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Segunda Outubro 3 20:00:06 PDT 2011


  SUICÍDIOS NA UFPE: MUITO TABU, POUCA SOLUÇÃO
  
  Esconder esta realidade social por tabu ou preconceito é estimular a
  ignorância (afinal, esta é a terceira causa de morte não-natural no
  Brasil).
  
  Quarta-feira, 28 de setembro, à tarde, entre as 17h e 18h, uma aluna se
  jogou dos andares superiores do CFCH-UFPE. Mais um caso entre muitos, a
  maioria não divulgada pela mídia local e pouco conhecida pela sociedade
  pernambucana, a não ser como boatos. Até quando?
  
  "Há algum problema em uma sociedade em que uns morrem de fome e outros
  morrem de tédio." 
  
  Durante anos, o prédio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH)
  da Universidade Federal de Pernambuco tem ganhado fama como lugar usado
  para dar fim à vida, ou, em palavras mais diretas, lugar propício para
  o suicídio. Nas décadas de existência do edifício de 15 andares
  ocorreram vários casos. Em geral, os fatos causam comoção entre
  funcionários/as e alunos/as, mas raramente são publicizados fora da
  comunidade acadêmica. Por quê?
  
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  Continua
  
  Sabe-se que é uma espécie de convenção ética no jornalismo não
  divulgar casos de suicídio, pois entende-se que a propaganda pode ser
  um incentivo à prática. E é de fato incômodo quando algo assim ocorre.
  No entanto, não podemos fechar os olhos e a boca mais uma vez. É
  negligência. Nos últimos 3 meses foram 3 casos, e continuarão a
  acontecer se novamente fizermos silêncio. Já está claro que o suicídio
  não é uma questão religiosa ou moral. É social. Temos que discutir.
  
  Ora, uma sociedade fundada na opressão gera inúmeras doenças entre seus
  integrantes. E não precisamos sair da universidade para perceber estas
  consequências: não é incomum encontrar funcionários hipocondríacos,
  alcoolistas, depressivos... O trabalho maçante, desestimulante e
  repetitivo é para um funcionário público de um mal tão grande quanto o
  imperativo dos prazos para um funcionário de empresa privada. O corpo
  padece da doença que a estrutura social impõe aos sujeitos.
  
  E a mente também: a norma de beleza branca e feliz (a la comercial de
  margarina) não é nem de longe a realidade da maioria da população. A
  necessidade de adequar o corpo, aparência e o cotidiano a um padrão
  para muitos inatingível (pois, afinal, nem todos somos "bonitos", nem
  todos somos felizes) penaliza os que se recusam a encaixar-se no molde.
  Quem frequentou a UFPE nos últimos anos certamente lembrará de
  que
  faleceu em 2007 de forma similar no mesmo CFCH.
  
  Por isso é inaceitável que a Universidade trate um suicídio como um
  mero ato de desequilíbrio individual. É pouco lamentar cada caso e
  divulgar notas oficiais, como se fossem atos isolados e dependessem
  apenas da disposição pessoal em continuar vivo ou não. Conversando com
  funcionários que testemunharam alguns casos, entende-se que a maioria
  dos suicidas na UFPE estava em claro processo de surto. Os motivos são
  incertos. Mas é certo que a quantidade indica ser necessária uma
  política séria em relação ao tema. Esconder esta realidade social por
  tabu ou preconceito é estimular a ignorância (afinal, esta é a
  terceira causa de morte não-natural no Brasil). O problema não é
  acabar com a própria vida, é fazê-lo por desespero; como parecem ter
  sido os casos da UFPE. É urgente discutir amplamente o suicídio e
  tratá-lo como uma questão social e de saúde.
  
  Mas não é esse o caminho que a Universidade está trilhando.
  Recentemente, foi feito um gasto exorbitante na instalação de grades em
  todas as varandas do CFCH. Isto só afasta a questão das vistas dos
  alunos e servidores por supostamente evitar que mais pessoas usem o
  prédio como instrumento de suicídio. Mas de forma alguma ajuda no
  tratamento dos surtos. Pelo contrário, joga a questão para debaixo do
  tapete tentando evitar o "como" e eliminando o debate em torno da
  questão central: o "por quê."
  
  Basta de política enxuga-gelo
  
  Colocar uma grade para evitar suicídio é tão ineficiente quanto a
  política atual da universidade de obrigar cadeirantes, deficientes
  físicos, mulheres grávidas e transeuntes de bicicleta a (não) passar
  todos os dias pelas catracas nas entradas do campus, sob o argumento de
  diminuir a violência. Falácia: as grades lá estão e mais uma pessoa
  pulou ontem. Soluções mais competentes e baratas que as grades passam
  pela educação preventiva. Uma delas é a criação de plantões 24h para
  emergências psiquiátricas e/ou a contratação de mais profissionais de
  saúde para reforçar a Clínica de Psiciologia, já em funcionamento no
  prédio. Ademais, a UFPE deve promover treinamentos com os funcionários
  do CFCH, pois alguns deles vem os suicidas em surto e nem sempre tem a
  percepção do que acontece ou não sabem como proceder. Medidas sérias e
  comprometidas não dependem de licitações e investimentos financeiros
  gordos. Dependem de vontade política e disposição para encarar o tema
  de frente.
  
  Fingir que o suicídio não acontece "para não estimular" equivale a
  dizer que não devemos falar de homossexualidade para não incentivar a
  relação entre pessoas do mesmo sexo. Moralismo ou ignorância, das duas
  uma. Ou as duas. Se não houver debate e soluções preventivas,
  Universidade e sociedade vão encerrar cada caso com a limpeza do local
  e a retirada dos corpos. Como se a limpeza do IML conseguisse eliminar
  a opressão e negligência por trás das mortes. Quem dera.
  
  Link do artigo:
  http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2011/10/498188.shtml


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