[cmi-goiania] A roupa nova do rei...

Deolinda deolindataveira em terra.com.br
Quarta Julho 5 19:24:02 PDT 2006


 


Pessoas,


Texto novo no blog http://amigosdemuseu.blogspot.com/  e como alguns não
conseguem acessar ...


Beijos


Deolinda


Quarta-feira, Julho 05, 2006


 <http://www.nao-til.com.br/nao-73/adaptand.htm> A ROUPA NOVA DO REI 


 <http://photos1.blogger.com/blogger/1228/1550/1600/O%20REI%20NU.jpg> 

Afinal, depois de tantas idas e vindas, realizou-se a audiência pública com
o secretário de cultura de Goiânia e ainda sob o impacto de tão edificante e
ilustrativo evento, ocorreu-me que o conto infantil a "Roupa nova do Rei"
seria extremamente apropriado para a ocasião. E como a internet é também um
vasto campo de pesquisa, acreditem a adaptação de Gustavo França é perfeita
para ilustrar os sentimentos daqueles que como o menino ainda gritam o Rei
está nu!

 

ADAPTANDO UMA FÁBULA 

por Gustavo França 

 <mailto:gufran76 em hotmail.com> gufran76 em hotmail.com

Os adultos, categoria etária na qual todos pretendem ingressar um dia,
sempre tiveram grande preocupação em passar às crianças histórias povoadas
por valores diversos dos que norteiam a realidade, talvez com o objetivo de
tornar a transição do crescimento um pouco mais traumática. Para tanto,
criaram contos de fadas e similares transmitindo mensagens sobre temas em
desuso, como lealdade e bom senso, sem contar o improvável "felizes para
sempre". Todos eles contêm lições de moral que deveriam valer para o resto
da vida, se verossímeis. Como de fato não o são, sobram apenas palavras no
vácuo da modernidade, sem qualquer significado prático. Quando muito,
renderão algumas sessões de análise a título de desintoxicação utópica. 

Exemplo clássico desse complexo ilusório é o malfadado conto infantil da
"Roupa Nova do Rei", em que dois trambiqueiros se aproveitam da vaidade e
arrogância de um soberano para lhe vender uma suposta roupa tão especial que
só as pessoas de alto intelecto poderiam ver. No final, quando o
protagonista desfila pelas ruas, um menino grita "O rei está nu!", e todos
concluem que se uma criança, com toda sua pureza, constatava que o monarca
estava mesmo exposto em sua vergonha, é porque tudo não passava de uma
farsa. E o déspota desmoralizado se recolheu ao castelo e jamais saiu de lá
até a morte. Quanto aos "costureiros", deram o fora com o ouro pago em troca
de seus hábeis talentos e não se soube mais deles. E todos os ministros e
assessores que não ousaram admitir que não havia roupa nenhuma caíram em
desgraça e foram demitidos em massa. 

Até aí, nenhuma novidade. Mas, graças a louvável esforço de pesquisa em meio
a um bate-papo com o velhinho da padaria, técnicos em Ciências Carochinhas
decidiram dizer não às convenções e apresentar a versão não-autorizada desse
embuste, desenvolvida segundo os conceitos vigentes na sociedade
contemporânea, especialmente no ambiente nacional. Começando a partir do
momento em que o intrépido garoto se pronuncia: 

"O rei está nu! O rei está nu!" 

Ao ouvir tamanho disparate, aqueles que haviam pago metade do salário para
conseguir uma vista privilegiada do inédito traje real olharam o menor
insolente com mortal censura. Por mais que sua mãe insistisse em tentar
calá-lo, ele seguia irredutível em sua insensatez impúbere. O desfecho não
poderia mesmo ser outro: foram convidados a se retirar pela Guarda
Monárquica, e a pobre senhora foi multada no valor do resto de seus
vencimentos. Nem assim a criança cedeu em sua insubordinação, obrigando a
genitora a contratar os serviços de uma psicóloga infantil. Mas esta,
passadas semanas de improdutivas terapias, só teve a lamentar. 

"Sinto muito, mas meus serviços são inúteis! Ele insiste em desdenhar da
rica vestimenta do rei. Creio que se trata de um Q.I. reduzidíssimo, inapto
a qualquer convívio social." Desolados, os pais se viram obrigados a tirar o
menino do colégio e deixá-lo em um abrigo para deficientes mentais. Bem que
o marido pensou em dizer à esposa que, em sua proletária opinião, o rei
estava mesmo desprevenido, mas o temor de revelar sua ignorância falou mais
alto. Afinal, se a elite da intelectualidade do Reino se deliciava com as
sutilezas das vestes de seu líder, quem era ele, bugre semi-instruído, para
questionar o que seu cérebro não tinha capacidade de atingir? 

Ocorre que nem todos tiveram a mesma autocrítica, e logo algumas levas de
revoltados passaram a espalhar que a real genitália estava exposta em
público. "Bando de ignóbeis!" – responderam os membros da Real Academia de
Artes Dramáticas e Literárias, na pessoa do ilustre presidente que, aos 70
anos, acabara de finalizar seu primeiro romance. "Já era esperado que nem
todos conseguissem compreender a beleza superior." – proferiu o Ministro da
Educação. Tudo foi interpretado de forma natural, pois numa Sociedade sempre
existirão os inteligentes e os menos favorecidos pela aptidão ao pensar. Mas
o fato de serem minoria atestava o avançado padrão do ensino fundamental e
universitário vigente. E, assim, os magistrais costureiros (que, ao
contrário do que informa a fábula fantasiosa, não fugiram, mas, pelo
contrário, tiveram seus nomes imortalizados), foram novamente contratados
para a criação de mais um prodígio da moda para o sábio monarca. 

O novo desfile foi mais um sucesso inolvidável, ainda que outro fedelho
tenha desatado a falar obscenidades até ser rapidamente contido pela
segurança reforçada e mandado de pronto a uma entidade criada para tratar de
tal retardamento. Os críticos mais próximos ao rei julgaram o traje o máximo
do bom gosto. "Quem não conseguiu captar todo o brilho e originalidade
certamente não deve ser distinguido de um símio selvagem." 

Como a unanimidade é incompatível com a hierarquia da mente humana, mais
opositores desafiaram os neurônios para sustentar o inconcebível. Passeatas
gigantescas foram organizadas, e até alguns jornais populares ensaiaram uma
adesão ao movimento. Apesar do alarde, tanto o governo quanto os
oposicionistas do bloco moderado foram uníssonos. "Pode-se até contestar
algumas atitudes de nosso soberano, mas questionar sua inteligência
refletida no vestuário é um gesto de absoluta leviandade." 

Passados cinco desfiles e um aumento sensível, embora desmerecedor de
preocupação, no número de incapazes de enxergar os cada vez mais bem
elaborados trabalhos dos notáveis servidores, eis que uma surpresa aporta de
terras distantes. Um pedido de extradição justamente contra os sumos
sacerdotes da estética palaciana. Motivo: estelionato. Segundo o pedido,
teriam ludibriado um imperador de outro continente, jurando ser capazes de
fazer uma roupa de confecção diferenciada, mas que não passava de um golpe
que levou aquele Império ao ridículo internacional. Depois de uma década
tentando localizar os infratores, enfim foram descobertos em nossos
domínios. 

O reflexo desse incidente logo assolou as praças e meios de comunicação.
Toda aquela beleza sem par teria sido uma ilusão coletiva? Como, se todo
mundo, salvo os cretinos irremediáveis, havia admirado cada detalhe, por
mais singelo que fosse? Teriam sido todos covardes em assumir que nunca
houve nada a ser visto, a não ser a crueza de um corpo decadente? 

"Sim! Fomos uns idiotas acreditando nesses fraudadores!" – disseram muitos.
"E pior foi esse imbecil que gastou dinheiro público para exibir suas
pelancas!" – falaram outros menos educados. "Eu sempre achei que ele não era
técnico de seleção!" – sentenciou um desavisado. Desta vez o choque atingiu
as estruturas de sustentação real no Parlamento, a ponto de antigos aliados
afirmarem que só agora era possível constatar a reduzida dimensão do caráter
de seu líder. Para complicar, os juízes da Máxima Corte que tanto
ovacionaram a passarela monárquica decidiram pelo processamento da
extradição, convencidos de que havia fundamentos suficientes para o pedido.
O próximo passo poderia ser a deposição do rei e a conseqüente proclamação
da República. E anos de prosperidade seriam jogados nos detritos da História
em nome de uma histeria coletiva. 

Mas, como todo conto de fadas, o final não pode ser de consternação. A
esperança ainda vivia no discurso em cadeia real marcado com urgência. E
como numa fábula, tudo se resolveu nas duras palavras de um chefe de Estado
indignado: "Não se pode aceitar que o povo mais inteligente deste mundo
achatado que conhecemos possa se curvar tão bruscamente a um pensamento
estrangeiro! Se eles nada viram nos tecidos preciosos trazidos a nós graças
a esses fantásticos profissionais, só pode ser um sinal de que são uns lesos
corrompidos pela brutalidade das bestas irracionais! Foi por isto que,
cansados da mediocridade desses países longínquos, os dois artistas aqui
acolhidos escolheram nossa Pátria como lar adequado a seu trabalho de única
sensibilidade, E mais grave que a incompreensão é querer injustiçá-los com
essa absurda empreitada que ora chega a nossos magistrados. Por isso, visto
uma vez mais a capa de guardião do racionalismo para dizer que nenhuma
pressão externa denegrirá estes homens, nem esta administração! Porque a
razão deve triunfar sempre!" 

O dom da palavra era tão peculiar ao rei como o apurado senso de elegância.
Assim, a revolta popular foi controlada e, apesar de ruidosa minoria ter
continuado a afrontar os caminhos mais esclarecidos, tanto o monarca quanto
seus fiéis assessores, injustamente perseguidos, deram seqüência à era de
deslumbres e, sobretudo, viveram felizes para sempre! 

 

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