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Sábado Março 3 19:00:06 PST 2012


  (SP) 2 ANOS DA REDE EXTREMO SUL - ENCONTRO: PODER POPULAR EM TEMPOS DE REPRESSÃO
  
  Manifesto de 2 Anos de Existência da Rede Extremo Sul
  A violência do Estado e dos proprietários contra o povo sempre existiu,
  mas cresceu bastante nos últimos tempos. Nas grandes cidades, essa
  violência aparece de várias formas: a destruição de comunidades
  inteiras pelos despejos, as ações higienistas e a criminalização da
  pobreza e dos movimentos sociais, a militarização da gestão pública, o
  aumento da presença da PM nas ruas e nas quebradas, o que significa
  maior número de homicídios e o encarceramento em massa, sobretudo da
  juventude pobre e negra das periferias.
  
  Em São Paulo, o Massacre do Pinheirinho, em janeiro deste ano, é um
  caso muito emblemático de repressão e da demonstração de poder contra o
  povo organizado. Neste momento se escancarou que o interesse econômico
  pode ser colocado acima de qualquer coisa, e principalmente da vida de
  familías e de militantes.
  Do ponto de vista do povo e da construção do poder popular é preciso,
  portanto, reconhecer que vivemos em tempos difíceis. Diante dessa
  situação, é muito fácil para um movimento popular ficar vendendo
  ilusões, preso ao imediatismo, ao jogo da mídia, às mesas de negociação
  com o Estado, e realizando mobizações que parecem radicais, mas que são
  pensadas por uma meia dúzia que se acha "iluminada", enquanto a maioria
  das pessoas que participam delas nem sabem direito o que estão fazendo,
  e acabam virando massa de manobra, em busca de um "salvador da pátria".
  Em vez de atuar pelo fim da opressão e pela emancipação, o movimento
  acaba fazendo o contrário. Não é à toa que tantos lutadores de ontem
  são os inimigos de hoje, ocupando seus cargos no Estado e nas empresas,
  e usando o conhecimento que eles adquiriram no interior das lutas
  contra o povo organizado.
  As lutas diretas em reação às ofensivas do Estado e das empresas são
  fundamentais, mas a opressão capitalista atua o tempo todo, em todos os
  espaços, e pelos mais diversos meios; por isso, a construção do poder
  popular exige também formas de organização permanentes, cotidianas,
  levantando as mais diversas bandeiras, de maneira integrada, e tentando
  criar laços de solidariedade, de companheirismo e de ajuda mútua,
  opostas ao "cada um por si" que domina em todo canto. É no interior
  desses processos organizativos de longo prazo que as lutas irão
  adquirir um caráter de libertação, e que serão acumuladas as forças
  para garantirmos nossas conquistas.
  Além da questão da moradia e de outras necessidades básicas da vida,
  relacionadas à saúde, ao transporte, à educação, etc., recentemente
  começamos a encarar de frente outros desafios que são muito presentes
  em nosso dia-a-dia: um deles tem a ver com o encarceramento em massa, e
  nesse sentido temos nos organizado numa rede de familiares de presos e
  presas, tentando nos fortalecer contra o sistema prisional, penal e a
  violência policial que tanto nos oprime. Além disso, queremos criar
  formas de auto-sustentação que contribuam com nossa autonomia, e
  confrontem, ainda que de maneira tão modesta, algumas formas de
  exploração da qual somos vítimas. Assim, estamos iniciando algumas
  pequenas experiências produtivas, por meio da autogestão, e somando nas
  lutas de cooperativas de reciclagem da Zona Sul, que têm sido alvo de
  um projeto governamental de tirar das mãos dos catadores o controle
  sobre o trabalho.
  Os nossos espaços de organização são mínimos, localizados, cheios de
  problemas. Uma festa em que umas pessoas fazem uns bolos, outras
  descolam umas bebidas, outras enfeitam a rua, e se compartilha tudo de
  graça; um sarau no meio da rua, em que se partilha música, poesia,
  dança e se troca altas idéias; uma projeção de vídeo e uma discussão
  com a criançada; pequenas reuniões; pequenos protestos; é essa nossa
  escala de atuação hoje. Mas em todas as nossas ações, onde não entra
  nem dinheiro nem voto, tentamos afirmar a auto-organização - o fazer
  "nós, por nós mesmos" - e a nossa independência em relação ao Estado,
  aos politiqueiros e aos patrões.
  E isso, inclusive quando eles se disfarçam atrás de uma pele de
  cordeiro, "amigos do meio ambiente", "amigos da periferia", ou mesmo
  "amigos da cultura", agenciadores que buscam transformar tudo em
  mercadoria, inclusive a cultura popular de resistência, e transformar
  os produtores dessa cultura popular em pequenos "empreendedores",
  debaixo de suas asas. Mas aqueles comprometidos com os processos de
  mudanças reais nas comunidades sabem que nada que não seja construído
  pelas nossas próprias mãos e cabeças serão conquistas verdadeiras para
  a periferia!
  Considerando esse contexto em que vivemos - no qual as formas de
  organização e de lutas diretas estão muito desacreditadas e a repressão
  rola solta - são essas algumas de nossas tentativas de colocar em
  prática uma proposta política de resistência, de enfrentamento, e de
  auto-organização popular. Para tanto, é necessário fortalecer nossa
  prática nas comunidades e nos coletivos que integram a Rede, melhorar
  nosso planejamento, nossa divisão de responsabilidades, nossa
  capacidade de avaliação e de crítica sobre o que fazemos, assim como o
  espaço de iniciativa de cada um de nós. Este processo é lento, difícil,
  e se insere numa longa história de lutas, no interior da qual o esforço
  e o compromisso de cada um faz muita diferença.
  Nois é pouco, mais é zica, mas aos poucos deixaremos de ser tão poucos,
  e seremos ainda mais zicas, na construção do poder popular nas nossas
  quebradas!
  Periferia luta! Ontem, hoje e sempre.
  Rede Extremo Sul, fevereiro de 2012
  Link do artigo:
  http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2012/03/504577.shtml


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