[CMI-SSA] Consumismo e Globalização

Wagner Vinhas wvinhas em gmail.com
Segunda Abril 17 08:36:20 PDT 2006


Teremos feito muito a favor da sustentabilidade no planeta se
relacionarmos os atuais padrões de consumo com as estratégias daqueles
que diretamente se beneficiam do processo de globalização econômica.
Na atualidade existe uma relação direta entre consumo e monopólio. Não
são as pequenas empresas ou as atividades artesanais que fomentam o
consumismo, mas as corporações mais lucrativas no planeta. São elas
que exercem muito das práticas do capitalismo selvagem: uso de mão de
obra infantil e semi-escrava, transgênico, lobby em questões polêmicas
e contra os interesses da sociedade.
Os comportamentos de consumo são estimulados por mensagens que
relacionam idéias como felicidade, sucesso, auto-estima aos produtos e
serviços oferecidos pelo mercado. Os signos são cuidadosamente
estudados para convencer homens, mulheres, adolescentes e crianças a
desejarem consumir num mundo de sonhos mercadológicos. Os
profissionais de publicidade a chamam de estratégia de marketing:
relação direta entre um produto ou serviço às necessidades de um
consumidor em potencial. Esta técnica também é conhecida como a arte
da persuasão. Não teríamos nada contra esse tipo de prática se não
fosse pelo fato de que o "publico alvo" é atingido através de meias
verdades que ressaltam apenas o "lado bom" e escondem a "banda podre"
dos bens comercializados.
Existem no cenário mundial empresas como a Disney World que detém o
monopólio dos meios de entretenimento e comunicação. Casos como da
Bunge que usa transgênicos na fabricação dos alimentos e violam os
direitos do consumidor ao omitir as informações no rótulo de seus
produtos. Também das redes como a Wal Mart (Bompreço) que no seu
marketing esconde da sociedade brasileira uma das suas principais
atividades nos Estados Unidos, a comercialização de armas de fogo.
Empresas com práticas predatórias como a Petrobrás que explora
petróleo na Bolívia como qualquer outra transnacional. Não podemos
deixar de citar o caso dos bancos (Bradesco, Itaú, Banco do Brasil,
Caixa Econômica Federal e Unibanco) que no balanço de 2005 constam os
maiores lucros na história do sistema bancário brasileiro ou da
falência do Banco do Estado de Alagoas na década de 1990, pela falta
de pagamento dos empréstimos cedidos a Usina Coruripe e outras do
ramo. Finalmente, o caso da Nike que explora mão de obra infantil e
semi-escrava nos países do terceiro mundo. Segundo Boaventura de Souza
existem empresas transnacionais com uma riqueza acumulada maior do que
o PIB de qualquer nação, ou seja, alguns grupos econômicos concentram
lucros acima da riqueza socialmente produzida pelas populações de
qualquer país sobre o planeta.
O consumismo movimenta uma máquina que devora de forma acelerada os
recursos naturais e as riquezas sociais.  No capitalismo existe uma
dinâmica insustentável: criar demanda para dar conta de uma produção
cada vez maior e aumentar a produção para dar conta do crescimento
contínuo da demanda. O resultado é inevitavelmente o esgotamento das
reservas naturais e a manipulação da subjetividade da população para
transforma-los em consumidores cada vez mais vorazes. Os bens de
consumo são cada vez mais descartáveis e segmentados. Do paradigma da
qualidade total é eliminada a durabilidade do produto que reflete
diretamente na diminuição do uso de matéria prima, assim como, os
efeitos colaterais provocados pela pobreza de nutrientes, excesso de
conservantes ou inseticidas na produção de alimentos.
Na década de 1990, houve um sensível crescimento na organização da
sociedade civil em vários países. Foi nesta década que os primeiros
passos para formação de uma sociedade civil global foram dado. A
preocupação com os níveis de degradação do meio ambiente, causado pela
ação inconseqüente das elites econômicas apoiadas pelos seus
respectivos governos, permitiu o surgimento de movimentos ecológicos
(Partido Verde e GreenPeace). Entretanto, mesmo que possamos falar de
uma ação global contra os paradoxos capitalistas, o mesmo não pode ser
dito quanto a sua eficácia. O sistema capitalista tem sobrevivido a
várias crises ao longo dos últimos séculos devido a sua grande
capacidade de transformação. A dinâmica capitalista engendrou muitos
espaços ocupados pela sociedade civil organizada, principalmente, fora
dos movimentos sociais que se dão de forma espontânea. As organizações
não-governamentais no mundo inteiro são dependentes dos financiamentos
de origem muitas vezes duvidosas. O capitalismo se aproveita da
necessidade de obter determinadas condições concretas para manipular
as ações das ong's nos paises com maior impacto de suas atividades. Na
atualidade, as entidades da sociedade civil fazem parte da mecânica
capitalista ao estabilizarem as desigualdades em níveis que evitem o
conflito social. A Fundação Ford, uma das maiores financiadoras de
projetos de pesquisa e mobilização social no mundo, é um exemplo
clássico dessa perversa dinâmica. A Fundação financia pesquisas de
ponta objetivando obter alternativas viáveis economicamente e estudos
de grupos humanos que demonstrem a dinâmica social para uma possível
intervenção. É de nosso conhecimento que os antropólogos
norte-americanos trabalham, em sua maioria, para o governo
estadudinense e seus estudos servem para ações em países no Norte da
África e latino-americanos.
O GreenPeace mantém uma lista de empresas que utilizam transgênicos.
Seu método consiste no envio de uma correspondência questionando a
prática da empresa no mercado. A omissão por parte da empresa
caracteriza o uso de transgênicos em seus produtos. A lógica aplicada
é dedutiva. A empresa que emite um parecer desmentindo o uso de
transgênicos, caso venha ser comprovado o contrário, pode ser
incriminada judicialmente. O GreenPeace não realiza os testes com
todas as empresas pelo seu alto custo financeiro. A lista circula em
espaços restritos, no WebSite da entidade e através do envio da
cartilha aos seus doadores, tornando a ação pouco eficaz diante das
dimensões do problema e dos territórios a serem percorridos. Produtos
de empresas como Knor, Bunge, Nestlé são comercializados livremente
nos supermercados sem aviso prévio ao consumidor.
O monopólio dos meios de comunicação pelas agencias ligadas às elites
econômicas produz informações tendenciosas sobre a realidade social e
intensifica a carência com relação à cobertura dos fatos por
diferentes grupos de interesse. A população sem outras opções não tem
meios de refletir criticamente sobre a realidade que participa e
contribuir para a transformação da sociedade em que vive.
Estamos à beira de um processo de convergência de áudio, vídeo e dados
através da modernização do sistema brasileiro de televisão. A tv
digital vem sendo discutida ao longo dos últimos anos e as decisões
vêm se dando a portas fechadas entre governo e empresários do setor
televisivo (Rede Globo, SBT). Em 2003, quando o primeiro decreto foi
promulgado, houve uma grande euforia em torno das possibilidades de
unir tv digital e inclusão social no país: educação à distância,
programas culturais e comunitários, abertura de novas concessões, etc.
Contudo, o lobby da grande mídia está conseguindo levar a questão para
o âmbito meramente privado. Não existe transparência e abertura nas
mudanças que estão sendo feitas. O atual ministro das telecomunicações
(Hélio Costa) tem deixado de fora a sociedade civil do processo de
discussão e decisão.
Desde 1968, não existe um jornal de esquerda diário no país e apenas a
grande mídia informa a população. A democratização da informação é uma
questão emergencial para que formadores de opinião surjam no cenário
de discussão. Temos tomado esta questão dos formadores de opinião
sobre um viés elitista, para poucos, nos valendo da justificativa de
que a população de um modo geral é apática diante dos assuntos
importantes. Entretanto, a monopolização dos meios de comunicação como
jornal, televisão e rádio não favorecem ao processo de crítica da
realidade social. Basta vermos o número reduzido de rádios
comunitárias sob a constante ameaça dos meios de controle social
(fiscalização dos órgãos competentes) e sem falar na inexistência de
jornais e canais de tv comunitários. A importância das diferentes
coberturas dos fatos não está limitada pela idéia de que possamos
trazer informações fidedignas, mas de acrescentar novos ou outros
discursos ao processo como um todo. A transformação nos meios de
comunicação não é para privilegiar um ou outro grupo, mas a sociedade
como um todo.



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