[Cmi-vitoria] Reportagem sobre o CMI na Caros Amigos
Juliherme
juliherme em riseup.net
Sábado Dezembro 23 19:46:11 PST 2006
república
O ESTUDANTE EM MOVIMENTO
por Camila Gomes, Natalia Viana, Maurício Reimberg, Tadeu Breda
e-mail: republica em carosamigos.com.br
CMI: Seja a mídia
Seattle, 1999. Cerca de cinqüenta mil pessoas ocupam as ruas da cidade e
protestam contra as políticas de liberalização da economia da Organização
Mundial do Comércio (OMC). Grupos de ação direta realizam gigantescos
bloqueios dos acessos ao local do encontro. A “rodada do milênio” é
cancelada. Era a primeira aparição midiática do movimento anti-globalização.
Durante a “batalha de Seattle”, surge o modelo Independent Media Center
(www.indymedia.org), uma nova forma de organização de mídia, inaugurado para
cobrir as manifestações contra a OMC. “A origem do Indymedia está
completamente ligada com a história do movimento anti-globalização, é um
projeto antigo, de vários veículos alternativos, para fazer uma grande
federação”, conta Pablo Ortellado, um dos fundadores do CMI no Brasil.
Alguns meses antes, num encontro de mídia alternativa em São Francisco, EUA,
diversos veículos resolveram se organizar para colocar o projeto em prática.
Com a difusão da tecnologia digital, o consenso era formular um site no qual
os veículos substituíssem a cobertura de competição entre si, por um
trabalho cooperativo. “O site seria uma espécie de banco de dados, no qual
os veículos alternativos, revistas, documentários, tv comunitária e rádio
livre pudessem subir áudio, vídeo, imagens, fotografias e textos”, descreve
Ortellado.
Logo na estréia, em Seattle, o site cravou a marca de 1 milhão de acessos
diários. Mas o surpreendente, segundo os ativistas, é a consolidação e
durabilidade da rede global. “O CMI, num certo sentido, não nasceu desta
experiência (de Seattle), e sim do aprendizado dessa experiência, que era
episódica, era um site que era para nascer e morrer ali, mas aprendemos que
aquilo devia se tornar um projeto permanente”, lembra Ortellado.
Os números impressionam. Os centros de mídia independente atingiram a marca
de 110 pontos autônomos em 35 países, com 500 a dois milhões de page-views
por dia. A maior parte dos coletivos se situam nos Estados Unidos e na
Europa.
O CMI não é um site de publicação totalmente aberta. É verdade que qualquer
pessoa pode postar textos, imagens, áudio e vídeo na página, mas a área
principal do site, a coluna do meio, passa por um processo editorial. “Na
medida do possível, a gente verifica os fatos, porque já aconteceu de
recebermos notícias falsas. A credibilidade é o maior desafio do CMI e a
única função importante da coluna do meio”, explica Pablo Ortellado. Para
ele, o site é um espaço para iniciativas independentes de comunicação que
privilegiem o relato sobre o cotidiano dos oprimidos, denúncias contra
empresas e o Estado, análises sobre a mídia e os movimentos sociais, enfim,
tudo “com o objetivo de construir uma sociedade livre, igualitária e que
respeite o meio ambiente”.
“Odeia a mídia, seja a mídia”, diz o slogan do CMI. A forma de publicação
aberta do Indymedia contribuiu para estabelecer novas fronteiras ao
jornalismo contemporâneo. Os jornalistas franceses Jean-François Fogel e
Bruno Patino, no livro recente Une Presse Sans Gutenberg (Uma imprensa sem
Gutenberg), identificaram a ruptura: “Na rede mundial de computadores, está
nascendo uma nova imprensa, com sua identidade, sua linguagem, seus
jornalistas apoiados por ‘parceiros' que, como eles, alimentam e editam suas
páginas informativas: os navegadores, blogueiros e internautas. Neste
contexto, o processo de destruição e de recriação que afeta a imprensa
contemporânea torna-se irreversível. Forçada a revisar sua relação com a
audiência, ela (imprensa) não está reescrevendo um novo capítulo da sua
história, mas uma outra história”. Em São Paulo, o professor Silvio Mieli
criou o curso “Mediartivismo – táticas para uma era pós-mídia” e ministra as
aulas na PUC. O programa pretende contextualizar o conceito de midiativismo
dos anos 90 e refletir a partir das táticas atuais de comunicação. “O
importante da emergência dos CMIs é que eles não se estabelecem como um
contra-poder, nem mesmo querem ser uma alternativa de poder midiático,
simplesmente incentivam a emergência de novas narrativas autônomas oriundas
do movimento social. Portanto, há um germe anarquista que investe muito mais
na desconstrução do poder e na criação de uma nova forma de vida
comunicacional”, analisa. Para Mieli, a tecnologia já desempenha papel
central na luta dos midiativistas. “Neste eixo destacam-se não só os CMIs,
mas as campanhas pelo software livre, as discussões sobre os limites da
propriedade intelectual e a luta pelo uso adequado das tecnologias que podem
causar impacto ambiental”.
O CMI Brasil nasceu em 2000, quando cerca de quinze pessoas resolveram se
juntar e montar um coletivo em São Paulo. “Por três anos, fomos muito
pequenos”, diz Pablo Ortellado, membro deste primeiro grupo. Hoje, o CMI tem
coletivos já estruturados em Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Caxias do
Sul, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre, Rio de Janeiro e
Salvador. A rede se sustenta somente com doações – principalmente de
trabalho. Ninguém recebe para trabalhar no CMI. Os equipamentos vêm por
doação. Existe também ajuda de grupos estrangeiros. “A última doação grande
que a gente teve foi para toda a rede CMI, de um grupo inglês, 10 mil
dólares”. O compartilhamento entre variados CMIs é mais forte quando se fala
em notícias. Pablo conta um exemplo: “Quando em julho de 2003 houve a
ocupação de sem-teto de um terreno da Volkswagen em São Bernardo do Campo,
nós colocamos no CMI global. Vários CMIs traduziram, entre eles o alemão.
Depois um grupo de ativistas do país fez um ato na sede da Volkswagen em
solidariedade aos sem-teto do Brasil. Não é só troca de informação, é também
solidariedade política.”
Em março deste ano, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto
ficaram dias acorrentados em frente ao Palácio dos Bandeirantes, sede do
governo do Estado de São Paulo. Os militantes exigiam uma audiência com o
governador para discutir questões habitacionais. Enquanto a grande mídia não
dava destaque ao protesto, o CMI cobria o evento diariamente. “Foi uma
verdadeira blindagem midiática”, como define a integrante do CMI de São
Paulo, Isadora Fernandes. O Movimento pelo Passe Livre é outro tema que,
muitas vezes deixado de lado pela mídia corporativa, costuma ganhar espaço
no CMI. Quando, em junho de 2005, Florianópolis passou pela chamada “Revolta
da Catraca”, por exemplo, diversos jornais mostravam os manifestantes como
um grupo de bárbaros, deixando de noticiar a violência policial sofrida por
eles. O CMI, por sua vez, em uma ampla cobertura do protesto, mostrava o
lado dos manifestantes. Segundo os integrantes do CMI, esse é o diferencial
do veículo que criaram: dar voz aos assuntos e grupos que não têm espaço
para se colocar na grande mídia. Sempre que possível, há cobertura em
tempo real dos fatos. Enquanto voluntários do CMI ficam em frente aos
computadores, os que estão presentes no fato passam as notícias por telefone
ou internet para serem publicadas no site. Em setembro de 2005, quando
protestantes do grupo anarquista “Confeiteiros Sem Fronteiras” deram uma
“tortada” em Orlando de Almeida, secretário de habitação de São Paulo e
empresário do setor imobiliário, o CMI foi o primeiro a veicular a notícia e
as fotos do acontecimento – a grande imprensa, aliás, acabou usando a
imagem do coletivo. Na esfera mundial, uma das maiores conquistas do site
foi ter conseguido, em 2002, manter um canal aberto com um grupo de
voluntários do Indymedia (site mundial do centro de mídia independente) que
se encontrava em Ramallah (Israel) durante o cerco de Israel a Palestina.
Sendo uns dos poucos representantes da imprensa dentro do cerco, os
colaboradores do Indymedia acabaram virando “fonte de informação” local. O
CMI publicou seus relatos da batalha e dados sobre o cerco e o clima na
região palestina quase em tempo real e chegou a ser citado como fonte em
algumas agências internacionais de notícias. “A maneira como a rede se
organiza, com coletivos em diversas cidades do Brasil e do mundo, permite
que as questões locais tenham seu espaço garantido – nos sites locais,
nacionais e mundiais”, finaliza Isadora.
Faça você mesmo. Na mesma tendência do CMI, já existem outros sites de
produção colaborativa de informação, dentro e fora do Brasil. O
radiolivre.org, parceiro do Centro de Mídia Independente, surgiu durante o
3º Fórum Social Mundial, a partir de uma reunião de coletivos de rádios
livres de vários lugares do Brasil e do mundo. O projeto partiu da idéia de
que era preciso haver mais comunicação entre as rádios e que talvez fosse
necessário organizar uma rede de troca de informações pela internet.
Qualquer um pode publicar artigos, arquivos de áudio e discutir idéias no
site.
O slashdot.org, o digg.com e o kuro5hin.org são sites em inglês de
construção colaborativa de conhecimento sobre ciência, tecnologia e cultura.
Os artigos trazem um diferencial: os leitores/colaboradores dos sites dão
notas para os textos que lêem e é isso que determina o destaque que os
artigos terão na página principal.
Um dos sites brasileiros em que os internautas assumem a tarefa de produzir
e disseminar o conhecimento é o overmundo.com.br, site de publicação aberta
sobre cultura brasileira. Segundo Alexandre Youssef, um dos idealizadores do
projeto, a página foi criada para abrigar a diversidade cultural produzida
no Brasil sem espaço para difusão. Em três meses de existência, o site já
tem mais três mil usuários cadastrados, além dos 70 colaboradores fixos.
Qualquer interessado pode participar com notícias, dicas e produtos
culturais. O Overmundo utiliza um sistema como o da Wikipedia, enciclopédia
virtual construída pelos internautas, em que se pode alterar ou complementar
textos do site. “Os sites de produção colaborativa de informação são o
futuro da comunicação”, acredita Youssef. “Veremos cada vez mais essas
formas de organização que fogem das normas tradicionais”.
Estive lá. Das cidades brasileira onde existem coletivos do Centro de Mídia
Independente, Caxias do Sul, no interior do Rio Grande do Sul, é a menor,
com 400 mil habitantes. Como tantos outros, este CMI nasceu a partir da
vontade e da iniciativa de um grupo de amigos. A jornalista Karine Endres
estava lá:
“Em 2003, quando decidimos criar um coletivo em Caxias do Sul, já
acompanhávamos o trabalho do CMI de Porto Alegre e da rede nacional. Eles
foram o nosso “coletivo–padrinho”, que nos acompanhou durante nossa
formação. Aqui, focamos nosso trabalho nas oficinas de comunicação – por
exemplo, capacitamos repórteres populares. E levamos o CMI na rua, através
de cartazes com o conteúdo do site espalhados por lugares públicos, como
pontos de ônibus, para atingir a população mais pobre, que não tem acesso à
internet. Nosso coletivo é formado por 5 voluntários. Todos nós trabalhamos
e estudamos, e às vezes fica difícil cobrir tudo o que gostaríamos. Nos
pautamos pelas lutas do município, que normalmente não teriam espaço na
mídia nacional. Por isso enxergo o CMI não só como um trabalho voluntário,
mas também social”.
Pérola. “O Centro de Mídia Independente é a ciberfonte de informação, a CNN
e o Clear Channel de quase todos os grupos periféricos de esquerdistas
lunáticos dedicados a varrer o capitalismo do mundo” - Michael Tremoglie,
escritor americano, no site Mídia Sem Máscara, dezembro de 2003.
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