[CMI-SSA] linguagem inclusiva

Vanessa P. magnolia_roxa em yahoo.com.br
Sexta Agosto 27 16:07:57 PDT 2004


Carol,
segue abaixo com atraso as propostas de linguagem inclusiva do cmi-mulheres e do cmi-ssa. Não sei se foram aprovadas sem/com alterações.
Em anexo vão outros textos sobre linguagem inclusiva.
E os treinos de wendo lá no Insurgente? Vamos conversar sobre o cartaz.
Bjos
V
*
 

Breve comentário sobre a linguagem e sexismo

 

(http://docs.indymedia.org/view/Local/LinguagemInclusiva)

 

A linguagem é inocente? 

 

# A linguagem reflete padrões de interação social. Mais do que isso: a linguagem não só reflete, mas também participa na manutenção e reprodução de certas idéias e práticas culturais. 

 

# A noção de que há conexões entre a linguagem e a configuração da sociedade não é nova. Sabe-se que a linguagem reflete, produz, amplia e limita nossas formas de pensar. O controle sobre a linguagem é também de certa forma um controle sobre as mentalidades. Um exemplo desse poder está no livro 1984, de George Orwell, em que é narrada a tentativa do governo totalitário de mudar a linguagem para evitar que as pessoas tenham pensamentos politicamente perigosos. 

 

# A linguagem pode contribuir para a manutenção de certas desigualdades. Uma linguagem sexista certamente contribui para uma sociedade sexista. 

 

# Que tipo de vocabulário e de moralidade você quer continuar produzindo? Lembre-se: você não só é usuári@ da língua, como também a produz! 

 

O masculino genérico é "neutro" mesmo? 

 

# Existem vários pares de opostos (leão/leoa, cachorro/cadela), mas um termo do par geralmente funciona como um termo mais “neutro”. Usamos “cachorro” para nos referimos a cachorros machos, mas também é um termo geral para o cachorro cujo sexo não foi especificado. Cadela, no entanto, se refere exclusivamente à fêmea. Esses termos neutros são referidos semanticamente como não-marcados, enquanto cadela e leoa são semanticamente marcados. 

 

# A forma não-marcada “homem” pode se referir a homens ou a seres humanos no geral. A forma marcada é restrita às mulheres. Assim, as mulheres são, efetivamente escondidas atrás da terminologia “genérica” (masculina). E “homem” também não é uma terminologia realmente genérica. A neutralidade da categoria é duvidosa. Existe uma tendência a se pensar, realmente, nos homens, mesmo quando estamos falando no plural. Ao promover o uso do masculino e o desuso do feminino, claramente se apóia e se dá visibilidade e primazia para os homens. 

 

# Podemos igualar a visibilidade entre homens e mulheres substituindo expressões como “homens” por “pessoas” ou “seres humanos”, ou utilizar formas mais criativas: @s ativistas, trabalhadorxs... 

 

# A quem interessa certas regras gramaticais? Por quem foram criadas? 

 

Linguagem menos reacionária para pensamentos mais livres! 





 

 

PROPOSTA CMI-BRASÍLIA/CMI-MULHERES

 

(https://lists.indymedia.org/mailman/private/cmi-brasil/2004-February/008091.html)

 

"Há tempos, recebemos, todos os coletivos da rede cmi brasil, uma proposta da lista global imc-womyn (repassada pelo cmi-mulheres) para a inclusão, nos processos de aprovação de novos indymedias, um questionário sobre a diversidade d em s voluntári em s: até que ponto nossos coletivos refletem a diversidade? Como estamos estimulando a participação de mulheres em nosso projeto?



Consideramos importante afirmar que nossa luta anticapitalista também é a luta contra o patriarcado, o racismo, a homofobia (as chamadas "desigualdades invisíveis") e outras formas de exclusão. Nesse sentido, consideramos fundamental sair do padrão de mentalidade que tem como modelo geral o homem-branco-heterosexual-ocidental-cristão. Isso inclui desafiar regras gramaticais que instituem o uso do masculino para significar o genérico e reforçam a invisibilidade de, pelo menos, metade da população que se identifica com o gênero feminino. A opção por essa linguagem sexista reflete mentalidades e moralidades que vêem o homem como padrão, digno de representar as mulheres e a humanidade como um todo.

 

Incluir a forma feminina nas palavras genéricas (masculinas) é afirmar a existência das mulheres e dar visibilidade para o fato de que elas também estão em todos os lugares. São AS ativistas, AS trabalhadorAs rurais, AS cientistas e, também, AS policiais que oprimem, batem, vigiam...

 

Vários indymedias do mundo já utilizam a linguagem inclusiva em seus editoriais, e essa é uma escolha política. A comodidade não nos parece justificativa razoável para continuar obedecendo regras carregadas de imaginários de opressão (invisibilidade). A língua muito embora tenha estruturas às vezes muito duráveis, é algo em constante construção e reconstrução, sendo apropriada de muitas formas pel em s falantes. 




Entendemos que adotar como postura uma linguagem inclusiva é, não apenas coerente com o que acreditamos, mas uma forma de afirmarmos a pluralidade da sociedade e optarmos por uma "guerrilha de linguagem", na constatação de que o que se fala e se escreve também cria e influencia modos de ser e estar no mundo. É por isso que propomos a mudança da linguagem do nosso sítio - das páginas estáticas, formulário do "publique", aos editoriais. Recusar a palavra "homem" como sinônimo de "humanidade" e preferir palavras coletivas é um bom começo, mas não é suficiente.

 

Discutimos bastante, mas ainda não optamos pelo formato dessa nova linguagem, ou pela necessidade de uma padronização estilística. É fundamental pensarmos e escolhermos junt em s a melhor forma de expressar a sociedade justa, libertária e inclusiva pela qual estamos lutando: "o/a", "@", "x", ou mesmo a afirmação dos dois gêneros - voluntárias e voluntários do cmi. Quem sabe alguma outra sugestão? A estranheza e incômodo que alguns desses símbolos pode gerar nos parece positiva, na medida em que nos tira do lugar comum, nos induz a pensar e, tomara, adotar outras posturas.

 

Estar atent@ às denominações que as próprias pessoas se atribuem também é importante. É O travesti ou A travesti? Perceba ou pergunte como a pessoa se identifica.

 

Também com a linguagem podemos combater exclusões e difundir equidades e igualdades. Vale lembrar o uso de expressões racistas como "denegrir", "a situação tá ficando preta" e outras. Abaixo, alguns pontos para reflexão sobre o assunto. Contamos com a opinião de vocês.

 

em solidariedade,

cmi-brasília e cmi-mulheres"

 

 

LINGUAGEM INCLUSIVA DE COMBATE - CMI - SALVADOR

 

"Consideramos que a linguagem inclusiva, na forma como foi colocada na proposta apresentada (substituição do sinal indicativo de gênero - "o", "a" - por um sinal ambivalente - "@", "x", "=", etc.), pode atrapalhar a leitura e a compreensão da mensagem, uma vez que é apenas conhecida de pessoas já envolvidas com a militância de gênero. Mesmo se se colocasse um aviso a cada texto ("este artigo utiliza linguagem inclusiva") ou num artigo explicativo ligado ao texto, ainda assim a referência à linguagem inclusiva seria compreendida por pessoas já envolvidas com esta mesma militância, e a leitura do texto seria condicionada ao tempo disponível por parte da pessoa que lê, seu interesse por procurar informações sobre o assunto, etc. Seria algo como uma "expiação de pecados" do militante (homem) frente à militante (mulher): não há como fazer muito quanto ao que existe de domínio masculino na linguagem, então adoto os sinais ambivalentes como forma de dizer que opto por não dominar - mas ao
 mesmo tempo esta recusa à dominação pouco contribui ativamente para o fim da dominação fora dos círculos da militância.

 

Da mesma forma, a linguagem inclusiva tem seus efeitos apenas na sua forma escrita, pois a leitura oral traria de volta a dominação de gênero ("Os/as" ou "as/os"? "Todos e todas" ou "todas e todos"? Quem vem primeiro, e por qual critério?), além de que muitas pessoas já acostumadas com a linguagem inclusiva ainda lêem os sinais ambivalentes ("@", "x", "=", etc.) no masculino, pelo condicionamento a que foram submetidas desde a infância - em especial no caso da arroba ("@"), cujo formato facilita este "desvio de função".

 

Assim, o CMI-Salvador, reconhecendo a dominação de gênero que existe na linguagem escrita e falada, responsável por condicionamentos de leitura, em conjunto com as dificuldades criadas pelo descompasso entre a linguagem falada e a linguagem escrita quando os sinais indicativos de gênero são substituídos por sinais ambivalentes ("@", "x", "=", etc.), propõe que:

 

AO INVÉS DE SE SUBSTITUIR O MASCULINO OU FEMININO NOS PLURAIS QUE ENVOLVAM O GÊNERO FEMININO, QUE SEJA USADO O GÊNERO FEMININO EM TAIS PALAVRAS.

 

Tal medida não atrapalha a leitura (nossos condicionamentos de leitura contém também a leitura de femininas), não impõe um descompasso entre a linguagem escrita e a linguagem oral (quem lê "as trabalhadoras" não tem como ler de outra forma) e ao mesmo tempo gera o estranhamento que se desejava com a substituição dos sinais indicativos de gênero por sinais ambivalentes ("@", "x", "=", etc.) (quem lê o plural no feminino compreende o significante e o significado, mas se pergunta: "por que está no feminino e não no masculino?").

 

É preciso lembrar, igualmente, que o dominador não faz compromisso algum com a ordem anterior que destruiu para poder exercer seu domínio. Quem quer romper com este novo domínio não deve ter, da mesma forma, nenhum escrúpulo de considerar os pontos de vista do atual dominador - pelo menos num primeiro momento. O choque deve ser feito. A discussão sobre dominação de gênero na linguagem passa por processo semelhante: nunca foi perguntado às mulheres se desejavam se sentir homens quando incluídas num grupo de 126.348 mulheres e apenas 1 homem (exemplo hipotético). Há exemplos práticos tão gritantes quanto este: nas UCSal o curso de Serviço Social é composto predominantemente por mulheres (há cerca de 5 homens no corpo discente) cujas alunas são tratado no masculino pela presença de 2 a 3 homens em sala, ou mesmo quando não há homem algum presente. Por outro lado, neste mesmo curso existem os germes desta proposta que sustentamos: há professores (homens) que se recusam a usar o plural no
 masculino, e explicam seus motivos no começo do curso. Consideramos que o verdadeiro choque na linguagem é fazer com que os homens seja tratados pelo feminino, para que sintam na pele o tipo de dominação de linguagem à qual submeteram a mulher por tanto tempo (mil e poucos anos, em se tratando de língua portuguesa).

 

Uma vivência na posição de dominado faz com que se tenha uma outra pespectiva quanto ao exercício do domínio, e se perceba tal relação como problemática. Lembramos o exemplo da professora Jane Elliot, de Riceville, Iowa: logo depois do assassinato de Martin Luther King, ela bolou uma vivência em racismo que passou a aplicar com as crianças da escola (todas brancas). Ela dividiu a classe em crianças de olhos claros e olhos escuros, e alternava os grupos entre dominados e dominantes, pedindo que o grupo dominado fosse tratado - literalmente - como escória, lixo, dejetos humanos. Depois, ao fim da experiência (que durava alguns dias), pedia para que as crianças (todas brancas) transpusessem esta experiência para o cotidiano do povo negro e notassem que aquilo que sentiram por alguns dias era o que o povo negro sentia todos os dias. A experiência foi registrada no documentário "Eye of the Storm" (direção W. Peters. Mount Kisko, Center for Humanities, 1970), e em 1985 os alunos daquela
 turma de 1970 foram novamente entrevistados, dizendo o quanto sua vida posterior mudou depois daquela experiência (v. o documentário "A Class Divided", de 1985, em que as entrevistas com a professora Jane Elliot e as crianças, já adultas, são alternadas com outra vivência semelhante, aplicada a oficiais correcionais. V. ainda, sobre a mesma experiência, os documentários "Olhos azuis" (1996) e "O olhar indignado de Jane Elliot [1998?], Denktmal Films, EUA (Br-GNT). Alguns destes foram exibidos pelo canal GNT há certo tempo.).

 

Levantamos esta proposta sabendo desde já que ela pode levantar alguns tipos de polêmica, mas é justo o que se pretende como efeito, tanto em sua proposição quanto em sua eventual adoção. Esperamos que seja possível refletir coletivamente sobre as deficiências da linguagem inclusiva, e as possibilidades de criarmos novas formas de nos expressar."

 









xcarolx em riseup.net wrote:



Oiii!

POr favor, será que alguém que estava acompanhando as discusões no
cmi-mulheres sobre linguagem inclusiva, podeira me disponibilizar um texto
mais explicativo sobre o assunto. Conheço algumas pessoas que estão
interessadas sobre o tema. Por favor, quem puder mandar eu agadeceria de
montão!!!!!
beijinhos
xcarolx
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http://lists.indymedia.org/mailman/listinfo/cmi-ssa



		
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Nome  : Linguagem inclusiva.doc
Tipo  : application/msword
Tam   : 70144 bytes
Descr.: Linguagem inclusiva.doc
Url   : http://lists.indymedia.org/pipermail/cmi-ssa/attachments/20040827/6029e807/attachment.doc 


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