[Cmi-vitoria] Não ao não! Não ao sim!

Anarkiisto anarkiisto em anarkopagina.org
Quarta Outubro 19 07:25:45 PDT 2005


    Não ao não! Não ao sim!

Por Mário Maestri
*"/Anular o voto no dia 23 de outubro é pronunciar-se contra as falsas
alternativas propostas pela cínica demagogia governamental.../"*

A consulta de 23 de outubro aborda questão de magna importância que
angustia profundamente a sociedade brasileira, com destaque para seus
setores mais desprotegidos. A população residente no Brasil vive
permanentemente preocupada com a segurança individual, sua e de seus
próximos, ameaçada pela violência que hoje assola crescentemente, apenas
em forma desigual, o mundo urbano e rural.

Apesar da importância da questão, o plebiscito sobre a proibição do
comércio civil de armas desvia a atenção da responsabilidade
governamental, passada e presente, na degradação incessante da segurança
individual, constituindo cínica e fria manipulação da opinião pública
através da promoção da divisão da população em torno de duas
alternativas incapazes de porem minimamente trava à violência que vive o
país.

Não há relação mecânica entre armamento da população, violência e
criminalidade. Faltam com a verdade aqueles que, como o senhor Luiz
Inácio Lula da Silva, sugerem ou propõem que as astronômicas "taxas de
homicídios" brasileiras devem-se "ao enorme volume de armas em
circulação no país". [FSP, 9.10.2005] Nações de população hiper-armada,
mas com elevados níveis de desenvolvimento social - como o Canadá -,
possuem baixíssimas taxas de homicídios.

*Cidadãos armados*

Nos anos 1970, quando vivia no exílio, cruzando a Suíça, vi,
estarrecido, pela janela do trem, fuzil-metralhadora e seu respectivo
pente abandonados em banco de uma estação. Nada de extraordinário, me
informaram: os jovens reservistas, que guardam as armas de guerra em
casa, não raro as esquecem, após festejarem copiosamente o fim dos
exercícios militares anuais. Da Suíça comentam-se os queijos, os
chocolates e os bancos, não a criminalidade comum e a violência familiar
armada.

Israel é um dos países mais armados do mundo, onde a cultura das armas e
a violência permeiam incessantemente a vida quotidiana da população,
sendo exercidas sistematicamente contra a população não-nacional. Porém,
não temos notícias de israelenses utilizando, dia e noite, suas potentes
armas pessoais para resolverem problemas com esposas, maridos e vizinhos
de rua.

Não são as armas que determinaram que o Brasil tenha escandalosa taxa de
homicídios. São a já histórica e contínua degradação das condições da
vida, saúde, educação, cultura, lazer, trabalho e salário, exigida pela
ditadura do grande capital internacional e nacional, sob o domínio
esmagador dos valores consumistas, hedonistas e individualistas da
sociedade de mercado. É a ordem social friamente impiedosa que aleita e
embala a violência e a criminalidade crescentes. Contra isso, nem uma só
palavra, nem uma só proposta governamental real.

*A culpa é do revólver *

É compreensível que governo que realiza cortes monstruosos nos
investimentos sociais e promove a degradação dos salários e das
condições de trabalho, culpe o revólver pelo mar de violência no qual
submerge o país. A promoção e o apoio governamentais ao plebiscito
devem-se à certeza da fácil vitória da proposta da proibição do comércio
civil de armas, que lhe permitirá igualmente uma vitória política e,
portanto, prosseguir mais facilmente em sua trajetória socialmente
impiedosa e violenta.

As razões para votar sim seriam aparentemente muitas e boas. O sim
interpretaria o sonho de mundo onde os homens são amigos dos homens e as
armas um inevitável contra-sentido, já que destinadas por natureza à
morte de seres vivos, devendo, portanto, serem abolidas e proibidas sem
distinções. O sim permite também manter a distância do partido do
gatilho, que reúne alguns dos personagens e instituições mais
obscurantistas do Brasil - Jair Bolsonaro, UDR, Veja.

Em verdade, o plebiscito não prevê minimamente o desarmamento geral. Ao
contrário, promove apenas o desarmamento do cidadão na plenitude de seus
direitos. Permanecerão com suas armas as polícias civis e militares,
fontes de diárias e incessantes violências contra a população desarmada,
sobretudo trabalhadora. Violências para as quais os governos fecham os
olhos e garantem a impunidade, após a abertura e realização do
tradicional inquérito pertinente, é claro!

*O monopólio do poder*

Permanecerão na posse e no porte de suas armas as centenas de milhares
de guardas e milicianos privados, à disposição daqueles capazes de
pagarem pela proteção armada fornecida por indivíduos, ao igual que os
policiais civis e militares, estressados pelas condições de trabalho e
existência a que são submetidos. Manterão o direito de posse e porte
individual de armas membros das forças armadas e das instituições
judiciais que promovem quotidianamente desmandos públicos com as mesmas.

Seriam também abundantes as boas razões para votar não. O direito de
armamento da população, sobretudo organizada em suas instituições civis,
é forma de proteção dos direitos sociais e democráticos. O desarmamento
da cidadania fortalecerá o monopólio das armas do Estado, em geral, e
das forças armadas, em especial. Instituições que, através da história,
usaram-nas mui raramente na defesa da cidadania e da nação e,
habitualmente, contra a população pobre e os direitos civis e
democráticos. No relativo ao exército, basta lembrar Canudos,
Contestado, Estado Novo, 1961 e 1964. No relativo à polícia, basta abrir
diariamente os jornais.

Em 11 de setembro de 1973, o exército chileno pode vergar a vontade da
maioria da população pois mantinha o monopólio das armas, radicalizado
por campanha em prol do desarmamento da população, promovida
paradoxalmente pelo governo de Allende nos meses que antecederam o
golpe. Por exigência do alto comando militar, é claro. Trabalhadores e
democratas morreram no Chile resistindo, quase de mãos nuas, diante de
exército tido, até então, como o mais democrático da América Latina. No
Iraque, as tropas invasoras anglo-estadunidenses continuam pagando caro
o direito de cada iraquiano de ter em casa uma arma automática,
garantido durante o governo passado!

*Chame o ladrão!*

O não ao plebiscito apóia-se igualmente na consciência do popular de que
a proibição efetiva de manter legalmente uma arma municiada em sua
moradia o deixará, inevitavelmente, ainda mais desprotegido diante de
uma agressão. Em forma indiscutível, a quase certeza da inexistência de
uma arma em uma moradia favorece a sua invasão, por quem quer que seja.

Após o plebiscito, indivíduos não raro quase destinados à violência
devido às condições de nascimento e criação, que encontram no crime meio
de vida e de realização, continuarão sendo encarcerados como animais,
por falta de recursos, para, a seguir, serem postos em liberdade, também
por falta de recursos, para irem bater à porta de morador sem qualquer
possibilidade de pedir e receber prontamente a proteção pública a que
tem constitucionalmente direito. Pois, folga dizer que não há igualmente
recursos para segurança corretiva.

Anular o voto no dia 23 de outubro é pronunciar-se contra as falsas
alternativas propostas pela cínica demagogia governamental, e dar,
assim, passo, ainda que mínimo, em direção do armamento moral e político
da população trabalhadora e democrática, na luta pela construção,
difícil mas imprescindível, de sociedade fraterna, onde a paz, a
segurança e a realização sejam direitos de todos, e não apenas das
classes endinheiradas.

Mário Maestri, 57, é historiador. Participou da resistência à ditadura
militar. Viveu no Chile e, a seguir, na Bélgica, como exilado, de 1970 a
1977. E-mail: maestri em via-rs.net <mailto:maestri em via-rs.net> .

-- 
Seja livre: mova-se com Linux, Esperanto e Anarquia
http://www.anarkopagina.org Linuksa #260796

-------------- Próxima Parte ----------
Um anexo em HTML foi limpo...
URL: http://lists.indymedia.org/pipermail/cmi-vitoria/attachments/20051019/8c46018b/attachment.htm 


Mais detalhes sobre a lista de discussão CMI-Vitoria