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Sábado Março 3 19:00:07 PST 2012
OCUPAÇÃO DANDARA GARANTE: VAI RESISTIR A TENTATIVAS DE REINTEGRAÇÃO
Por Vivian Virissimo
Em homenagem à guerreira negra esposa de Zumbi dos Palmares, a ocupação
Dandara, localizada em Belo Horizonte (MG), já reúne mil e cinquenta
famílias de sem-teto e se organiza para resistir a uma possível ação de
reintegração de posse. Inspirados na história da companheira de Zumbi,
que preferiu tirar sua própria vida a voltar à condição de escrava, os
moradores ocuparam há três anos um terreno de 31,5 hectares abandonado
desde a década de 1970.
Ocupação já reúne 1050 famílias em um terreno de 31,5 hectares,
abandonado desde a década de 1970 Foto: Ocupação Dandara
"Não arredaremos o pé nem um milímetro. Se a tropa de choque entrar em
Dandara vai ser um massacre na certa. Diferente de Pinheirinho, Dandara
é um terço do território, metade de famílias, e a comunidade está muito
bem organizada, além de termos uma grande rede de apoio", falou uma das
lideranças da ocupação, frei Gilvander Moreira, da Comissão Pastoral da
Terra (CPT).
Outra liderança da ocupação, Rosimar Ione dos Santos Silva contou como
soube da ocupação e o perfil dos moradores. "Fiquei sabendo da ocupação
pelo noticiário da Rede Record e vi uma oportunidade de criar minhas
filhas. Até então eu morava de favor na casa do meu pai". O perfil de
Rosimar é o da maioria dos moradores de Dandara: mulheres que lutam por
moradia para seus filhos. "As mulheres tomaram a decisão de ocupar o
espaço e os maridos ficaram para trás, só depois vieram para acompanhar
a família", contou.
"O perfil dos moradores é de quem realmente necessita, que luta pela
moradia e que não vai desistir jamais. Essa é a minha primeira ocupação
de muitas que virão. Eu não estou só para lutar pela minha moradia,
também vou lutar pela moradia do próximo. Estaremos sempre juntos de
mãos dadas, abraçados e lado a lado nessa causa", falou Rosimar.
Os moradores de Dandara reivindicam a desapropriação da área para fins
de moradia, mas até agora os poderes públicos federal, estadual e
municipal não ofereceram uma solução articulada para resolver o
impasse. Pleiteada pela construtora Modelo, a Justiça estadual
determinou a reintegração de posse em outubro último, mas a decisão foi
suspensa e uma audiência de conciliação está marcada para o dia 3
abril. Ao recolher o mandato de reintegração, a Justiça acolheu uma
ação civil pública da Defensoria Pública de Minas Gerais em favor dos
moradores.
Reintegração de posse está suspensa após ação civil pública da
Defensoria Pública de MG; audiência de conciliação está marcada para
abril Foto: Ocupação Dandara
Localizada no Bairro Céu Azul, região da Nova Pampulha, Dandara começou
com 150 famílias em 9 de abril de 2009 e já conta com mil e cinquenta
famílias cadastradas o que equivale a cerca de 3 mil moradores. São 887
lotes, cada um com 128 metros quadrados, com 800 casas de alvenaria
construídas ou em construção e cerca de 100 barracos.
O número de famílias é maior do que o número de casas em função de mais
de uma família compartilhar uma moradia. Em alguns casos, é possível
encontrar dez ou até quinze pessoas dividindo a mesma casa. Na fila de
espera, já estão mais de duas mil famílias. Para ter acesso a água e
energia os moradores fazem "gatos" e o local não tem saneamento básico.
Dandara conta com uma avenida com 35 metros de largura e ruas que foram
nomeadas pelos próprios moradores: Chico Mendes, Nelson Coutinho, dos
Sem Terra, da Diarista, Zumbi dos Palmares, dos iraquianos, Zilda Arns,
entre outros. Um plano urbanístico foi elaborado pela PUC/Minas e UFMG
para tentar atender as necessidades da comunidade.
"Esperamos que Antonio Anastasia (PSDB) não cometa a insanidade que
cometeu São Paulo (em Pinheirinho)", afirma frei Gilvander
A ação foi realizada pelo Fórum de Moradia do Barreiro, Brigadas
Populares e MST e fez parte do Abril Vermelho, data em que se reforçam
as lutas sociais pela função social da propriedade. A ocupação
rururbana inaugurou em Minas Gerais a aliança entre os atores da
Reforma Agrária e da Reforma Urbana. "A proposta inicial era ser um
assentamento rururbano, mas o MST saiu institucionalmente após o
primeiro ano, não por divergência ou brigas internas, mas porque não
tiveram militantes suficientes e porque foram apoiar outras ocupações.
Mas mesmo com a saída institucional, o MST continua apoiando Dandara",
contou o frei Gilvander. Por ter sido planejado como um assentamento
rururbano, muitas famílias mantém hortas principalmente para consumo
próprio. Dandara conta hoje com mais de 250 quintais, além do projeto
de uma horta comunitária de 45 metros quadrados que irá complementar a
renda dos morardores.
O déficit habitacional em BH é estimado em 70 mil famílias sem moradia
e esse número chega a 1 milhão em todo o estado de Minas. De acordo com
o IBGE existem pelo menos 80.000 imóveis ociosos em BH que não cumprem
a função social da propriedade e o terreno de Dandara se juntava a esse
quadro fortalecendo a especulação imobiliária. Um levantamento feito
pela Coordenação de Prevenção e Mediação de Conflitos Fundiários da
Secretaria Nacional de Habitação afirma que existem 14 ocupações em
Minas.
Reintegração ou desapropriação aguardam parecer da Justiça
A determinação de despejo das cerca de 3 mil pessoas que moram na área
foi expedida em outubro de 2011 em resposta à ação de reintegração de
posse da construtora Modelo. Os advogados de Dandara conquistaram a
suspensão e revogação do mandado de segurança. Agora, uma audiência de
conciliação está marcada para 3 de abril para definir a situação da
ocupação Dandara.
O imbróglio jurídico começou quando a construtora Modelo fez um
contrato em 1997 com os herdeiros da área com a promessa de construir
prédios com a condição de repassar os apartamentos prontos para os
proprietários. Só que a construção nunca foi iniciada e agora a
construtora Modelo alega na Justiça a propriedade da terra. "Há a
suspeita de que tenha ocorrido grilagem do terreno. Nós apuramos que a
documentação apresentada pela construtora Modelo possui uma série de
irregularidades e não está registrada em cartório de BH, mas em outras
duas cidades da região, o que é ilegal do ponto de vista do Código
Civil", disse o Frei Gilvander. De acordo com ele, o terreno tem uma
dívida de R$ 2 milhões e 200 mil em IPTU.
Além disso, o processo corria em duas varas diferentes, na cível e na
fazenda pública. Um dos processos determinou a continuidade da
comunidade na ocupação e outro mandou despejar. "Agora ganhamos a
conexão dos dois processos. A construtora Modelo não tem posse, o
registro é ilegal e não cumpria a função social. O problema é que o
tribunal de Minas é muito conservador e a regra é privilegiar a
propriedade e não os direitos sociais. Temos o risco de perder, mas se
isso acontecer, vamos recorrer", avalia o Frei.
Dandara é o novo Pinheirinho?
Depois do grande conflito urbano registrado em Pinheiro, todos os
movimentos populares que lutam pelo direito à moradia estão atentos as
movimentações políticas e jurídicas e se questionando se outras
ocupações poderão ter o mesmo desfecho de São José dos Campos. "Esta
pergunta está no ar. O governo Geraldo Alckimin (PSDB) autorizou dois
mil policiais a fazer aquela barbárie em São Paulo e tinha um tribunal
conservador apoiando. Esperamos que Antonio Anastasia (PSDB) não cometa
a insanidade que cometeu São Paulo e que o TJ, mesmo sendo conservador,
não tome uma decisão como essa", comentou Gilvander.
Na ocupação em 2009 a polícia reprimiu fortemente os movimentos
sociais. Na ocasião, mais de 150 homens da tropa de choque da polícia
tentaram despejar as famílias sem liminar de reintegração de posse,
usando bombas, gás de pimenta e tiros de borracha. Agora, porém, a
polícia está adotando outra postura. "Nos dois primeiros anos foi uma
perseguição muito grande, a polícia fazia 24 horas de vigilância e
proibia a entrada de moradores com material de construção. Agora a
polícia está sendo mais compreensiva", relatou.
Ele contou que já teve um conversa de 25 minutos com a presidenta Dilma
Rousseff e que ela teria confirmado a liberação de recursos para
enquandrar Dandara tanto em projetos como Minha Casa, Minha Vida quanto
no PAC das Favelas. "A presidenta Dilma falou que Dandara já é um
bairro e que não se pode derrubar as casas e que a regularização será
feita com a condição de que o terreno seja desapropriado pelo prefeito
Marcio Lacerda (PSB) ou pelo governador Antonio Anastasia (PSDB).
Infelizmente, ambos continuam truculentos, não aceitam dialogar, lavam
as mãos e alegam que o terreno é muito caro", acrescentou.
Três imobiliárias fizeram um levantamento e estimaram que a área está
avaliada em R$80 milhões. Gilvander ressaltou que a lei de
desapropriação prevê o pagamento de 60% do valor de mercado e que a
construtora tem a dívida de R$ 2,2 mi em IPTU. "Além disso, a
documentação da construtora Modelo apresenta irregularidades e não
possui a posse do terreno. Sem a posse legal da construtora, as 1500
famílias são consideradas posseiros e têm direito a indenização de 50%
do valor final negociado", complementou Gilvander.
Rede de apoiadores internacionais e locais
A ocupação urbana tem reconhecimento nacional e internacional em função
da campanha de solidariedade "Mexeu com Dandara, Mexeu Comigo" que está
sendo organizada pelas Brigadas Populares. Em novembro, os ativistas do
Occupy Wall Street encaminharam uma carta de solidariedade aos
movimento. "Sabemos que a Ocupação Dandara é, assim como o nosso
movimento aqui em Occupy Wall Street, fruto da ousadia daqueles e
daquelas que decidiram dizer NÃO à especulação imobiliária, à injustiça
social, ao desrespeito aos direitos fundamentais e, sobretudo, a um
sistema que privilegia o capital em detrimento do humano".
Eles ressaltaram a resistência da ocupação e também a auto-organização
da comunidade como fatores cruciais para consolidar o movimento. "E,
assim como nós, a Ocupação Dandara resiste: resiste à ganância do
capital imobiliário, à violência policial, à injustiça das decisões
proferidas pelo Judiciário, à indisposição do governo local a
estabelecer qualquer diálogo e à anti-propaganda feita pela mídia
local", escreveram.
Os moradores de Belo Horizonte também registraram um ato importante em
apoio a Dandara. Desde a notícia do mandado de despejo no processo de
reintegração de posse, Dandara tem recebido grande número de visitantes
diariamente. No dia 16 de outubro, em torno de toda a comunidade de 330
mil metros quadrados cerca de 3 mil pessoas, de mãos dadas, fizeram ato
em repúdio a decisão que decretou o despejo.
Uma das apoiadoras, a estudante de Ciências Sociais, Isabella Gonçalvez
Miranda, ressaltou que todo esse envolvimento da sociedade faz uma
diferença enorme para a ocupação pois aumenta o custo político da
remoção e da violência contra os moradores. "É muito comum o poder
público tratar essas pessoas como invasores e tratar invasores como
criminosos, portanto, indignos de qualquer direito, indignos de
qualquer tratamento. Então é mais que óbvio, que eles não consideram
essas pessoas humanos integrais, cidadãos integrais. Mas o que se tem
notícia é que realmente é um massacre anunciado. A população de Dandara
fala que não sai de lá de jeito nenhum, só sai morta", destacou
Isabella.
Ela é do Pólos de Cidadania, um programa de pesquisa e extensão
temática do direito à cidade da UFMG e trabalha junto as Brigadas
Populares. "Esses movimentos que tem essa proposta de fazer valer a
função social da propriedade e muito além, é prover moradia digna em
bom espaço, boa localização, com boa infraestrutura e tudo que for
preciso para realização dos direitos das pessoas", disse.
Link do artigo:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2012/03/504539.shtml
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