[cmi-goiania] Visita do papa favorece clima antiaborto
anarquico em resist.ca
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Domingo Abril 15 16:38:34 PDT 2007
15/04/2007
Visita do papa favorece clima antiaborto
KENNEDY ALENCAR
Colunista da Folha Online
No mês que vem, o papa Bento 16 visitará o Brasil. É uma boa notícia para
os católicos praticantes. Para o restante da população, especialmente a
mais pobre, talvez não seja.
A liberdade religiosa é um das grandes conquistas da democracia. O Estado
laico também. Conservador, Bento 16 venderá o seu peixe.
Já o governo Lula poderá encontrar a oportunidade para aprofundar o seu
conservadorismo em alguns temas, como aborto e métodos anticoncepcionais.
Tem faltado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva coragem para se
posicionar claramente em relação a esses assuntos. A visita do papa pode
servir de gancho para uma decisão conservadora e equivocada.
A ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as
Mulheres, tem criticado o anacronismo da legislação brasileira em relação
ao aborto. Ela defende que a rede pública possa realizar abortos até o
terceiro mês de gravidez. Há um projeto em tramitação no Congresso.
A ministra tem um argumento difícil de rebater: esses abortos já
acontecem. Existe um problema concreto de saúde pública. Legalizar o
aborto nesse caso é algo decente a se fazer para os mais pobres.
As camadas médias e ricas da sociedade não precisam recorrer ao serviço
público. Hoje, mulheres pobres morrem por ingestão de medicamentos
abortivos ou por inépcia de médicos sem preparo.
Nilcéa está certa. As seguidoras de Bento 16, pobres ou ricos, terão o seu
direito de escolha. Nenhuma delas será obrigada a interromper a gravidez.
Entretanto, essa direito de escolha não existe hoje. De maneira ponderada,
a ministra propõe um limite --até o terceiro mês de gravidez. Ou seja,
tempo suficiente para uma mulher tomar a sua decisão sem que o Estado
brasileiro ou o Vaticano digam o que ela deva fazer.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria apoiar Nilcéa. O ministro
da Saúde, José Gomes Temporão, até tentou. Mas amarelou rapidinho diante
de uma manifestação em Fortaleza de católicos contrários ao aborto. Pena!
Temporão foi vendido por Lula como "o ministro da Saúde". Seria um técnico
apoiado pelos médicos e vacinado contra politicagem e lobbies.
A visita do papa tende a reforçar os defensores da atual legislação, que
permite o aborto em caso de estupro e de risco de morte da mãe.
Obviamente, é um assunto delicado. A decisão de interromper uma gravidez
não é fácil nem deve ser estimulada. Mas há um problema real num país
real. Lula, que se gaba de ser um presidente dos pobres, deveria, no
mínimo, descer do muro. Alegar que é um assunto do Congresso é uma fuga
algo vergonhosa.
Na mosca
O médico Drauzio Varella escreveu um excelente artigo na versão impressa
da Folha do sábado (14/04). Com razão, argumentou ser uma perversidade
negar aos mais pobres acesso aos métodos anticoncepcionais.
Kennedy Alencar, 39, é colunista da Folha Online e repórter especial da
Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília
Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.
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