosa de que as crianças devem ter na escola o que vão encontrar no mercado de trabalho. é por isso que ainda o projeto enfrenta muitas dificuldades para levar o Linux para as instituições. "Acredito que qualquer criança consiga se adaptar facilmente de uma plataforma para outra", diz Fabiana Iglesias.
Telecentros - As unidades de São Paulo têm em seus computadores softwares livres instalados, como o GNU/Linux, nos pontos de atendimento à população. Um dos maiores objetivos da Prefeitura é que as crianças tenham acesso ao sistema.
O pacote de aplicativos usado nos telecentros é o Sacix,que foi desenvolvido pela Coordenadoria do Governo Eletrônico e é baseado na distribuição Debian, uma das mais utilizadas pelos cerca de 30 milhões de usuários GNU/Linux no mundo.
O Sacix reúne diversos softwares livres, de editor de texto a planilha de cálculo e processador de imagens. Esse pacote de programas está presente nos 105 telecentros instalados na cidade. Além dos telecentros, os Centros Educacionais Unificados (CEUs) também estão preparando uma instalação em massa de Linux para atendimento à população, incluindo crianças.
Softwares - Quem não abre mão do Linux, mas não quer ficar por fora de novos joguinhos e novidades, pode acessar vários sites na internet que oferecem download de programas que rodam no sistema.
Um deles é o GCompri (http://www.ofset.org/gcompris/) e dispõe de uma grande variedade de títulos.
Um exemplo é o Xlogical, um jogo de lógica no qual o usuário tem de agrupar pequenas esferas coloridas. Há também o conhecido 3D Tetris, em que um cubo deve ser preenchido com as peças que vão caindo. Outra dica para saber as últimas novidades infantis para o sistema é o site Linux for Kids (http://www.linuxforkids.org/Portuguese_index.html). Cibele Gandolpho - O Estado de São Paulo
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Internet
Clone do Orkut, NetQI tem enfoque profissional
9/8/2004
Afiliado à Catho Online, site de empregos, o NetQI é um software de redes sociais semelhante ao famoso Orkut, mas com enfoque profissional. A ferramenta de busca, lançada na semana passada, tem a vantagem de estar disponível em português. O serviço permite procurar contatos por meio do cargo ou empresa e também por nome, e-mail ou cidade. Há diversas opções para categorizar os contatos, como parentes, amigos, colega de trabalho, entre outros. Novos cadastros só podem ser feitos no NetQI mediante a indicação de um associado. Mas quem quiser testar o sistema, que ainda está em versão beta, pode solicitar seu convite pelo e-mail netqi em netqi.com.br, que o site irá enviar uma autorização. A idéia do NetQI é que os usuários possam trocar experiências e até fechar negócios. O Estado de São Paulo
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Mídia Global
Spielberg adia filme por medo de terrorismo
6/8/2004
Devido ao adiamento o ator inglês Bem Kingsley abandona o projeto
LONDRES, 5 (ANSA) - O diretor norte-americano Steven Spielberg decidiu adiar as filmagens de seu último projeto cinematográfico devido ao temor de que a produção seja atacada por grupos terroristas.
O novo filme, chamado Vengance (i>Vingança), narra a perseguição de um grupo de palestinos terroristas que assassinaram 11 atletas israelenses nas Olimpíadas de Monique, em 1972.
O tema e a atual situação política e de violência no Oriente Médio provocaram o adiamento das gravações por vários meses.
Como conseqüência das demoras e atrasos nas gravações, o ator inglês Bem Kingsley decidiu sair do projeto.
Eric Bana, que protagonizou Hulk e fez Hector no filme Tróia será a personagem principal do filme, que contará com uma importante lista de astros de Hollywood. Ansa - Agência Carta Maior
Michael Moore e o efeito borboleta
9/8/2004
No sábado, a minha filha Maria, de 13 anos, me convidou para assistir ao filme O Efeito Borboleta, que está em cartaz aqui em São Paulo. Fomos ao Arteplex Unibanco, na Frei Caneca, carinhosamente apelidado de Gay Caneca pelos paulistanos.
Esse é, atualmente, o meu cinema predileto. Tende a passar o que quero ver.
Fica num pedaço antigo e bacana de São Paulo. É de shopping, mas tenho a impressão de que as pessoas vão ali mesmo é para ver filmes e, quiçá, se paquerar. Há um quê de praça pública do interior, mas bem metropolitana, se é que você me entende - é repleto de tipos urbanos curiosos.
Maria já havia assistido ao filme, mas concluiu que eu iria gostar. Achei bonitinho da parte dela. Provoca uma sensação confusa, confesso, saber que os filhos já têm uma opinião formada a respeito do nosso ser. Nós, pais, queremos acreditar que podemos nos apresentar aos filhos do jeito que quisermos. Mas a partir de certo momento, isso não corresponde mais à verdade. Mesmo que eu quisesse, não conseguiria convencer a Maria de que sou um sofisticado aficionado da obra do Godard. Já perdi essa oportunidade.
E, de fato, O Efeito Borboleta se vale de todos os truques narrativos dos best sellers americanos, daqueles livros de aeroporto que trazem o título em relevo e cores especiais na capa. Acabei me envolvendo na trama e, como minha filha previu, gostei.
Logo que saímos do cinema, ela recebeu e deu várias chamadas pelo celular.
Ainda não me acostumei com isso. Sei que é a onda do futuro, que o celular transmite fotos, recebe internet e TV, faz transações na bolsa de valores e entrega a pizza em casa. Mas mesmo assim me incomoda ligeiramente. Sempre que estou com alguém e o celular toca, me vem à cabeça a imagem de um telefone antigo e pesado, daqueles de mesa dos anos 70, conectado a um imenso fio que desce por escadas rolantes e elevadores e acompanha o usuário pela rua. O meu imaginário é coisa de dinossauro.
Pelo celular, Maria combinou de ir assistir a outro filme, o de Michael Moore, Fahrenheit - 11 de Setembro, em Pinheiros, com os amigos. Precisamos ir logo, explicou-me, porque o cinema, o do UOL, imenso, já estava quase lotado.
Ainda no Arteplex, eu havia notado que a fila para Fahrenheit saía pelo ladrão, também. Deve ter sido o filme mais visto em São Paulo na semana passada.
O que é, convenhamos, um tanto quanto surpreendente. É muito bom, traz uma série de imagens novas e um argumento forte contra a reeleição do Bush. Mas, gente, é um documentário. Sobre política. Americana.
Como explicar tamanha popularidade? Refleti a respeito no táxi, já de noitinha, a caminho de Pinheiros, enquanto a Maria falava ao celular.
Cheguei à conclusão de que o Brasil sentira mais o impacto do golpe do 11 de setembro do que se pensara.
Afinal, ao longo da década de 90, o mundo parecia caminhar para uma certa paz e uma prosperidade globalizante. A guerra fria acabara. A internet, a mais fantástica invenção desde a penicilina, abria perspectivas utópicas, conectando povos e indivíduos ao redor do planeta e trazendo pesados investimentos em comunicação. O homem mais poderoso do mundo era um sujeito suave e racional e deliciosamente inteligente, cujo maior defeito era gostar do sexo oposto um pouco a mais do que permitia seu cargo.
E, de repente, naquela fatídica manhã de 11 de setembro, todo esse ciclo virtuoso ruiu e o mundo acordou na Cisjordânia, preso no meio de uma anacrônica guerra religiosa liderada por fanáticos extremistas dos dois lados. A tecnologia passou de utópica a totalitária; o futuro, de ameno e promissor, a potencialmente infernal. Monica Lewinsky virou uma patética lembrança da nossa inocência perdida.
Estou simplificando barbaridades, mas não na essência. O Brasil e boa parte do mundo quer acordar desse estranho e violento pesadelo. É isso que explica o sucesso do filme do Michael Moore, creio. Ele oferece uma explicação e uma saída.
Maria e seus amigos adolescentes já assistiram ao filme duas vezes, como muitos outros ao redor do mundo. Quem sabe não é um começo. Matthew Shirts - O Estado de São Paulo
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