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Sábado Fevereiro 13 18:00:06 PST 2010
LULA RESPONDE PUBLICAMENTE AOS TRABALHADORES DA FÁBRICA OCUPADA FLASKÔ
Em 12/01/2010 o presidente Luis Inácio Lula da Silva respondeu
publicamente em sua coluna semanal ?O Presidente Responde?, uma
pergunta da estudante de jornalismo (Camila Delmondes Dias) sobre a
luta dos trabalhadores da Fábrica Ocupada Flaskô.
"Camila Delmondes Dias, 25 anos, estudante de Campinas (SP) - Há muitos
trabalhadores que lutam pela estatização de fábricas que decretaram
falência. É o caso dos trabalhadores da Flaskô, de Sumaré/SP. É
possível essa conquista em nosso país?
Presidente Lula - Há mais de uma centena de fábricas no Brasil que
faliram e os trabalhadores assumiram o controle, boa parte
organizando-se em cooperativas. Na maioria dos casos, os trabalhadores
conseguem recuperar as empresas, com o apoio dos sindicatos, do
Ministério do Trabalho e do BNDES. O caso da Flaskô é diferente pois os
trabalhadores reivindicam a estatização, permanecendo com a velha
empresa falida. Para mim, estatizar significa dividir com toda a
sociedade os prejuízos da má gestão dos antigos proprietários. O
governo vem sugerindo aos empregados que o melhor caminho é esquecer a
parte falida da empresa e aproveitar a parte ainda saudável para criar
uma nova, pertencente aos trabalhadores. Isso significa, além da
manutenção de milhares de empregos, a transformação dos trabalhadores
em associados de um empreendimento coletivo. Assim, com a nossa oferta
de assistência técnica e de crédito, o caminho estará aberto para a
completa recuperação da empresa."
Diante da resposta proferida, entendemos que é fundamental que a gestão
operária da Flaskô responda a Lula e a toda a classe trabalhadora o que
foi dito pelo Senhor Presidente. Antes de qualquer coisa, vale a pena
salientar que desde 12 de junho de 2003, quando ocupamos a fábrica e
retomamos a produção para garantir nossos empregos, aguardamos uma
resposta do Presidente. Durante esses quase sete anos não deixamos de
lutar para a manutenção da Flaskô aberta sob o controle dos
trabalhadores e sempre exigimos isso do governo Federal.
Leia a matéria completa
1. Realizamos 7 caravanas a Brasília para exigir do presidente que
defenda o direito ao trabalho dos operários da Flaskô, mas até então
nada.
2. Estivemos por diversas vezes nestes anos, especialmente em 2009, com
o Ministério do Trabalho (com o próprio Ministro Lupi), com o
Ministério da Previdência, com o Ministério da Fazenda, com o BNDES, na
Casa Civil, no Ministério de Relações Institucionais, na Procuradoria
da Fazenda Nacional, na Presidência do INSS, na Secretaria Nacional de
Economia Solidária (SENAES), mas o pleito dos trabalhadores não foi
acatado.
3. Em 2009, realizamos uma audiência na Câmara dos Deputados em
Brasília, na qual Paul Singer (Presidente da SENAES), representando o
governo federal e na presença de diversos parlamentares e de mais de
200 trabalhadores, disse que não saberia o que fazer em relação à
Flaskô, mas que o governo se comprometia com a luta dos trabalhadores
pelos postos de trabalho.
4. Cada vez que íamos a Brasília, em cada uma das reuniões agendadas,
protocolamos formalmente pedidos de ajuda, esclarecimentos,
explicações, propostas, etc. Mas até hoje nada foi feito.
5. Com o testemunho de uma delegação de 100 trabalhadores, em 10 de
novembro de 2009 protocolamos, outra vez, um ofício requerendo uma
reunião com o Presidente Lula a fim de buscarmos uma solução para a
Flaskô.
6. Tentamos ser recebidos pela Presidência, e embora tenham sido
enviados mais de sete mil cartões postais por trabalhadores de todo o
Brasil, no final de 2009, contendo o pedido de reunião, novamente não
fomos atendidos. Informaram que a responsabilidade sobre o tema seria
do Ministério do Trabalho e que buscássemos o referido órgão. Ou seja,
o máximo que o governo federal fez foi passar a responsabilidade ao
Ministério do Trabalho (e fizemos isso, como explicamos, inclusive com
o apoio da Central Única dos Trabalhadores). Essa resposta protocolar
dada em 22 de novembro, por meio de um fax, demonstra que o ofício não
havia sido nem lido, pois havíamos dito que há uma semana estivéramos
em reunião com o Ministério do Trabalho e SENAES (que, inclusive esteve
com um representante na sede da Flaskô, além da presença na audiência
pública mencionada), e que disseram não saber o que fazer, mas que
mesmo assim se comprometeriam com alguns encaminhamentos. Enfim,
ficaram somente na promessa, voltando à "estaca zero", com esse "joga
para lá e para cá", deixando os trabalhadores à deriva.
7. Dessa forma, é certo que não tínhamos recebido nenhuma resposta
oficial do Presidente, até que fomos surpreendidos com uma resposta
pública em sua coluna semanal ("O Presidente Responde"), e que circula
em mais de 175 jornais do país, além da página de internet do próprio
Planalto do Governo.
Pois bem, as palavras do Presidente a respeito dos trabalhadores da
Flaskô, que foram amplamente divulgadas acabaram chegando ao nosso
conhecimento, porém não da forma e conteúdo que pedíamos. Vejamos:
A estudante Camila pergunta diretamente ao senhor Presidente se é
possível a estatização de fábricas para salvar os empregos. Diz ela:
Há muitos trabalhadores que lutam pela estatização de fábricas que
decretaram falência. É o caso dos trabalhadores da Flaskô, de
Sumaré/SP. É possível essa conquista em nosso país?
Em primeiro lugar é necessário apresentar um elemento histórico e
factual para iniciar a discussão. Vamos a eles:
Ocupamos a Flaskô em 12 de junho de 2003, após assembléia realizada
junto com os trabalhadores da Cipla e Interfibra que haviam ocupado
estas fábricas em outubro de 2002 na cidade de Joinville, e voltavam de
Brasília após reunião no dia anterior com o próprio presidente. O
objetivo da ocupação e da reunião realizada era de salvar os nossos
empregos, uma vez que há três meses a fábrica estava abandonada pelos
patrões, sem funcionamento e com mais de quatro anos sem receber
direitos como salários, FGTS e INSS. A conclusão desta reunião foi o
compromisso do Presidente em encontrar uma solução que salvasse todos
os empregos nas fábricas ocupadas. O presidente afirmou que a
estatização não estava "no cardápio", mas que constituiria uma comissão
de ministério para analisar e apresentar uma saída.
Nos mantivemos organizados e produzindo enquanto aguardávamos a
resposta de nosso presidente. Reiteradas vezes cobramos respostas
oficiais. Realizamos caravanas a Brasília para cobrar a solução e, mais
do que isso, iniciamos uma importante experiência que nos levou à
conclusão sobre a necessidade de defender todos os empregos e direitos
e o parque fabril que continuava sendo atacado. Esperançosos de que
nosso presidente operário mudaria o rumo de nossa história de 500 anos
de opressão e exploração continuamos a produzir e lutar por nossos
empregos.
Em fevereiro de 2005, por meio de audiência com o Ministro Luiz Dulci,
foi constituída uma comissão de técnicos do BNDES, BRDE e Badesc para
estudar a viabilidade das empresas. O relatório enviado ao Senhor
Presidente afirma que "as empresas são viáveis" e orienta que "seus
créditos sejam transformados em ações, que seriam postas como
capitalização do BNDES e de um dos agentes de Desenvolvimento Estadual,
BRDE ou BADESC" (trechos do parecer do BNDES).
Colocamos a fábrica em pleno funcionamento, ampliando a produção e o
faturamento, retomando centenas de clientes e fornecedores. Mais do que
isso, não só garantimos os empregos como geramos novos postos de
trabalho, além de organizarmos a produção de forma a reduzir a jornada
de trabalho para 40 horas, num primeiro momento, e desde abril de 2007
para 30 horas semanais, mostrando que os trabalhadores podem gerir a
fábrica melhor do que os patrões parasitários. Além disso, organizamos
um acordo com a Justiça do Trabalho, no qual pagamos 1% do faturamento
mensal da fábrica para quitar dívidas trabalhistas deixadas pela gestão
patronal, mostrando que apenas os trabalhadores ajudam os
trabalhadores, fazendo com que centenas de ex-trabalhadores passassem a
receber seus direitos, pois a fábrica continua aberta e o faturamento
garante o pagamento de direitos outrora perdidos (Pedido igual -
fundamentado no artigo 28 da Lei de Execução Fiscal - fazemos na
Fazenda Pública, haja visto que 80% da dívida da Flaskô é com o Estado.
Mas, como veremos, não foi acatado até hoje).
No entanto, sofremos mais de 200 ameaças de retirada de máquinas,
através de leilões que pretendiam pagar as dívidas deixadas pelos
patrões. Em todas as esferas sempre explicamos que os antigos
proprietários possuem propriedades capazes de garantir a execução
dessas dívidas. Assim, era preciso buscar esses bens e permitir que os
trabalhadores da Flaskô tão-somente sigam trabalhando como propõem.
Isso pode ser feito por meio da desconstituição da personalidade
jurídica e a outorga de poderes para a gestão dos trabalhadores.
Entretanto, o governo age ao contrário. Se não bastassem os leilões e a
não aceitação do pedido de unificação das execuções fiscais, há mais de
250% do faturamento penhorado a pedido da Fazenda Nacional. Portanto, o
que se verifica é que nunca foi adotada nenhuma medida em direção à
defesa da manutenção dos postos de trabalho. Atualmente, se não
bastasse isso, o próprio governo Lula nos criminaliza ao nos
responsabilizar por dívidas da gestão patronal.
Assim, perguntamos: como é possível ler na resposta do presidente que
não queremos esquecer a ?velha empresa falida?? Como é possível ler na
resposta do Presidente que queremos "dividir com toda a sociedade os
prejuízos da má gestão dos antigos proprietários"? Não, nossa posição
não é essa. Pelo contrário, todos sabem que são as políticas do governo
que socializam os prejuízos dos patrões (lembremos das diversas medidas
adotadas pelo governo durante a presente crise). Nós sempre afirmamos
que as dívidas não pagas são impostos que servem ao nosso povo, à
saúde, à educação, à segurança, à habitação. Por isso, defendemos que
se busquem a dívida no vasto patrimônio dos antigos donos, como prevê a
legislação brasileira.
O que vemos é uma opção do governo, pois o que vimos nesses sete anos
foram as tentativas de liquidar as experiências de gestão operária. A
mais agressiva delas foi a intervenção da Justiça Federal na
Cipla/Interfibra em Joinville-SC, a pedido do INSS e executada por
cerca de 150 Policiais Federais fortemente armados, atacando uma gestão
dos trabalhadores que lutavam por seus empregos, tratando-nos como
bandidos. O que vemos é a opção em continuar nos ameaçando com os
leilões e penhoras de faturamento, criminalizando o movimento social e
suas lideranças, responsabilizando a gestão dos trabalhadores pelos
malefícios causados pela inadimplência da gestão patronal e a
ineficiência dos governos em cumprir tão-somente a Constituição
Federal. O que pedimos está na lei, mas a opção até hoje foi de adotar
a interpretação da lei em favor do capital, privilegiando os antigos
patrões em detrimento dos trabalhadores.
Não obstante tais fatos, vale clarificar outro aspecto da resposta do
Presidente, ao dizer que: "os trabalhadores reivindicam a estatização,
permanecendo com a velha empresa falida. Para mim, estatizar significa
dividir com toda a sociedade os prejuízos da má gestão dos antigos
proprietários." É necessário apontar alguns fatos recentes para
clarificar quem quer dividir os prejuízos dos patrões. Vejamos, e façam
suas conclusões:
1. Lula autorizou a Caixa Econômica Federal a socializar a dívida do
grupo Silvio Santos, comprando 49% das ações do Banco Panamericano.
Mantendo o controle com os antigos patrões que o administraram durante
todos esses anos. Esta estatização é boa? Para quem? Ou, na verdade,
trata-se de socializar as perdas?
2. Lula autorizou a Caixa Econômica Federal a comprar (por R$ 4,2
bilhões) 50% do capital social e 49,5% do capital votante do Banco
Votorantim, ajudando a salvar a família Votorantim. E mesmo com metade
do capital manteve o controle na mão dos patrões. Esta estatização é
boa para quem? Ou, mais uma vez, o povo é quem paga o prejuízo privado?
3. Lula autorizou o BNDES a emprestar R$ 5 bilhões à rede Globo, uma
das maiores devedoras brasileiras de INSS. Isso não é socializar os
prejuízos?
4. Lula autorizou o BNDES a comprar por R$ 2 bilhões 20% de ações da
JBS, o maior Frigorífico do Mundo, isto logo após o anúncio de diversas
demissões e fechamento de vários frigoríficos. Crédito do povo para os
ricos?
5. Alegando equalizar procedimentos de cobrança a partir da criação da
Super Receita, o governo revogou um artigo da Lei da Seguridade Social
que proibia a apropriação e distribuição de lucros quando a empresa
devia ao INSS. Isto não é socializar os prejuízos?
6. Lula sancionou a Lei nº 11.945, em 4 de junho de 2009, que dispensa
as empresas de apresentar Certidão Negativa de Débitos (CND) para obter
empréstimos e refinanciamentos. Isto é, de apresentar este documento
aos Bancos Públicos Federais, pois é certo que os bancos privados não
aceitarão colocar seu dinheiro em risco, emprestando dinheiro para
patrões caloteiros. Mas os bancos públicos podem emprestar aos
caloteiros o dinheiro do povo. Mais uma vez o governo atende aos
patrões.
A lista poderia continuar por dezenas de páginas. Ao contrário do que o
governo Lula vem demonstrando, nós não queremos que os trabalhadores
"paguem a conta" pela crise econômica promovida pelos patrões. Nossas
propostas são bem diversas das apresentas pelo governo.
Dessa forma, não podemos aceitar a resposta proferida por Lula, por
ignorar dois aspectos centrais. Por um lado, ignora todo o histórico do
Movimento das Fábricas Ocupadas e a resistência dos trabalhadores da
Flaskô que durante sete anos exigem soluções do governo, mas que
somente recebem respostas negativas e ataques das instituições
governamentais. Por outro lado, não podemos deixar de apontar as
contradições do governo Lula. Um governo eleito pela classe
trabalhadora, mas que privilegia os patrões, como vimos com alguns
exemplos, ao invés de defender os operários, e em especial os que lutam
contra o desemprego e as "sacanagens" patronais, como os operários da
Flaskô.
Vale ainda ressaltar que essa resposta não veio em qualquer momento. No
final de novembro de 2009 realizamos um exitoso seminário, com diversas
representações políticas , sindicais e da comunidade, como um
verdadeiro instrumento de frente única, e que discutiu a necessidade
urgente de salvar o povo brasileiro. Discutimos que a política de
isenção fiscal, as bolhas especulativas de créditos que se criam servem
apenas para preparar uma catástrofe mais à frente. Uma saída duradoura
e verdadeira, segundo os interesses dos trabalhadores é romper com os
patrões e dar passos concretos que atendam aos trabalhadores. Por isso,
aprovamos as campanhas pela Estatização das Fábricas Ocupadas,
Reestatização da Embraer, Reestatização das Ferrovias, Reestatização da
Vale do Rio Doce, Estatização 100% da Petrobras e de todo o Pré-Sal,
como algumas reivindicações concretas. Esse é o desafio das entidades e
organizações da classe trabalhadora, e de um governo que diz ter
objetivo em defender os explorados.
Por tudo isso, reafirmamos nossa posição de que somente a estatização
sob o controle dos trabalhadores pode garantir a continuidade da
atividade industrial e a manutenção duradoura dos postos de trabalho.
Entretanto, como temos dito nesses sete anos, e como diz o relatório do
próprio BNDES, feito a pedido de Lula, queremos dialogar com o governo
e buscar soluções. Todavia, o que vemos é que o governo ?fala muito e
age... muito, mas contra os trabalhadores?, como disse um trabalhador
da Flaskô ao ler sua resposta no jornal.
Entendemos que ainda há tempo para salvar a luta dos trabalhadores da
Flaskô. Queremos solucionar os problemas. A intransigência foi sempre
do governo que nunca nos deu reais perspectivas, além de usar medidas
criminosas contra os próprios operários. Queremos dialogar. E, nesse
sentido, vale destacar um trecho da resposta dada: "com a nossa oferta
de assistência técnica e de crédito, o caminho estará aberto para a
completa recuperação da empresa". Há anos que estamos pedindo esse tipo
de ajuda. A última vez foi o não recebimento da comissão de
trabalhadores pela Presidência da República, apesar dos sete anos de
luta e os sete mil cartões postais enviados no final de 2009, onde se
pedia a reunião. E agora o governo publicamente diz isso. Ótimo. Se
agora veio a resposta, dizendo que podem prestar assessoria, vamos
aplicá-la concretamente. Apliquemos e discutamos essas propostas. E,
por isso, requeremos, novamente, uma reunião com o Presidente Lula.
Presidente Lula, o Senhor foi eleito pelos trabalhadores. Senhor
Presidente, queremos a sua ajuda. Somos operários e lutamos pelos
nossos empregos. Lutamos pela nossa dignidade e sustento de nossas
famílias. Lutamos para demonstrar que uma gestão de trabalhadores é
mais benéfica para toda a população, que cumpre uma verdadeira função
social. Lutamos por uma sociedade livre e igualitária, e, por isso,
contra a lógica patronal. E isto se inicia por anistiar os dirigentes
das fábricas ocupadas dos crimes que estão nos responsabilizando pelas
dívidas dos patrões; que nos envie imediatamente técnicos e créditos;
que nos auxilie para a venda de nossos produtos pois nossa produção é
utilizada por várias empresas estatais e outras controladas pelo BNDES.
Viva a luta dos trabalhadores da Flaskô!
Viva a resistência da classe trabalhadora!
Sumaré, 22 de Janeiro de 2010.
Pedro Santinho
Coordenador do Conselho de Fábrica da Flaskô
Link do artigo:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2010/02/464947.shtml
Mais detalhes sobre a lista de discussão www-pt