[cmi-ssa] Enc: O Caminho desde Oaxaca

Manolo manoel em riseup.net
Sábado Novembro 18 06:11:06 PST 2006



----- Mensagem encaminhada de juliano.gds em ig.com.br -----
     Data: Fri, 17 Nov 2006 19:07:25 -0300
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  Assunto: [AGP-Brasil] O Caminho desde Oaxaca
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"Múmia livre já" (refrão do rap da antiga galera da Comuna)

O Caminho desde Oaxaca
Por Mumia Abu-Jamal*


Um ensaio solidário sobre a rebelião popular em Oaxaca escrito pelo
preso-político Mumia Abu-Jamal


Faz várias semanas uma longa coluna de milhares de pessoas serpenteaba pelo
polvorento caminho desde a cidade ao sul de Oaxaca para México D. F., uma
distância de 800 quilômetros, para apoiar a democracia e exigir a saída de
seu governador, o qual chegou ao poder numa eleição roubada e profundamente
corrupta. Os caminhantes, uma multidão de professores, estudantes,
camponeses, etc. seguiram seu caminho tortuoso sobre montanhas e vales, sob
chuvas lacerantes, calor abrasador e frio penetrante, marchando durante 19
dias para levar à sede do governo federal suas exigências.

O grupo chamado Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) sacudiu a
México com sua tenaz insistência ética de que a vontade do povo se escute.

Durante várias semanas li do que aconteceu em Oaxaca. E cada vez que lia
algo, pensei nos estadunidenses que docilmente aceitaram as eleições
corruptas em 2000 e 2004, como cordeiros levados à espada. Tanto as eleições
roubadas no estado de Florida no ano 2000 como as de Ohio em 2004 fizeram um
dano inédito à noção da democracia e quebrantaram a fé de milhões no
processo eleitoral.

O povo de Oaxaca, ao enfrentar com valentia os elementos naturais, os
políticos, o terrorismo dos instrumentos do estado, a violência policial e
militar, comprovou com sua marcha e seu protesto que a verdadeira democracia
é de profunda importância para o povo.

Como resultado dos esforços da APPO, surge uma resistência mais ampla no D.
F. e em outras partes do país, criando uma crise na nação com sua demanda
incondicional pela saída do governador de Oaxaca, Ulises Ruiz, e a
instauração da democracia.

A crise nasce da situação em que muitos dos partidos políticos do país estão
fazendo todo o possível para calar, descarrilar, e intimidar o povo porque
temem que seu sucesso signifique duas, três, muitas Oaxacas por todo o país.

Oaxaca, agora o estado mais pobre de México e também o estado com maior
população indígena, é uma inspiração para os povos além das fronteiras ao
sul do México.

A resistência atual oaxaquenha surgiu como resposta à repressão ordenada
pelo governador Ruiz em junho contra o sindicato magisterial em greve. Os
professores repeliram os embates, e dias depois mais de 300 mil pessoas
participaram numa marcha em massa em apoio a dito sindicato. Desse apoio
massovo e profuso nasceu a APPO, a assembléia popular.

A crise constante no México pode impulsionar outras forças sociais a unir-se
com os esforços radicalizantes da APPO ou, por outro lado, pode abrir a
porta ao terror ameaçador dos instrumentos cruéis do estado.

Falando claro, o que começou como resposta à repressão pode terminar em
ainda mais repressão. Mas isso não será nem poderia ser o fim. As forças que
deram origem à APPO fervem justamente embaixo da superfície, a ponto de
surgir em outro estado onde os trabalhadores e os pobres lutam para resistir
as forças vorazes do globalismo.

Quando aos pobres são maltratados, quando os trabalhadores são mal pagos, as
condições para a resistência já estão presentes. E embora a tentação para
que o estado utilize seus instrumentos brutais possa ser forte, também é
muito possível que este tipo de solução leve a uma resistência mais ampla e
mais profunda.

O exemplo de Oaxaca se espalha como vento e os exemplos da resistência
popular e indígena de México, como a APPO, os zapatistas e várias lutas por
toda Latino América, também se espalham.

Todo apoio aos povos de Oaxaca, não somente com palavras mas também com
esforços organizadores semelhantes em outras partes do mundo, começando
pelos Estados Unidos.

Desde o corredor da morte, sou Mumia Abu-Jamal
11-10-06
Direitos reservados MAJ 2006

*A voz solidária de Mumia Abu-Jamal, um dos presos políticos mais conhecidos
do mundo, voa sobre as muralhas de aço do corredor da morte do estado de
Pensilvânia. Baleado, golpeado, detido em 9 de dezembro de 1981, o
jornalista africano-americano foi incriminado do assassinato de um polícial,
na realidade assassinado por outros policiais mafiosos da Filadélfia para
encobrir seus próprios crimes. Ajuizado num processo racista e injusto,
Mumia foi condenado a morte, condenado por ter sido integrante dos Panteras
Negras, condenado por lutar contra abusos policiais, condenado por ser um
jornalista livre e combativo antes da era da midia livre. É o único preso
político nos Estados Unidos que tem a pena de morte até agora.




----- Final da mensagem encaminhada -----


-- 
"O voto deve permanecer rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não
terá vergonha de votar em seu candidato."
- Apparício Torelly, Barão de Itararé
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