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Quinta Julho 13 09:30:48 PDT 2006
MÍDIA CORPORATIVA E O ABSURDO VELADO
Desde o dia 10/07, o Jornal do Brasil vem fazendo uma série de
matérias sobre as ocupações de famílias sem-teto em prédios vazios no
Rio de Janeiro. Ocupações não, eles só dizem invasões, como na capa de
segunda-feira: "Sem-teto invadem mansão na Zona Sul", ou na manchete
da reportagem, no mesmo dia: "Mansão é invadida por sem-teto".
Aliás, o tom que as reportagens passam é de alarmismo e do perigo
dessas "invasões", como por exemplo na capa desta quarta-feira:
"Próxima invasão é definida", numa reportagem em que mostra como as
"invasões" são ardilosamente planejadas. A construção do clima de medo
é uma constante; na terça-feira: "Nos últimos cinco anos, (...), foram
pelo menos nove invasões no Rio. E outras duas seriam realizadas até o
fim do mês". Tratar os sem-teto como "perigosos" vem com frases como
"Essa foi a primeira invasão no Rio com tal requinte estratégico a
atingir uma mansão", sobre a ocupação de uma mansão vazia há pelo
menos 2 anos, no Cosme Velho, zona nobre da cidade. (...)
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Essa é só a preparação para exigir do poder público uma ação mais
"enérgica". A manchete de terça-feira é uma frase do prefeito César
Maia: "Invasão é caso de polícia". Durante as reportagens, não se
questiona este posicionamento do prefeito mas, ao contrário, pede uma
ação também dele, já que a prefeitura se retira da questão para dar
lugar à polícia militar. Numa coluna "Opinião", com o título
"Autoridades precisam reagir", o jornal pede ações mais enérgicas
"para evitar que, como denuncia a reportagem de hoje de Felipe Sáles,
os sem-teto continuem se organizando e invadindo mais patrimônio
privado".
Mas o que Felipe Sáles não "denunciou" foi o "mal uso" do dinheiro
público e a especulação imobiliária que deixa imóveis públicos e
privados sem uso, por mais de dez anos algumas vezes. A denúncia é que
os sem-teto estão "se organizando", e é um perigo quando os de baixo
começam a se organizar e passam a reclamar e exigir algumas coisas...
O que é corroborado por uma "Opinião do Leitor" que fala da "falta de
uma autoridade central que dê o exemplo, alguém mais rigoroso".
Na verdade, as reportagens do JB falam sim dos prédios vazios, mas não
como resultado desse mal uso do dinheiro público e da especulação, e
sim como fator de atração para esses movimentos de moradia, como
aparece na capa da edição do dia 11/07: "Cinco mil imóveis vazios
atraem invasores no Rio". Assim, os prédios vazios só são um problema
quando eles começam a ser ocupados, e não quando estão vazios e há
famílias nas ruas ou em favelas. A especulação imobiliária, mais do
que evidente num prédio da Barra da Tijuca (bairro de "novos ricos")
mostrado pelo jornal que está desocupado há alguns anos, não é sequer
mencionada. As famílias sem-teto não tem onde morar quase por azar, e
não pela brutal concentração de renda.
Não só simplesmente se defende o direito à propriedade privada, mesmo
se o imóvel estiver abandonado ("Vários outros casarões correm o risco
de serem invadidos", na edição de terça-feira), mas os motivos dos
sem-teto nunca são levantados. Ou melhor, quando são, são acusados de
terem "fins políticos". Exceto a fala de um vereador do PSOL, que diz
que as ocupações (só agora se fala de ocupação) são resultados do
déficit habitacional, em nenhum momento mais fala-se dos motivos dos
sem-teto.
Por falar em parlamentares, o que é apresentado como solução é um
projeto que corre na Assembléia Legislativa. "Deputados já se
mobilizam para tentar conter a ação dos movimentos, que já
contabilizam 10 invasões só na cidade" (edição de quarta-feira,
12/07). Assim, só aí já dá pra perceber não só a intenção do projeto,
mas também do jornal ao apresentá-lo como a solução: a idéia é conter
a ação dos movimentos, e não resolver o porblema de moradia urbana.
O projeto dos deputados é destinar verbas e terrenos para que casas
sejam construídas, em áreas afastadas, deixando intocadas as mansões,
prédios e imóveis públicos vazios. "O projeto, conta o deputado, pode
frear o crescimento de movimentos dos sem-teto, evitando invasões de
imóveis ou a favelização das cidades, principalmente o Rio".
E, é claro, que isso também não deixa de ser um bom meio para se
lucrar, pois o "projeto prevê participação da iniciativa privada por
meio de contrapartida do município" (quarta-feira, 12/07), ou seja,
incentivos ficais, que nada mais é do que isenção de impostos. E os
sem-teto, bom, eles vão pagar o financiamento da construção de suas
casas por longos anos, enquanto 5 mil prédios continuam vazios e a
especulação imobiliária prosperando...
O JB se assusta com a organização dos sem-teto que, imaginem, contam
até com advogados. Aliás, legitimando uma fala de um jurista professor
da PUC-SP, o JB desqualifica o recurso usado pelo advogado para que a
ocupação permaneça. Na fala do jurista da edição de terça-feira: "Isso
não existe. O interdito probitório é usado pelos proprietários do
imóvel ao saberem da possibilidade de invasão. Nunca vi algo
parecido." Assim, para o jornal, a estratégia pode ser "um tiro no
pé".
Não se perguntou ao advogado porque ele utiliza este recurso, ficando
a impressão que ele não entende muito de direito... Mas também nos
perguntamos se valeria a pena este advogado responder a perguntas de
um jornal que se propõe a atacar as famílias sem-teto e defender o
direito dos proprietários.
Em outra "Opinião do leitor", este diz que "Não bastassem as terras
serem ocupadas por famílias inteiras de desabrigados, agora são os
prédios que ganham novos moradores". A solução, como já tinha apontado
César Maia, deve ser a polícia. O projeto que os sem-teto apontam com
as ocupações, utilização imediata para moradia dos imóveis já
construídos que estão vazios, não é sequer mencionada, ou melhor, é
mencionada como um crime, um ataque a propriedade privada, garantida
na Constituição.
Link do artigo:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/07/357639.shtml
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