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Quarta Março 14 20:00:08 PDT 2012
HAITI - COMEM A CARNE E NÃO QUEREM ROER O OSSO
Até o terremoto, a mídia retocava cinicamente o retrato deste país, com
recursos encomendados pelos exércitos dos governos invasores,
obedecendo a recomendações dos experts políticos sob os auspícios da
referida comunidade internacional, que tem à testa os EUA, França e
Canadá. Encobrindo a realidade e se escondendo através de reportagens e
documentários visivelmente montados, os governos comprometidos com a
invasão, que já vai para o seu oitavo ano, inventaram um Haiti todo
fantasiado de paz e controle e, mais: feliz com a presença das tropas
"amigas"!
Maquiando o Haiti
Até o terremoto, a mídia retocava cinicamente o retrato deste país, com
recursos encomendados pelos exércitos dos governos invasores,
obedecendo a recomendações dos experts políticos sob os auspícios da
referida comunidade internacional, que tem à testa os EUA, França e
Canadá. Encobrindo a realidade e se escondendo através de reportagens e
documentários visivelmente montados, os governos comprometidos com a
invasão, que já vai para o seu oitavo ano, inventaram um Haiti todo
fantasiado de paz e controle e, mais: feliz com a presença das tropas
"amigas"!
Mesmo sendo reproduzido o modelo adotado no Afeganistão e Iraque, não
estava claro para muitos o sentido da ocupação militar. A desgraça
natural fez aflorar as desgraças em nada naturais e ajudou a revelar a
que veio essa ocupação: proteger os interesses de toda sorte de
imperialismo, instalado numa região geopoliticamente bem localizada,
que estabeleceu zonas fabris baseadas em trabalho escravo, com isenção
de taxas, retirando lucros astronômicos em cima da miséria e da fome;
impedir o direito de organização, cortando literalmente a cabeça das
direções e imputando-lhes crimes fabricados para conter rebeliões e
colaborar com a burguesia local, que busca tomar as terras secularmente
ocupadas pelos trabalhadores do campo, para impedir a reforma agrária.
Ficou claro que o Haiti foi transformado em moeda de troca: exércitos e
polícias de governos submetidos às determinações dos EUA, orientados e
treinados para derrubar toda e qualquer tentativa de libertação no
país, por algum tipo de benesse. O Brasil aceitou o papel, posando de
amigo e primo rico, e entrou com patas, tanques e armas. Derrubando a
soberania do país, garantiu um bom lugar no ranking do
sub-imperialismo. Não ajudou a população em estado visível de desgraça,
mas, serviu aos interesses do Grande Império, cujo lema é ?Ocupar,
Assumir e Controlar?. Foi substancial para o álibi dos EUA, na sua
política de reforço da presença militar na região, o apoio do Brasil.
No entanto, apesar de fazer a lição de casa direitinho, este não
conseguiu, pelos serviços prestados, nem o reconhecimento, nem o prêmio
desejado: uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU.
O Avesso do Controle
Não obstante, o calor da desgraça dissolveu a cosmética que pretendia
construir a imagem de.um povo satisfeito e vestido para a festa da
invasão estrangeira. O tão decantado controle do comando brasileiro
caiu por terra. Com a presença de 14 mil marines mais tropas regulares
do exército estadunidense que controlaram todas as saída e entradas do
país, ficou claro quem realmente detinha o controle.
O número de mortos e feridos até hoje não foram computados devidamente,
pois as estatísticas de qualquer natureza de um Estado falido são pouco
ou nada confiáveis, e, somadas ao levantamento fictício realizado pelos
governos das tropas invasoras, demonstram o desprezo pelo povo haitiano
e o apego a uma política de devastação, para justificar que a invasão
se prolongue indefinidamente.
Hoje, ainda que haja a promessa de retirada de 2.750 soldados, o quadro
é composto por 12.200, sendo 2.300 brasileiros, que continuam
estuprando e cometendo todo tipo de abusos e violações aos Direitos
Humanos dos haitianos. Assisti-se ao desespero de uma população. A
maioria desabrigada vive nas ruas, à mercê das intempéries, e uns
poucos - os mais ?contemplados? - em barracas cedidas por entidades,
doadas por organizações internacionais. Foram erguidos, pelo exército
estadunidense, acampamentos à imagem e semelhança dos campos de
concentração, em perímetros não urbanos, onde os haitianos são
obrigados a se cadastrarem para obter comida e lugar para dormir ?
atentem: sem colchão! - obedecendo a toques de recolher, a usar
identificações, tipo pulseiras, e sujeitos, em seu próprio país, a
medidas mais condizentes a prisioneiros.
Zero de Reconstrução
No segundo aniversário do terremoto, a crise se aprofundou e segue à
devastação natural, a econômica e a social. O caos político virou lugar
comum e moeda corrente e escancarou o fracasso da Minustah. Que, apesar
da repressão com os conselhos do Bope - Batalhão de Operações Policiais
Especiais - e tudo mais, sequer conseguiu debelar as rebeliões dentro
do Haiti. Paripassu com o desemprego e repressão feroz, estão a criação
de novos negócios lucrativos para os fabricantes de armas, as empresas
de segurança e as grandes construtoras dos Estados Unidos e de seus
aliados, incluindo as Odebrechts da vida.
A reconstrução tão necessária não veio. O prometido montante de ajuda
humanitária - o 1% de US$ 4 bi destinado à ajuda humanitária (dos EUA),
os US$ 1.600 bi de assistência emergencial (várias países), os US$ 1.4
bi de doação (de organizações para projetos) - se veio, não se sabe
onde foi aplicado. A situação em nada alterou para a massa famélica. E
ninguém presta contas. Não é de se admirar, pois quem governa de
direito o país é Michel Martelly, em aliança com Baby Doc e macoutes,
mas quem governa de fato é Bill Clinton, que maneja o dinheiro, à testa
da Comissão Interina para a Reconstrução do Haiti e como membro do
Conselho Presidencial do Haiti para o Crescimento Econômico - junto com
empresários como O'Brien, da telefonia digital. A política atual é a
mesma: reconstruir o poder absoluto dos EUA. Visam um mercado possível,
dando espaço a financiamentos de moradia àquela classe que ainda detém
emprego e pode se endividar por longos anos até que o bem adquirido
seja quitado ou devolvido aos bancos.
O Êxodo
Não bastasse o quadro relatado, o vibrião do cólera, trazido por
soldados nepaleses, sob a bandeira da Minustah, grassa nos quatro
cantos de um país cujas estruturas estão aquém do imaginável. A fome
campeia. A corrida pela comida num primeiro momento gerou um inusitado
êxodo: à diferença do tempo dos Duvaliers, a população tomou a estrada
da cidade para o campo, causando um desequilíbrio letal. A magra
colheita não tem condições de abraçar os famintos dos centros urbanos.
Fechando os olhos para o caos, o Estado incentiva indiretamente o êxodo
ao exterior. Para alívio dos EUA, a leva migratória se dirige à América
Latina, em especial ao Brasil - país do futuro, celeiro do mundo.
São levas e levas de imigrantes clandestinos cobrando aqui o que lhes
foi prometido lá. Nada mais justo.
A diáspora haitiana elege senderos possíveis. Além da República
Dominicana, onde os haitianos vendem a força de trabalho ganhando um
salário de fome nos canaviais com o bônus do preconceito, dirigem-se à
Argentina para estudar ou trabalhar e a grande maioria não consegue um
lugar nas universidades e sequer emprego - também por conta do
impedimento do idioma. Os que migram para a Venezuela têm melhor sorte,
pois o trabalho de vendedor de sorvetes nas ruas, para as empresas
locais, não exige senão o manuseio do troco. Há os que buscam a Guiana
Francesa, pelo conforto do idioma, mas batem de frente com o
preconceito do negro local.
Quando o destino é o Brasil, saem pela Venezuela, e, chegando a Santa
Elena de Uairen, entram em Roraima; ou saem pelo Panamá, alcançam o
Equador, e fazem a triste travessia pela Bolívia ou Peru, entrando em
Brasiléia ou Epitaciolândia ou Assis Brasil, no Acre, ou em Tabatinga,
no Amazonas; há os que vêm diretamente ao Rio de Janeiro ou São Paulo.
Já há uma colônia na Baixada Fluminense que abriga os ?vitoriosos?. Na
sua grande maioria trabalham na construção civil. São Paulo é o caminho
daqueles um tanto mais qualificados, com experiência em eletricidade ou
hidráulica, e dos mais estudados que costumam dar aulas de Francês em
empresas como a Wizard. Estes têm mais status. Seus salários,
obviamente, estão no patamar da clandestinidade, sem direito aos
benefícios decretados pelas leis brasileiras.
A saga dos haitianos pauta uma diversidade de transporte. Os mais
comuns são o bote e a caminhada a pé e contratam ou não intermediários,
dependendo do destino elegido.
Pagam até US$ 4 mil a coiotes por uma jornada incerta e perigosa. Um
dinheiro, resultado de privações, que significa economias de toda uma
vida, mais o dinheiro arrecadado com a promessa de sucesso para,
posteriormente, trazer os seus financiadores. Na triste travessia há
marcas indeléveis de mortes e violências. Sabemos que as mulheres são
estupradas e os que reagem a esse estado de coisas são mortos. Os que
logram chegar, assustados, aglomeram-se em locais improvisados como
albergues, esperando a decisão dos poderes públicos.
Comem a carne, mas não querem roer o osso
De início, a entrada era silenciosa. Não causava tumulto e nem deixou
às claras o que se passava por trás dos bastidores da relação
empregador brasileiro e empregado haitiano. A exploração atingiu as
raias do absurdo. Face aos perigos inerentes à clandestinidade, nenhum
haitiano podia reclamar da remuneração bem abaixo do estipulado aos
trabalhadores brasileiros.
A partir de 2010 começou o êxodo em massa para o Brasil, impossível
esconder o número e a situação desses imigrantes. São de 1.500 a 3 mil
pessoas nas regiões do Norte do país e a cada mês entram mais. O
governo federal teve que se pronunciar. Sob pressão, seguiu a linha
assistencialista e criou o Visto Humanitário para regularizar a
situação dos haitianos. Até o presente, dos 4 mil que estão no Acre e
no Amazonas, apenas 1.600 têm a situação regularizada e vivem em
guetos. Os demais foram cadastrados e aguardam ou o visto ou a
deportação.
O governo federal, representado pelo Ministro da Justiça, José Eduardo
Cardoso, já manifestou o seu "espírito solidário" implementando medidas
de restrição à entrada de haitianos e contando para isto com o apoio da
ONU e do Estado Haitiano. Além disto, já é papel do Brasil ser o mentor
das medidas a serem implementadas nos países vizinhos - Equador, Peru,
Bolívia e outros contemplados no roteiro dos imigrantes haitianos -
para inibir e erradicar a considerada invasão haitiana.
A onda migratória rumo ao Brasil será contida com base na Lei 6.815, de
1980, que decreta o visto de validade por cinco anos para os que vão
exercer atividade regular no país. E apenas 100 haitianos, por mês,
poderão entrar no Brasil. Os demais serão deportados, porque causam
impacto no mercado de trabalho brasileiro. Esqueceram-se de que os
brasileiros causaram mais do que impacto no território haitiano. Diante
disto, os haitianos continuarão praticando a "marronaj" (escondendo-se
e negando informações) e não entrarão com pedido de asilo, pois o
"visto humanitário" pode ser uma espécie de armadilha para detectar
imigrantes non gratos.
Empresários brasileiros, "imbuídos de pena" e "querendo ajudar os
pobres haitianos", estão oferecendo empregos em diversos Estados do
Brasil, do Oiapoque ao Chuí. Alguns até se mantendo dentro da
legislação trabalhista. Mas esmola demais, o santo desconfia. Foi, na
verdade, instalada uma zona de conforto. Dar emprego a um haitiano,
neste momento, melhora a imagem do empresariado, além da garantia que
não haverá lutas ou reivindicações trabalhistas. O Capital vê nisto uma
grande oportunidade para arrefecer a luta de classes numa conjuntura de
crise, porque, neste contexto, o haitiano "agradecido" pelo emprego
"concedido" não se voltará jamais contra o seu empregador. Quem sabe o
empresariado aposta que o empregado haitiano se tornará um excelente
lacaio.
Lúcia Skromov
Link do artigo:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2012/02/504046.shtml
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