[CMI-SantaMaria] UNômade SM_Uma crise sistêmica do capitalismo flexível, globalizado e financeirizado (Giuseppe Cocco)_Revista IHU On-Line
Leonardo Palma
desobediente em gmail.com
Segunda Maio 4 13:01:55 PDT 2009
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Date: 2009/5/4
Subject: Revista IHU On-Line
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O mundo do trabalho e a crise sistêmica do capitalismo
globalizado é o tema de capa da edição 291 da IHU On-Line, de 04-05-2009.
Contribuem para a discussão Giuseppe Cocco, Waldir Quadros...
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*Destaques*
* Reyes Mate: A memória como antídoto à repetição da barbárie
* Enfrentar a injustiça às vítimas e evitar que os mesmos erros aconteçam é
principal objetivo da memória, afirma Reyes Mate. Contudo, ...
<http://www.unisinos.br/ihuonline/index.php?option=com_destaques_semana&Itemid=24&task=detalhes&idnot=1591&idedit=7&id_edicao=319>
* Destaques On-Line
* Entrevistas feitas pela IHU On-Line e disponíveis nas Notícias do Dia do
sítio do IHU (...
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*Uma crise sistêmica do capitalismo flexível, globalizado e
financeirizado * Por:
Giuseppe Cocco, 04/05/2009
“A contradição estrutural que está na base da crise é aquela, classicamente
marxista, entre desenvolvimento das forças produtivas e relações
(capitalistas) de produção”. E constata que “as forças produtivas hoje são
aquelas de um trabalho mobilizado diretamente dentro da sociedade, sem
passar pela relação salarial formal”, escreve *Giuseppe Cocco*, em artigo
que enviou para ser publicado na revista *IHU On-Line*. Segundo ele, “o
trabalho que constitui as forças produtivas contemporâneas, por um lado, é
de tipo cognitivo, afetivo, linguístico, terciário e, pelo outro, precário,
não reconhecido, flexível, formal e informal ao mesmo tempo”.
*Giuseppe Cocco* é graduado em Ciências Políticas pela Università degli
Studi di Padova e pela Université de Paris VIII. Cursou mestrado e doutorado
em História Social, pela Université de Paris I. Docente da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, o pesquisador é membro do corpo editorial da
revista francesa *Multitudes*, das revistas *Lugar comum* e *Global Brasil*.
Cocco é autor de diversos livros, entre os quais citamos *Trabalho e
cidadania - Produção e direitos na era da globalização* (São Paulo: Editora
Cortez, 2000) e *Biopoder e luta em uma América Latina globalizada* (Rio de
Janeiro: Record, 2005), este último em parceria com Antonio Negri.
*Confira o artigo.*
Vivemos uma crise sistêmica e ninguém sabe qual vai ser seu desfecho. Essa
incerteza radical, transformada numa crise de confiança é o que define,
paradoxalmente, a certeza quanto à dimensão única da crise.
Dizer que a crise é sistêmica significa dizer que ela é fato das
contradições estruturais do capitalismo contemporâneo. Essas contradições
não são, como superficialmente poderia parecer, o fato do descolamento da
esfera financeira com relação à esfera real (produtiva) da economia, algo
que se desdobraria na contradição entre um capitalismo bom (que seria o
industrial) e um capitalismo ruim (que seria o financeiro). A contradição
estrutural que está na base da crise é aquela, classicamente marxista, entre
desenvolvimento das forças produtivas e relações (capitalistas) de produção.
Se essa contradição - como dissemos - é clássica, sua mecânica é
completamente nova: as forças produtivas hoje são aquelas de um trabalho
mobilizado diretamente dentro da sociedade, sem passar pela relação salarial
formal. Quer dizer, o trabalho que constitui as forças produtivas
contemporâneas, por um lado, é de tipo cognitivo, afetivo, linguístico,
terciário e, pelo outro, precário, não reconhecido, flexível, formal e
informal ao mesmo tempo.
Diferentemente do que acontecia no regime industrial, que acabou implicando
numa relação entre “inclusão” e “subordinação” do trabalho, o capitalismo
flexível, globalizado e financeirizado “inclui” (os excluídos) sem eliminar
(ou diminuir) a “exclusão”. A base do novo regime de acumulação é essa. Por
um lado, as novas relações sociais de produção investem a nossa vida como um
todo (e não apenas o tempo de trabalho); por outro, não se reconhece (nem
protege) a dimensão produtiva de nossas vidas. Isso se traduz em uma série
de contradições que já encontramos nas chamas “bolhas” das Bolsas de
Valores. Lembremos a bolha da New Economy: a hiper-valorização dos ativos
empresariais ligados às novas tecnologias da informação e das redes
desmoronou diante da incapacidade capitalista de eliminar e/ou marginalizar
as formas de cooperação que caracterizam a rede: a gratuidade, o copyleft, a
ética hacker do trabalho colaborativo em rede. A crise do subprime é de uma
intensidade ainda maior porque ela não se limita a um segmento específico
(como era a New Economy), mas é o fato do mecanismo geral de governança do
capitalismo global: a relação crédito/débito. Ao passo que a precarização do
trabalho e a privatização dos serviços se afirmavam como principais
tecnologias de comando, a expansão da base do crédito ia substituindo a
dinâmica dos salários reais. A expansão do crédito se torna fundamental e
obrigatória: porque ele substitui e/ou complementa salários cada vez mais
precários, porque a privatização transforma os serviços de saúde, educação,
moradia etc., em mercadorias às quais se terá acesso por meio do crédito (e
da capitalização, como no caso das aposentadorias) e, enfim, porque -
reciprocamente - a produtividade do trabalho (o desenvolvimento das forcas
produtivas) passa a depender ainda mais do que antes, do acesso a esse
conjunto de serviços.
*Capitalismo industrial e finanças se misturam e são indistinguíveis*
A expansão das finanças, quer dizer, a expansão da base financeira, não é
nem a causa dos problemas nem o resultado da cobiça dos financistas. Por um
lado, queremos dizer que os financistas não são mais gananciosos do que os
industriais e, pois, que não há um lucro que seria melhor do que o outro,
pois sempre se trata da expropriação pelos poucos da riqueza produzida pelos
muitos; a chegada da crise no Brasil mostra muito bem que capitalismo
industrial e finanças se misturam e são indistinguíveis: são grupos
industriais produtores de commodities que quase quebraram por causa de suas
especulações financeiras (Votorantim, Sadia, Aracruz).
Por outro lado, a expansão financeira é mais um sintoma do que uma causa. Um
sintoma que não deixa de ser violento, das novas formas de exploração. Vejam
bem, dizer isso não significa reduzir o julgamento ético sobre a violência
intolerável do mecanismo financeiro, pelo contrário, significa amplificá-lo,
atribuindo-o ao capitalismo como um todo e não a sua forma degenerada. A
crise do subprime é, por um lado, o desmoronamento da ilusão de resolver
pelo crédito securitizado a incapacidade dos salários dos pobres e dos
imigrantes de pagar o acesso à moradia. Pelo outro, a transferência da
precariedade das condições de trabalho no nível da precariedade da própria
base financeira: os ativos se tornam tóxicos e somente os governos podem
digeri-los.
O capitalismo pode, claro, se regenerar. Mas, por enquanto, ninguém sabe
como. Essa incerteza não é apenas uma questão de prazos. Há alguns impasses
que não tem solução. Vejamos os dilemas de Barack Obama diante da quebra
(que era anterior) da indústria automobilística norte-americana. Salvá-la
parece problemático em termos econômicos e sociais. Deixá-la falir também!
Como é possível sair desse impasse? Só por meio de inovações radicais, das
quais apenas os movimentos sociais são portadores. Lembremos, entre o G8 e o
G20 há as manifestações de Seattle e Genova bem como os fóruns sociais
mundiais de Porto Alegre. Os movimentos são fundamentais para sair
democraticamente da crise porque só eles são capazes de constituir condições
novas, isto é, de uma dinâmica constituinte. Nesse sentido, poderíamos dizer
que uma das maiores ameaças - no Brasil - à saída da crise está na
criminalização dos movimentos (do MST em particular) conduzida pelo
Presidente do STF.
Não é um problema de justiça (ou seja, no fato de haver dois pesos no uso da
Constituição: seu rigor é invocado para reprimir os sem-terra e suas
garantias para proteger os Crimes do Colarinho branco), mas de constituição.
A Constituição, a Lei da lei, só pode ser a partir de um processo
constituinte, quer dizer, daquele momento onde a fonte (a legitimidade) e o
direito (a lei) coincidem. No Brasil contemporâneo, não precisamos abrir
muitos livros de constitucionalismo para lembrar as duas configurações
(opostas) dessa situação: uma é aquela do AI5, ou seja, do Estado de
Exceção, onde o rigor da Lei aparece como intensidade da decisão,
efetividade sem legitimidade, onde a Lei é, na realidade, lei da Força (não
é por acaso que os mesmos meios de informação que tanto sabatinam o
presidente do STF sejam tentados de fazer uma revisão histórica da Ditadura
militar, chamando-a de DitaBranda); a outra é aquela da Constituinte de
1988, da radicalização democrática que os movimentos produzem pela
participação e a produção da sociedade.
http://www.unisinos.br/ihuonline/index.php?option=com_tema_capa&Itemid=23&task=detalhe&id=1581
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["..., corporações estão assaltando o comum e transformando-o em propriedade
privada. Um ponto central aqui é que o comum é destruído ou se torna menos
produtivo quando feito privado (e também, eu acrescentaria, quando é feito
público, ou seja, objeto de gerenciamento estatal). (...) Quando as
linguagens se tornam privadas elas não podem mais comunicar; quando os
códigos são privados se tornam menos produtivos; quando afetos são privados
eles param de criar relações sociais." (Michael Hardt)]
["A ação da multidão não é outra coisa que esta proliferação contínua de
experiências vitais que têm em comum a negação da morte, a recusa radical e
definitiva do que paralisa o processo da vida". (Antonio Negri)]
[A 'deserotização' da vida cotidiana é o pior desastre que a humanidade pode
conhecer...é que se perde a
empatia, a compreensão erótica do outro..." (Franco Berardi, Bifo)]
["Refiro-me à multidão de festa, à multidão de alegria, à multidão
espontaneamente amorosa, embriagada apenas pelo prazer de se reunir por se
reunir." (Gabriel Tarde)]
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