[Cmi-mulheres] Trabalhadores do Campus da Capital paralisam e obtêm conquistas
Mazé
mazelongobardi em yahoo.com.br
Terça Fevereiro 21 18:23:50 PST 2006
Trabalhadores da USP da Prefeitura do Campus da Capital
paralisam e obtêm conquistas
Na última segunda-feira, dia 20 de fevereiro os operários da PCO - Prefeitura do Campus da Capital da USP paralisaram suas atividades. Em pleno primeiro dia de aula de 2006 os ônibus que fazem a circulação interna ao campus do Butantã não trafegaram. Ao final do dia as reivindicações dos operários haviam sido atendidas e na manhã do dia seguinte (21/02), os trabalhadores em assembléia da unidade suspenderam a paralisação e voltaram ao trabalho, com o alerta de que algumas das reivindicações que pautaram a mobilização, como por exemplo, o problema da terceirização na universidade, demanda um processo de conscientização e de mobilização superior para de fato serem resolvidos até o final.
As reivindicações dos trabalhadores foram:
Não à compensação discriminatória!
Em alguns feriados prolongados do ano e entre o natal e o ano novo como a universidade fica completamente vazia os funcionários são dispensados do trabalho. Pelas regras da USP, os trabalhadores devem compensar essas horas não trabalhadas ao longo do ano. Na maioria das unidades, apesar de ser regra não se faz essa compensação, porém em algumas os diretores obrigam os trabalhadores a fazerem. Todo ano é uma nova briga contra esses diretores para garantir que ninguém compense. Em 2005 os operários da Prefeitura não compensaram. Este ano mudou a gestão e o novo Prefeito, Adilson Carvalho, tentando mudar as regras passou a impor a compensação, o que significa um acres-cimo diário de 30 minutos trabalhados, além das 8 horas habituais.
Reintegração da trabalhadora da limpadora terceirizada que presta serviço na PCO e que havia sido demitida injustamente!
Em 1988 a USP tinha mais de 18 mil trabalhadores. Hoje tem menos de 15 mil. Essa diferença foi preenchida com trabalhadores terceirizados que recebem um salário miserável de R$ 369,00 e sequer recebem vale-transporte.
Neste ano a PCO terceirizou o serviço de limpeza interno. Após um mês de serviço, os trabalhadores que entraram, contratados pela empresa "União", ainda não tinham recebido sua carteira assinada (o patrão é obrigado por lei a entregar a carteira assinada em até 48 h.). A encarregada tinha sido recentemente humilhada pela supervisora na frente dos trabalhadores, porque havia dado "bom dia" a eles. A supervisora disse que isso "dava liberdade" aos funcionários. Alguns terceirizados, que em dezembro passado haviam sido demitidos da limpadora Dima, (que trabalhava para USP e teve seu contrato rompido pela Reitoria por não cumprir com as obrigações trabalhistas) estavam sendo proibidos de irem no dia 13/02 à DRT de Guarulhos fazer sua rescisão contratual e de irem ao banco para dar entrada no FGTS.
Uma das trabalhadoras, que sob pena de ficar sem seus direitos, saiu para pegar sua rescisão acabou demitida.
Contra a extinção das funções e pelo acesso ao plano de carreiras!
A USP tem inúmeras funções entre seus traba-lhadores: encanador, eletricista, pedreiro, mar-ceneiro, jardineiro, auxiliar de enfermagem etc. No último período a reitoria vem extinguindo várias funções, resumindo distintas funções em uma só classificação como, por exemplo, "auxiliar de manutenção/obras".
Ainda que o salário anterior se mantenha, a profissão do trabalhador, que ele batalhou para ter, é rebaixada na sua carteira de trabalho. Isso faz com que, se o trabalhador da USP for demitido e tiver que ir procurar emprego em outro lugar, na sua carteira de trabalho vai constar uma profissão menos qualificada à que ele de fato exerce.
Esse processo está sendo implementado em toda a USP. Na PCO os trabalhadores vêm se recu-sando a assinar o documento que autoriza a extinção de suas funções. O Prefeito do Campus então passou a chantagear ameaçando que se os trabalhadores não aceitarem a extinção das funções não poderão mais participar dos planos de ascensão de carreira (os quais representam elevação salarial mínima de 5%).
Além dessas reivindicações, os trabalhadores também querem ter acesso ao projeto da adminis-tração da Prefeitura de implementar um novo organograma de funções na unidade para se certificarem de que esse plano não irá prejudicá-los.
A intransigência do prefeito e os métodos dos trabalhadores
Já há algum tempo os trabalhadores vêm tentando negociar com o prefeito Adilson Carvalho a solução desses problemas, que foram se acumulando, pois o prefeito se negava a negociar, e muito menos a propor qualquer tipo de solução.
Foi nesse marco que os operários recorreram à única forma que possuem para, frente à intransigência da patronal, fazer ouvir sua voz e lutar por suas demandas. Paralisaram suas atividades, paralisando o funcionamento de parte importante da infra-estrutura da universidade, como, por exemplo, os Circulares.
Para evitar desgastes junto aos estudantes já na primeira semana de aula, justo quando vão acontecer importantes atividades da calourada, o prefeito, que inicialmente se negava a atender as reivindicações, após conversar com a reitoria, preferiu atender rapidamente as reivindicações, demonstrando que era uma intransigência de sua parte.
Estudantes apóiam ativamente a luta dos trabalhadores
Estudantes da USP que fazem parte do Movi-mento A Plenos Pulmões construindo a Conlute estiveram presente desde o primeiro momento desta luta dos operários da Prefeitura do Campus.
Assim que foi deflagrada a paralisação, enquan-to um grupo de estudantes da APP ficou no piquete na porta da PCO, outro foi para as atividades da calourada que estavam ocorrendo na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e em outras unidades para difundir a luta destes trabalhadores e ganhar o apoio de setores mais amplos dos estudantes.
Na terça-feira, dia 21 os estudantes da APP es-tiveram na assembléia de encerramento do conflito junto com estudantes de Ciências Sociais e do Centro Acadêmico de Física para prestar solidariedade. Dessa unidade resultou uma atividade da calourada organizada pelo Centro Acadêmico de Física no mesmo dia na qual Brandão - operário da Prefeitura e membro do Conselho Diretor de Base do Sintusp - falou para mais de 100 estudantes so-bre o conflito e sobre a importância da aliança entre trabalhadores e estudantes na universidade.
O que está por trás desta paralisação?
Um trabalhador terceirizado custa para a USP R$ 800,00 por mês. Um trabalhador contratado diretamente pela USP no salário mais baixo que é o de auxiliar de serviços gerais, custa em torno de R$ 2.000.00 (incluindo auxilio alimentação, auxilio creche e encargos sociais). A extinção das funções significa "eliminar" o serviço operacional dos quadros da universidade, terceirizando-o, mantendo apenas os funcionários diretamente ligados ao ensino e à pesquisa.
Os ataques que os trabalhadores sofrem dentro da universidade estão intimamente ligados aos ataques às condições de ensino. É a parte da mesma política que também abre as portas para as fundações privadas tomarem conta da universidade.
As fundações direcionam a produção do conhecimento para a reprodução do lucro das empresas. Os cursos que dão lucro para os capitalistas - como economia, administração e engenharia - se transformam em verdadeiros "shoppings". Nos curso de ciências humanas faltam professores, as salas de aula estão superlotadas etc.
O governo do estado e sua serviçal reitoria cortam os gastos públicos dedicados à educação superior, sobrando mais dinheiro para pagar as dívidas interna e externa aos banqueiros internacionais e para subsidiar os capitalistas que investem na Educação privada.
Mas não são os banqueiros e nem tampouco Alckmin que vêm aqui na USP implementar esses planos. É a burocracia acadêmica que presta esse serviço em troca de grandes privilégios e de poder. São professores que ganham 10, 15, 20 mil ou muito mais e que mandam na universidade.
Por isso é central a aliança entre os trabalhadores e os estudantes para lutar por mais verbas para a universidade e pela democratização de sua estrutura de poder, atraindo para essa aliança os professores mais de esquerda e os que estão na base da carreira, fora do papel de domínio e controle da burocracia acadêmica.
Foi um passo inédito e extremamente importante o dos operários da PCO que pela primeira vez se colocaram seriamente a tarefa de defender os interesses dos terceirizados. Não se trata apenas da solidariedade de classe que nos motiva a defender os companheiros terceirizados, mas de entender que lutar pelas reivindicações dos terceirizados significa lutar também em defesa do emprego dos trabalhadores que fazem parte dos quadros da USP, pois não podemos saber qual o posto de trabalho que amanhã vão querer terceirizar. Se trata de entender que lutar contra o processo de terceirização é lutar contra a privatização da universidade.
Os operários da prefeitura começaram a dar os primeiros passos no sentido de se conscientizarem para esta luta. É necessário expandir essa conscientização para o conjunto dos funcionários, para os estudantes e para o setor de professores que mesmo sendo minoritário se solidariza com essa causa. Só assim vamos nos preparar para barrar e inclusive fazer retroceder o processo de terceirização e de privatização dentro da universidade.
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Mazé, trabalhadora da USP, Diretora de Base do Sintusp e militante da Liga Estratégia Revolucionária
Marília, estudante da USP, militante da APP/Conlute e da Liga Estratégia Revolucionária
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